Tragédia no RS apaga pessoas negras e escancara racismo ambiental No início dos anos 2000, viajei a Mato…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Tragédia no RS apaga pessoas negras e escancara racismo ambiental No início dos anos 2000, viajei a Mato Grosso do Sul para participar de um evento universitário. Lembro que na época eu causei espanto em alguns participantes ao dizer que eu era de Porto Alegre. A surpresa vinha acompanhada de um questionamento: “Não sabia que tinha negros no Rio Grande Sul”. Ao longo dos anos experimentei essa reação diversas vezes, em contextos e lugares diferentes. Essa percepção faz parte de um senso comum bastante arraigado no Brasil, e é fruto de um projeto de embranquecimento e apagamento das comunidades negras no estado. Um projeto bem-sucedido que há séculos invisibiliza não só a presença de pessoas negras, como também sua contribuição crucial na construção do estado. O imaginário popular é este: o Rio Grande do Sul é branco, constituído por uma grande colônia alemã, de ares europeus, lugar em que os moradores nem falam português. Um estereótipo que é reforçado pelas imagens dos municípios como Gramado e Canela, com seus chalés, fábricas de chocolates, vinhos e cafés coloniais. Obviamente que existe uma inegável contribuição da colonização europeia na formação do estado, no entanto, o que se coloca aqui é a supervalorização dessa cultura e o apagamento de outras. Segundo dados do próprio governo do estado, o Rio Grande do Sul tem uma população negra de 21%. Os levantamentos também mostram que os negros são os mais pobres, ganham salários mais baixos e têm menos acesso à educação e à saúde quando comparados aos brancos. Além disso, a representatividade na política é pequena: apenas na última eleição foi eleita a primeira bancada negra de Porto Alegre. As enchentes no Rio Grande do Sul revelam a existência de uma segregação racial no estado. A tragédia atingiu de maneira significativa a região metropolitana de Porto Alegre, por exemplo, um lugar onde reside grande parte da população negra e periférica. Portanto, são comunidades inteiras pertencentes a uma classe operária, que ocupam áreas de risco e que estão propensas a serem as primeiras vítimas das catástrofes climáticas. Não se pode falar em reconstrução de um estado sem levar em consideração os efeitos do racismo ambiental. A reconstrução deve se dar num contexto compreendendo que, historicamente, as comunidades periféricas, negras, quilombolas e indígenas não tiveram acesso a serviços básicos como saneamento, água potável, luz, acesso à internet, saúde e educação de qualidade. As enchentes escancaram o racismo ambiental, portanto, será preciso dar atenção ainda maior às desigualdades raciais para uma reconstrução justa e humana. Assinale a alternativa que sintetiza a tese central do texto. (UFPR 2025)
- A) A contribuição da colonização europeia no Rio Grande do Sul é incontestável.
- B) Pesquisas mostram que os negros são mais pobres no Rio Grande do Sul.
- C) As enchentes no Rio Grande do Sul foram desastrosas à região de Porto Alegre.
- D) A falsa crença de que o Rio Grande do Sul é branco é prejudicial ao estado.
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- Identifique o assunto geral do texto. Ele trata do imaginário de que o Rio Grande do Sul é um estado branco e europeu, mostra que essa imagem é fruto do apagamento da população negra e conclui que as enchentes revelam racismo ambiental, exigindo uma reconstrução que enfrente as desigualdades raciais.
- Procure a ideia que organiza o texto inteiro. A tese central é a de que a crença em um RS branco invisibiliza os negros e agrava desigualdades, inclusive diante da tragédia climática. A alternativa D, que fala da falsa crença de que o estado é branco e de seu caráter prejudicial, é a que mais se aproxima dessa tese, embora não mencione explicitamente o racismo ambiental.
- Analise as demais alternativas. A alternativa A apresenta uma concessão do autor (a contribuição europeia existe), mas é um ponto secundário e não a tese; além disso, o texto diz que o problema é a supervalorização dessa cultura. A alternativa B traz um dado de apoio (negros são mais pobres), não a tese central. A alternativa C descreve um fato (as enchentes atingiram Porto Alegre), que serve de contexto e não é a tese.
- Compare com o gabarito oficial. Minha conclusão coincide com o gabarito, a alternativa D. Há uma dúvida: nenhuma opção cita o racismo ambiental, que é o núcleo da conclusão, então D é a melhor escolha disponível por eliminação e por relação direta com o eixo central do texto.
💡 Dica: Identifique a ideia principal que resume o texto.
Alternativa por alternativa
O aluno pode ter tomado a concessão inicial do autor (a contribuição europeia é inegável) como a ideia principal, ignorando que o texto critica a supervalorização dessa cultura.
O aluno pode ter confundido um dado estatístico de apoio com a tese, achando que a pobreza dos negros é o argumento central do texto e não uma evidência usada para sustentar a crítica ao racismo.
O aluno pode ter tomado o fato noticiado (as enchentes atingiram Porto Alegre) como a ideia principal, sem perceber que o texto usa a tragédia como ponto de partida para discutir racismo ambiental.
CORRETA. A alternativa sintetiza a tese central do texto ao apontar que o estereótipo de que o Rio Grande do Sul é branco é falso e prejudicial, pois invisibiliza a população negra e suas contribuições, além de reforçar desigualdades.
Raio-X da questão
racismo ambiental e desigualdade racial
diagnostico
interpretação de texto · racismo estrutural
interpretação de texto e racismo estrutural
Confundir detalhes do texto com a ideia principal ou não reconhecer o conceito de racismo ambiental.
cidadania_etica
pensamento_critico
cotidiano
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