PESCANDO NA MARGEM DO RIO Era um homem muito velho, que cada manhã acordava certo de que aquela seria a…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Utilizar as diferentes linguagens, levando em conta seus funcionamentos, para a compreensão e produção de textos e discursos em diversos campos de atuação social.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
PESCANDO NA MARGEM DO RIO Era um homem muito velho, que cada manhã acordava certo de que aquela seria a última. E porque seria a última, pegava o caniço, a latinha de iscas, e ia pescar na beira do rio. As poucas pessoas que ainda se ocupavam dele reclamaram, a princípio. Que aquilo era perigoso, que ficava muito só, que poderia ter um mal súbito. Depois, considerando que um mal súbito seria solução para vários problemas, deixaram que fosse, e logo deixaram de reparar quando ia. O velho entrou, assim, na categoria dos ausentes. Ausente para os outros, continuava docemente presente para si mesmo. Ia ao rio com a alma fresca como a manhã. Demorava um pouco a chegar porque seus passos eram lentos, mas, não tendo pressa alguma, o caminho lhe era só prazer. Não havia nada ali que não conhecesse, as pedras, as poças, as árvores, e até o sapo que saltava na poça e as aves que cantavam nos galhos, tudo lhe era familiar. E embora a natureza não se curvasse para cumprimentá-lo, sabia-se bem-vindo. O dia escorria mais lento que a água. Quando algum peixe tinha a delicadeza de morder o seu anzol, ele o limpava ali mesmo, cuidadoso, e o assava sobre um fogo de gravetos. Quando nenhuma presença esticava a linha do caniço, comia o pão que havia trazido, molhado no rio para não ferir as gengivas desguarnecidas. À noite, em casa, ninguém lhe perguntava como havia sido o seu dia. Fazia-se mais fraco, porém. E chegou a manhã em que, debruçando-se sobre a água antes mesmo de prender a isca na barbela afiada, viu faiscar um brilho novo. Apertou as pálpebras para ver melhor, não era um peixe. Movido pela correnteza, um anzol bem maior do que o seu agitava-se, sem isca. Por mais que se esforçasse, não conseguiu ver a linha, enxergava cada vez menos. Nem havia qualquer pescador por perto. O velho não descalçou as sandálias, as pedras da margem eram ásperas. Entrou na água devagar, evitando escorregar. Não chegou a perceber o frio, o tempo das percepções havia acabado. Alongou-se na água, mordeu o anzol que havia vindo por ele, e deixou-se levar. O conto inteiro pode ser compreendido como um eufemismo, que procura atenuar o sentido do seguinte tema abordado na narrativa: (UERJ 2020)
- A) a limitação da velhice
- B) a decadência do corpo
- C) a indiferença da família
- D) a proximidade da morte
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- O conto narra um velho que, aos poucos, torna-se ausente para os outros, vai ao rio, sente-se cada vez mais fraco e, no final, entra na água, alonga-se e deixa-se levar pela correnteza, mordendo um anzol que não é de peixe. O sentido que o texto atenua é a morte, tratada de forma suave e poética. Passo 2: Eufemismo é a substituição de uma ideia desagradável por outra mais suave. Aqui a morte aparece como uma última pescaria, sem ser nomeada. Passo 3: As pistas do texto estão no início, quando o velho acorda certo de que aquela seria a última manhã, e no final, com o anzol maior que o seu agitando-se sem isca, a ausência de percepção do frio ('o tempo das percepções havia acabado') e a entrega final ('deixou-se levar'). Passo 4: A alternativa D, a proximidade da morte, é o tema que o conto suaviza, por isso está correta e coincide com o gabarito oficial. Passo 5: Por que as outras estão erradas: A) a limitação da velhice aparece como cenário, mas não é o que o desfecho atenua, pois o conto termina com a morte e não apenas com a limitação. B) a decadência do corpo é mencionada (fraqueza, gengivas desguarnecidas), mas funciona apenas como sinal que prepara o desfecho. C) a indiferença da família aparece no texto, mas serve para mostrar o isolamento do velho, não como tema que o eufemismo atenua.
💡 Dica: Analise o texto para identificar o tema central e o sentido do eufemismo.
Alternativa por alternativa
Entendeu que o envelhecimento é o assunto central do conto, confundindo o cenário (passos lentos, fraqueza) com o tema que o eufemismo suaviza.
Por que engana: Confundir o eufemismo com temas literais como velhice ou decadência, sem perceber que o texto trata da morte de forma indireta.
Tomou as marcas físicas, como a fraqueza e as gengivas desguarnecidas, como o núcleo do texto, sem perceber que são apenas indícios do desfecho.
Focou no abandono social do velho (os ausentes, ninguém pergunta como foi o dia) como tema principal, sem perceber que esse isolamento prepara a morte e não é o assunto atenuado.
CORRETA. O conto utiliza o eufemismo da pescaria para suavizar e simbolizar a proximidade e a chegada da morte do personagem.
Raio-X da questão
eufemismo e tema da morte
avaliacao
interpretação de texto literário · reconhecimento de figuras de linguagem
estudo de eufemismos e interpretação de textos literários
Confundir o eufemismo com temas literais como velhice ou decadência, sem perceber que o texto trata da morte de forma indireta.
pensamento_critico
literario
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