O diálogo, desenvolvido entre as personagens Menipo e Hermes, faz parte do livro Diálogo dos Mortos, do…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Analisar obras significativas das literaturas brasileiras e de outros países e povos, em especial a portuguesa, a indígena, a africana e a latino-americana, com base em ferramentas da crítica literária (estrutura da composição, estilo, aspectos discursivos) ou outros critérios relacionados a diferentes matrizes culturais, considerando o contexto de produção (visões de mundo, diálogos com outros textos, inserções em movimentos estéticos e culturais etc.) e o modo como dialogam com o presente.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
O diálogo, desenvolvido entre as personagens Menipo e Hermes, faz parte do livro Diálogo dos Mortos, do escritor Luciano de Samósata. Menipo – Onde estão os belos e as belas, Hermes¹? Leva-me até eles, pois eu sou novato aqui. Hermes – Não tenho tempo, Menipo. Mas, olha aquilo ali, à direita: ali está Jacinto, também Narciso e Nireu e Aquiles²; e ainda Tiró, Helena³, Leda, em suma, todas as beldades antigas. Menipo – Eu estou vendo só ossos e crânios desprovidos de carnes, a maioria desses semelhantes. Hermes – Contudo, aqueles são os ossos que todos os poetas admiram e que tu pareces desprezar. Menipo – Mesmo assim, mostra-me Helena, pois eu não saberia reconhecê-la. Hermes – Esse crânio aí é Helena. Menipo – Então é por causa disso aí que foram lotados milhares de navios da Grécia inteira e tombaram tantos gregos e bárbaros, e tantas cidades foram arrasadas! Hermes – Mas, Menipo, tu não viste essa mulher em vida; senão tu também terias dito que não merece castigo “sofrer dores por muito tempo por uma mulher”, porque também as flores secas, se alguém as contempla depois que elas perdem o viço, é evidente que lhe parecerão murchas; mas enquanto florescem e mantêm o colorido, elas são muito belas. Menipo – Pois é isso mesmo que me causa admiração, Hermes: que os Aqueus4 não perceberam que estavam sofrendo por uma coisa tão efêmera e tão facilmente perecível. Luciano de Samósata, Diálogo dos Mortos. Trad. Henrique G. Murachco. Edusp: São Paulo, p. 67. 1. Hermes: divindade grega posteriormente assimilada à representação do deus Mercúrio, pela mitologia romana. Na cena, Hermes entrega as almas a Caronte, que se encarrega de fazê-las atravessar o Aqueronte, rio que separa o mundo dos vivos e dos mortos. 2. Aquiles: filho de Peleu e Tétis, o mais valente dos heróis na guerra de Troia, de cabeleira dourada. É jovem, forte e belo. Morre em plena juventude; por isso ele está ao lado de beldades, tais como Jacinto e Narciso. 3. Helena: mulher de Menelau, raptada por Páris, filho de Príamo, rei de Troia, foi a causa da guerra que levou ao Hades milhares de almas de heróis, segundo Homero. 4. Aqueu: relativo aos aqueus, um dos quatro ramos do povo grego antigo, ou indivíduo dos aqueus, relativo à Acaia (antiga Grécia), ou ao seu natural ou habitante. Luciano de Samósata, escritor grego do século II, mistura em sua obra dois gêneros diferentes: a Comédia, destinada ao riso; e o Diálogo, destinado às reflexões filosóficas. Sobre o conteúdo reflexivo-filosófico do diálogo transcrito, depreende-se corretamente que (ETEC 2020)
- A) questiona as ações realizadas em vida para se alcançarem beleza e poder, uma vez que apenas os verdadeiros heróis, como Aquiles, são capazes de os manter na morte.
- B) expõe a importância da guerra para conseguir reconhecimento, já que, sem alguém para se lembrar dos heróis, a morte lentamente apaga suas grandes obras.
- C) critica a falta de objetividade de grandes líderes guerreiros, como Aquiles e Hermes, cuja atuação na Guerra de Troia levou milhares à morte.
- D) reflete sobre a validade das ações dos seres humanos para alcançar reconhecimento e beleza, condições perdidas após a morte.
- E) tem por objetivo criticar a vaidade excessiva de grandes líderes e intelectuais cuja morte aumenta ainda mais suas riquezas.
✅ Resposta correta: alternativa D
Resolução passo a passo
- O dialogo se passa no mundo dos mortos. Menipo, recem-chegado, procura os belos e as belas da antiguidade, mas ve apenas ossos e cranios.
- Hermes lhe mostra o cranio de Helena, causa de tantas mortes na guerra de Troia. Menipo estranha que os aqueus tenham sofrido por algo tao efemero.
- A fala final de Hermes compara a beleza humana a das flores secas: ela e valida enquanto florece, mas se perde com o tempo e com a morte. Esse e o nucleo reflexivo do texto.
- A alternativa D resume essa reflexao, questionando a validade das acoes humanas em busca de reconhecimento e beleza, condicoes que se perdem apos a morte. Esta correta.
- A alternativa A esta errada, pois o texto nao preserva beleza ou poder de herois na morte. A alternativa B esta errada, pois o texto nega valor a guerra por beleza. A alternativa C esta errada, pois Hermes nao e lider guerreiro. A alternativa E esta errada, pois o texto nao trata de riquezas ampliadas pela morte.
💡 Dica: Releia a fala final de Hermes sobre as flores secas e identifique a ideia central sobre beleza e morte.
Alternativa por alternativa
Entender que os herois conservam prestigio apos a morte, invertendo a ironia do texto que mostra ossos e cranios sem beleza.
Aceitar que a guerra e a memoria dos herois garantem reconhecimento duradouro, ignorando a critica da efemeridade.
Por que engana: aceitar a alternativa B por associar a guerra a reconhecimento
Confundir Hermes com um lider guerreiro e atribuir a ele a responsabilidade pelas mortes na guerra de Troia.
CORRETA. O dialogo reflete sobre a validade das acoes humanas (guerras, disputas por beleza) buscando reconhecimento, condicoes que se perdem com a morte, como mostram os cranios desprovidos de carnes e a comparacao com as flores secas.
Associar a morte a aumento de riquezas e a vaidade de intelectuais, elementos ausentes do dialogo.
Raio-X da questão
efemeridade da beleza e da fama
avaliacao
leitura inferencial de texto literario · contexto da mitologia grega
interpretacao de dialogo filosofico
aceitar a alternativa B por associar a guerra a reconhecimento
pensamento_critico
literario
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