O tempo em que o mundo tinha a nossa idade Nesse entretempo, ele nos chamava para escutarmos seus imprevistos…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Selecionar informações, dados e argumentos em fontes confiáveis, impressas e digitais, e utilizá-los de forma referenciada, para que o texto a ser produzido tenha um nível de aprofundamento adequado (para além do senso comum) e contemple a sustentação das posições defendidas.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
O tempo em que o mundo tinha a nossa idade Nesse entretempo, ele nos chamava para escutarmos seus imprevistos improvisos. As estórias dele faziam o nosso lugarzinho crescer até ficar maior que o mundo. Nenhuma narração tinha fim, o sono lhe apagava a boca antes do desfecho. Éramos nós que recolhíamos seu corpo dorminhoco. Não lhe deitávamos dentro da casa: ele sempre recusara cama feita. Seu conceito era que a morte nos apanha deitados sobre a moleza de uma esteira. Leito dele era o puro chão, lugar onde a chuva também gosta de deitar. Nós simplesmente lhe encostávamos na parede da casa. Ali ficava até de manhã. Lhe encontrávamos coberto de formigas. Parece que os insetos gostavam do suor docicado do velho Taímo. Ele nem sentia o corruípo do formigueiro em sua pele. – Chiças: transpiro mais que palmeira! Proferia tontices enquanto ia acordando. Nós lhe sacudíamos os infatigáveis bichos. Taímo nos sacudia a nós, incomodado por lhe dedicarmos cuidados. Meu pai sofria de sonhos, saía pela noite de olhos transabertos. Como dormia fora, nem dávamos conta. Minha mãe, manhã seguinte, é que nos convocava: – Venham: papá teve um sonho! E nos juntávamos, todos completos, para escutar as verdades que lhe tinham sido reveladas. Taímo recebia notícia do futuro por via dos antepassados. Dizia tantas previsões que nem havia tempo de provar nenhuma. Eu me perguntava sobre a verdade daquelas visões do velho, estorinhador como ele era. – Nem duvidem, avisava mamã, suspeitando-nos. E assim seguia nossa criancice, tempos afora. Nesses anos ainda tudo tinha sentido: a razão deste mundo estava num outro mundo inexplicável. Os mais velhos faziam a ponte entre esses dois mundos. (...) Mia Couto Terra sonâmbula. São Paulo, Cia das Letras, 2007. Este texto é uma narrativa ficcional que se refere à própria ficção, o que caracteriza uma espécie de metalinguagem. A metalinguagem está melhor explicitada no seguinte trecho: (UERJ 2014)
- A) As estórias dele faziam o nosso lugarzinho crescer até ficar maior que o mundo. (l. 1-2)
- B) Meu pai sofria de sonhos, saía pela noite de olhos transabertos. (l. 12)
- C) E nos juntávamos, todos completos, para escutar as verdades que lhe tinham sido reveladas. (l. 15)
- D) Nesses anos ainda tudo tinha sentido: (l. 20)
✅ Resposta correta: alternativa A
Resolução passo a passo
- A metalinguagem ocorre quando a linguagem fala sobre si mesma. No texto, a narrativa ficcional reflete sobre o próprio ato de contar histórias, e a questão pede o trecho que melhor explicita esse procedimento. Passo 2: Na alternativa A, "As estórias dele faziam o nosso lugarzinho crescer até ficar maior que o mundo", o narrador comenta o poder da própria narração: as histórias do velho Taímo transformam o espaço e a realidade dos personagens. Isso é a ficção falando da ficção, ou seja, metalinguagem. Passo 3: Por que as outras estão erradas: na B, "Meu pai sofria de sonhos" descreve um traço de um personagem, sem comentar a escrita. Na C, "para escutar as verdades que lhe tinham sido reveladas" trata do conteúdo das visões do pai, não da construção do texto. Na D, "Nesses anos ainda tudo tinha sentido" fala da percepção de mundo da infância, não da linguagem. Passo 4: Conclusão: a alternativa A é a que melhor explicita a metalinguagem, em concordância com o gabarito oficial.
💡 Dica: Identifique o trecho que explicita a metalinguagem no texto.
Alternativa por alternativa
CORRETA. O trecho faz referência ao efeito das 'estórias' contadas, destacando o papel da narrativa e, portanto, explicitando a metalinguagem.
O aluno pensa que, por o narrador falar de sonhos e de visões, o texto está refletindo sobre a ficção, já que sonho e estória são parecidos. Confunde o tema narrado com a reflexão sobre a própria narrativa.
Por que engana: Confundir metalinguagem com simples descrição ou narrativa sem autorreferência.
O aluno associa "verdades reveladas" e "visões" à ideia de verdade da ficção e acredita que o trecho discute o estatuto do texto. Não percebe que a frase apenas descreve um acontecimento da história.
O aluno entende "sentido" como a busca de significado do texto e supõe que a frase comenta a própria construção da narrativa. Na verdade, a expressão se refere à percepção de mundo da infância.
Raio-X da questão
metalinguagem em narrativa ficcional
avaliacao
interpretação de texto literário
estude metalinguagem e autorreferencia em textos literarios
Confundir metalinguagem com simples descrição ou narrativa sem autorreferência.
pensamento_critico
literario
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