Concessão na língua portuguesa: como ensinar e avaliar
Entenda como trabalhar a concessão em frases e textos, relacionando gramática e construção de sentidos. Veja estratégias práticas e seis questões comentadas para usar como referência na avaliação.
Quando preparo uma aula de gramática, procuro não deixar a regra solta, distante do texto. Com a concessão, isso fica ainda mais importante: a relação entre ideias aparece em frases como “Embora estivesse cansada, terminou a atividade”, em que existe um obstáculo, mas ele não impede o resultado. Já usei exemplos desse tipo para ajudar a turma a perceber que conectivos não são apenas palavras para decorar; eles orientam a leitura e mostram como o autor organiza o raciocínio.
Também percebi que o tema rende boas conversas sobre língua em uso. A concessão é um conteúdo gramatical específico, mas interpretar textos exige observar contexto, escolhas linguísticas e pontos de vista. Por isso, reuni uma explicação prática e questões reais da base do GeraProva que ampliam a discussão para interpretação, norma-padrão e variação linguística.
O que é concessão na língua portuguesa?
Concessão é a relação de sentido em que uma ideia apresenta um fato que poderia funcionar como obstáculo, mas não impede a realização de outra ideia. Em “Embora chovesse, a partida aconteceu”, a chuva é uma circunstância contrária à expectativa, mas a partida ocorreu. Essa relação aparece com frequência em orações subordinadas adverbiais concessivas, introduzidas por conectivos como “embora”, “ainda que”, “mesmo que”, “apesar de que” e “conquanto”. Para reconhecer concessão, eu peço que a turma identifique primeiro as duas ideias e depois pergunte: “O que seria esperado diante dessa circunstância?” A resposta ajuda a localizar a quebra de expectativa. A concessão não é simplesmente uma oposição qualquer: ela mantém as duas informações e mostra que uma delas não anulou a outra. O sentido depende do contexto, não apenas de memorizar uma lista de conjunções.
Um contraste simples ajuda a diferenciar concessão de causa. Em “Como estava chovendo, o jogo foi cancelado”, a chuva explica o cancelamento. Em “Embora estivesse chovendo, o jogo aconteceu”, a chuva contraria uma expectativa, mas não explica o resultado. Também comparo “mas” com “embora”: ambas as construções podem expressar contraste, mas organizam a oração de maneiras diferentes.
- Concessão: Embora tenha estudado, ficou nervoso.
- Condição: Se estudar, poderá melhorar.
- Causa: Como estudou, foi bem na avaliação.
Como ensinar concessão na prática?
Para ensinar concessão de modo claro, começo por exemplos curtos e familiares, em vez de iniciar com a nomenclatura sintática. Escrevo duas informações no quadro — “o ônibus atrasou” e “cheguei a tempo” — e peço que os estudantes construam uma frase que mantenha as duas, mas sinalize a expectativa contrariada: “Embora o ônibus tenha atrasado, cheguei a tempo”. Em seguida, destaco o conectivo e pergunto que resultado seria esperado sem a segunda informação. Depois, comparo a frase com uma versão introduzida por “mas”, observando como a ordem das orações muda sem necessariamente mudar a relação geral de sentido. Fecho a atividade com exemplos retirados de notícias, crônicas ou textos trabalhados pela turma. Esse percurso leva da compreensão à identificação gramatical e evita transformar concessão numa lista decorada. Eu adapto a complexidade dos exemplos à etapa escolar e peço que os alunos justifiquem suas respostas com pistas do texto.
Um passo a passo que funciona bem:
- Apresente duas ideias e peça que a turma explique a expectativa entre elas.
- Combine as ideias com “embora”, “mesmo que” ou “ainda que”.
- Reescreva a frase com “mas” e compare a organização.
- Peça que os alunos criem exemplos ligados a situações reais, sem perder a relação de sentido.
Eu também tomo cuidado para não ensinar que basta procurar uma palavra específica. “Embora” é uma pista forte, mas é a relação entre as orações e o contexto que confirma a concessão. Para planejar atividades e variar os formatos, posso consultar a página inicial do GeraProva e conhecer os recursos disponíveis.
Como avaliar concessão e interpretação de texto?
