Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Analisar efeitos de sentido decorrentes de usos expressivos da linguagem, da escolha de determinadas palavras ou expressões e da ordenação, combinação e contraposição de palavras, dentre outros, para ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de uso crítico da língua.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? [...] Sempre ao lado de minha mãe, aprendi a conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer, em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. [...] Eu me lembrava de algumas histórias da infância de minha mãe. [...] Às vezes, as histórias de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nesses dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes, colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. E foi então que, tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe, naquele momento resolvi deixar tudo e, no dia seguinte, voltar à cidade em que nasci. [...] E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. [...] Conceição Evaristo, Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas – Fundação Biblioteca Nacional, 2016. A trajetória de vida da narradora-personagem é marcada pela fome, diante da qual a mãe utilizava brincadeiras para distrair as filhas, gerando no texto uma oposição poética entre a ausência (de alimentos) e a abundância (de imaginação). Assinale a alternativa em que as expressões representam, respectivamente, o contraste exposto. (FATEC 2022)
- A) “silêncio nas horas” e “cheia de culpa” (2.º parágrafo)
- B) “sonho de comida” e “flores cultivadas” (3.º parágrafo)
- C) “assentava em seu trono” e “cheia de fome” (3.º parágrafo)
- D) “cheiro algum” e “mãe era a Senhora, a Rainha” (3.º parágrafo)
- E) “flores cultivadas” (3.º parágrafo) e “rios caudalosos” (6.º parágrafo)
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- A questão pede o par de expressões que representa a oposição entre ausência de alimento e abundância imaginária, nesta ordem. Passo 2: No 3.º parágrafo, 'cheiro algum' e 'panela cheia de fome' expressam a carência de comida. Passo 3: Em contraste, 'a mãe era a Senhora, a Rainha' e 'assentava em seu trono' expressam a riqueza simbólica criada pela brincadeira. Passo 4: A alternativa D reúne 'cheiro algum' (ausência) e 'mãe era a Senhora, a Rainha' (abundância imaginária), exatamente o contraste pedido, gabarito oficial. Passo 5: A alternativa A usa 'silêncio' e 'culpa', que não tratam de alimento. Passo 6: A alternativa B mistura 'sonho de comida' com 'flores cultivadas', mas as flores são elemento real do cultivo, não o contraste exposto. Passo 7: A alternativa C inverte o padrão, pois 'cheia de fome' é ausência e 'assentava em seu trono' não é a abundância central. Passo 8: A alternativa E usa 'rios caudalosos', imagem do 6.º parágrafo ligada às lágrimas, fora do eixo fome versus imaginação.
💡 Dica: Procure no 3.º parágrafo uma expressão de falta de comida e outra de riqueza imaginária, na ordem pedida.
Alternativa por alternativa
O aluno toma 'silêncio' e 'culpa' como sentimentos opostos sem relacionar à fome e à brincadeira.
O aluno interpreta 'flores cultivadas' como símbolo de abundância e não percebe que o contraste exige a expressão imaginária ligada à brincadeira.
Por que engana: Ler 'flores cultivadas' como abundância e escolher B, ou não perceber a ordem ausência-abundância
O aluno vê em 'assentava em seu trono' uma ideia de abundância sem perceber que se trata de uma ação, não da expressão de riqueza imaginária.
CORRETA. 'Cheiro algum' expressa a ausência de alimento, e 'a mãe era a Senhora, a Rainha' expressa a abundância criada pela imaginação na brincadeira, formando o contraste pedido.
O aluno busca termos de abundância em qualquer parte do texto e mistura parágrafos diferentes, sem respeitar o recorte do 3.º parágrafo.
Raio-X da questão
Antítese e oposição poética entre ausência e abundância
avaliacao
Figuras de linguagem · Leitura contextual de texto narrativo
Efeitos de sentido de expressões em textos literários
Ler 'flores cultivadas' como abundância e escolher B, ou não perceber a ordem ausência-abundância
multiculturalismo
empatia
literario
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