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Como os textos se realizam como práticas de linguagem?

Os textos ganham forma e sentido nas situações em que circulam: quem os produz, para quem e com qual objetivo importa. Veja como levar essa ideia à aula e explore seis questões comentadas.

Como os textos se realizam como práticas de linguagem?

Quando trabalho leitura com uma turma, gosto de começar por uma pergunta simples: onde esse texto circula e o que pretende fazer ali? Um anúncio, uma crônica e uma publicação em rede social podem falar do mesmo assunto, mas não usam necessariamente a mesma linguagem nem buscam o mesmo efeito. Já percebi que, quando os estudantes observam essas diferenças, deixam de procurar apenas “a resposta certa” e passam a construir uma interpretação mais completa.

A ideia de que os textos, ao circularem socialmente, se realizam como práticas de linguagem ajuda a fazer essa mudança. Para mim, ela aproxima a análise da vida real: lemos e produzimos textos em situações concretas, com interlocutores, objetivos e convenções próprios. E esse trabalho rende boas conversas — além de avaliações mais conectadas ao que ensino.

O que significa dizer que os textos são práticas de linguagem?

Dizer que os textos são práticas de linguagem significa reconhecer que eles não existem isolados: são produzidos e interpretados em uma situação social, por alguém, para interlocutores e com algum propósito. Uma propaganda procura persuadir; uma notícia informa; uma mensagem pessoal pode combinar relato, pedido e vínculo afetivo. O gênero, o suporte, o público e o momento de circulação influenciam as escolhas de vocabulário, organização e tom. Por isso, para compreender um texto, não basta localizar palavras ou resumir o assunto: é preciso relacionar o que está escrito às condições em que foi produzido e recebido. Essa perspectiva dialoga com a habilidade EM13LP01 da BNCC. Na minha prática, faço os estudantes perguntarem quem fala, a quem, com qual intenção e em que contexto, antes de escolher uma interpretação.

Essa leitura contextualizada também evita um hábito comum: supor que um texto tem um sentido único, independente de onde aparece. Um mesmo enunciado pode soar como brincadeira entre amigos e como ironia em uma publicação pública. O suporte e a relação entre os interlocutores mudam a expectativa de leitura.

  • Quem produz? Observe o papel social e o ponto de vista de quem fala.
  • Para quem? Identifique o leitor ou público previsto.
  • Para quê? Procure o objetivo e o efeito esperado.
  • Onde circula? Considere o gênero, o suporte e o contexto.

Como relacionar circulação e objetivo do texto na prática?

Para relacionar circulação e objetivo na prática, eu peço que a turma compare textos sobre um tema comum e explique como cada um tenta agir sobre seu público. Primeiro, identificamos o gênero e o suporte; depois, marcamos pistas como escolhas de palavras, imagens, argumentos e formas de tratamento; por fim, ligamos essas pistas à intenção comunicativa. Em uma propaganda, por exemplo, apelos e chamadas podem buscar adesão ao consumo. Em um artigo de opinião, argumentos sustentam uma posição. Em uma notícia, a organização tende a priorizar a apresentação de informações. Não trato essas características como regras rígidas: são pistas que precisam ser confirmadas pelo texto e por seu contexto. Essa sequência dá aos estudantes um caminho concreto para justificar a leitura, em vez de apenas nomear o gênero. Também gera questões de avaliação que cobram interpretação e evidências.

Uma atividade curta que já usei funciona em três etapas:

  1. Levo dois textos de gêneros diferentes que abordam o mesmo tema.
  2. Peço que a turma sublinhe as pistas de intenção e identifique o público provável.
  3. Os estudantes explicam como a circulação interfere no efeito de cada texto, citando evidências.

Na correção, valorizo a justificativa: o aluno precisa apontar uma pista textual e explicar o que ela sugere, não apenas dar um rótulo. Se quero poupar tempo na montagem da avaliação, posso preparar questões alinhadas a esse objetivo com o GeraProva e revisar se os enunciados fazem sentido para a minha turma.

Como avaliar essa habilidade sem reduzir a leitura a uma regra?