Para avaliar concessão, eu combino reconhecimento do conectivo com interpretação da relação que ele estabelece. Uma questão pode pedir que o estudante identifique a oração concessiva, mas outra deve verificar se ele compreende a expectativa contrariada e o efeito produzido no texto. Por exemplo, em “Ainda que o prazo fosse curto, a equipe revisou o relatório”, não basta marcar “ainda que”: é importante explicar que o prazo curto poderia dificultar a revisão, mas não a impediu. Na correção, considero evidências da leitura e não apenas o nome da classificação sintática. Também incluo itens de reescrita, nos quais o aluno troca “embora” por “mas” e comenta se o sentido foi preservado. Para uma avaliação mais ampla, relaciono gramática a interpretação, contexto social e variação linguística, sempre deixando claros os objetivos. O GeraProva pode ajudar a montar um conjunto diversificado de questões, que eu reviso para adequar à turma e ao conteúdo trabalhado.
Na prática, uma sequência equilibrada pode incluir:
- identificação de conectivos e orações;
- explicação da relação de concessão com palavras próprias;
- reescrita de frases sem alteração relevante de sentido;
- interpretação de textos em que a concessão contribui para o ponto de vista do autor.
As seis questões comentadas abaixo não tratam todas diretamente de orações concessivas. Elas abordam conteúdos reais de língua portuguesa relacionados à interpretação, à norma-padrão, à variação e à história da língua. Uso esse tipo de repertório para ampliar a leitura e mostrar que uma avaliação pode investigar diferentes habilidades sem confundir os conceitos.
Questões prontas com gabarito comentado
As questões a seguir trazem enunciados, alternativas, justificativas dos distratores e informações pedagógicas. Eu as utilizaria como referência para discutir como o estudante chega à resposta, e não apenas para conferir uma letra. Algumas trabalham interpretação literária; outras exploram variação linguística, empréstimos e norma-padrão. Essa diversidade é útil quando quero planejar uma revisão mais abrangente ou verificar conhecimentos que se articulam ao estudo da língua em uso. Em cada item, mantenho a dica de resolução, o conceito central, a habilidade BNCC e o nível de Bloom indicados na base do GeraProva. Vale observar que as questões não devem ser apresentadas como exercícios específicos de concessão: elas funcionam como material complementar para leitura e análise linguística. Antes de aplicar, eu confiro a adequação à turma, retomo os conceitos necessários e incentivo os alunos a justificarem por que cada alternativa está certa ou errada.
1. ENEM 2017 — “Declaração de amor”
Leia o trecho de Clarice Lispector: “Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.” O texto declara o amor da autora pela língua portuguesa. O trecho em que ela acentua seu caráter patrimonial e sua capacidade de renovação é:
- ❌ A) “A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve.” A frase menciona a dificuldade de escrever, mas não aborda diretamente a herança da língua nem sua renovação.
- ✅ B) “Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita.” A alternativa destaca a língua como herança recebida, mas não como obra encerrada: cada geração também a renova.
- ❌ C) “Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.” A imagem trata da criação pela escrita, mas não evidencia diretamente o caráter patrimonial da língua.
- ❌ D) “Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada.” O trecho se refere ao encantamento e ao aprofundamento, sem reunir a ideia de herança e renovação.
- ❌ E) “Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.” A passagem expressa o desejo de uma abordagem original do português, não a transmissão e renovação da língua.
Dica de resolução: observe como a autora relaciona a herança recebida com a ação dos escritores de dar vida ao pensamento. Conceito central: interpretação de texto literário. Conceito para revisão: interpretação e linguagem figurada. BNCC: EM13LP01. Bloom: Analisar. Dificuldade: Média.
2. ENEM 2020 — Petição de Policarpo Quaresma
Na passagem de Triste fim de Policarpo Quaresma, a personagem pede ao Congresso que decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. A petição emprega a norma-padrão. Esse uso justifica-se pela:
- ✅ A) Situação social de enunciação representada. A forma da petição corresponde a uma situação institucional e formal, reforçando a posição do personagem e a natureza de sua reivindicação.
- ❌ B) Divergência teórica entre gramáticos e literatos. A divergência é mencionada no texto, mas não é a razão que determina o registro formal da petição.
- ❌ C) Pouca representatividade das línguas indígenas. O tema da representatividade não explica a escolha da norma-padrão nesse gênero e nessa situação comunicativa.
- ❌ D) Atitude irônica diante da língua dos colonizadores. A ironia pode ser percebida na obra, mas não é a justificativa direta para o registro formal empregado na petição.
