Leia a seguir a primeira estrofe do poema “O meu sepulcro”, de Gonçalves Dias. Quando, os olhos cerrando à luz…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
Leia a seguir a primeira estrofe do poema “O meu sepulcro”, de Gonçalves Dias. Quando, os olhos cerrando à luz da vida, O extremo adeus soltar às esperanças, Que na terra nos guiam, nos confortam E espaçam do porvir a senda estreita; Quando, isento de míseros cuidados, Disser adeus às ilusões douradas, Mas com elas também às dores cruas Da existência – aos espinhos pontiagudos, Com que a verdade o coração nos roça; Quando tocada não sentir minha alma Da luz, dos sons, das cores, das magias, Que a natureza pródiga derrama No regaço da terra – mais ditoso Serei acaso então? – Quando o meu corpo À terra, mãe comum, pedindo abrigo Dos sepulcros no vale em paz descanse; Hei de ser mais feliz porque mo cobre Pomposo mausoléu, em vez da pedra Sem nome, – em vez do túmulo de céspedes, Que s’ergue junto à estrada, e ao viandante, Ao que ali passa, uma oração suplica? Oh! não! – ao encalmado é grata a sombra; Grato descanso aos membros fatigados Presta igualmente a relva das campinas E os torrões pelo sol enrijecidos. Como o trabalhador que a sesta aguarda, O meu termo fatal sem medo espero! Eu então pedirei silêncio à morte, E fresca sombra à sepultura humilde, Que me receba, – e a cuja superfície Morram sem eco da existência as vagas. [...] (DIAS, Gonçalves. Poesia e prosa completas: volume único. Org.: Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1998. p. 491-2.) O auto de Natal pernambucano Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, apresenta algumas semelhanças temáticas com a estrofe acima transcrita, parte integrante do livro Últimos Cantos. Assinale a alternativa em que estão corretas as aproximações entre as duas obras. Assinale a alternativa em que estão corretas as aproximações entre as duas obras. (UFPR 2022)
- A) A esperança e as dores da existência, mencionadas nos versos 2 e 7 (acima), estão presentes na obra de João Cabral no nascimento de uma criança: “E não há melhor resposta / que o espetáculo da vida: / vê-la desfiar seu fio, / que também se chama vida, / ver a fábrica que ela mesma, / teimosamente, se fabrica, / vê-la brotar como há pouco / em nova vida explodida”.
- B) O ato do eu-lírico de se despedir das ilusões e das dores da vida, nos versos 5 a 8 (acima), também é encenado pelo retirante Severino, quando ele comunica a decisão de se suicidar: “– Seu José, mestre carpina, / que diferença faria / se em vez de continuar / tomasse a melhor saída: / a de saltar, numa noite, / fora da ponte e da vida?”.
- C) A natureza benfazeja, mencionada nos versos 10 a 13 (acima), foi representada por João Cabral nesta imagem de satisfação das necessidades humanas: “Cedo aprenderá a caçar: / primeiro, com as galinhas, / que é catando pelo chão / tudo o que cheira a comida; / depois aprenderá com / outras espécies de bichos: / com os porcos nos monturos, / com os cachorros no lixo”.
- D) O eu-lírico opina, nos versos 17 a 21 (acima), que ricos e pobres se tornam iguais quando morrem; a mesma ideia foi apresentada nos seguintes versos de João Cabral: “– Não é cova grande, / é cova medida, / é a terra que querias / ver dividida. [...] É uma cova grande / para tua carne pouca, / mas a terra dada / não se abre a boca”.
✅ Resposta correta: alternativa A
Resolução passo a passo
- Identifique no trecho de Gonçalves Dias os temas citados nos versos indicados. Nos versos 2 e 7 aparecem as esperanças que guiam o homem na terra e as dores cruas da existência, que o eu-lírico deixará ao morrer. O poema trata a morte como descanso e reflete sobre o fim da vida.
- Analise a passagem de João Cabral citada na alternativa A. O eu-lírico de Morte e Vida Severina responde à pergunta sobre a morte com o espetáculo da vida: o nascimento de uma criança, que renova a existência e apresenta a esperança de continuidade. Essa criança carrega também o fio de vida que se desfia, ou seja, a dureza da existência.
- Compare os dois textos. Gonçalves Dias fala de esperanças e dores ao se despedir da vida, e Cabral mostra, no nascimento, a esperança renovada e o peso da vida que começa. A aproximação temática entre a esperança e as dores da existência é, portanto, correta na alternativa A.
- Justifique as alternativas erradas. A alternativa B aproxima Severino do eu-lírico pelo tema da despedida da vida, mas o suicídio de Severino é uma fuga violenta, e não a morte serena desejada no poema. A alternativa C é errada porque a passagem de Cabral mostra a fome e a miséria, e não uma natureza benfazeja. A alternativa D é errada porque o trecho de Gonçalves Dias contrasta o túmulo suntuoso com o túmulo humilde, e não trata de igualdade social diante da morte.
- Registro de dúvida. A alternativa B é a rival mais forte, pois também trata do desejo de deixar a vida. Ainda assim, a alternativa A é a que melhor corresponde aos versos 2 e 7 e ao gabarito oficial, por isso a mantenho como a correta.
💡 Dica: Compare os temas centrais e as mensagens das duas obras para identificar semelhanças.
Alternativa por alternativa
CORRETA. A alternativa identifica corretamente a presença dos temas da esperança e das dores da existência em ambas as obras, relacionando o nascimento da criança em Morte e Vida Severina com os versos do poema de Gonçalves Dias.
Acredita que a despedida das ilusões e das dores da vida, no poema, equivale ao suicídio de Severino, como se ambos buscassem a morte como saída violenta. Não percebe que o eu-lírico deseja uma morte serena e natural.
Entende a natureza pródiga do poema como sinônimo de abundância agradável e a associa à passagem de Cabral sobre a fome e a catação de comida no lixo. Não percebe que o trecho de Cabral mostra miséria, e não benfeitoria da natureza.
Generaliza a palavra igualmente usada nos versos sobre o descanso dos membros fatigados e supõe que o poema afirma a igualdade social na morte. Confunde o contraste entre túmulo suntuoso e túmulo humilde com a ideia de igualdade entre ricos e pobres.
Raio-X da questão
temas literarios e comparacao
diagnostico
analise de texto poetico · interpretacao literaria
estudo de temas e simbolismos em poesias brasileiras
Confundir temas superficiais com os temas centrais das obras, levando a interpretações equivocadas.
pensamento_critico
literario
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