Concessão na língua portuguesa: como ensinar com exemplos
A concessão aparece quando uma ideia contrária não impede que outra se realize. Veja como explicar esse sentido com exemplos, conectivos e questões comentadas para a sua turma.
Quando explico concessão, começo com uma frase que meus alunos já poderiam dizer: “Embora estivesse chovendo, fomos ao jogo”. Pergunto o que a chuva faria a gente esperar e o que aconteceu de fato. Essa pequena quebra de expectativa costuma tornar o conceito mais claro do que uma definição decorada. A concessão aparece em textos e conversas o tempo todo, mas nem sempre os estudantes percebem o papel que ela tem na construção do sentido.
Também já vi turma confundir oração concessiva com causa ou condição só porque todas podem vir introduzidas por conjunções. Por isso, eu ensino a observar a relação entre as ideias, não apenas a memorizar palavras. A seguir, compartilho um caminho prático e questões comentadas que ajudam a trabalhar leitura, gramática e respeito às variedades linguísticas.
O que é concessão na língua portuguesa?
Concessão é a relação de sentido em que se apresenta um fato que poderia funcionar como obstáculo, mas que não impede a realização do fato principal. Em “Embora estivesse cansada, Joana terminou o trabalho”, o cansaço poderia levar à expectativa de que ela parasse; no entanto, ela concluiu a tarefa. A oração introduzida por “embora” é concessiva, e a oração principal informa o que ocorreu apesar daquele obstáculo. Conjunções e locuções como “embora”, “ainda que”, “mesmo que”, “apesar de que” e “se bem que” podem expressar concessão, conforme a construção. Para mim, o teste mais útil é perguntar: “Que resultado eu esperaria diante dessa informação, e o que aconteceu apesar dela?”. A concessão não é simplesmente oposição entre palavras: ela organiza duas ideias e cria uma expectativa contrariada, algo importante para interpretar argumentos e textos.
Eu diferencio concessão de causa com pares simples. “Como estava chovendo, ficamos em casa” apresenta a chuva como motivo; “Embora estivesse chovendo, saímos” mostra que a chuva não impediu a saída. Já “Se chover, ficaremos em casa” expressa uma condição. Peço aos alunos que localizem primeiro os fatos e depois expliquem a relação entre eles.
Como reconhecer uma oração concessiva na prática?
Para reconhecer uma oração concessiva, localize a conjunção ou locução conjuntiva e verifique se a informação que ela introduz parece contrariar a expectativa criada pela oração principal, sem impedir o que nela acontece. Em “Ainda que o texto seja curto, ele apresenta um argumento complexo”, a brevidade poderia sugerir simplicidade, mas a oração principal afirma o contrário. “Embora” e “ainda que” são pistas frequentes, porém a leitura do contexto é decisiva: não basta encontrar uma palavra da lista. Eu peço aos estudantes que reescrevam a frase com “apesar disso” e confiram se o sentido permanece. Se a relação for de obstáculo não impeditivo, a leitura concessiva faz sentido. Também vale observar a pontuação: quando a oração concessiva vem antes da principal, costuma ser separada por vírgula. Essa estratégia combina identificação gramatical com compreensão do texto, em vez de transformar a atividade em caça a conectivos.
Um passo a passo que uso na correção:
- Grifar as duas informações da frase.
- Circular o conectivo, se houver.
- Nomear a expectativa criada pela primeira informação.
- Explicar por que a segunda informação contraria essa expectativa.
Depois, proponho que os alunos mudem a ordem das orações: “O time venceu, embora estivesse desfalcado”. O sentido concessivo permanece, ainda que a pontuação mude conforme a posição da oração. Essa comparação ajuda a turma a perceber que a relação entre ideias é mais importante do que uma fórmula fixa.
Como ensinar concessão sem depender de decoreba?
Eu ensino concessão partindo de situações familiares e levando a turma, aos poucos, para os nomes gramaticais. Primeiro, apresento frases curtas com uma expectativa contrariada; depois, peço aos estudantes que expliquem a relação com as próprias palavras. Em seguida, comparo exemplos de concessão, causa e condição, porque a diferença fica mais visível lado a lado. Só então sistematizo conjunções como “embora”, “mesmo que” e “ainda que”. Para avaliar, proponho que identifiquem o conectivo, indiquem as duas ideias e justifiquem o efeito produzido no contexto. Uma questão objetiva pode verificar reconhecimento, mas uma resposta curta mostra se o estudante entendeu a relação. Eu também uso textos de opinião e notícias, nos quais a concessão ajuda a reconhecer ressalvas e argumentos. Para preparar atividades variadas sem gastar tanto tempo montando cada item, o GeraProva pode ajudar a organizar questões; depois, reviso o material para adequá-lo à minha turma.
