Turmas multisseriadas em escolas rurais: entre autonomia e falta de formação
Estudos recentes de diferentes países mostram desafios de formação, infraestrutura e avaliação em escolas rurais multisseriadas, mas também exploram recursos locais, tecnologia e práticas adaptadas. Veja o que pode inspirar o trabalho docente no Brasil.
Turmas multisseriadas reúnem estudantes de diferentes anos ou níveis na mesma sala, realidade comum em escolas rurais. Estudos recentes de países como Chile, África do Sul e Zimbábue relatam desafios ligados à formação docente, infraestrutura e avaliação. Também investigam práticas com recursos locais, tecnologia e atividades adaptadas, oferecendo ideias para reflexão — sem que suas soluções possam ser transferidas automaticamente ao contexto brasileiro.
Em estudos recentes sobre escolas rurais multisseriadas, a formação docente aparece como uma questão decisiva: no Zimbábue, profissionais atuavam nessas turmas sem preparação específica, e a falta de apoio se associava a lacunas de aprendizagem entre estudantes dos anos iniciais. Ao mesmo tempo, pesquisas no Chile, na África do Sul e no Peru investigam avaliação, tecnologia e recursos didáticos ajustados a contextos com mais de um ano escolar na mesma sala.
Para quem ensina com diferentes idades e percursos ao mesmo tempo, essa tensão não é abstrata. Ela aparece na escolha do que ensinar primeiro, na organização das tarefas enquanto se acompanha outro grupo e na dificuldade de fazer avaliações que reconheçam percursos distintos. Os estudos não oferecem uma receita única para o Brasil, mas ajudam a separar o que parece depender de boas escolhas pedagógicas do que exige formação, infraestrutura e políticas que considerem a realidade rural.
O que são turmas multisseriadas em escolas rurais e por que importam para o professor?
Turmas multisseriadas são grupos em que estudantes de diferentes anos escolares aprendem juntos, com um professor ou uma professora responsável por organizar o trabalho pedagógico para mais de um nível. Em escolas rurais, essa forma de organização pode fazer parte da realidade cotidiana da escola. Para o docente, significa planejar objetivos, atividades, acompanhamento e avaliação sem pressupor que todos estejam no mesmo ponto do percurso escolar.
Isso não equivale simplesmente a dar a mesma aula para todos, nem significa que a aprendizagem precise ser menos exigente. O desafio é combinar momentos compartilhados com propostas adequadas aos diferentes conhecimentos e necessidades. Uma conversa sobre um tema comum, por exemplo, pode abrir espaço para tarefas com graus diferentes de complexidade. Essa é uma possibilidade de organização pedagógica, não uma conclusão específica dos estudos aqui apresentados.
O tema importa porque a organização multisseriada se relaciona a condições de trabalho que vão além da sala. Os estudos selecionados abordam formação, suporte institucional, política de avaliação, acesso à tecnologia e práticas didáticas. Também mostram que não existe um único cenário rural: localização, recursos, língua, políticas nacionais e estrutura das escolas variam de país para país. Por isso, comparar experiências serve para formular perguntas úteis, não para copiar um modelo sem considerar o contexto brasileiro.
O que a pesquisa recente mostra sobre escolas rurais multisseriadas?
Formação e apoio fazem diferença na organização do ensino
Um estudo qualitativo em escolas primárias satélites do Zimbábue investigou desafios e perspectivas do ensino multisseriado. Os autores ouviram responsáveis pelas escolas e professores. Segundo o resumo, nenhum dos profissionais entrevistados havia recebido formação em ensino multisseriado; nem coordenadores de agrupamento nem inspetores escolares, que deveriam apoiar os docentes, tinham preparação nessa pedagogia (Jakachira, 2023).
O achado mais preocupante é a consequência relatada para a prática: diante da falta de preparação e apoio, professores e responsáveis ensinavam nas turmas multisseriadas apenas os conteúdos curriculares dos anos mais avançados. Os estudantes dos anos iniciais acumulavam defasagens, afetando o domínio de conceitos à medida que avançavam pelo currículo primário. O estudo recomenda incluir pedagogia multisseriada na formação inicial e continuada. É uma recomendação dos autores para o contexto estudado, não uma política automaticamente aplicável a outros países.
Essa pesquisa ajuda a olhar para a diferença entre ter uma turma multisseriada e estar preparado para ensiná-la. A existência da turma, por si só, não garante que os níveis estejam contemplados. Para o professor, a pergunta prática é se o planejamento prevê aprendizagens para cada grupo e se há apoio para acompanhar os avanços. O resumo não descreve um método único de planejamento que resolva esse problema; ele aponta a formação e o suporte como necessidades no contexto pesquisado.