- ❌ E) Tentativa de solicitação do documento demandado. A solicitação é o propósito da petição; o uso da norma-padrão se explica pela situação social e institucional em que ela é feita.
Dica de resolução: considere quem fala, a quem se dirige e em que situação comunicativa. Conceito central: uso da norma-padrão. Conceito para revisão: norma-padrão e variações linguísticas. BNCC: EM13LGG202. Bloom: Analisar. Dificuldade: Média.
3. Qual alternativa exemplifica variação linguística no Brasil?
Qual das alternativas abaixo exemplifica uma variação linguística em relação ao uso da língua portuguesa no Brasil?
- ✅ A) O uso de “tu” e “você” em diferentes regiões do Brasil. As formas de tratamento apresentam distribuição regional e são exemplos de variação linguística.
- ❌ B) A conjugação verbal no passado de forma regular em todos os verbos. A alternativa não apresenta uma diferença regional ou social; descreve uma generalização sobre conjugação.
- ❌ C) A utilização de palavras estrangeiras em textos formais. O empréstimo ou uso de palavra estrangeira, por si só, não é o exemplo de variação regional solicitado.
- ❌ D) A troca de gêneros gramaticais em palavras como “a mesa” e “o prato”. Esses exemplos mostram gêneros gramaticais diferentes, não uma variação entre regiões para a mesma forma.
- ❌ E) A escrita de palavras da mesma forma em todas as regiões do Brasil. A alternativa descreve uniformidade, não uma diferença de uso entre variedades.
Dica de resolução: pense em formas de falar que variam conforme a região. Conceito central: variação linguística. Conceito para revisão: tipos de variação no Brasil. BNCC: EM13LP10. Bloom: Compreender. Dificuldade: Média.
4. ENEM 2014 — Empréstimos linguísticos
O texto explica que palavras indígenas e africanas, termos trazidos por imigrantes e empréstimos de línguas europeias ajudaram a distinguir o português do Brasil e o português de Portugal. Os empréstimos linguísticos, recebidos de diversas línguas, são importantes na constituição do português do Brasil porque:
- ✅ A) Deixaram marcas da história vivida pela nação, como a colonização e a imigração. Os empréstimos registram contatos históricos e sociais que participaram da formação do português brasileiro.
- ❌ B) Transformaram em um só idioma línguas diferentes, como as africanas, as indígenas e as europeias. A influência entre línguas não significa que elas tenham se fundido e deixado de existir como línguas distintas.
- ❌ C) Promoveram uma língua acessível a falantes de origens distintas, como o africano, o indígena e o europeu. O texto destaca a formação histórica e as diferenças linguísticas, não uma suposta acessibilidade como efeito principal.
- ❌ D) Guardaram uma relação de identidade entre os falantes do português do Brasil e os do português de Portugal. O trecho aponta justamente diferenças e trajetórias de contato distintas entre as variedades.
- ❌ E) Tornaram a língua do Brasil mais complexa do que as línguas de outros países que também tiveram colonização portuguesa. O texto não estabelece essa comparação, nem afirma que uma língua seja mais complexa que outra.
Dica de resolução: relacione os empréstimos aos contatos históricos mencionados no texto. Conceito central: empréstimos linguísticos. Conceito para revisão: história e formação do português brasileiro. BNCC: EM13LP01. Bloom: Compreender. Dificuldade: Média.
5. Pronúncias diferentes e compreensão
Em um programa de televisão, pessoas de diferentes regiões do Brasil falavam a mesma palavra com sons diferentes, mas todas eram entendidas pelo público. O fato descrito mostra que a língua portuguesa:
- ✅ A) mostra que a mesma língua pode ser pronunciada de modos diferentes, como nos sotaques regionais, sem deixar de ser compreendida. A alternativa relaciona corretamente a diversidade de pronúncias à compreensão entre falantes.
- ❌ B) mostra que a existência de sotaques regionais prova que há várias línguas portuguesas independentes no Brasil. A presença de variedades e sotaques não prova que existam línguas independentes.
- ❌ C) mostra que a língua portuguesa deixa de ser a mesma quando apresenta pronúncias diferentes entre regiões do país. Diferenças de pronúncia não significam que a língua tenha deixado de ser a mesma.
