Ao montar uma antologia para um sarau de bairro, a bibliotecaria decidiu colocar, na mesma pagina, dois…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Identificar assimilações, rupturas e permanências no processo de constituição da literatura brasileira e ao longo de sua trajetória, por meio da leitura e análise de obras fundamentais do cânone ocidental, em especial da literatura portuguesa, para perceber a historicidade de matrizes e procedimentos estéticos.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Ao montar uma antologia para um sarau de bairro, a bibliotecaria decidiu colocar, na mesma pagina, dois poemas. O primeiro, de tom pastoril, diz: "A sombra mansa do ribeiro aconselha calma; / canta a minha lira, e o mundo se aquieta". O segundo, escrito dois seculos depois, afirma: "Na sombra do predio, o semaforo aconselha pressa; / toco meu celular, e a rua nao se aquieta". No caderno de curadoria, ela anotou que a aproximacao nao era para mostrar "copia", mas para que o publico percebesse como certas imagens podem ser retomadas com outra intencao e outro ritmo. Compare os dois excertos e identifique a leitura que melhor evidencia, ao mesmo tempo, uma permanencia e uma ruptura na trajetoria da literatura brasileira apresentada no texto.
- A) Concluir que a aproximacao se explica pela obediencia a regras fixas de metrificacao e linguagem erudita em ambos os casos.
- B) Reconhecer que o primeiro excerto antecipa a estetica do cotidiano urbano e do tempo acelerado, tipica de seculos posteriores.
- C) Reconhecer uma ruptura que reapropria o motivo buclico para reinterpreta-lo na experiencia urbana acelerada.
- D) Concluir que o segundo excerto apenas moderniza o vocabulario, preservando a mesma visao harmoniosa do mundo.
- E) Reconhecer uma permanencia integral do ideal buclico, mantido sem alteracao tematica e linguistica nos dois poemas.
✅ Resposta correta: alternativa C
Resolução passo a passo
- Leio os dois excertos buscando o que se repete. Os dois usam a mesma estrutura: uma sombra que aconselha um ritmo (calma no primeiro, pressa no segundo) e um eu lírico cuja ação afeta o mundo (canta a lira, toco o celular), seguida de um verso que fecha com a imagem de quietude ou inquietação ("se aquieta"). Há, portanto, uma permanência formal e de imagens.
- Observo o que muda. No primeiro poema, a sombra é mansa, o ribeiro e a lira pertencem a um cenário pastoril, e a calma é o valor proposto. No segundo, a sombra é a do prédio, o semáforo impõe pressa e o celular substitui a lira. A intenção comunicativa passa da contemplação para a urgência. Essa é a ruptura.
- Junto as duas observações. A alternativa C afirma justamente que há uma reapropriação do motivo bucólico (permanência) reinterpretado na experiência urbana acelerada (ruptura). Ela é a única que contempla as duas dimensões pedidas pelo enunciado.
- Analiso as demais alternativas. A está errada porque o texto não trata de regras fixas de metrificação nem de linguagem erudita como base da aproximação. B está errada porque o primeiro excerto é pastoril e não antecipa a estética urbana; a relação se dá no sentido inverso, com o segundo poema retomando o primeiro. D está errada porque o segundo excerto não preserva a visão harmoniosa: ele introduz pressa e tensão. E está errada porque a permanência não é integral, já que o tema e o vocabulário mudam de forma explícita.
- Conclusão: concordo com o gabarito oficial, letra C.
💡 Dica: Compare os elementos de permanência e ruptura nos poemas para identificar a resposta correta.
Alternativa por alternativa
O aluno acredita que os dois poemas se aproximam por seguirem a mesma norma métrica e a mesma linguagem erudita, o que transforma a comparação em questão de forma e não de sentido.
O aluno inverte a cronologia e supõe que o poema pastoril já antecipa a estética do cotidiano urbano, quando na verdade é o segundo excerto que retoma e transforma a imagem do primeiro.
Ha permanencia de imagens paralelas ("sombra aconselha"), mas ruptura de valores e contexto: calma/ribeiro/lira viram pressa/predio/celular.
O aluno lê o segundo excerto apenas como uma troca de vocabulário (celular, semáforo) e não percebe que a visão de mundo mudou, pois ali há pressa e inquietação em vez de harmonia.
Por que engana: Confundir modernização de vocabulário com mudança temática ou interpretar ruptura como mera atualização superficial.
O aluno percebe a semelhança entre os versos, mas ignora as mudanças de tema e de linguagem, concluindo que o ideal bucólico foi mantido sem alteração.
Raio-X da questão
permanência e ruptura literária
avaliacao
interpretação de textos literários · análise de figuras de linguagem
Estude características da estética bucólica e sua reinterpretação na literatura urbana.
Confundir modernização de vocabulário com mudança temática ou interpretar ruptura como mera atualização superficial.
pensamento_critico
literario
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