Pietro Brun, meu tetravô paterno, embarcou em um navio no final do século 19, como tantos italianos pobres, em…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Pietro Brun, meu tetravô paterno, embarcou em um navio no final do século 19, como tantos italianos pobres, em busca de uma utopia que atendia pelo nome de América. Pietro queria terra, sim. Mas o que o movia era um território de outra ordem. Ele queria salvar seu nome, encarnado na figura de meu bisavô, Antônio. Pietro fora obrigado a servir o exército como soldado por anos demais (...). Havia chegado a hora de Antônio se alistar, e o pai decidiu que não perderia seu filho. Fugiu com ele e com a filha Luigia para o sul do Brasil. Como desertava, meu bisavô Antônio foi levado em um bote até o navio que já se afastava do porto de Gênova. Embarcou como clandestino. Ao desembarcar no Brasil, em 10 de fevereiro de 1883, Pietro declarou o nome completo. O funcionário do Império, como aconteceu tantas e tantas vezes, registrou-o conforme ouviu. Tornando-o, no mundo novo, Brum – com “m”. Meu pai, Argemiro, filho de José, neto de Antônio e bisneto de Pietro, tomou para si a missão de resgatar essa história e documentá-la. No início dos anos 1990 cogitamos reivindicar a cidadania italiana. Possuímos todos os documentos, organizados numa pasta. Mas entre nós existe essa diferença na letra. Antes de ingressar com a documentação, seria preciso corrigir o erro do burocrata do governo imperial que substituiu um “n” por um “m”. Um segundo ele deve ter demorado para nos transformar, e com certeza morreu sem saber. E, se soubesse, não teria se importado, porque era apenas o nome de mais um imigrante a bater nas costas do Brasil despertencido de tudo. Cabia a mim levar essa empreitada adiante. Há uma autonomia na forma como damos carne ao nosso nome com a vida que construímos – e não com a que herdamos. (...) Eu escolho a memória. A desmemória assombra porque não a nomeamos, respira em nossos porões como monstros sem palavras. A memória, não. É uma escolha do que esquecer e do que lembrar – e uma oportunidade de ressignificar o passado para ganhar um futuro. Pela memória nos colocamos não só em movimento, mas nos tornamos o próprio movimento. Gesto humano, para sempre incompleto. Ao fugir para o Brasil, metade dos Brun ganhou uma perna a mais. O “n” virou “m”. Mas essa perna a mais era um membro fantasma, um ganho que revelava uma perda. (...) Quando Pietro Brun atravessou o mar deixando mortos e vivos na margem que se distanciou, ele não poderia ser o mesmo ao alcançar o outro lado. Ele tinha de ser outro, assim como nós, que resultamos dessa aventura desesperada. Era imperativo que ele fosse Pietro Brum – e depois até Pedro Brum. No texto, a autora narra fatos e expõe suas opiniões relacionados à vinda de sua família para o Brasil. Uma dessas opiniões está explicitada em: (UERJ 2017)
- A) Havia chegado a hora de Antônio se alistar, e o pai decidiu que não perderia seu filho. (ℓ. 5-6)
- B) No início dos anos 1990 cogitamos reivindicar a cidadania italiana. (ℓ. 13)
- C) Antes de ingressar com a documentação, seria preciso corrigir o erro do burocrata do governo imperial que substituiu um “n” por um “m”. (ℓ. 14-16)
- D) Quando Pietro Brun atravessou o mar deixando mortos e vivos na margem que se distanciou, ele não poderia ser o mesmo ao alcançar o outro lado. (ℓ. 28-29)
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- A questão pede a opinião explicitada no texto, ou seja, um juízo de valor, uma interpretação ou uma avaliação feita pela autora, e não um fato narrado. Passo 2: Verifico cada alternativa. A alternativa A narra um acontecimento (a chegada da hora do alistamento e a decisão do pai), o que é fato. A alternativa B relata uma ação da família no início dos anos 1990 (cogitar reivindicar a cidadania), também fato. Passo 3: A alternativa C traz uma avaliação, pois chama o registro de erro e fala do que seria preciso fazer, mas o trecho se apoia em uma situação concreta da história familiar e não formula uma interpretação sobre a travessia em si. Passo 4: A alternativa D apresenta uma reflexão interpretativa da autora sobre o significado da travessia: Pietro não poderia ser o mesmo ao chegar ao outro lado, ou seja, a emigração é vista como uma transformação de identidade. Essa afirmação não é verificável como fato e expressa a visão pessoal de quem escreve, por isso é a opinião explicitada. Passo 5: Resposta: D. O gabarito oficial está correto. Conclusão: a opinião está em D, pois é a única alternativa em que a autora interpreta o sentido da experiência migratória, enquanto as demais apenas relatam acontecimentos ou necessidades práticas.
💡 Dica: Identifique a opinião explícita da autora no texto apresentado.
Alternativa por alternativa
O aluno confunde narração de um acontecimento com opinião, por considerar que a frase expressa a decisão do pai de forma emotiva. Ele não separa o relato de fatos do juízo pessoal da autora.
O aluno pensa que qualquer frase em primeira pessoa do plural ('cogitamos') expressa opinião. Ele não percebe que se trata apenas de um fato sobre uma ação da família.
O aluno percebe a palavra 'erro' e o verbo modal 'seria preciso' e conclui que há uma avaliação subjetiva, sem perceber que o trecho descreve uma necessidade prática ligada a um fato. Ele se prende a termos avaliativos sem analisar o sentido global.
Por que engana: Confundir fatos narrados com opiniões expressas pela autora no texto.
CORRETA. Essa alternativa expressa claramente uma opinião da autora sobre a transformação pessoal e simbólica que ocorreu com Pietro Brun ao emigrar, indo além do relato factual.
Raio-X da questão
opinião explícita no texto
avaliacao
interpretação de texto narrativo
diferença entre fato e opinião em textos narrativos
Confundir fatos narrados com opiniões expressas pela autora no texto.
pensamento_critico
literario
Questões parecidas com resolução
- Ao fugir para o Brasil, metade dos Brun ganhou uma perna a mais. O “n” virou “m”. Mas essa perna a mais era um membro…
- Ao fugir para o Brasil, metade dos Brun ganhou uma perna a mais. O “n” virou “m”. Mas essa perna a mais era um membro…
- Folhas dispersas cobriam a mesa onde Ana revisava suas anotações para a apresentação sobre memórias familiares. De…
- Quando subi ao sótão da casa onde cresci, encontrei uma caixa de madeira coberta de poeira. Dentro, meu avô guardava…
- A família de Neide fazia questão de conservar o pomposo sobrenome, “Paranhos”, herdado dos tempos da escravatura. A…
- ENEM - 2022 Vanda vinha do interior de Minas Gerais e de dentro de um livro de Charles Dickens. Sem dinheiro para…
🔎 Resolver outra questão
Cole o enunciado e veja a resolução passo a passo, a alternativa correta e por que as outras estão erradas.
Professor: monte a prova com questões como esta, com gabarito e folha de respostas, em 30 segundos. Ver planos · Blog
