Palavras: uma questão de estilo A construção de um bom texto depende da criatividade de quem o escreve. Veja…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Analisar efeitos de sentido decorrentes de usos expressivos da linguagem, da escolha de determinadas palavras ou expressões e da ordenação, combinação e contraposição de palavras, dentre outros, para ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de uso crítico da língua.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Palavras: uma questão de estilo A construção de um bom texto depende da criatividade de quem o escreve. Veja como o uso das palavras exerce um papel importante nesse contexto. João Ribeiro, eminente gramático e profundo conhecedor da língua portuguesa, disse certa vez, em entrevista que deu ao jornalista carioca João do Rio (O Momento Literário), que o estilo seria, antes de tudo, “a ideia precisa e exata na sua forma exata e precisa”. De fato, não são poucos os que acreditam que o estilo depende, basicamente, da conjunção precisa entre forma e fundo, ideia em si mesma legítima, embora se saiba que até mesmo o que se considera erro, lacuna, falha ou desvio pode ser, no limite, considerado… uma questão de estilo. Falar em estilo na língua portuguesa remete-nos, imediatamente, a certa escala de valores que não apenas as frases, as orações e os períodos contêm, mas que também as palavras, isoladamente ou não, possuem. Assim, da mesma maneira que temos, no que compete à gramática da língua, as categorias essenciais (substantivos, verbos, adjetivos), auxiliares (artigos, preposições) e determinantes (advérbios, numerais), nas quais os vocábulos se subdividem, em termos de estilo essas categorias são também fundamentais para que possamos apreender a língua não em sua estrutura morfossintática, mas em sua configuração estilística. Uma frase como “Aires não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma cousa”, retirada do romance Memorial de Aires, de Machado de Assis, é reveladora não apenas pelo sentido que ela tem para a economia do romance, mas também em razão do peso que os verbos possuem no período, ora pelo jogo de oposições entre singular e plural (pensava / pensavam); ora pela dicotomia entre afirmação e negação (pensava / não pensavam); ora pela mediação, entre os dois vocábulos, realizada pelo verbo percebeu (pensava / percebeu / pensavam); ora ainda pelo contraste entre dois tempos verbais, o pretérito imperfeito (pensava / pensavam) e o perfeito (percebeu). Tudo isso se torna significativo, literariamente falando, para a narrativa e, mais do que um traço morfossintático, é um traço estilístico marcante na escala de valores a que aqui nos referimos e que pode, ainda, ter uma natureza sinestésica, estando ligada a determinados sentidos humanos. Por exemplo, é muito comum associarmos determinadas palavras a determinados sentidos, criando assim – no âmbito da percepção estilística – imagens visuais, auditivas, táteis, olfativas ou gustativas. <https://tinyurl.com/y7wzrn8k> Acesso em: 07.11.2017. Adaptado. O autor menciona Memorial de Aires, de Machado de Assis, com o intuito de (FATEC 2018)
- A) destacar a preferência de Machado de Assis por um estilo calcado na linguagem informal, popular.
- B) revelar, pela frase do narrador, que o Conselheiro Aires mantinha-se indiferente às circunstâncias que o cercavam.
- C) demonstrar, por meio da análise de um trecho da obra machadiana, que a ausência de coesão entre forma e fundo não compromete o estilo.
- D) evidenciar como Machado de Assis articula recursos morfossintáticos de modo a construir, não somente a narrativa, mas também o próprio estilo.
- E) elucidar a oposição entre a concepção gramatical tradicionalista e a linguagem machadiana, caracterizada pelo desprendimento formal do autor.
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- O texto defende que as categorias gramaticais (inclusive verbos e tempos verbais) são também fundamentais para a configuração estilística da língua. Passo 2: O exemplo de Machado é apresentado justamente para ilustrar essa tese: o peso dos verbos (singular/plural, afirmação/negação, pretérito imperfeito/perfeito) produz significado literário e estilístico. Passo 3: Por isso a alternativa D é a correta, pois descreve exatamente essa articulação entre recursos morfossintáticos e a construção do estilo. Passo 4: A alternativa A está errada porque o trecho não revela linguagem informal. Passo 5: A alternativa B está errada porque confunde o recurso estilístico com a indiferença psicológica de Aires. Passo 6: A alternativa C está errada porque o texto defende justamente a conjunção entre forma e fundo, não a sua ausência. Passo 7: A alternativa E está errada porque o texto não contrapõe uma gramática tradicional a um desprendimento formal de Machado.
💡 Dica: Identifique a tese do texto e pergunte qual função o exemplo literário cumpre nela.
Alternativa por alternativa
O aluno associa a obra a uma linguagem coloquial, confundindo estilo literário com registro informal.
O aluno lê a frase apenas como caracterização psicológica do personagem e ignora o papel estilístico dos verbos.
O aluno inverte a tese do texto, pensando que forma e fundo podem ser dissociados sem prejuízo do estilo.
Por que engana: Tomar o exemplo literário como tema do texto ou confundir estilo com registro informal
CORRETA. O trecho de Machado mostra como oposições entre verbos (singular/plural, afirmação/negação, imperfeito/perfeito) constroem sentido na narrativa e configuram o estilo, exatamente a tese do texto.
O aluno cria uma oposição inexistente no texto entre gramática tradicional e liberdade formal de Machado.
Raio-X da questão
Estilo e recursos morfossintáticos (verbos e tempos verbais)
avaliacao
Classes gramaticais e tempos verbais · Leitura inferencial de textos argumentativos
Efeitos de sentido de verbos e tempos verbais
Tomar o exemplo literário como tema do texto ou confundir estilo com registro informal
pensamento_critico
literario
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🔎 Resolver outra questão
Cole o enunciado e veja a resolução passo a passo, a alternativa correta e por que as outras estão erradas.
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