TEXTO II Ele está cansado, é quase meia-noite, e pode afinal voltar para casa. (...). No edifício da esquina…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
TEXTO II Ele está cansado, é quase meia-noite, e pode afinal voltar para casa. (...). No edifício da esquina, o mesmo cachorro de focinho enterrado na lata de lixo. Ao passar sob as árvores, ao menor arrepio do vento, gotas borrifam-lhe o rosto, que ele não se incomoda de enxugar. Ao mexer no portão, o cachorrinho late duas vezes – estou aqui, meu velho – e, por mais que saltite ao seu lado, procurando alcançar-lhe a mão, ele não o agrada. (...) Prevenido, desvia-se do aquário sobre o piano: o peixinho dourado conhece os seus passos e de puro exibicionismo entrega-se às mais loucas evoluções. Ele respira fundo e, cabisbaixo, entra no quarto. A mulher, sentada na cama, a folhear sempre uma revista (é a mesma revista antiga), olha para ele, mas ele não a olha. No banheiro, veste em surdina o pijama e, ao lavar as mãos, recolhe da pia os longos cabelos alheios. Escova de leve os dentes, sem evitar que sangrem as gengivas. – Ai, como é triste a velhice... – confessa para o espelho, e são palavras que não querem dizer nada. Aperta as torneiras da pia, do chuveiro e do bidê – se uma delas pingasse ele já não poderia dormir. Na passagem, apanha o livro sobre o guarda-roupa – ele a olhou de relance, mas ela não o olhou – e dirige-se para a sala, onde acende a lâmpada ao lado da poltrona. Em seguida, descalço, sobe na cadeira e com a chave dá corda ao relógio. Entra na cozinha e, ao abrir a luz, pretende não ver a mesma barata na sua corrida tonta pelos cantos. Deita um jarro d’água no filtro e bebe meio copo, que enxuga no pano e põe de volta no armário. Antes de sentar na poltrona, detém-se diante do quarto da filha – a porta está aberta, mas ele não entra. Esboça um aceno e presto encolhe a mão. Por mais que afine o ouvido não escuta o bafejo da criança em sossego – e se ela deixou de respirar? (...) Abre o livro e concentra-se na leitura: frases sem nenhum sentido. Na casa silenciosa, apenas o voltejar das folhas lá no quarto, às suas costas o peixinho estala o bico a modo de um velho que rumina a dentadura. Por vezes, cansado demais, cabeceia e o livro cai-lhe no joelho – enquanto não se apaga a luz do quarto ele não vai deitar. (...) Está salvo desde que ignore a porta do quarto da filha; ergue, com esforço, as pálpebras pesadas de sono e lê mais algumas linhas, evitando levar a mão ao rosto, onde um músculo dispara de repente a tremer no canto da boca. (...) Ao extinguir-se enfim a outra luz, ele deixa passar alguns minutos e, arrastando os pés no tapete, recolhe-se ao quarto, acende a lâmpada do seu criado-mudo, com cautela infinita para não encarar a esposa que, voltada para o seu lado, pode estar com um olho aberto ou, quem sabe, até com um sorriso nos lábios. (...) Será uma grande demora até que na rua clarinem* as primeiras buzinas – os galos da cidade. (...) Prepara-se para a noite em que há de entrar numa casa deserta e, ao abrir a porta, assobiará duas notas, uma breve, outra longa: todos os quartos vazios, o assobio é para a sua alma irmã, a baratinha no canto escuro. (...) Longe vai a manhã, mas resta-lhe o consolo de que, ao saltar do leito, esquecerá entre os lençóis o fantasma do seu terror noturno. Outra vez ergue-se no quarto o ressonar tranquilo da esposa; cuidadoso de não ranger o colchão, ele volta-se para o outro lado. Pouco importa se nunca mais chegar a dormir. Afinal você não pode ter tudo. DALTON TREVISAN A guerra conjugal. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. * Clarinem - soem como clarim ... (UERJ 2012)
✍️ Questão dissertativa: veja abaixo a resposta esperada e a explicação.
Resposta esperada
Mete1fora visual: aranha de metal Avaliae7e3o positiva: instrumento de mfasica Ponto de vista neutro: o telefone ou o aparelho Julgamento pejorativo: aquela fria coisa ou a me1quina
Explicação
Leia atentamente o texto, identifique as emoções e ações do personagem, e relacione-as com o contexto narrativo para fundamentar a resposta com exemplos do texto.
Raio-X da questão
interpretação de texto literário
diagnostico
interpretação de textos literários · análise de sentimentos e ações
estudo de análise e interpretação de textos literários
O aluno pode interpretar literalmente as ações do personagem, sem perceber as nuances emocionais e simbólicas presentes no texto.
pensamento_critico
literario
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