O ARRASTÃO Estarrecedor, nefando, inominável, infame. Gasto logo os adjetivos porque eles fracassam em dizer o…
Publicado por Alexandre Lombardi dos Santos, fundador do GeraProva
Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
Fonte: Base Nacional Comum Curricular (MEC).Questão
O ARRASTÃO Estarrecedor, nefando, inominável, infame. Gasto logo os adjetivos porque eles fracassam em dizer o sentimento que os fatos impõem. Uma trabalhadora brasileira, descendente de escravos, como tantos, que cuida de quatro filhos e quatro sobrinhos, que parte para o trabalho às quatro e meia das manhãs de todas as semanas, que administra com o marido um ganho de mil e seiscentos reais, que paga pontualmente seus carnês, como milhões de trabalhadores brasileiros, é baleada em circunstâncias não esclarecidas no Morro da Congonha e, levada como carga no porta-malas de um carro policial a pretexto de ser atendida, é arrastada à morte, a céu aberto, pelo asfalto do Rio. Não vou me deter nas versões apresentadas pelos advogados dos policiais. Todas as vozes terão que ser ouvidas, e com muita atenção à voz daqueles que nunca são ouvidos. Mas, antes das versões, o fato é que esse porta-malas, ao se abrir fora do script, escancarou um real que está acostumado a existir na sombra. O marido de Cláudia Silva Ferreira disse que, se o porta-malas não se abrisse como abriu (por obra do acaso, dos deuses, do diabo), esse seria apenas “mais um caso”. Ele está dizendo: seria uma morte anônima, aplainada pela surdez da praxe, pela invisibilidade, uma morte não questionada, como tantas outras. É uma imagem verdadeiramente surreal, não porque esteja fora da realidade, mas porque destampa, por um “acaso objetivo” (a expressão era usada pelos surrealistas), uma cena recalcada da consciência nacional, com tudo o que tem de violência naturalizada e corriqueira, tratamento degradante dado aos pobres, estupidez elevada ao cúmulo, ignorância bruta transformada em trapalhada transcendental, além de um índice grotesco de métodos de camuflagem e desaparição de pessoas. Pois assim como Amarildo é aquele que desapareceu das vistas, e não faz muito tempo, Cláudia é aquela que subitamente salta à vista, e ambos soam, queira-se ou não, como o verso e o reverso do mesmo. O acaso da queda de Cláudia dá a ver algo do que não pudemos ver no caso do desaparecimento de Amarildo. A sua passagem meteórica pela tela é um desfile do carnaval de horror que escondemos. Aquele carro é o carro alegórico de um Brasil, de um certo Brasil que temos que lutar para que não se transforme no carro alegórico do Brasil. No início do texto, ao expressar sua indignação em relação ao tema abordado, o autor apresenta uma reflexão sobre o emprego de adjetivos. Essa reflexão está associada à seguinte ideia: (UERJ 2015)
- A) o fato exige análise criteriosa
- B) o contexto constrói ambiguidade
- C) a linguagem se mostra insuficiente
- D) a violência pede descrição cuidadosa
✅ Resposta correta: alternativa C
Resolução passo a passo
- O autor abre o texto com a frase "Gasto logo os adjetivos porque eles fracassam em dizer o sentimento que os fatos impõem". Ou seja, ele reconhece que os adjetivos (estarrecedor, nefando, inominável, infame) não conseguem expressar a dimensão do que aconteceu.
- A ideia central dessa reflexão é que a linguagem é insuficiente para traduzir a indignação diante dos fatos. Isso corresponde à alternativa C, "a linguagem se mostra insuficiente".
- Analisando as demais alternativas: A) fala em análise criteriosa do fato, o que não aparece na reflexão sobre adjetivos; B) fala em ambiguidade do contexto, ideia que não é mencionada no trecho; D) fala em descrição cuidadosa da violência, mas o autor justamente afirma que descrever com adjetivos fracassa, então a alternativa contraria o raciocínio do texto.
- Conclusão: a alternativa correta é a C, que coincide com o gabarito oficial.
💡 Dica: Analise o trecho inicial para entender a reflexão sobre os adjetivos.
Alternativa por alternativa
O aluno pode ter associado a reflexão do autor à necessidade de investigar os fatos, por causa das menções a versões e às circunstâncias não esclarecidas, sem perceber que o trecho inicial trata da linguagem.
Por que engana: Confundir a reflexão sobre a linguagem com análise do fato ou contexto, levando a escolha de alternativas que não focam na insuficiência da linguagem.
O aluno pode ter se prendido à palavra 'circunstâncias não esclarecidas' e imaginado que o texto fala de incerteza ou ambiguidade, sem notar que a reflexão do início é sobre a insuficiência dos adjetivos.
CORRETA. O autor destaca que os adjetivos usados são insuficientes para expressar o sentimento imposto pelos fatos, evidenciando a limitação da linguagem.
O aluno pode ter entendido que o autor quer descrever a violência com cuidado, ignorando que o texto afirma que os adjetivos fracassam em expressar o sentimento, ou seja, a descrição não dá conta do fato.
Raio-X da questão
limites da linguagem
diagnostico
interpretação de texto literário · análise de linguagem figurada
estudo sobre figuras de linguagem e função dos adjetivos
Confundir a reflexão sobre a linguagem com análise do fato ou contexto, levando a escolha de alternativas que não focam na insuficiência da linguagem.
cidadania_etica
pensamento_critico
literario
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