Atividades sobre intertextualidade com gabarito — 1ª série, 2ª série, 3ª série, ENEM, FUVEST, UEL, UNESP (EM13LP03)
Quando recebo a EM13LP03 no planejamento, sei que não basta pedir ao estudante que “ache a referência”. Na sala de aula, o desafio é transformar intertextualidade em leitura de verdade: perceber por que um autor retoma uma música, um poema, uma imagem ou um discurso e o que muda nessa retomada.
Também preciso levar isso para a avaliação sem cair naquela questão de decorar nomes. A habilidade pede comparação, contexto e posicionamento. Abaixo, organizo caminhos que eu usaria com a turma e seis questões prontas para aplicar ou adaptar.
O que a habilidade EM13LP03 pede, de verdade?
Na prática, a EM13LP03 pede que o estudante reconheça que nenhum texto circula sozinho: ele conversa com obras, frases conhecidas, gêneros, imagens, valores e discursos que já existem. Não é suficiente identificar que uma charge lembra uma pintura ou que uma campanha adapta um verso; o aluno precisa explicar o efeito dessa escolha, identificar o ponto de vista construído e perceber se há crítica, humor, homenagem, ironia, paráfrase, paródia ou estilização. Eu procuro mostrar que intertextualidade é a relação mais visível entre textos, enquanto interdiscursividade envolve ideias, modos de falar e posições sociais que atravessam esses textos. Assim, a turma aprende a justificar a leitura com pistas concretas: palavras alteradas, imagem retomada, contexto de circulação e contraste entre original e recriação. É uma habilidade muito presente no ENEM e nos vestibulares porque avalia leitura crítica, e não simples reconhecimento de repertório.
“Analisar relações de intertextualidade e interdiscursividade que permitam a explicitação de relações dialógicas, a identificação de posicionamentos ou de perspectivas, a compreensão de paráfrases, paródias e estilizações, entre outras possibilidades.”
Para consultar a redação oficial, exemplos e o banco disponível, indico a consulta completa do código EM13LP03.
Como trabalhar EM13LP03 em sala?
- Verso que muda de lugar. Levo frases conhecidas, como “No meio do caminho tinha uma pedra”, e versões adaptadas em memes, campanhas ou manchetes. Em duplas, os alunos comparam original e recriação: o que foi mantido, o que mudou e qual crítica apareceu?
- Galeria de referências. Com imagens impressas ou projetadas, uso charge, cartaz, capa de álbum e anúncio. Cada grupo escreve uma legenda explicando a referência e o efeito de sentido. Não precisa de material caro: jornais, celulares da escola quando permitidos e um projetor resolvem.
- Paráfrase, paródia e estilização na prática. Escolho um pequeno poema ou canção de circulação conhecida e peço três recriações: uma que preserve o sentido, outra que o transforme criticamente e outra que imite traços de estilo. Depois, a turma nomeia e justifica cada procedimento.
- Mapa de discursos. Em uma campanha pública, marcamos quais discursos aparecem: burocrático, científico, publicitário, cotidiano, ambiental. Isso ajuda a ir além da “citação” e discutir interdiscursividade.
- Minuto da justificativa. Após qualquer resposta, eu pergunto: “Que pista do texto prova isso?”. Esse hábito reduz respostas por impressão e treina a argumentação exigida nas provas.
Como avaliar essa habilidade?
Uma boa questão de EM13LP03 apresenta o texto-base ou descreve com clareza a relação entre os textos e cobra o efeito produzido por ela. O comando deve levar o estudante a analisar: a retomada reforça uma crítica? Produz ironia? Desloca o sentido original? Revela uma perspectiva? Questões apenas do tipo “qual obra foi citada?” são insuficientes, porque verificam memória, não análise.
Um erro comum é considerar correta uma alternativa que fala da referência, mas ignora sua função no novo contexto. Outro é confundir reprodução literal com paródia: nem toda citação muda o sentido, e nem toda mudança é humorística. Na correção, valorizo justificativas que mencionam elementos específicos, como uma palavra substituída, uma expressão polissêmica ou o público a que a mensagem se dirige.
Questões prontas de EM13LP03 (com gabarito comentado)
1. Crônica, trânsito e referência literária
Em uma crônica publicada em um jornal, a autora discute os efeitos do trânsito intenso sobre a vida nas grandes cidades. Escreve: “Quem canta seus males espanta, mas quem vive cercado de buzinas adoece em silêncio”. Mais adiante, afirma: “No meio do caminho tinha um barulho”, retomando formulação conhecida da poesia brasileira. Considerando a construção da crônica, qual é a função da referência literária?
- ✅ A) Estabelecer diálogo com um texto conhecido, ressignificando sua formulação para representar a persistência do ruído urbano e fortalecer a crítica.