- ❌ D) mostra que pessoas de regiões diferentes não conseguem entender a mesma palavra quando ela é falada com sons diferentes. O enunciado afirma explicitamente que o público compreendia as falas.
- ❌ E) mostra que a compreensão aconteceu porque todos falaram exatamente da mesma forma, sem qualquer diferença de pronúncia. A alternativa contradiz o enunciado, que descreve sons diferentes.
Dica de resolução: considere a informação decisiva: havia diferenças de pronúncia e compreensão mútua. Conceito central: variação linguística regional. Conceito para revisão: sotaques e compreensão mútua. BNCC: EF69LP55. Bloom: Compreender. Dificuldade: Fácil.
6. ENEM 2009 — Contato linguístico e mudança
O Texto I explica que o português entrou em contato com diversas línguas durante a expansão colonial e que esse processo contribuiu para variações e mudanças linguísticas. O Texto II, de João de Barros, chama de “barbarismos” certas pronúncias de povos submetidos ao domínio português. Da comparação entre os textos, conclui-se que a posição de João de Barros, em relação aos usos sociais da linguagem, revela:
- ❌ A) Atitude crítica do autor quanto à gramática que as nações a serviço de Portugal possuíam e, ao mesmo tempo, de benevolência quanto ao conhecimento que os povos tinham de suas línguas. Barros não demonstra benevolência nesse trecho; julga as pronúncias de outros povos como desvios.
- ❌ B) Atitude preconceituosa relativa a vícios culturais das nações sob domínio português, dado o interesse dos falantes dessas línguas em copiar a língua do império, o que implicou a falência do idioma falado em Portugal. Há uma postura preconceituosa, mas o texto não diz que a imitação levou à falência do idioma em Portugal.
- ❌ C) O desejo de conservar, em Portugal, as estruturas da variante padrão da língua grega — em oposição às consideradas bárbaras —, em vista da necessidade de preservação do padrão de correção dessa língua à época. A referência aos gregos é uma comparação; o texto não propõe conservar uma variante padrão do grego.
- ✅ D) Adesão à concepção de língua como entidade homogênea e invariável, e negação da ideia de que a língua portuguesa pertence a outros povos. Ao classificar as pronúncias dos povos colonizados como barbarismos, Barros privilegia uma concepção homogênea e desconsidera a diversidade dos usos sociais.
- ❌ E) Atitude crítica, que se estende à própria língua portuguesa, por se tratar de sistema que não disporia de elementos necessários para a plena inserção sociocultural de falantes não nativos do português. Barros não critica a língua portuguesa por falta de recursos; critica as pronúncias de povos que tentam imitá-la.
Dica de resolução: compare a visão histórica e descritiva do Texto I com o julgamento de valor presente no Texto II. Conceito central: variação linguística e história do português. Conceito para revisão: mudança linguística e preconceito linguístico. BNCC: EM13LP01. Bloom: Analisar. Dificuldade: Média.
Como transformar a concessão em uma boa atividade?
Uma boa atividade sobre concessão parte de um objetivo verificável: o aluno precisa reconhecer a relação entre ideias, explicar a expectativa contrariada e, quando apropriado, identificar o conectivo ou a estrutura sintática. Eu começaria com exemplos curtos, seguiria para reescritas e terminaria com um texto real em que a concessão contribua para o argumento. Assim, a turma não fica limitada à memorização de “embora” e “ainda que”. Também é possível variar o nível de apoio: oferecer conectivos para completar, pedir que os estudantes criem frases próprias ou propor que localizem relações concessivas em textos estudados. Para preparar versões diferentes da mesma avaliação sem gastar tanto tempo repetindo tarefas mecânicas, posso experimentar o cadastro grátis do GeraProva e revisar os materiais gerados antes de aplicá-los.
Ao corrigir, observo se a explicação do aluno preserva as duas partes da frase e a ideia de obstáculo não impeditivo. Se ele identificar o conectivo, mas disser que a chuva causou a partida, por exemplo, retomo a diferença entre causa e concessão. Esse tipo de devolutiva mostra onde está a dificuldade e ajuda a planejar a próxima aula.
As questões são um ponto de partida e devem ser ajustadas ao seu planejamento e à etapa da turma. Se quiser economizar tempo na preparação de avaliações, experimente o GeraProva, confira os materiais gerados e adapte-os ao que seus alunos precisam.
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