Considere os seguintes trechos extraídos dos livros Felicidade Clandestina e Como e porque sou romancista: I…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Considere os seguintes trechos extraídos dos livros Felicidade Clandestina e Como e porque sou romancista: I. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo. II. Meu imediato e êmulo, que me foi depois amigo e colega de ano em São Paulo, era o Aguiarzinho (Dr. Antônio Nunes de Aguiar), filho do distinto general do mesmo nome, bela inteligência e nobre coração ceifados em flor, quando o mundo lhe abria de par em par as suas portas de ouro e pórfiro. Ansioso aguardava ele a ocasião de se desforrar da partida que eu lhe havia ganho, depois de uma luta porfiada – Todavia não lhe acudiu a resposta de pronto; e passaria sua vez, se o diretor não lhe deixasse tempo bastante para maior esforço do que fora dado aos outros e sobretudo a mim – Afinal ocorreu-lhe a resposta, e eu com o coração transido, cedi ao meu vencedor o lugar de honra conquistado de grau em grau, e conseguia sustentar havia mais de dois meses. Nos trinta anos vividos desde então, muita vez fui esbulhado do fruto do meu trabalho pela mediocridade agaloada; nunca senti senão o desprezo que merecem tais pirraças da fortuna, despeitada contra aqueles que não a incensam. Com base nessas obras, é correto afirmar: (UFPR 2009)
- A) Em Clarice Lispector, a cena de infância é utilizada para ilustrar o exercício do poder. Em José de Alencar, a cena constitui um exemplo das injustiças de que o autor, segundo ele próprio, seria vítima contumaz ao longo de sua vida.
- B) Ambos os autores, cada um em sua época, tematizam a luta de classes.
- C) As duas cenas de infância ilustram situações que, segundo cada narrador em suas particularidades, teriam reflexos traumáticos ao longo de suas vidas.
- D) Ambos os autores relatam momentos de ruptura comportamental na vida dos personagens.
✅ Resposta correta: alternativa A
Resolução passo a passo
- Identifiquei os autores. O trecho I é de Clarice Lispector (Felicidade Clandestina), narrado por uma criança que espera pelo livro emprestado. O trecho II é de José de Alencar (Como e porque sou romancista), em que o narrador relembra a disputa com o Aguiarzinho e as injustiças que sofreu na vida. Passo 2: Analisei o trecho de Clarice. A filha do dono da livraria adia sempre a entrega do livro, com um plano 'tranquilo e diabólico', e a criança fica totalmente à mercê dela. Isso ilustra o exercício do poder de quem tem algo que o outro deseja. Passo 3: Analisei o trecho de Alencar. O narrador diz que muitas vezes foi esbulhado do fruto do seu trabalho pela mediocridade, ou seja, ele mesmo se considera vítima recorrente de injustiças. Passo 4: Portanto, a alternativa A está correta, pois descreve corretamente os dois trechos. Passo 5: A alternativa B está errada, porque nenhum dos trechos trata de luta de classes; a disputa de Alencar é pessoal e de mérito. A alternativa C está errada, porque Alencar encara as injustiças com desprezo, não com trauma, e o 'drama' de Clarice é apenas a repetição da espera. A alternativa D está errada, porque nenhum dos dois relata uma ruptura de comportamento dos personagens. Passo 6: Conclusão: o gabarito oficial A está correto e coincide com a minha resolução.
💡 Dica: Analise os trechos e relacione-os ao tema proposto para responder.
Alternativa por alternativa
CORRETA. A alternativa identifica corretamente que, em Clarice Lispector, a cena de infância ilustra o exercício do poder (a recusa e o controle da entrega do livro), enquanto no texto de José de Alencar há uma referência às injustiças sofridas pelo narrador ao longo da vida, conforme evidenciado no trecho.
O aluno pode ter associado a disputa entre o narrador e o Aguiarzinho, ou a figura do general e a fortuna, a conflitos de classe social, sem perceber que o texto trata de competição pessoal e mérito.
O aluno provavelmente supôs que qualquer cena de infância marcada por frustração deixa marcas traumáticas permanentes, ignorando que Alencar fala de desprezo e que o trecho de Clarice trata apenas de uma espera.
O aluno pode ter tomado a ideia de 'mudança' ou 'passagem' do trecho de Clarice (de 'andar pulando' para o 'dia seguinte') como uma ruptura comportamental, sem verificar que a situação não altera o comportamento das personagens.
Raio-X da questão
interpretação de textos literários
diagnostico
compreensão leitora avançada · análise textual literária
estudo de análise e interpretação de textos literários
Confundir informações dos dois textos ou interpretar de forma superficial sem considerar o contexto literário.
pensamento_critico
literario
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