TEXTO 1 Não se zanguem 01 A cartomancia entrou decididamente na vida nacional. 02 03 Os anúncios dos jornais…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
TEXTO 1 Não se zanguem 01 A cartomancia entrou decididamente na vida nacional. 02 03 Os anúncios dos jornais todos os dias 04 proclamam aos quatro ventos as virtudes 05 miríficas das pitonisas. 06 Não tenho absolutamente nenhuma ojeriza 07 pelas adivinhas; acho até que são bastante 08 úteis, pois mantêm e sustentam no nosso 09 espírito essa coisa que é mais necessária à 10 nossa vida que o próprio pão: a ilusão. 11 Noto, porém, que no arraial dessa gente que 12 lida com o destino, reina a discórdia, tal e qual 13 no campo de Agramante. 14 A política, que sempre foi a inspiradora de 15 azedas polêmicas, deixou um instante de sê-lo 16 e passou a vara à cartomancia. 17 Duas senhoras, ambas ultravidentes, 18 extralúcidas e não sei que mais, aborreceram- 19 se e anda uma delas a dizer da outra cobras e 20 lagartos. 21 Como se pode compreender que duas 22 sacerdotisas do invisível não se entendam e 23 deem ao público esse espetáculo de brigas tão 24 pouco próprio a quem recebeu dos altos 25 poderes celestiais virtudes excepcionais? 26 A posse de tais virtudes devia dar-lhes uma 27 mansuetude, uma tolerância, um abandono 28 dos interesses terrestres, de forma a impedir 29 que o azedume fosse logo abafado nas suas 30 almas extraordinárias e não rebentasse em 31 disputas quase sangrentas. 32 Uma cisão, uma cisma nessa velha religião de 33 adivinhar o futuro, é fato por demais grave e 34 pode ter consequências desastrosas. 35 Suponham que F. tenta saber da cartomante X 36 se coisa essencial à sua vida vai dar-se e a 37 cartomante, que é dissidente da ortodoxia, por 38 pirraça diz que não. 39 O pobre homem aborrece-se, vai para casa de 40 mau humor e é capaz de suicidar-se. 41 O melhor, para o interesse dessa nossa pobre 42 humanidade, sempre necessitada de ilusões, 43 venham de onde vier, é que as nossas 44 cartomantes vivam em paz e se entendam 45 para nos ditar bons horóscopos. (BARRETO, Lima. Vida urbana: artigos e crônicas. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1961.) Observando com atenção a linguagem empregada na crônica de Lima Barreto, é correto afirmar que ela revela fundamentalmente (UECE 2018)
- A) o uso da ironia como um recurso discursivo para satirizar o ofício da cartomancia.
- B) o uso de expressões e termos linguísticos próprios do registro formal culto da escrita da língua para se adequar ao gênero crônica.
- C) o emprego de um léxico arcaico para mostrar o caráter pomposo do estilo do autor.
- D) a utilização de conselhos e admoestações para resolver problemas cotidianos, como as brigas entre cartomantes.
✅ Resposta correta: alternativa A
Resolução passo a passo
- Lendo a crônica, percebe-se que Lima Barreto trata com seriedade fingida um assunto banal, a disputa entre cartomantes. Ele diz que as adivinhas são úteis porque sustentam a ilusão, que é mais necessária que o pão, e depois descreve as brigas entre elas como se fossem guerras políticas ou religiosas, com cisões e disputas quase sangrentas. Esse contraste entre o tom grandioso e o assunto frívolo é ironia. Passo 2: A alternativa A descreve exatamente esse recurso: a ironia satiriza o ofício da cartomancia, mostrando a incoerência entre os supostos poderes celestiais das videntes e o seu comportamento mesquinho. Passo 3: A alternativa B está errada porque a linguagem formal é apenas um meio; a questão pede o que a linguagem revela fundamentalmente, e isso é a ironia, não o registro em si. Passo 4: A alternativa C está errada porque palavras como miríficas, ojeriza e mansuetude são eruditas, mas não arcaicas no sentido de linguagem antiga, e o efeito principal não é mostrar um estilo pomposo. Passo 5: A alternativa D está errada porque o texto não oferece conselhos nem admoestações para resolver problemas; ele apenas comenta e critica a situação com ironia. Passo 6: Conclui-se que o gabarito oficial A está correto, pois a ironia é o traço central que a linguagem da crônica revela.
💡 Dica: Analise o tom e a crítica presentes no texto para identificar a linguagem usada.
Alternativa por alternativa
CORRETA. A crônica utiliza ironia para satirizar o ofício da cartomancia, evidenciando um tom crítico e humorístico.
O aluno percebe que o texto usa linguagem culta e formal e conclui que esse registro é a marca principal da crônica, sem notar o efeito irônico que ele produz.
O aluno vê palavras pouco usadas no cotidiano, como miríficas e ojeriza, e as classifica como arcaicas, confundindo raridade vocabular ou erudição com arcaísmo.
O aluno lê o texto como uma lição moral ou um conselho sobre como lidar com brigas, sem perceber que o autor apenas critica a situação de forma irônica.
Raio-X da questão
linguagem crítica e irônica
diagnostico
interpretação de texto literário · figuras de linguagem
Estude figuras de linguagem e análise de texto literário.
Confundir linguagem irônica com linguagem literal ou formal.
pensamento_critico
literario
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