A avaliação pode reconhecer ou apagar a realidade rural
No Chile, uma pesquisa acompanhou durante dois anos a experiência de uma professora dos anos iniciais que assumia todas as funções pedagógicas e de gestão em uma escola rural multisseriada. O estudo examinou como a política de avaliação educacional era vivida por essa docente. Os autores relatam que não observaram experiências de reconhecimento mútuo associadas à justiça social na relação com o sistema político-educacional chileno. Em vez disso, identificaram experiências de falta de afeto, tratamento desigual e desvalorização do contexto rural (Aliaga-Rojas, 2025).
O estudo destaca uma tensão importante para pensar avaliação: critérios e políticas podem organizar expectativas, mas também podem desconsiderar as condições e a diversidade territorial de uma escola. A pesquisa não autoriza afirmar que toda avaliação padronizada produz injustiça, nem descreve a política brasileira. Ela mostra a experiência de uma professora em um contexto chileno específico e defende valorizar a diversidade territorial e cultural nas políticas públicas.
Para quem está na sala de aula, esse debate ajuda a distinguir avaliação de classificação. O docente precisa de evidências sobre o que cada estudante aprendeu, mas também precisa interpretar essas evidências considerando percursos e oportunidades de aprendizagem. Essa ideia de aplicação deve ser tratada como reflexão pedagógica inspirada no tema do estudo, não como resultado testado pela pesquisa chilena.
As dificuldades podem aumentar quando a tarefa exige mais do que leitura literal
Uma pesquisa em cinco escolas rurais multisseriadas do Chile analisou respostas de 22 estudantes do 5º e do 6º ano a um questionário sobre gráficos estatísticos. Em geral, os alunos não encontraram dificuldade para responder a questões de leitura literal, classificadas como nível 1. As dificuldades aumentaram gradualmente conforme se elevava o nível de leitura do gráfico (Bustamante-Valdés, 2024).
Os autores também identificaram dificuldades específicas em tarefas de construção de gráficos com distribuição de dados e de complementação de um gráfico com duas distribuições. Isso sugere que reconhecer uma informação explícita e construir ou completar uma representação são demandas distintas. O resumo não atribui as dificuldades à condição multisseriada, nem compara esses estudantes com turmas seriadas; portanto, não é possível concluir que a organização da turma tenha causado o resultado.
Para o planejamento, o estudo oferece uma lente útil: verificar se uma atividade avalia apenas localizar informação ou também exige interpretar relações e produzir representações. Essa progressão pode ajudar o professor a perceber em que etapa a turma precisa de mais apoio. A aplicação a outras áreas e anos é uma possibilidade de trabalho docente, não uma conclusão investigada nesse estudo específico.
Tecnologia pode apoiar a aprendizagem, mas depende de condições concretas
Na África do Sul, um estudo qualitativo explorou experiências de 12 professores do ensino primário com integração de tecnologias de informação e comunicação em turmas multisseriadas de escolas selecionadas. Os resultados apontam que o acesso de professores e estudantes a equipamentos é fundamental. Também relatam dificuldades ligadas à infraestrutura tecnológica básica, à formação limitada, à falta de tempo, ao contexto multisseriado e ao apoio das direções escolares (Taole, 2024).
Os autores recomendam formação e apoio para que professores possam integrar as TIC de modo eficaz em seu contexto. A pesquisa não apresenta tecnologia como solução automática: a possibilidade pedagógica depende de acesso e de conhecimentos para combinar conteúdo, pedagogia e tecnologia. Para uma escola rural brasileira, essa distinção é importante. Uma proposta digital só é viável se os equipamentos, a conectividade e o tempo disponível permitirem que os estudantes a utilizem.
Um estudo realizado no Peru durante a pandemia investigou um recurso diferente: a Yupana Inca Tawa Pukllay, uma ferramenta lúdica em tablet voltada à leitura de números no sistema numérico inca e sua equivalência no sistema indo-arábico. Doze crianças do 1º ao 4º ano de uma escola rural bilíngue espanhol-quéchua e multisseriada utilizaram o recurso de forma autônoma, sem a presença de professores. Os resultados relatados incluem aprendizagem em períodos de 14 minutos a 5 horas e 41 minutos, maior precisão na primeira tentativa, aumento da velocidade de leitura e alto percentual de acertos em números com pelo menos um zero (Guzman-Jimenez, 2023).