Para avaliar essa habilidade sem reduzir a leitura a uma regra, proponho questões que peçam ao estudante identificar a finalidade de um texto, relacionar escolhas linguísticas ao público ou comparar discursos em contextos diferentes. Uma boa questão oferece evidências suficientes no texto e cobra que o aluno interprete essas evidências, em vez de depender de uma definição decorada. Eu também observo se os distratores representam leituras plausíveis, mas incompatíveis com o contexto, porque isso permite perceber onde a interpretação se desviou. A habilidade EM13LP01 pode orientar esse planejamento: ela trata da relação entre texto, produção, leitura e contexto sócio-histórico de circulação. Depois da atividade, converso sobre o raciocínio das alternativas, não só sobre o gabarito. Assim, a avaliação vira uma oportunidade de revisão. Com o GeraProva, consigo gerar questões e economizar tempo, mantendo a etapa essencial de conferir a adequação pedagógica.

Na prática, vale equilibrar compreensão e análise. Nem toda pergunta precisa ser complexa; uma sequência pode começar pela intenção principal e avançar para a relação entre público, suporte e ponto de vista. Em turmas diferentes, ajusto a quantidade de contexto apresentado e o vocabulário do enunciado.

Questões prontas com gabarito comentado

As seis questões a seguir exploram diferentes situações de circulação: publicidade, reflexão sobre a linguagem, hipertexto, internet, debate sobre leitura e variação linguística. Em todas, o foco é ler o texto em relação ao seu contexto, como propõe a habilidade EM13LP01 da BNCC. Para resolver, recomendo localizar primeiro a ideia central e só depois comparar as alternativas, conferindo se cada uma corresponde às pistas apresentadas. Essa estratégia ajuda a separar uma resposta atraente de uma resposta sustentada pelo texto. Os itens também permitem discutir processos diferentes: compreender, analisar e avaliar argumentos. Incluo dica, conceito central, revisão e nível de Bloom para que eu possa adaptar a proposta ao objetivo da aula. As alternativas erradas vêm acompanhadas de uma explicação, útil para retomar os equívocos mais comuns e transformar a correção em conversa sobre leitura.

1. ENEM — 2010: qual é o objetivo básico do texto publicitário?

Ao circularem socialmente, os textos realizam-se como práticas de linguagem, assumindo configurações específicas, formais e de conteúdo. Considerando o contexto em que circula o texto publicitário, seu objetivo básico é:

Dica de resolução: Identifique o objetivo do texto publicitário. Conceito central: texto publicitário. Conceito para revisão: características e objetivos da publicidade. BNCC: EM13LP01. Bloom: Compreender.

  • ❌ A) Definir regras de comportamento social pautadas no combate ao consumismo exagerado. Incorreta: a publicidade, em geral, busca promover produtos ou serviços, não combater o consumo.
  • ❌ B) Defender a importância do conhecimento de informática pela população de baixo poder aquisitivo. Incorreta: essa finalidade não corresponde ao objetivo básico indicado para a publicidade.
  • ✅ C) Influenciar o comportamento do leitor, por meio de apelos que visam à adesão ao consumo. Correta: o texto publicitário procura persuadir seu público e estimular uma ação, como consumir.
  • ❌ D) Facilitar o uso de equipamentos de informática pelas classes sociais economicamente desfavorecidas. Incorreta: essa alternativa descreve uma possível finalidade instrucional ou social, não a intenção típica destacada.
  • ❌ E) Questionar o fato de o homem ser mais inteligente que a máquina, mesmo a mais moderna. Incorreta: a alternativa não apresenta uma finalidade publicitária de incentivo ao consumo.

2. ENEM — 2017: que função da linguagem predomina nos dois textos?

Texto I: “Fundamentam-se as regras da Gramática Normativa nas obras dos grandes escritores, em cuja linguagem as classes ilustradas põem o seu ideal de perfeição, porque nela é que se espelha o que o uso idiomático estabilizou e consagrou.” (Lima, C. H. R., Gramática normativa da língua portuguesa, 1989.)

Texto II: “Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho –, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.” (Pessoa, F., O livro do desassossego, 1986.) A linguagem cumpre diferentes funções no processo de comunicação. A função que predomina nos textos I e II:

Dica de resolução: Analise as ideias dos textos e como tratam a linguagem. Conceito central: interpretação de textos literários. Conceito para revisão: interpretação e funções da linguagem. BNCC: EM13LP01. Bloom: Analisar.

