ENEM - 2009 **Texto I** \[…\] já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
ENEM - 2009 **Texto I** \[…\] já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio — definitivamente fora de foco — cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes \[…\]. NASSAR, R. **Um copo de cólera**. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. **Texto II** Raduan Nassar lançou a novela Um Copo de Cólera em 1978, fervilhante narrativa de um confronto verbal entre amantes, em que a fúria das palavras cortantes se estilhaçava no ar. O embate conjugal ecoava o autoritário discurso do poder e da submissão de um Brasil que vivia sob o jugo da ditadura militar. COMODO, R. Um silêncio inquietante. **IstoÉ.** Disponível em: http://www.terra.com.br. Acesso em: 15 jul. 2009. Na novela Um Copo de Cólera, o autor lança mão de recursos estilísticos e expressivos típicos da literatura produzida na década de 70 do século passado no Brasil, que, nas palavras do crítico Antonio Candido, aliam “vanguarda estética e amargura política”. Com relação à temática abordada e à concepção narrativa da novela, o texto I Na novela Um Copo de Cólera, o autor lança mão de recursos estilísticos e expressivos típicos da literatura produzida na década de 70 do século passado no Brasil, que, nas palavras do crítico Antonio Candido, aliam “vanguarda estética e amargura política”. Com relação à temática abordada e à concepção narrativa da novela, o texto I
- A) É escrito em terceira pessoa, com narrador onisciente, apresentando a disputa entre um homem e uma mulher em linguagem sóbria, condizente com a seriedade da temática político-social do período da ditadura militar.
- B) Articula o discurso dos interlocutores em torno de uma luta verbal, veiculada por meio de linguagem simples e objetiva, que busca traduzir a situação de exclusão social do narrador.
- C) Representa a literatura dos anos 70 do século XX e aborda, por meio de expressão clara e objetiva e de ponto de vista distanciado, os problemas da urbanização das grandes metrópoles brasileiras.
- D) Evidencia uma crítica à sociedade em que vivem os personagens, por meio de fluxo verbal contínuo de tom agressivo.
- E) Traduz, em linguagem subjetiva e intimista, a partir do ponto de vista interno, os dramas psicológicos da mulher moderna, às voltas com a questão da priorização do trabalho em detrimento da vida familiar e amorosa.
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- No Texto I, o narrador fala em primeira pessoa (me, meu, minhas preocupações) e expressa desilusão, revolta e cinismo diante de valores como amor, amizade, família e igreja. A linguagem é coloquial e agressiva (me lixo com tudo isso, ninguém arruma a casa do capeta), e o discurso avança em fluxo contínuo, sem pausas narrativas.
- Esse tom corresponde ao conflito verbal da novela Um Copo de Cólera, que o Texto II descreve como fervilhante narrativa de um confronto verbal entre amantes, marcado por palavras cortantes e pela crítica ao autoritarismo do poder e da submissão durante a ditadura militar.
- Assim, a alternativa D é a correta: ela afirma que a obra evidencia uma crítica à sociedade em que vivem os personagens, por meio de fluxo verbal contínuo de tom agressivo. Isso reúne a crítica social, a continuidade do discurso e a agressividade do tom.
- Por que as outras alternativas estão erradas: A está errada porque a narrativa é em primeira pessoa e a linguagem é agressiva, não sóbria. B está errada porque a linguagem não é simples nem objetiva, e o narrador não sofre exclusão social imposta, pois escolheu o exílio. C está errada porque o texto não trata de urbanização nem tem ponto de vista distanciado, já que o narrador é envolvido e emotivo. E está errada porque o narrador é masculino e o tema não é a priorização do trabalho pela mulher moderna, mas a descrença em valores.
- Resolvendo a questão sem olhar o gabarito, cheguei à alternativa D, que coincide com o gabarito oficial.
💡 Dica: Leia atentamente os textos para compreender o contexto e as intenções do autor.
Alternativa por alternativa
Acredita que a obra usa narração em terceira pessoa e linguagem sóbria por tratar de tema político, sem perceber a voz em primeira pessoa e o tom agressivo.
Por que engana: O aluno pode confundir a crítica social com a análise de aspectos psicológicos, escolhendo uma alternativa que foca na subjetividade em vez da agressividade do discurso.
Interpreta a fala como exclusão social imposta ao narrador e a linguagem como simples e objetiva, sem reconhecer que o narrador escolheu o exílio e que o discurso é cortante.
Associa a literatura dos anos 70 à temática da urbanização e a um ponto de vista distanciado, levando o aluno a uma visão genérica do período sem analisar o texto.
Correta, pois o texto apresenta um fluxo verbal contínuo e agressivo que critica a sociedade e os valores da época.
Supõe que linguagem intimista implica um drama psicológico feminino sobre trabalho e vida familiar, ignorando que o narrador é masculino e que o tema central é a descrença em valores.
Raio-X da questão
interpretação de texto literário
fixacao
interpretação de texto literário
Revisar técnicas de análise e interpretação de textos literários complexos.
O aluno pode confundir a crítica social com a análise de aspectos psicológicos, escolhendo uma alternativa que foca na subjetividade em vez da agressividade do discurso.
cidadania_etica
pensamento_critico
literario
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