Num relatório do fim do século XIX sobre o interior amazônico, um funcionário provincial descreveu certo povo…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Identificar, contextualizar e criticar tipologias evolutivas (populações nômades e sedentárias, entre outras) e oposições dicotômicas (cidade/campo, cultura/ natureza, civilizados/bárbaros, razão/emoção, material/virtual etc.), explicitando suas ambiguidades.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Num relatório do fim do século XIX sobre o interior amazônico, um funcionário provincial descreveu certo povo indígena como “errante” e “sem trabalho estável”, defendendo que, por não viver “em povoações fixas”, estaria em um “grau inferior” e precisaria ser reunido em aldeamentos para “aprender hábitos de civilização”. Mais de um século depois, uma equipe que analisou vestígios de antigas roças, caminhos elevados e áreas de solo escurecido por manejo humano na mesma região concluiu que houve ocupações prolongadas e planejamento do uso do território. Lideranças locais, ao comentar os achados, afirmaram que a circulação entre locais de plantio, pesca e rituais sempre foi parte de um modo de vida, e não ausência de organização. Em uma comissão municipal que discute homenagens públicas, esse relatório antigo foi citado para justificar a ideia de que ali “não havia sociedade estruturada”. Analise o contraste entre o relatório do século XIX e as evidências posteriores e identifique a crítica histórica que melhor avalia o uso das categorias “nômade/sedentário” e “civilizado/atrasado” nesse caso.
- A) Sustentar que a falta de povoações fixas comprova ausência de agricultura e confirma a inferioridade indicada pelo relatório provincial.
- B) Sustentar que os achados arqueológicos anulam qualquer uso de fontes escritas, pois relatos oficiais são sempre falsos e inúteis.
- C) Sustentar que aldeamentos seriam solução neutra para integrar grupos “sem Estado”, pois a sedentarização é etapa universal de desenvolvimento.
- D) Sustentar que a mobilidade pode compor uma territorialidade complexa, e a hierarquia do relatório reflete critérios eurocêntricos de “progresso”.
- E) Sustentar que a organização social depende de viver em cidade, logo a ausência de urbanização confirma a oposição cidade/campo usada no relatório.
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- O enunciado apresenta um relatório do século XIX que classifica um povo indígena como 'errante', 'sem trabalho estável' e em 'grau inferior', por não viver em povoações fixas, e propõe aldeamentos para que 'aprenda hábitos de civilização'. Ou seja, a mobilidade é tomada como sinal de atraso.
- As evidências posteriores (roças, caminhos elevados, solo escurecido por manejo) mostram ocupações prolongadas e planejamento do território. Além disso, as lideranças explicam que a circulação entre áreas de plantio, pesca e rituais faz parte de um modo de vida organizado. Logo, mobilidade não significa ausência de organização.
- A crítica histórica adequada é a de que as categorias 'nômade/sedentário' e 'civilizado/atrasado' são construções de um olhar externo, muitas vezes eurocêntrico, que hierarquiza formas de ocupação do espaço segundo um modelo de 'progresso'. A alternativa D reconhece que a mobilidade pode formar uma territorialidade complexa e que a hierarquia do relatório reflete critérios eurocêntricos.
- Por que as demais estão erradas:
- A) Confunde ausência de povoações fixas com ausência de agricultura, desconsiderando as evidências de roças e manejo.
- B) Descarta todas as fontes escritas, quando o relatório pode ser analisado criticamente como documento histórico.
- C) Trata a sedentarização como etapa universal de desenvolvimento, reproduzindo justamente a lógica hierárquica que deve ser criticada.
- E) Aceita a oposição cidade/campo como critério de organização social, ignorando que sociedades estruturadas podem existir sem urbanização.
- O gabarito D está correto e coincide com a análise feita.
💡 Dica: Compare as visões histórica e arqueológica para identificar críticas ao eurocentrismo.
Alternativa por alternativa
Acredita que a ausência de aldeias fixas indica ausência de agricultura, ignorando que roças e manejo do solo podem existir com mobilidade. Assim, aceita o juízo do relatório como verdadeiro.
Entende que, por causa dos achados arqueológicos, todas as fontes escritas devem ser descartadas como falsas e inúteis. Isso leva a rejeitar um documento que pode ser lido criticamente para revelar os preconceitos de quem o escreveu.
Supõe que a sedentarização é uma etapa natural e universal do desenvolvimento, e que aldeamentos seriam neutros. Repete a hierarquia 'civilizado/atrasado' sem perceber que ela é uma construção histórica.
Por que engana: Confundir mobilidade com ausência de organização social e aceitar hierarquias eurocêntricas sem crítica.
Critica a tipologia evolutiva e a dicotomia civilização/atraso, reconhecendo formas híbridas de ocupação e o viés colonial do relatório.
Acredita que organização social exige vida urbana, tomando a oposição cidade/campo como critério universal. Não percebe que essa oposição é a própria premissa do relatório que deveria ser criticada.
Raio-X da questão
crítica eurocêntrica em história indígena
avaliacao
história indígena brasileira · conceitos de sedentarismo e nomadismo
estude conceitos de eurocentrismo e mobilidade indígena
Confundir mobilidade com ausência de organização social e aceitar hierarquias eurocêntricas sem crítica.
multiculturalismo
pensamento_critico
historico
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