No texto a seguir, que é pura ficção, o escritor Antonio Prata imaginou uma carta que Henrique e Francisca…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Analisar, em textos de diferentes gêneros, marcas que expressam a posição do enunciador frente àquilo que é dito: uso de diferentes modalidades (epistêmica, deôntica e apreciativa) e de diferentes recursos gramaticais que operam como modalizadores (verbos modais, tempos e modos verbais, expressões modais, adjetivos, locuções ou orações adjetivas, advérbios, locuções ou orações adverbiais, entonação etc.), uso de estratégias de impessoalização (uso de terceira pessoa e de voz passiva etc.), com vistas ao incremento da compreensão e da criticidade e ao manejo adequado desses elementos nos textos produzidos, considerando os contextos de produção.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
No texto a seguir, que é pura ficção, o escritor Antonio Prata imaginou uma carta que Henrique e Francisca, pais de Alberto Santos Dumont, teriam escrito ao filho, à época residindo em Paris. Bom Senso Fazenda Cabangu, Minas Gerais, 26/03/1903. Albertinho, querido filho, que saudades! Recebemos tua última missiva [carta] e ficamos contentes que estejas bem de saúde. Aguardamos ansiosos o teu retorno, tua mãe já não dorme mais, de tão saudosa, e já pediu ao Mané da venda três potes daquela compota de figo que tanto te apetece! Apesar de serem as compotas um assunto saboroso, não é sobre elas que quero falar aqui, Alberto. O que nos tem preocupado um pouco, filho querido, é a tua insistência com o tal aeroplano. Tu me pedes dinheiro para mais um semestre em Paris e uma outra quantia para investir neste teu novo projeto, mas não a daremos. Tua mãe e eu sempre te apoiamos; tu hás de recordar que, aos sete anos, quando as crianças não podiam sequer chegar perto do gramofone*, já te deixávamos conduzir as locomotivas Baldwin da fazenda e jamais ralhamos quando desmontavas a máquina de costura da tua mãe, pois sempre soubemos que não estávamos diante de traquinagens, mas do desabrochar de um talento. No entanto, meu caro Alberto, hás de saber reconhecer, nessa vida, a hora de desistir. Ajudamos quando querias dar a volta na torre Eiffel com aquele dirigível e patrocinamos outras tantas sandices aéreas, mas já basta! Quantas vezes já não te esborrachaste no chão? Pretendes sair do solo com uma máquina mais pesada que o ar?! Alberto, não está na hora de encontrares um rumo definitivo para a tua vida? O que nos preocupa é teu futuro. Tantas coisas interessantes acontecendo no mundo... Viste as últimas locomotivas a vapor alemãs? Os automóveis, Alberto, feitos pelo senhor Ford?! As imagens em movimento daqueles franceses, os Lumière? E tu, meu filho, insistindo num pássaro artificial, feito de seda e bambu! O futuro, Alberto, está nos trens! Por que diabos, mesmo que tu conseguisses fazer subir essa geringonça ao céu, será que alguém se interessaria em voar? As estradas de ferro estão tão boas! Já é possível vir de São Paulo ao Rio em 12 horas! Apenas 12 horas, Alberto! Meu filho, eu te rogo: voltes! Vê só: os teus cunhados Villares estão investindo grandes quantias na construção de elevadores - esta sim uma maneira segura de se chegar ao céu! - e me prometeram que podem arrumar-te um empreguinho, primeiro na área de manutenção e quem sabe, mais tarde, na área de criação de mecanismos ou chefia de cabos e roldanas? Sê razoável, querido filho, se Deus quisesse que voássemos, nos teria feito com asas. O mundo, Alberto, não é como nos romances de Júlio Verne*! Abraços esperançosos de teus pais, Henrique Dumont e Francisca Santos P.S.: Tuas queridas irmãs Maria Rosalina, Virgínia, Gabriela, Sofia e Francisca gozam de boa saúde e mandam lembranças. (PRATA, Antonio. As pernas da tia Corália. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. Adaptado) * gramofone: forma rudimentar de toca-discos. * Júlio Verne: escritor francês do século XIX e considerado o autor das primeiras obras de ficção científica. Considere o seguinte trecho do texto. E tu, meu filho, insistindo num pássaro artificial, feito de seda e bambu! O futuro, Alberto, está nos trens! Por que diabos, mesmo que tu conseguisses fazer subir essa geringonça ao céu, será que alguém se interessaria em voar? Esse trecho evidencia que, para os pais de Alberto, o aeroplano era (ETEC 2011)
- A) outra das loucuras do filho com a qual eles se divertiam.
- B) mais um projeto de Alberto que seria ridicularizado pela imprensa.
- C) uma máquina frágil e insegura, embora se assemelhasse aos pássaros.
- D) um caminho para Santos Dumont conseguir o prestígio financeiro que desejava.
- E) uma geringonça estranha que faria o ser humano superar-se tecnologicamente.
✅ Resposta correta: alternativa C
Resolução passo a passo
- O trecho e uma sequencia de perguntas retoricas e exclamacoes dos pais, que expressam desaprovacao do projeto do filho. Passo 2: As expressoes 'pássaro artificial, feito de seda e bambu' e 'geringonça' mostram que o aeroplano e visto como algo improvavel e fragil, embora lembre um pássaro. Passo 3: A pergunta 'será que alguém se interessaria em voar?' indica duvida sobre a utilidade do aeroplano. Passo 4: A alternativa C reune esses sentidos. A alternativa A esta errada porque nao ha diversao dos pais. A alternativa B esta errada porque nao ha referencia a imprensa. A alternativa D esta errada porque os pais nao veem retorno financeiro no aeroplano. A alternativa E esta errada porque, apesar do termo 'geringonça', os pais nao reconhecem nele um avanco tecnologico, mas uma ilusao.
💡 Dica: Observe as expressoes avaliativas do trecho e a pergunta retorica final, que revelam duvida e nao admiracao.
Alternativa por alternativa
Entende que os pais tratam as ideias do filho como brincadeira, pelo tom carinhoso das cartas, e nao como preocupacao.
Acrescenta informacao externa sobre a repercussao na imprensa da epoca, que nao aparece no trecho.
CORRETA. Ao chamar o aeroplano de 'geringonca' e questionar se alguem se interessaria em voar, os pais o veem como maquina frágil e insegura; a comparacao com o passaro (pássaro artificial) mostra a semelhanca apontada no trecho.
Confunde o pedido de dinheiro feito pelo filho com a visao dos pais sobre o aeroplano como fonte de prestigio.
Toma a palavra 'geringonça' e a figura do aeroplano como sinal de admiracao, ignorando a pergunta retorica que questiona seu valor.
Por que engana: Tomar o tom carinhoso da carta como admiracao pelo projeto
Raio-X da questão
Posicionamento do enunciador e marcas avaliativas
avaliacao
Interpretacao de texto narrativo · Sentido figurado de palavras
Figuras de linguagem e pergunta retorica como recursos argumentativos
Tomar o tom carinhoso da carta como admiracao pelo projeto
ciencia_tecnologia
pensamento_critico
literario
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