O achado sugere potencial para aquele recurso e aquela atividade de aritmética, mas não prova que qualquer aplicativo seja eficaz em qualquer turma. A língua, o conteúdo, o desenho do jogo, a faixa de anos e as condições de uso fazem parte do contexto. Ao lado do estudo sul-africano, a pesquisa peruana permite uma leitura equilibrada: a tecnologia pode abrir oportunidades, mas sua integração depende tanto do recurso quanto das condições de acesso e da adequação pedagógica.
O que os estudos sobre turmas multisseriadas mostram lado a lado?
Os estudos abordam aspectos diferentes da vida escolar: formação e currículo, política de avaliação, compreensão de gráficos, integração de tecnologias e um recurso digital para números. A tabela resume o foco e o contexto informado nos resumos, sem transformar experiências de países distintos em uma comparação direta de desempenho.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Jakachira, 2023 | Desafios e perspectivas do ensino multisseriado em escolas primárias satélites. | Falta de formação entre os profissionais ouvidos; ensino concentrado nos conteúdos dos anos mais avançados e defasagens nos anos iniciais; recomenda formação específica. | Zimbábue; escolas primárias satélites; estudo qualitativo. |
| Guzman-Jimenez, 2023 | Uso da Yupana Inca Tawa Pukllay para aprendizagem de números. | As crianças melhoraram precisão e velocidade de leitura de algarismos e tiveram alto percentual de acertos em números com zero. | Peru; 12 crianças do 1º ao 4º ano, escola rural bilíngue e multisseriada; pandemia. |
| Bustamante-Valdés, 2024 | Compreensão de gráficos estatísticos. | Leitura literal apresentou menos dificuldades; as dificuldades cresceram em níveis superiores e na construção e complementação de gráficos. | Chile; 22 estudantes do 5º e 6º ano, em cinco escolas rurais multisseriadas. |
| Taole, 2024 | Experiências de professores com integração de TIC. | Equipamentos são fundamentais; infraestrutura, formação, tempo, contexto e apoio da direção dificultam a integração. | África do Sul; 12 professores do ensino primário de escolas selecionadas. |
| Aliaga-Rojas, 2025 | Experiência de uma professora diante da política de avaliação educacional. | Relata falta de reconhecimento mútuo e experiências de opressão, tratamento desigual e desvalorização do contexto. | Chile; professora dos anos iniciais em escola rural multisseriada, acompanhada por dois anos. |
Quais são os pontos em comum e as diferenças entre as pesquisas?
Um ponto de convergência é que a organização multisseriada não pode ser entendida isoladamente das condições de trabalho. No estudo do Zimbábue, formação e apoio insuficientes aparecem junto a um ensino que deixa os anos iniciais em desvantagem. Na pesquisa sul-africana, a dificuldade de integrar TIC se relaciona não só ao contexto multisseriado, mas também à infraestrutura, ao tempo, à formação e ao suporte da direção. No Chile, a experiência da professora põe em evidência a relação entre políticas de avaliação e reconhecimento da realidade rural.
Os estudos também mostram que diferentes tarefas revelam diferentes necessidades. No Chile, os estudantes pesquisados conseguiam lidar melhor com a leitura literal de gráficos do que com níveis mais complexos e com sua construção. No Peru, o recurso digital estudado esteve associado a avanços relatados na leitura de números. Esses resultados não se contradizem: tratam de conteúdos, métodos, participantes e perguntas distintos. Tampouco permitem concluir que o uso de tecnologia resolveria as dificuldades de interpretação gráfica.
Há diferenças importantes de desenho e alcance. Uma pesquisa acompanha a experiência de uma professora por dois anos; outra analisa respostas de 22 alunos; outra entrevista 12 docentes; e o estudo peruano descreve uma intervenção com 12 crianças. Como as perguntas são diferentes, não cabe classificar países ou modelos de escola do melhor ao pior. Também permanece em aberto como combinar formação, avaliação adequada, recursos e planejamento em políticas sustentáveis, e quais práticas se mantêm eficazes em outras comunidades e ao longo do tempo.
Como aplicar essas ideias na sala de aula multisseriada?
As pesquisas não testaram todas as estratégias abaixo como um pacote para salas brasileiras. Elas inspiram possibilidades de aplicação, que o professor pode adaptar aos recursos, aos anos atendidos e aos objetivos locais. O ponto de partida é evitar que um grupo fique sem uma proposta de aprendizagem enquanto a atenção docente está voltada a outro.
