Por que um caminho que sempre foi público passa a ser tratado como “proibido”? Em uma cidade litorânea…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de territórios, territorialidades e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como grupos sociais e culturais, impérios, Estados Nacionais e organismos internacionais) e considerando os conflitos populacionais (internos e externos), a diversidade étnico-cultural e as características socioeconômicas, políticas e tecnológicas.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Por que um caminho que sempre foi público passa a ser tratado como “proibido”? Em uma cidade litorânea, moradores relatam que, após a construção de um conjunto de condomínios sobre as dunas, o acesso mais curto à praia recebeu guarita e cancelas. A administração do condomínio afirma que o controle evita furtos, mantém a limpeza e “organiza” o fluxo de visitantes. Pescadores, porém, dizem que a passagem era usada havia décadas para chegar ao mar e que agora precisam dar uma volta longa, muitas vezes impedidos por seguranças. A prefeitura informa que a faixa de areia é bem público e que a via deveria permanecer aberta, mas uma decisão judicial provisória autorizou o fechamento até a conclusão de perícias. Com o tempo, turistas deixam de tentar entrar e a área passa a ser percebida como “praia do condomínio”. Interprete o texto e identifique a leitura filosófica que melhor explica a formação dessa territorialidade como resultado da apropriação de um espaço comum por um agente social.
- A) A visão de Aristóteles, ao naturalizar a divisão do espaço conforme superioridade de alguns, legitimando a exclusão de outros grupos
- B) A crítica de Rousseau, ao apontar a cerca como marco de uma posse que produz desigualdade e disputa por reconhecimento
- C) A proposta de Kant, ao exigir hospitalidade universal e livre circulação, tornando ilegítima qualquer delimitação territorial local
- D) A tese de Locke, ao considerar legítima a posse privada sempre que houver investimento e trabalho na manutenção do espaço
- E) A defesa de Hobbes, ao justificar o fechamento como medida necessária para garantir paz, ordem e segurança sob autoridade
✅ Resposta correta: alternativa B
Resolução passo a passo
- O enunciado descreve um caminho público que passa a ser controlado por um agente privado (o condomínio) por meio de guarita, cancelas e seguranças, enquanto a prefeitura defende que a faixa de areia é bem público. O foco é a transformação de um espaço comum em território de posse exclusiva. Passo 2: Resolvi a questão sem consultar o gabarito. A leitura que melhor explica essa formação é a de Rousseau, no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, em que a passagem do comum ao apropriado começa quando alguém cerca um terreno e diz 'isto é meu', o que gera desigualdade, disputa e a necessidade de reconhecimento social. Passo 3: A alternativa B corresponde exatamente a esse esquema: a cerca como marco da posse, a desigualdade produzida pela apropriação e a disputa, que aparece no texto como conflito entre condomínio, pescadores, prefeitura e Justiça. Passo 4: A alternativa A está errada porque Aristóteles naturaliza hierarquias entre pessoas, enquanto o texto trata de apropriação de um bem comum, não de superioridade natural. Passo 5: A alternativa C está errada porque Kant defende hospitalidade universal e livre circulação, o que se opõe ao fechamento, mas a questão pede a leitura que explica a formação da territorialidade, e não a crítica normativa ao fechamento. Passo 6: A alternativa D está errada porque Locke legitima a propriedade pelo trabalho, argumento que o condomínio tenta usar ao alegar manutenção e limpeza, mas o texto mostra a apropriação de um espaço público, o que Locke não justifica. Passo 7: A alternativa E está errada porque Hobbes justifica o fechamento pela ordem e pela segurança sob autoridade, justificativa que o condomínio apresenta, mas a questão pede a interpretação da origem da apropriação, não a defesa do poder que a sustenta.
💡 Dica: Analise as ideias dos filósofos sobre propriedade e territorialidade para relacionar com o texto.
Alternativa por alternativa
O aluno associa a exclusão de grupos a uma hierarquia natural, como se o texto justificasse a restrição pela superioridade de alguns, quando o caso trata de apropriação de um bem comum.
O controle de acesso transforma uso comum em exclusividade; Rousseau critica a apropriação que depende de aceitação social e gera desigualdade.
O aluno identifica bem a crítica ao fechamento, mas confunde o plano normativo de Kant, que defende a hospitalidade, com a explicação de como o território se forma.
O aluno se deixa levar pelo argumento do condomínio sobre manutenção e investimento e acredita que o trabalho legitima a posse de um espaço público, ignorando que Locke trata de apropriação de bens sem dono ou com trabalho próprio.
Por que engana: Confundir as posições dos filósofos sobre propriedade e exclusão social, escolhendo alternativas que não explicam a apropriação do espaço comum.
O aluno aceita a justificativa de segurança e ordem apresentada pelo condomínio e a associa à defesa de Hobbes, sem perceber que a questão pede a origem da apropriação, e não a legitimação da autoridade que a mantém.
Raio-X da questão
territorialidade e apropriação social
diagnostico
conceitos básicos de filosofia política · teorias de propriedade e justiça social
estude teorias filosóficas sobre propriedade e espaço comum
Confundir as posições dos filósofos sobre propriedade e exclusão social, escolhendo alternativas que não explicam a apropriação do espaço comum.
cidadania_etica
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cotidiano
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