— “Aqui sempre foi caminho de todos”, reclamou um barqueiro ao ver a nova cancela na trilha que leva a uma…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de territórios, territorialidades e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como grupos sociais e culturais, impérios, Estados Nacionais e organismos internacionais) e considerando os conflitos populacionais (internos e externos), a diversidade étnico-cultural e as características socioeconômicas, políticas e tecnológicas.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
— “Aqui sempre foi caminho de todos”, reclamou um barqueiro ao ver a nova cancela na trilha que leva a uma faixa de areia às margens do rio, usada há décadas para pesca e para atracar pequenas embarcações. Nas semanas seguintes, placas foram instaladas indicando “Área concedida”. Um decreto municipal autorizou uma empresa de turismo a administrar o acesso: passou a haver cobrança de ingresso e vigilância privada, enquanto o órgão ambiental afirma que a medida “organiza o uso” e reduz lixo. Moradores relatam que deixaram de circular por medo de abordagem e que as rotas de passagem foram desviadas para um ponto único de entrada. Uma associação local e uma ONG contestam a concessão, alegando que o espaço era de uso comum e que a decisão foi tomada sem consulta pública. Com base no texto, aplique a crítica de Rousseau à origem da propriedade para interpretar a formação de fronteiras nesse caso. Que leitura avalia de modo mais consistente o processo de territorialização descrito?
- A) Considerar que a geração de empregos pela empresa basta para legitimar moralmente a exclusão de moradores das rotas tradicionais
- B) Considerar que a instalação de placas apenas torna visível um limite natural do rio, que já definia a quem o espaço pertencia
- C) Considerar que, por ser área ambiental, qualquer presença humana é ilegítima, independentemente de quem imponha regras e controles
- D) Considerar que a cancela e o decreto convertem um uso comum em posse exclusiva, produzindo a fronteira por reconhecimento e coerção
- E) Considerar que a tradição de uso local dispensa qualquer regra pública, tornando irrelevante a criação de acessos e controles
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- A crítica de Rousseau, no Segundo Discurso, sustenta que a propriedade nasce quando alguém cerca um terreno e declara "isto é meu", e encontra pessoas simples o bastante para acreditar nele. A origem do limite é, portanto, uma convenção sustentada pela aceitação dos outros e pela força que a garante, e não uma verdade natural.
- No texto, o espaço era de uso comum há décadas, para pesca e atracação. Com a cancela, as placas "Área concedida" e o decreto municipal, a área passa a ser administrada por uma empresa, com cobrança de ingresso e vigilância privada. Isso é a transformação de um uso comum em posse exclusiva.
- A fronteira se produz por dois mecanismos combinados: o reconhecimento (o decreto e as placas dão validade jurídica e visibilidade ao limite) e a coerção (a vigilância e a cobrança impedem o acesso). Os moradores que deixaram de circular por medo de abordagem mostram o efeito concreto dessa combinação.
- Por que as outras estão erradas:
- A) Gerar empregos não legitima moralmente excluir moradores, pois o argumento ignora a origem do uso comum e a ausência de consulta pública.
- B) O texto não menciona nenhum limite natural do rio; as placas criam o limite, não o revelam.
- C) A lógica de Rousseau não torna ilegítima toda presença humana; a crítica incide sobre a apropriação exclusiva imposta por quem controla o espaço.
- E) A tradição de uso local não é irrelevante: justamente por ser um uso comum consolidado, sua supressão precisa de justificativa pública, o que o texto aponta como ausente.
- Conclusão: a leitura mais consistente é a D, pois descreve a territorialização como processo de reconhecimento e coerção que converte um bem comum em propriedade exclusiva.
💡 Dica: Analise o texto e relacione com a crítica de Rousseau sobre propriedade.
Alternativa por alternativa
Acredita que benefícios econômicos, como empregos gerados pela empresa, justificam por si só a exclusão de quem usava o espaço havia décadas.
Supõe que o rio define naturalmente a quem pertence a faixa de areia, ignorando que o limite foi criado pelas placas e pelo decreto.
Confunde a crítica de Rousseau com um ambientalismo que condena qualquer presença humana, sem analisar quem impõe as regras de acesso.
Rousseau critica a apropriação que nasce quando alguém “cerca” e obtém aceitação/força; no texto, lei, cobrança e vigilância instituem o limite.
Entende que a tradição local tornaria desnecessária qualquer regra pública, desconsiderando que a questão central é a apropriação exclusiva sem consulta.
Raio-X da questão
Crítica de Rousseau à propriedade
diagnostico
Teoria da propriedade privada · Conceito de territorialização
Estude a teoria de Rousseau sobre a origem da propriedade e territorialização.
Confundir a crítica de Rousseau com justificativas a favor da propriedade privada ou ignorar o contexto social do texto.
cidadania_etica
pensamento_critico
cotidiano
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