Uma sequência simples para uma aula ou revisão:
- Apresente duas frases que expressem a mesma situação, uma causal e outra concessiva.
- Peça à turma que explique o que seria esperado e o que realmente ocorreu.
- Substitua o conectivo por outro e converse sobre eventuais mudanças de sentido.
- Finalize com uma produção: cada aluno escreve uma frase concessiva sobre um tema do cotidiano.
Ao corrigir, considero a justificativa, não só a identificação de “embora”. Isso evita que o estudante acerte por reconhecimento mecânico e me mostra onde preciso retomar o conteúdo. Se quiser experimentar a plataforma, há um cadastro grátis para professores.
Questões prontas com gabarito comentado
As questões a seguir ampliam a revisão de língua portuguesa para além das orações concessivas: incluem ortografia, variação linguística, interpretação e norma-padrão. Eu as uso para observar conhecimentos que se conectam ao trabalho com sentido e uso da língua, sem apresentá-las como uma sequência exclusiva sobre concessão. Cada item traz a alternativa correta, o motivo dos distratores e uma dica de resolução. Também registro o código BNCC e o nível de Bloom informado para a questão, dados que ajudam a planejar uma avaliação mais consciente. Ao selecionar itens para a minha turma, confiro o ano escolar, o objetivo da aula e a linguagem do enunciado; se necessário, adapto o contexto antes de aplicar. Assim, o gabarito comentado vira uma oportunidade para discutir estratégias de leitura e não apenas para contar acertos.
1. Qual das seguintes palavras está escrita corretamente, levando em consideração as convenções da escrita da língua portuguesa?
- ❌ A) cachoro — Incorreta: falta um “r”; a grafia correta é “cachorro”.
- ✅ B) cachorro — Correta: a palavra está escrita com “rr”.
- ❌ C) cachorrro — Incorreta: há um “r” a mais; o correto é “cachorro”.
- ❌ D) cachorr — Incorreta: falta o “o” final.
- ❌ E) cachor — Incorreta: faltam o “r” duplicado e o “o” final para formar “cachorro”.
Dica de resolução: Observe a quantidade e a posição das letras. Conceito central: ortografia da palavra “cachorro”. Conceito para revisão: letras repetidas e grafia de palavras com “rr”. BNCC: EF02LP03. Bloom: Lembrar.
2. Qual das alternativas abaixo exemplifica uma variação linguística em relação ao uso da língua portuguesa no Brasil?
- ✅ A) O uso de “tu” e “você” em diferentes regiões do Brasil. Correta: são formas de tratamento cujo uso varia regionalmente.
- ❌ B) A conjugação verbal no passado de forma regular em todos os verbos. Incorreta: não exemplifica uma variação regional; descreve uma regularidade verbal.
- ❌ C) A utilização de palavras estrangeiras em textos formais. Incorreta: trata de influência lexical, não do exemplo de variação regional pedido.
- ❌ D) A troca de gêneros gramaticais em palavras como “a mesa” e “o prato”. Incorreta: os exemplos mantêm os gêneros convencionais, não mostram variação.
- ❌ E) A escrita de palavras da mesma forma em todas as regiões do Brasil. Incorreta: descreve uniformidade, não variação.
Dica de resolução: Pense em exemplos de diferentes regiões do Brasil. Conceito central: variação linguística. Conceito para revisão: tipos de variação linguística no Brasil. BNCC: EM13LP10. Bloom: Compreender.
3. Em um programa de televisão, pessoas de diferentes regiões do Brasil falavam a mesma palavra com sons diferentes, mas todas eram entendidas pelo público. O fato descrito mostra que a língua portuguesa...
- ✅ A) mostra que a mesma língua pode ser pronunciada de modos diferentes, como nos sotaques regionais, sem deixar de ser compreendida. Correta: há variação de pronúncia e a comunicação continua acontecendo.
- ❌ B) mostra que a existência de sotaques regionais prova que há várias línguas portuguesas independentes no Brasil. Incorreta: diferenças regionais não demonstram a existência de línguas independentes.