- ❌ B) Fazer da poesia o assunto principal da crônica. A referência serve ao tema urbano, não o substitui.
- ❌ C) Reproduzir o sentido original sem alteração. Há deslocamento de “pedra” para “barulho”.
- ❌ D) Introduzir comparação sem interferir na interpretação. A adaptação organiza a crítica ao ruído.
- ❌ E) Avaliar negativamente a qualidade do poema. Não há juízo estético sobre o autor.
2. Campanha pública e obstáculos burocráticos
Uma campanha sobre a retomada do atendimento em posto público traz: “No meio do caminho tinha um formulário”. O texto explica que a frase busca aproximar a mensagem de quem já enfrentou filas e exigências repetidas. Identifique o efeito de sentido produzido.
- ❌ A) Copia um verso para elogiar a demora no serviço. A campanha questiona a demora.
- ❌ B) Substitui o verso de modo neutro, sem julgamento. O recurso constrói crítica.
- ❌ C) Repete literalmente o sentido original do poema. Há adaptação e novo contexto.
- ❌ D) Inventa um verso para informar apenas o horário ampliado. A informação não é a única função.
- ✅ E) Recupera um verso conhecido para criticar, de modo irônico, os obstáculos burocráticos ao atendimento.
3. Referências intertextuais para crianças
Uma escola prepara uma apresentação ambiental para estudantes de 8 a 10 anos. O roteiro trazia referências a campanha, filme e personagem de quadrinhos, mas muitas crianças não as reconheceram. Por que evitar múltiplas referências complexas nesse caso?
- ✅ A) Porque podem sobrecarregar a compreensão, desviar a atenção da mensagem e reduzir o envolvimento do público infantil.
- ❌ B) Porque tornam a apresentação previsível. O problema relatado é a falta de reconhecimento.
- ❌ C) Porque crianças compartilham os mesmos conhecimentos prévios. O texto mostra justamente o contrário.
- ❌ D) Porque é preciso reunir muitas referências para cada criança reconhecer uma. O excesso dificultou a compreensão.
- ❌ E) Porque explicar referências substitui organizar a mensagem principal. Explicar é apoio, não substituição.
4. ENEM 2014: Guernica, charge e trânsito
Na charge de Iotti, os traços reconstroem uma cena de Guernica, de Pablo Picasso, e introduzem um carro no período de carnaval. A linguagem verbal estabelece diálogo entre as obras ao explorar
- ❌ A) “trânsito no feriadão” como referência ao contexto. Isso não explica plenamente o diálogo entre as obras.
- ❌ B) a forma verbal “é”. Ela não basta para ligar os dois contextos.
- ❌ C) o termo pejorativo “trânsito”. O termo não é, por si, pejorativo.
- ❌ D) a referência temporal “sempre”. Essa permanência não é o recurso central indicado.
- ✅ E) a expressão polissêmica “quadro dramático”, que remete à obra pictórica e ao trânsito brasileiro.
5. ENEM 2012: Manoel de Barros e o texto bíblico
No poema “Pote Cru é meu pastor. Ele me guiará”, de Manoel de Barros, o eu lírico estabelece relação com texto bíblico. Ele se identifica com Pote Cru porque
- ❌ A) entende que todo poeta precisa de voz de oratórios perdidos. Esse não é o núcleo da identificação.
- ❌ B) busca salvação divina. A relação bíblica é recriada, não devocional.
- ❌ C) valoriza a conexão entre ruínas e tradição. Isso não sintetiza a poética do texto.
- ❌ D) necessita de guia para descobrir a natureza. O foco não é orientação natural.
- ✅ E) acompanha-o na opção pela insignificância das coisas.
6. Citação de canção infantil
Trecho para análise: “Cantamos: ‘Brilha, brilha, estrelinha’ para começar o dia.” Identifique a marca linguística de intertextualidade.
- ❌ A) Descrição de atividade matinal comum. As aspas indicam referência a outro texto.
- ❌ B) Crítica negativa à cultura infantil. Não há tom crítico.
- ❌ C) Provérbio popular. Trata-se de canção específica.
- ✅ D) Citação/alusão direta à canção infantil “Brilha, brilha, estrelinha”.
- ❌ E) Expressão idiomática sem relação com canções. A referência musical é explícita.
Próximos passos
Eu começaria aplicando duas questões como diagnóstico e retomaria as pistas textuais nas correções coletivas. Depois, dá para selecionar mais itens, ajustar dificuldade e montar uma avaliação em poucos minutos com o gerador de provas do GeraProva.
As questões ajudam a orientar o trabalho, mas a melhor mediação continua sendo a conversa que você constrói com a turma. Se quiser ganhar tempo no planejamento, faça seu cadastro grátis e explore o acervo alinhado à BNCC.
