A palavra Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito – como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
A palavra Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito – como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta. Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa. Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento – e depois esqueci. Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava. Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven – e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro? Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças. RUBEM BRAGA PROENÇA FILHO, Domício (org.). Pequena antologia do Braga. Rio de Janeiro: Record, 1997. O ofício a que Rubem Braga se refere é o seu próprio, o de escritor. Para caracterizá-lo, além do adjetivo “imprudente”, ele recorre a uma metáfora: “viver em voz alta”. O sentido dessa metáfora, relativa ao ofício de escrever, pode ser entendido como: (UERJ 2012)
- A) superar conceitos antigos
- B) prestar atenção aos leitores
- C) criticar prováveis interlocutores
- D) tornar públicos seus pensamentos
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- Identifique o trecho que contém a metáfora. O autor diz que o ofício de escritor é "imprudente" porque é "viver em voz alta". A expressão "voz alta" sugere que o escritor expõe o que pensa e sente diante de todos, sem se restringir ao âmbito privado.
- Relacione a metáfora ao contexto do texto. Logo antes, Braga afirma que "tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito" pode ferir alguém sem querer, e que percebe "hostilidade surda" ou "reticência de mágoas" em pessoas que acaba de conhecer. Ou seja, suas palavras chegam ao público e produzem efeitos nos outros.
- Conclua o sentido. Viver em voz alta é tornar públicas as próprias palavras e pensamentos, expondo-os a leitores que podem reagir de formas diversas. Essa é a alternativa D, que traduz a metáfora de forma literal e coerente com o texto.
- Analise as alternativas erradas. A) Superar conceitos antigos não aparece no texto, que trata da exposição da palavra e de seus efeitos, não de renovação de ideias. B) Prestar atenção aos leitores é um sentido próximo, mas o texto fala de exposição e não de atenção ao público, que é uma ideia secundária. C) Criticar prováveis interlocutores não corresponde ao texto, que mostra o autor preocupado em não ferir as pessoas, e não em criticá-las.
💡 Dica: Analise o sentido da metáfora no contexto do texto.
Alternativa por alternativa
O aluno associa a expressão 'voz alta' a algo que se afirma com força e rompe com o passado, interpretando a metáfora como um gesto de renovação de conceitos.
Por que engana: Confundir o sentido literal da metáfora com seu sentido figurado no texto.
O aluno entende que 'viver em voz alta' significa dar atenção ao leitor, confundindo a exposição pública da palavra com a preocupação em agradar ou considerar o público.
O aluno lê a metáfora como um ato de contestação ou crítica direta aos outros, ignorando que o texto trata de sentir culpa por ter ferido alguém sem querer.
CORRETA. A metáfora 'viver em voz alta' refere-se a tornar públicos os pensamentos e sentimentos do escritor, expondo-os para o mundo, o que caracteriza o ofício de escrever.
Raio-X da questão
metáfora no texto literário
avaliacao
interpretação de metáforas
estudo de metáforas e interpretação textual
Confundir o sentido literal da metáfora com seu sentido figurado no texto.
pensamento_critico
literario
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