  • ❌ A) Destaca o “como” se elabora a mensagem, considerando seleção, combinação e sonoridade do texto. Incorreta: embora haja atenção à linguagem, a alternativa não corresponde ao foco comum apontado pelo gabarito.
  • ✅ B) Coloca o foco no “com o quê” se constrói a mensagem, sendo o código utilizado o seu próprio objeto. Correta: os textos tratam da língua e das palavras como objeto de reflexão e apreciação.
  • ❌ C) Focaliza o “quem” produz a mensagem, mostrando seu posicionamento e suas impressões pessoais. Incorreta: as impressões do segundo texto não tornam o emissor o foco predominante comum aos dois.
  • ❌ D) Orienta-se no “para quem” se dirige a mensagem, estimulando a mudança de seu comportamento. Incorreta: não há foco em convencer um destinatário específico a mudar de atitude.
  • ❌ E) Enfatiza sobre “o quê” versa a mensagem, apresentada com palavras precisas e objetivas. Incorreta: a linguagem não é tratada apenas como veículo objetivo de um assunto externo.

3. ENEM — 2013: como se configura a hipertextualidade?

O hipertexto permite — ou, em alguns casos, exige — a participação de diversos autores em sua construção, redefine os papéis de autor e leitor e revê modelos tradicionais de leitura e escrita. Seu potencial de conexão facilita trabalhos coletivos, comunicação e aquisição cooperativa de informação. Embora algumas pessoas identifiquem hipertexto exclusivamente com textos eletrônicos, ele não deve ser limitado a esse meio: trata-se de uma forma organizacional que pode ser concebida para o papel ou para ambientes digitais. O texto virtual, porém, permite concretizar aspectos praticamente inviáveis no papel, como conexão imediata, comparação de trechos na mesma tela e aprofundamento em camadas. Considerando as linguagens de sistemas de comunicação como rádio, jornal, TV e internet, a hipertextualidade configura-se como:

Dica de resolução: Analise a definição apresentada, sem limitar o conceito ao digital. Conceito central: hipertextualidade. Conceito para revisão: linguagens e comunicação em diferentes mídias. BNCC: EM13LP01. Bloom: Compreender.

  • ❌ A) Elemento originário dos textos eletrônicos. Incorreta: o texto explica que a hipertextualidade pode existir também no papel.
  • ❌ B) Conexão imediata e reduzida ao texto digital. Incorreta: conexão imediata é uma possibilidade digital, mas não define nem limita todo o conceito.
  • ✅ C) Novo modo de leitura e de organização da escrita. Correta: a hipertextualidade conecta textos e permite participação e percursos de leitura diversos.
  • ❌ D) Estratégia de manutenção do papel do leitor com perfil definido. Incorreta: o texto destaca a redefinição dos papéis de autor e leitor.
  • ❌ E) Modelo de leitura baseado nas informações da superfície do texto. Incorreta: as conexões permitem aprofundamentos que ultrapassam a superfície.

4. ENEM — 2012: a que função social da internet se relacionam universalidade e interatividade?

Roger Chartier afirma que o texto eletrônico aproxima um antigo sonho de universalidade e interatividade. As ideias iluministas imaginavam construir um espaço de intercâmbio crítico de ideias e opiniões. O sonho de Kant era que cada pessoa fosse, ao mesmo tempo, leitora e autora, emitisse juízos sobre as instituições de seu tempo e refletisse sobre os juízos dos outros. O que antes era permitido pela comunicação manuscrita ou pela circulação de impressos encontra hoje um suporte poderoso no texto eletrônico. Nesse trecho, a universalidade e a interatividade que o texto eletrônico possibilita relacionam-se diretamente à função social da internet de:

Dica de resolução: Relacione as ideias de acesso, participação e troca de julgamentos. Conceito central: universalidade e interatividade no texto eletrônico. Conceito para revisão: leitura crítica e interatividade. BNCC: EM13LP01. Bloom: Compreender.

  • ✅ A) Propiciar o livre e imediato acesso às informações e ao intercâmbio de julgamentos. Correta: reúne acesso e troca de opiniões, elementos centrais do trecho.
  • ❌ B) Globalizar a rede de informações e democratizar o acesso aos saberes. Incorreta: é uma ideia próxima, mas não expressa tão diretamente o intercâmbio de julgamentos destacado.
  • ❌ C) Expandir as relações interpessoais e dar visibilidade aos interesses pessoais. Incorreta: o trecho enfatiza circulação de ideias e participação crítica, não interesses pessoais.
  • ❌ D) Propiciar entretenimento e acesso a produtos e serviços. Incorreta: esses usos da internet não são o foco do texto.
  • ❌ E) Expandir os canais de publicidade e o espaço mercadológico. Incorreta: a dimensão comercial não corresponde ao sonho de interação crítica apresentado.

