Como um lugar pode ser chamado de “vazio” quando há gente nele? Em um dossiê de um museu, dois registros sobre…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Comparar os significados de território, fronteiras e vazio (espacial, temporal e cultural) em diferentes sociedades, contextualizando e relativizando visões dualistas (civilização/barbárie, nomadismo/sedentarismo, esclarecimento/obscurantismo, cidade/campo, entre outras).
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Como um lugar pode ser chamado de “vazio” quando há gente nele? Em um dossiê de um museu, dois registros sobre a ocupação britânica na Austrália aparecem lado a lado. No primeiro, um funcionário colonial descreve áreas do litoral como “terras ermas” e defende que, por não haver “cultivo cercado” nem “aldeias permanentes”, poderiam ser distribuídas a novos proprietários, com limites traçados em linhas retas e marcos. No segundo, um ancião aborígene relata que certos caminhos, fontes e formações rochosas compõem rotas de canto e memória, onde diferentes grupos têm deveres de cuidado, passagem e troca; por isso, “ninguém é dono sozinho”, mas há regras sobre quem pode usar cada lugar e quando. Os dois textos foram usados, em épocas distintas, para justificar decisões políticas sobre posse e administração dessas terras. Interprete o contraste entre os registros e identifique como a noção de “vazio” foi mobilizada para definir território e fronteiras nesse processo histórico.
- A) Sustentar que a ideia de “vazio” apenas descreveu fronteiras naturais preexistentes, depois reconhecidas pelos colonizadores.
- B) Sustentar que a ideia de “vazio” se refere somente à baixa densidade populacional e não interfere em critérios de posse.
- C) Sustentar que a ideia de “vazio” prova a ausência de território indígena, já que mobilidade impede pertencimento ao espaço.
- D) Sustentar que a ideia de “vazio” aproxima as visões, pois ambas entendem o território como propriedade individual fixa.
- E) Sustentar que a ideia de “vazio” negou territorialidades indígenas para impor propriedade e fronteiras lineares baseadas no Estado.
✅ Resposta correta: alternativa E
Resolução passo a passo
- O enunciado opõe dois registros. No primeiro, o funcionário colonial chama as terras de 'ermas' porque não vê cultivo cercado nem aldeias permanentes, e propõe distribuí-las com limites em linhas retas e marcos. No segundo, o ancião descreve um território organizado por caminhos, fontes e rochas, com regras de uso, deveres de cuidado e trocas entre grupos. Passo 2: A noção de 'vazio' funciona como um critério de vistoria: só se considera vazio o que não se enquadra no modelo europeu de ocupação fixa, cercada e individual. Por isso, ela ignora a presença e a organização territorial dos povos aborígenes. Passo 3: Ao dizer que a terra está vazia, o registro colonial apaga as territorialidades indígenas e legitima a apropriação. Com isso, abre caminho para fronteiras lineares, traçadas e garantidas pelo Estado, que substituem as rotas e regras de uso compartilhado. Passo 4: A alternativa E descreve exatamente esse mecanismo: o vazio negou as territorialidades indígenas para impor propriedade e fronteiras lineares ligadas ao Estado. Passo 5: Por que as outras estão erradas. A) Está errada porque o vazio não descreveu fronteiras naturais preexistentes; ele foi uma construção que ignorou fronteiras indígenas. B) Está errada porque a noção de vazio foi usada justamente para justificar critérios de posse, e não é apenas uma medida de densidade. C) Está errada porque a mobilidade não anula o pertencimento territorial; o texto do ancião mostra um território organizado por rotas e regras. D) Está errada porque as visões são opostas: uma entende a terra como propriedade individual fixa e a outra como uso compartilhado com regras. Passo 6: Não há dados faltantes no enunciado, então a análise é completa com o texto disponível.
💡 Dica: Compare as visões dos dois registros sobre a ocupação e o conceito de território.
Alternativa por alternativa
O aluno acredita que o vazio apenas registrou fronteiras naturais já existentes e que os colonizadores apenas as reconheceram. Ele ignora que a noção de vazio foi uma construção que apagou fronteiras indígenas.
O aluno entende que vazio significa só baixa densidade populacional, sem relação com posse. Não percebe que o texto mostra o termo sendo usado para justificar distribuição de terras.
O aluno associa mobilidade à ausência de território, achando que quem circula não pertence ao espaço. Desconsidera o segundo registro, que descreve território organizado por rotas, regras e deveres.
O aluno supõe que ambos os registros pensam o território como propriedade individual fixa, por confundir o uso compartilhado com ausência de posse. Não percebe que o ancião afirma explicitamente que ninguém é dono sozinho.
O “vazio” é cultural/jurídico: desconsidera regras e vínculos indígenas para legitimar demarcação estatal e posse privada.
Raio-X da questão
noção de vazio e território
diagnostico
colonialismo e ocupação territorial · direitos indígenas e cultura aborígene
estude conceitos de território e colonização
Confundir a noção de vazio com ausência absoluta de pessoas, ignorando perspectivas culturais distintas.
cidadania_etica
pensamento_critico
historico
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