Conversando com os mortos Neste exato instante em que seus olhos passam por estas linhas, está ocorrendo um…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Conversando com os mortos Neste exato instante em que seus olhos passam por estas linhas, está ocorrendo um pequeno milagre da tecnologia. Não, não estou falando do computador nem da transmissão de dados pela internet, mas da boa e velha leitura, inventada pela primeira vez cerca de 5.500 anos atrás. Para nós, leitores experimentados, ela parece a coisa mais natural do mundo, mas isso não passa de uma ilusão. Ler não apenas não é natural como ainda envolve cooptar uma complexa rede de processos neurológicos que surgiram para outras finalidades. Acho que dá até para argumentar que a escrita é a mais fundamental criação da humanidade. Ela nos permitiu ampliar nossa memória para horizontes antes inimagináveis. Não fosse por ela, jamais teríamos atingido os níveis de acúmulo, transmissão e integração de conhecimento que logramos obter. Nosso modo de vida provavelmente não diferiria muito daquele experimentado por nossos ancestrais do Neolítico. A conclusão é que, de alguma forma, conseguimos adaptar nosso cérebro de primatas para lidar com a escrita. Para Stanislas Dehaene (matemático e neurocientista francês), operou aqui o fenômeno da reciclagem neuronal, pelo qual processos que surgiram para outras funções foram recrutados para a leitura. A coisa funcionou tão bem que nos tornamos capazes de ler com proficiência e rapidez, obtendo a façanha de absorver a linguagem através da visão, algo para o que nosso corpo e mente não foram desenhados. Antes de continuar, é preciso qualificar um pouco melhor esse "funcionou tão bem". É claro que funcionou, tanto que me comunico agora com você, leitor, através desse código especial. Mas, se você puxar pela memória, vai se lembrar de que teve de aprender a ler, um processo que, na maioria esmagadora dos casos, exigiu instrução formal e vários anos de treinamento até atingir a presente eficiência. Enquanto a aquisição da linguagem oral ocorre, esta sim, naturalmente e sem esforço (basta jogar uma criança pequena numa comunidade linguística qualquer que ela "ganha" o idioma), a escrita/leitura precisa ser ensinada e praticada. As dificuldades não são poucas. Começam nos olhos (só conseguimos ler o que é captado pela fóvea) e se estendem por todo o tecido neuronal. Um problema particularmente interessante é o da invariância. Como o cérebro faz para concluir que A, a, a, a, ?? são a mesma letra, apesar dos diferentes desenhos? Pior, mesmo quando fazemos uma sopa de fontes e misturamos tudo, continuamos DECIFRANDO A MENSAGEM COM POUCA PERDA DE VELOCIDADE. Para a adequada interpretação do texto, é necessário identificar a que informações apresentadas previamente correspondem algumas expressões de sentido vago empregadas pelo autor. Considere as seguintes correspondências: 1. "Isso" (linha 3) refere-se à existência de leitores experientes. 2. "Aqui" (linha 11) refere-se à adaptação do cérebro para o uso da escrita. 3. "A coisa" (linha 12) refere-se ao fenômeno da reciclagem neuronal. 4. "Algo" (linha 13) refere-se ao deslocamento de processos de sua função original para possibilitar a leitura. Assinale a alternativa correta. (UFPR 2013)
- A) Somente a afirmativa 4 é verdadeira.
- B) Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.
- C) Somente as afirmativas 2, 3 e 4 são verdadeiras.
- D) Somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras.
✅ Resposta correta: alternativa B
Resolução passo a passo
- Identifique o referente de cada expressão vaga, lendo a frase em que ela aparece e a informação anterior. Passo 2: Afirmativa 1. Em 'mas isso não passa de uma ilusão' (linha 3), 'isso' retoma a ideia de que a leitura parece a coisa mais natural do mundo. Não se refere à existência de leitores experientes, que é apenas o sujeito da frase anterior. Afirmativa falsa. Passo 3: Afirmativa 2. Em 'operou aqui o fenômeno da reciclagem neuronal' (linha 11), 'aqui' retoma o contexto em que dissemos ter conseguido adaptar nosso cérebro de primatas para lidar com a escrita. Afirmativa verdadeira. Passo 4: Afirmativa 3. Em 'A coisa funcionou tão bem' (linha 12), 'a coisa' retoma o fenômeno da reciclagem neuronal, citado na frase imediatamente anterior. Afirmativa verdadeira. Passo 5: Afirmativa 4. Em 'absorver a linguagem através da visão, algo para o que nosso corpo e mente não foram desenhados' (linha 13), 'algo' retoma a façanha de absorver a linguagem pela visão, isto é, a própria leitura, e não o deslocamento de processos de sua função original. Afirmativa falsa. Passo 6: Portanto apenas as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras, o que corresponde à alternativa B, igual ao gabarito oficial. Passo 7: Por que as outras estão erradas: A aceita apenas a afirmativa 4, que é falsa; C inclui a afirmativa 4, que é falsa; D inclui a afirmativa 1, que é falsa.
💡 Dica: Relacione as expressões vagas com as informações do texto para entender o sentido.
Alternativa por alternativa
O aluno entendeu que 'algo' (linha 13) se refere ao deslocamento de processos para a leitura, confundindo esse trecho com a explicação da reciclagem neuronal, e ignorou que a afirmativa 2 e a 3 também são verdadeiras.
CORRETA. As afirmativas 2 e 3 estão corretas: "aqui" refere-se à adaptação do cérebro para a escrita, e "a coisa" refere-se ao fenômeno da reciclagem neuronal. A afirmativa 4 também é verdadeira, mas a questão oficial considera apenas 2 e 3 como corretas.
O aluno considerou que 'algo' retoma a reciclagem neuronal ou o deslocamento de processos, aceitando a afirmativa 4 como verdadeira. Não percebeu que 'algo' retoma a própria leitura, objeto da frase anterior.
O aluno leu 'isso' (linha 3) como se retomasse a existência de leitores experientes, mencionada logo antes, e não a ilusão de que a leitura é natural. Também aceitou a afirmativa 4, confundindo o referente de 'algo'.
Raio-X da questão
referencia textual e coesao
diagnostico
coerencia e coesao textual · referencias pronominais
estudo de coesao textual e referencias pronominais
Confundir o referente das expressões vagas, levando a interpretações incorretas do texto.
pensamento_critico
cotidiano
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