- ❌ C) mostra que a língua portuguesa deixa de ser a mesma quando apresenta pronúncias diferentes entre regiões do país. Incorreta: confunde variação de pronúncia com mudança de língua.
- ❌ D) mostra que pessoas de regiões diferentes não conseguem entender a mesma palavra quando ela é falada com sons diferentes. Incorreta: ignora que o público entendia as falas.
- ❌ E) mostra que a compreensão aconteceu porque todos falaram exatamente da mesma forma, sem qualquer diferença de pronúncia. Incorreta: contradiz a informação de que havia diferenças nos sons.
Dica de resolução: Diferenças de pronúncia podem coexistir com a compreensão. Conceito central: variação linguística regional. Conceito para revisão: sotaques e compreensão mútua. BNCC: EF69LP55. Bloom: Compreender.
4. ENEM – 2017, “Declaração de amor”. No texto de Clarice Lispector, o trecho em que a autora declara seu amor pela língua portuguesa, acentuando seu caráter patrimonial e sua capacidade de renovação, é:
- ❌ A) “A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve.” Incorreta: menciona a dificuldade, mas não destaca diretamente a herança e a renovação.
- ✅ B) “Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita.” Correta: a herança recebida não encerra a língua; ela continua sendo construída e renovada.
- ❌ C) “Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.” Incorreta: trata da criação pela escrita, mas não enfatiza diretamente o caráter patrimonial da língua.
- ❌ D) “Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada.” Incorreta: menciona o aprofundamento, não a herança e sua renovação.
- ❌ E) “Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.” Incorreta: expressa o desejo de uma abordagem pura, mas não aborda a herança renovável.
Dica de resolução: Analise como a autora relaciona a língua recebida à criação de quem escreve. Conceito central: interpretação de texto literário. Conceito para revisão: interpretação e linguagem figurada. BNCC: EM13LP01. Bloom: Analisar.
5. Qual exemplo abaixo apresenta uma norma não-padrão da língua portuguesa?
- ❌ A) “Você viu a notícia?” Incorreta: “viu” concorda com o sujeito “você”.
- ❌ B) “Ele fez a prova, e eu também.” Incorreta: a frase está adequada à norma-padrão; “eu também” retoma a ação de forma aceitável.
- ✅ C) “Nóis vai na padaria.” Correta: em relação à norma-padrão, a forma escrita é “nós” e a concordância esperada é “nós vamos”.
- ❌ D) “Eu não sei de nada.” Incorreta: a frase está de acordo com a norma-padrão; a dupla negativa é aceita nesse contexto.
- ❌ E) “A gente vai sair mais tarde.” Incorreta: “a gente” pede verbo na terceira pessoa do singular, como em “vai”.
Dica de resolução: Observe a concordância entre sujeito e verbo. Conceito central: norma-padrão e variação linguística. Conceito para revisão: diferenças entre norma-padrão e variedades não-padrão. BNCC: EF69LP55. Bloom: Analisar.
6. Em uma conversa, um aluno disse: “Tu vai brincar com a gente?”. Em outro bairro, ouviu-se: “Você vai brincar com a gente?”. Essas duas formas de expressão mostram que a língua portuguesa...
- ✅ A) apresenta variações de uso conforme região, grupo social e situação de fala. Correta: as formas ilustram usos reais e diferentes do português.
- ❌ B) possui apenas uma forma correta, sendo a outra um erro de fala que não deve ser considerado. Incorreta: reduz a língua à norma-padrão e desconsidera a variação.
- ❌ C) não admite diferenças entre falantes, porque a comunicação só funciona quando todos usam a mesma estrutura. Incorreta: a língua é variável e a comunicação pode ocorrer entre falantes com usos diversos.
- ❌ D) muda apenas quando a gramática escrita é alterada, sem relação com a fala cotidiana. Incorreta: o exemplo apresenta variação na oralidade.
- ❌ E) é igual em todo lugar, mas algumas pessoas preferem trocar palavras por hábito pessoal. Incorreta: explica a diferença como preferência individual e ignora fatores sociais e regionais.
Dica de resolução: Observe que a pergunta trata do sentido das formas de fala, não apenas de classificá-las como erro. Conceito central: variação linguística. Conceito para revisão: adequação linguística e preconceito linguístico. BNCC: EM13LP10. Bloom: Aplicar.
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