Leia a “Lira XIV”, da primeira parte de Liras de Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga. Lira XIV Minha…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Leia a “Lira XIV”, da primeira parte de Liras de Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga. Lira XIV Minha bela Marília, tudo passa; A sorte deste mundo é mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça, Estão os mesmos Deuses Sujeitos ao poder do ímpio Fado: Apolo já fugiu do céu brilhante Já foi Pastor de gado. A devorante mão da negra Morte Acaba de roubar o bem que temos Até na triste campa não podemos Zombar do braço da inconstante sorte; Qual fica no Sepulcro, Que seus avós ergueram, descansado; Qual no campo, e lhe arranca os frios ossos Ferro do torto arado. Ah! enquanto os Destinos impiedosos Não voltam contra nós a face irada, Façamos, sim, façamos, doce amada, Os nossos breves dias mais ditosos. Um coração que, frouxo, A grata posse de seu bem difere, A si, Marília, a si próprio rouba, E a si próprio fere. Ornemos nossas testas com as flores E façamos de feno um brando leito; Prendamo-nos, Marília, em laço estreito, Gozemos do prazer de sãos Amores, Sobre as nossas cabeças, Sem que o possa deter, o tempo corre; E para nós o tempo, que se passa, Também, Marília, morre. Com os anos, Marília, o gosto falta, E se entorpece o corpo já cansado; Triste, o velho cordeiro está deitado, E o leve filho sempre alegre salta. A mesma formosura É dote que só goza a mocidade: Rugam-se as faces, o cabelo alveja, Mal chega a longa idade. Que havemos d’esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias; E pode enfim mudar-se a nossa estrela. Ah! não, minha Marília, Aproveite-se o tempo, antes que faça O estrago de roubar ao corpo as forças, E ao semblante a graça. GONZAGA, Tomás Antonio. Marília de Dirceu. Org.e edição de Melânia Silva de Aguiar. Rio de Janeiro: Garnier, 1992. Considerando a lira, a integridade do livro e as características gerais do poeta, assinale a alternativa correta. (UFPR 2024)
- A) Contrariamente aos humanos, os deuses conseguem escapar aos desígnios e artimanhas do destino.
- B) A linguagem simples e direta, que caracteriza a poesia de Gonzaga, está exemplificada nessa lira pela inexistência de personificações.
- C) A citação do deus Apolo estabelece um contraponto com as demais liras do livro, nas quais há muitas referências cristãs.
- D) Em todas as estrofes dessa lira, o quinto e o sétimo versos não rimam entre si e nem com os outros versos.
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- Leio a lira e observo a estrutura. Ela tem seis estrofes de oito versos, e o padrão de rimas é claro. Passo 2: Verifico o quinto e o sétimo versos de cada estrofe. Na primeira, 'Deuses' (v.5) e 'brilhante' (v.7) não rimam entre si nem com outros versos. Na segunda, 'Sepulcro' (v.5) e 'ossos' (v.7) não rimam. Na terceira, 'frouxo' (v.5) e 'rouba' (v.7) não rimam. Na quarta, 'cabeças' (v.5) e 'passa' (v.7) não rimam. Na quinta, 'formosura' (v.5) e 'alveja' (v.7) não rimam. Na sexta, 'Marília' (v.5) e 'forças' (v.7) não rimam. Passo 3: Portanto a alternativa D está correta, pois em todas as estrofes esses dois versos ficam sem rima, tanto entre si quanto com os demais. Passo 4: A alternativa A está errada, porque o texto afirma que 'Estão os mesmos Deuses sujeitos ao poder do ímpio Fado', ou seja, os deuses também não escapam ao destino. Passo 5: A alternativa B está errada, porque a lira usa personificações como 'a devorante mão da negra Morte', 'os Destinos impiedosos', 'a inconstante sorte' e 'o tempo corre'. Passo 6: A alternativa C está errada, porque a lira cita deuses e figuras da mitologia greco-romana, como Apolo, e não há uma tradição cristã predominante nas liras do livro. Passo 7: O gabarito oficial D coincide com a minha resolução.
💡 Dica: Leia atentamente o poema e relacione com o contexto do autor e obra.
Alternativa por alternativa
O aluno entende que os deuses, por sua natureza divina, estão acima do destino e não sofrem seus efeitos. O texto contraria essa ideia ao afirmar que os próprios deuses estão sujeitos ao poder do Fado.
O aluno associa linguagem simples e direta à ausência de figuras de linguagem e acredita que a lira não tem personificações. Na verdade, o poema personifica a Morte, o Destino, a Sorte e o Tempo.
O aluno supõe que a menção a Apolo rompe com o restante do livro por se tratar de uma divindade, e imagina que as demais liras teriam forte presença cristã. Marília de Dirceu é marcada pela mitologia greco-romana, e não pela referência cristã.
CORRETA. A análise do esquema de rimas mostra que, em todas as estrofes, o quinto e o sétimo versos não rimam entre si nem com os outros versos, característica formal da lira.
Raio-X da questão
interpretação de poema clássico
diagnostico
interpretação de texto literário · conhecimento de poesia lírica
estudo de poesia lírica e contexto histórico-literário
Confundir o tema do poema com outros temas literários ou interpretar fora do contexto histórico do autor.
pensamento_critico
literario
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