5. ENEM — 2014: qual posição a autora assume sobre a crise de leitura?

Em “Censura Moralista”, Marisa Lajolo observa que há tempos se fala em crise de leitura, citando a precariedade das práticas, a pouca familiaridade dos jovens com livros, a falta de bibliotecas e o preço dos livros. Em seguida, aponta que pesquisas acadêmicas vêm sugerindo que talvez não seja exatamente assim: brasileiros leem, sim, embora leiam livros que pesquisas tradicionais não contabilizam. Também menciona políticas educacionais de investimento em livros e leitura. Com base no fragmento, a autora:

Dica de resolução: Identifique o que as pesquisas acadêmicas levam a reconsiderar. Conceito central: interpretação de texto e opinião do autor. Conceito para revisão: textos argumentativos. BNCC: EM13LP01. Bloom: Analisar.

  • ❌ A) Ressalta a importância de os professores incentivarem os jovens às práticas de leitura. Incorreta: o fragmento não trata diretamente do papel dos professores.
  • ❌ B) Critica pesquisas tradicionais que atribuem a falta de leitura à precariedade de bibliotecas. Incorreta: a crítica é mais ampla; questiona os critérios e a conclusão sobre a suposta crise.
  • ❌ C) Rebate a ideia de que políticas educacionais são eficazes no combate à crise. Incorreta: a autora menciona políticas, mas não discute sua eficácia.
  • ✅ D) Questiona a existência de uma crise de leitura com base nos dados de pesquisas acadêmicas. Correta: o texto apresenta pesquisas que ampliam o que se considera leitura e relativizam a ideia de crise.
  • ❌ E) Atribui a crise à falta de incentivos e ao desinteresse dos jovens por livros de qualidade. Incorreta: a autora não atribui a crise a esses fatores; questiona a própria percepção dela.

6. ENEM — 2011: o que a reflexão mostra sobre a pluralidade de normas?

O texto explica que certos usos consagrados na fala e até na escrita são previsíveis conforme o estrato social e a escolaridade. Eles ocorrem inclusive entre falantes que dominam a variedade padrão e revelam tendências de mudança que não podem ser bloqueadas em nome de um ideal linguístico. Entre os exemplos estão “ter” por “haver” em construções existenciais (“tem muitos livros na estante”), o pronome objeto na posição de sujeito (“para mim fazer o trabalho”) e a falta de concordância em passivas com “se” (“aluga-se casas”). Esses usos indicam não uma norma única, mas pluralidade de normas, entendidas como hábitos linguísticos sem juízo de valor. Considerando a reflexão sobre a multiplicidade do discurso, verifica-se que:

Dica de resolução: Observe que o texto fala de usos variáveis entre diferentes falantes. Conceito central: multiplicidade do discurso. Conceito para revisão: discurso e variação linguística. BNCC: EM13LP01. Bloom: Compreender.

  • ❌ A) Estudantes que não conhecem as diferenças entre língua escrita e falada empregam indistintamente usos da conversa com amigos em textos escritos. Incorreta: generaliza o comportamento dos estudantes e não resume a pluralidade descrita.
  • ✅ B) Falantes que dominam a variedade padrão demonstram usos que confirmam a diferença entre a norma idealizada e a efetivamente praticada, mesmo por pessoas mais escolarizadas. Correta: o texto afirma que esses usos também aparecem entre falantes escolarizados.
  • ❌ C) Moradores de várias regiões com dificuldades de escrita revelam mudanças nas regras de pronomes e concordância. Incorreta: restringe a variação a pessoas com dificuldades e a determinadas regiões.
  • ❌ D) Pessoas que contrariam a gramática escolar fazem isso para esconder o desconhecimento da norma padrão. Incorreta: atribui intenção e julgamento negativo, ausentes do texto.
  • ❌ E) Usuários empregam “ter” em lugar de “haver” quando deveriam usar “haver”, contrariando as regras. Incorreta: simplifica o fenômeno como erro e ignora a variação linguística discutida.

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