ENEM - 2014 Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
ENEM - 2014 Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai. Reconheço que era um modelo. Arguíam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a óleo. ASSIS, M. **Memórias póstumas de Brás Cubas.** Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. Obra que inaugura o Realismo na literatura brasileira, _Memórias póstumas de Brás Cubas_ condensa numa expressividade que caracterizaria o estilo machadiano: a ironia. Descrevendo a moral de seu cunhado, Cotrim, o narrador-personagem Brás Cubas refina a percepção irônica ao Descrevendo a moral de seu cunhado, Cotrim, o narrador-personagem Brás Cubas refina a percepção irônica ao
- A) Acusar o cunhado de ser avarento para confessar-se injustiçado na divisão da herança paterna.
- B) Atribuir a “efeito de relações sociais” a naturalidade com que Cotrim prendia e torturava os escravos.
- C) Considerar os “sentimentos pios” demonstrados pelo personagem quando da perda da filha Sara.
- D) Menosprezar Cotrim por ser tesoureiro de uma confraria e membro remido de várias irmandades.
- E) Insinuar que o cunhado era um homem vaidoso e egocêntrico, contemplado com um retrato a óleo.
✅ Resposta correta: alternativa B
Resolução passo a passo
- O enunciado pede como Brás Cubas, ao descrever a moral de Cotrim, usa a ironia. Resolvendo por conta própria, o ponto central está no trecho em que o narrador afirma que o trato duro com os escravos não vem da índole original de Cotrim, mas é 'puro efeito de relações sociais', já que ele 'habituara-se' a isso no contrabando de escravos.
- Essa justificativa é irônica. O narrador tenta absolver Cotrim de uma crueldade evidente (mandar escravos ao calabouço, de onde desciam 'a escorrer sangue'), atribuindo-a ao contexto social, o que faz a naturalidade da violência parecer aceitável. A alternativa B descreve exatamente esse movimento: atribuir a 'efeito de relações sociais' a naturalidade com que Cotrim prendia e torturava os escravos. A palavra 'torturava' é uma leitura mais forte do que o texto diz explicitamente, mas o sentido geral está correto.
- Comparando com o gabarito oficial, que é B, encontro a mesma resposta. Não há discordância.
- Por que as outras estão erradas. A: o narrador admite ter sido injusto com Cotrim, mas não acusa o cunhado de avareza para se queixar da herança; ele apenas reconhece que a acusação de avareza tinha fundamento. C: 'Sara' é a esposa de Cotrim, não filha, e o narrador cita a dor pela morte dela como prova dos sentimentos pios, sem ironia ali. D: o narrador valoriza os cargos religiosos como evidência de piedade, não como motivo de menosprezo. E: o retrato a óleo foi encomendado pela irmandade em homenagem a Cotrim, não por vaidade dele, e não há insinuação de egocentrismo no texto.
💡 Dica: Analise o texto para identificar características do personagem Cotrim e sua relação com as virtudes mencionadas.
Alternativa por alternativa
O aluno identifica a menção à injustiça do narrador e conclui que a crítica à avareza serve para ele se queixar da herança, sem perceber que a admissão de injustiça é um reconhecimento do próprio narrador.
Está correta, pois o narrador atribui a brutalidade de Cotrim a 'efeito de relações sociais', ironizando sua moralidade.
O aluno confunde Sara com uma filha de Cotrim e toma os sentimentos pios como elogio sincero, sem perceber que o narrador os apresenta como prova ironicamente exagerada de uma moral que é, no fundo, questionável.
Por que engana: Confundir a crítica social com a defesa do personagem, interpretando erroneamente a relação entre avareza e virtudes.
O aluno lê literalmente o trecho em que a condição de tesoureiro e irmão remido 'não se coaduna' com a avareza e inverte o sentido, imaginando que o narrador despreza esses cargos, quando na verdade os usa como prova de piedade.
O aluno associa o retrato a óleo a vaidade pessoal e supõe que o narrador insinua egocentrismo, sem notar que a encomenda foi feita pela irmandade e não pelo próprio Cotrim.
Raio-X da questão
interpretação de texto literário, análise de personagem
avaliacao
interpretação de texto literário · análise de personagem
Revisar interpretação de textos literários e análise de personagens em narrativas.
Confundir a crítica social com a defesa do personagem, interpretando erroneamente a relação entre avareza e virtudes.
cidadania_etica
pensamento_critico
literario
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