Por milênios o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Por milênios o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pêlos, plumas emaranhadas, odores estagnados. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barba. Aprendeu a fazer operações mentais complexas com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas. Gerações e gerações de caçadores enriqueceram e transmitiram esse patrimônio cognoscitivo. Na falta de uma documentação verbal para se pôr ao lado das pinturas rupestres e dos artefatos, podemos recorrer às narrativas de fábulas, que do saber daqueles remotos caçadores transmitem-nos às vezes um eco, mesmo que tardio e deformado. Três irmãos (narra uma fábula oriental, difundida entre os quirguizes, tártaros, hebreus, turcos...) encontram um homem que perdeu um camelo – ou, em outras variantes, um cavalo. Sem hesitar, descrevem-no para ele: é branco, cego de um olho, tem dois odres nas costas, um cheio de vinho, o outro cheio de óleo. Portanto, viram-no? Não, não o viram. Então são acusados de roubo e submetidos a julgamento. É, para os irmãos, o triunfo: num instante demonstram como, através de indícios mínimos, puderam reconstruir o aspecto de um animal que nunca viram. Os três irmãos são evidentemente depositários de um saber de tipo venatório* (mesmo que não sejam descritos como caçadores). O que caracteriza esse saber é a capacidade de, a partir de dados aparentemente negligenciáveis, remontar a uma realidade complexa não experienciável diretamente. Pode-se acrescentar que esses dados são sempre dispostos pelo observador de modo tal a dar lugar a uma seqüência narrativa, cuja formulação mais simples poderia ser “alguém passou por lá”. Talvez a própria idéia de narração (distinta do sortilégio, do esconjuro ou da invocação) tenha nascido pela primeira vez numa sociedade de caçadores, a partir da experiência da decifração das pistas. O fato de que as figuras retóricas sobre as quais ainda hoje se funda a linguagem da decifração venatória – a parte pelo todo, o efeito pela causa – são reconduzíveis ao eixo narrativo da metonímia, com rigorosa exclusão da metáfora, reforçaria essa hipótese – obviamente indemonstrável. O caçador teria sido o primeiro a “narrar uma história” porque era o único capaz de ler, nas pistas mudas (se não imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série coerente de eventos. (GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais. S. Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 151–2.) *Venatório: relativo à caça e seu universo. Indique a alternativa que explicita a hipótese indemonstrável mencionada na antepenúltima linha do texto. (UFPR 2009)
- A) Os caçadores eram capazes de reconstituir uma realidade complexa a partir das histórias que ouviam.
- B) As fábulas transmitiam histórias de caçadores e, por isso, apresentavam em geral decifrações de pistas.
- C) A narração teve origem em uma sociedade de caçadores.
- D) Os caçadores primitivos faziam operações mentais com grande rapidez.
✅ Resposta correta: alternativa C
Resolução passo a passo
- A pergunta pede a hipótese que o autor reconhece como indemonstrável, isto é, uma afirmação que ele propõe sem poder comprová-la. Essa marcação aparece no trecho 'Talvez a própria idéia de narração ... tenha nascido pela primeira vez numa sociedade de caçadores', seguido de 'obviamente indemonstrável'. Passo 2: O texto afirma que a narração pode ter nascido numa sociedade de caçadores, a partir da decifração das pistas. Ginzburg apresenta isso como conjectura, não como fato comprovado. Passo 3: O argumento de apoio é a relação entre as figuras retóricas da decifração venatória (parte pelo todo, efeito pela causa) e o eixo narrativo da metonímia. Esse apoio reforça a hipótese, mas não a demonstra. Passo 4: A alternativa C reproduz exatamente essa conjectura, por isso é a resposta correta, em concordância com o gabarito oficial. Passo 5: A alternativa A está errada, pois a capacidade de reconstruir uma realidade complexa é apresentada no texto como característica do saber venatório e da fábula dos três irmãos, não como hipótese. A alternativa B está errada, pois as fábulas são tratadas como eco tardio do saber dos caçadores, e não como tese central. A alternativa D está errada, pois a rapidez das operações mentais é descrita no texto como fato sobre os caçadores, e não como hipótese que o autor admite não poder demonstrar.
💡 Dica: Identifique a hipótese indemonstrável no texto e relacione com a narrativa do caçador.
Alternativa por alternativa
Confunde a hipótese com a capacidade de decifrar pistas descrita no texto. O aluno entende que o indemonstrável é a habilidade dos caçadores de reconstruir uma realidade complexa, e não a origem da narração.
Toma as fábulas como o tema da hipótese, porque elas aparecem no trecho. O aluno não percebe que as fábulas são apenas a fonte de evidência indireta e que a conjectura principal é sobre a origem da narração.
CORRETA. A hipótese indemonstrável mencionada é que a própria ideia de narração teria nascido numa sociedade de caçadores, a partir da experiência da decifração das pistas.
Considera a rapidez das operações mentais uma hipótese, porque é uma afirmação sobre os caçadores primitivos. O aluno não distingue o que o autor afirma como fato do que ele admite como conjectura não demonstrada.
Raio-X da questão
hipótese indemonstrável na narrativa
diagnostico
interpretação de texto literário · análise de figuras de linguagem
estudo de hipóteses e interpretação de textos complexos
Confundir hipótese indemonstrável com fatos explícitos ou interpretações literais do texto.
pensamento_critico
literario
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