MEIRELES, Cecília. Da solidão. In: MEIRELES, Cecília. Janela Mágica. São Paulo: Global, 2016, pp. 71-74. 23…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
MEIRELES, Cecília. Da solidão. In: MEIRELES, Cecília. Janela Mágica. São Paulo: Global, 2016, pp. 71-74. 23 estático dos seus aspectos, mas também o mais 24 comunicável, o mais rico de sugestões, o mais capaz de 25 transmitir aquilo que excede os limites físicos desses 26 objetos, constituindo, de certo modo, seu espírito e sua 27 alma. 28 Façamo-nos também desse modo videntes: 29 olhemos devagar para a cor das paredes, o desenho das 30 cadeiras, a transparência das vidraças, os dóceis panos 31 tecidos sem maiores pretensões. Não procuremos neles a 32 beleza que arrebata logo o olhar, o equilíbrio de linhas, a 33 graça das proporções: muitas vezes seu aspecto – como o 34 das criaturas humanas – é inábil e desajeitado. Mas não é 35 isso que procuramos, apenas: é o seu sentido íntimo que 36 tentamos discernir. Amemos nessas humildes coisas a 37 carga de experiências que representam, e a repercussão, 38 nelas sensível, de tanto trabalho humano, por infindáveis 39 séculos. 40 Amemos o que sentimos de nós mesmos, nessas 41 variadas coisas, já que, por egoístas que somos, não 42 sabemos amar senão aquilo em que nos encontramos. 43 Amemos o antigo encantamento dos nossos olhos infantis, 44 quando começava a descobrir o mundo: as nervuras das 45 madeiras, com seus caminhos de bosques e ondas e 46 horizontes; o desenho dos azulejos; o esmalte das louças; 47 os tranquilos, metódicos telhados... Amemos o rumor da 48 água que corre, os sons das máquinas, a inquieta voz dos 49 animais, que desejaríamos traduzir. 50 Tudo palpita em redor de nós, e é como um dever 51 de amor aplicarmos o ouvido, a vista, o coração a essa 52 infinidade de formas naturais ou artificiais que encerram 53 seu segredo, suas memórias, suas silenciosas experiências. 54 A rosa que se despede de si mesma, o espelho onde pousa 55 o nosso rosto, a fronha por onde se desenham os sonhos 56 de quem dorme, tudo, tudo é um mundo com passado, 57 presente, futuro, pelo qual transitamos atentos ou 58 distraídos. Mundo delicado, que não se impõe com 59 violência; que aceita a nossa frivolidade ou o nosso 60 respeito; que espera que o descubramos, sem anunciar 61 nem pretender prevalecer; que pode ficar para sempre 62 ignorado, sem que por isso deixe de existir; que não faz da 63 sua presença um anúncio exigente " Estou aqui! estou 64 aqui! ". Mas, concentrado em sua essência, só se revela 65 quando os nossos sentidos estão aptos para descobrirem. 66 E que em silêncio nos oferece sua múltipla companhia, 67 generosa e invisível. 68 Oh! se vos queixais de solidão humana, prestai 69 atenção, em redor de vós, a essa prestigiosa presença, a 70 essa copiosa linguagem que de tudo transborda, e que 71 conversará convosco interminavelmente. A partir da leitura da crônica “Da solidão”, de Cecília Meireles, nota-se a presença dos seguintes elementos que caracterizam o estilo da escritora: (UECE 2023)
- A) uso da estética neossimbolista devido à ressignificação da relação entre o ser e a natureza.
- B) uso de muitos personagens para a composição de diferentes narrativas, apelando para elementos urbanos.
- C) preocupação com uma estética parnasianista, devido à rigidez na escrita, e com as escolhas temáticas.
- D) relação com o mundo material devido aos temas relacionados com as questões sociais.
✅ Resposta correta: alternativa A
Resolução passo a passo
- Resolvi a questão lendo o trecho. A crônica 'Da solidão' contempla objetos simples (paredes, cadeiras, vidraças, louças, azulejos), pede que o leitor olhe devagar e perceba o 'sentido íntimo' das coisas, fala de um 'mundo delicado' que se revela aos sentidos e enxerga na natureza (rosa, água, horizontes) um espelho da experiência humana. Há forte subjetividade, sensibilidade e espiritualização do cotidiano.
- Essas características se aproximam do Simbolismo e de sua herança pós-simbolista, com valorização da vida interior, das sensações, da musicalidade e da relação íntima entre o ser e a natureza. Por isso a alternativa A é a mais coerente com o texto. Vale notar que a classificação de Cecília Meireles como 'neossimbolista' é debatida, porque ela costuma ser situada na fase modernista, com influências simbolistas; a questão, porém, pede o elemento mais compatível com o trecho, e isso é A.
- Comparei com o gabarito oficial (A) e ele coincide com minha conclusão.
- Por que as demais estão erradas. B está errada porque o texto não tem personagens nem narrativas, e sim reflexão sobre objetos e natureza, sem cenário urbano como foco. C está errada porque o Parnasianismo prega rigor formal e objetividade, enquanto a crônica é livre, reflexiva e subjetiva. D está errada porque o texto não trata de questões sociais; a relação com o mundo material aparece como contemplação espiritual, não como crítica social.
💡 Dica: Leia atentamente o texto para identificar elementos do estilo da autora.
Alternativa por alternativa
CORRETA. A alternativa identifica corretamente o uso da estética neossimbolista, que se caracteriza pela ressignificação da relação entre o ser e a natureza, presente no texto de Cecília Meireles.
O aluno pode ter associado a crônica à narrativa urbana e à presença de muitas figuras, confundindo a crônica moderna com contos ou romances de costumes urbanos.
O aluno provavelmente tomou a 'descrição de objetos e cotidiano' como sinal de parnasianismo, ignorando que a crônica não tem rigidez formal nem busca de perfeição métrica ou impessoalidade.
O aluno provavelmente leu a relação com objetos e o 'trabalho humano' do texto como crítica social e material, sem perceber que a abordagem é contemplativa e espiritual, voltada à sensibilidade individual.
Raio-X da questão
elementos do estilo literario
diagnostico
analise textual basica · interpretacao de textos literarios
estudo de caracteristicas do estilo literario e analise textual
O aluno pode confundir elementos do estilo com temas ou enredo, ou nao identificar caracteristicas literarias especificas.
pensamento_critico
literario
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