1. Planeje um tema comum com tarefas em níveis diferentes
Como aplicação pedagógica, escolha um assunto que possa ser explorado por todos e prepare tarefas com exigências distintas. Imagine uma turma que investiga o uso de água na comunidade: um grupo pode classificar observações, outro comparar quantidades e um terceiro elaborar uma explicação. A proposta não é reduzir o currículo dos estudantes mais novos ao conteúdo dos mais velhos, problema relatado no estudo do Zimbábue. É criar uma entrada comum sem apagar o que cada grupo precisa aprender.
2. Verifique o que cada atividade realmente exige
Como aplicação, antes de avaliar, pergunte se a tarefa pede localizar uma informação, interpretá-la ou produzir uma representação. Imagine estudantes que leem um gráfico de chuvas: primeiro podem identificar um valor indicado; depois, comparar períodos; por fim, construir uma representação com dados fornecidos. A pesquisa chilena sobre gráficos mostra que o desempenho em leitura literal não garante facilidade em níveis superiores. Usar etapas torna mais visível onde apoiar cada estudante, sem presumir que o estudo tenha testado essa sequência de ensino.
3. Reserve atenção explícita aos anos iniciais
Como aplicação inspirada pelo alerta do estudo zimbabuano, faça uma checagem de planejamento: que aprendizagem concreta está prevista para cada grupo, inclusive para quem está nos anos iniciais? Imagine que, durante uma atividade longa com estudantes mais velhos, os menores tenham uma tarefa curta ligada a uma meta própria, seguida de um momento de acompanhamento. Isso não significa que o professor precise trabalhar sempre em blocos separados. Significa evitar que a agenda dos anos mais avançados ocupe todo o tempo e deixe os demais apenas ocupados, sem ensino intencional.
4. Use recursos digitais só quando houver condições para isso
Como aplicação, escolha uma atividade digital que tenha propósito definido e alternativa viável caso falte conexão ou equipamento. Imagine um recurso de aritmética que estudantes usam em turnos, enquanto os demais trabalham com materiais não digitais sobre o mesmo objetivo. O estudo peruano torna plausível explorar jogos de números; o estudo sul-africano lembra que acesso, formação, tempo e apoio influenciam a integração. Portanto, antes de planejar, verifique quantos dispositivos funcionam, como organizar os turnos e como acompanhar o que cada estudante aprendeu.
5. Trate a formação como parte do trabalho, não como falha individual
Como aplicação, procure trocar planejamentos com colegas, registrar dúvidas recorrentes e levar exemplos concretos a reuniões de formação. Imagine uma equipe que analisa como distribuir tarefas em uma turma com quatro anos escolares e identifica em conjunto quais estudantes precisam de orientação direta. O estudo do Zimbábue recomenda formação inicial e continuada em pedagogia multisseriada; o da África do Sul aponta necessidade de formação e apoio para uso de TIC. Isso reforça que dificuldades estruturais não se resolvem apenas pedindo esforço individual ao docente.
6. Combine evidências de aprendizagem com conhecimento do contexto
Como aplicação, use produções, observações e conversas para entender o que cada estudante já consegue fazer e qual pode ser o próximo passo. Imagine que dois alunos respondam corretamente a uma questão de gráfico, mas um apenas localize um dado e outro explique uma comparação. Registrar essa diferença pode orientar novas tarefas. A discussão chilena sobre avaliação chama atenção para o risco de desvalorizar o contexto rural; não fornece uma ficha avaliativa pronta. A escolha de instrumentos deve respeitar as orientações da rede e as condições de cada escola.
7. Organize rotinas que deem previsibilidade sem engessar a aula
Como aplicação prática, combine momentos de explicação coletiva, trabalho em pequenos grupos e conferência de tarefas, ajustando a rotina ao que a turma precisa. Imagine que, enquanto o professor acompanha uma atividade orientada, outro grupo saiba qual tarefa realizar e como sinalizar uma dúvida. Essa organização pode ajudar a administrar a atenção dividida, mas não foi testada como intervenção pelos estudos selecionados. É uma hipótese de trabalho para experimentar e revisar com base na participação e nas aprendizagens observadas, não uma fórmula universal.
O que muda quando levamos esses estudos para o contexto brasileiro?
O principal cuidado é não tratar Chile, África do Sul, Peru e Zimbábue como versões intercambiáveis do Brasil. Os estudos se referem a políticas, escolas, línguas, recursos e comunidades diferentes. A experiência chilena sobre avaliação não descreve as regras brasileiras; a pesquisa sul-africana não permite presumir o mesmo nível de acesso à tecnologia em uma escola do Brasil; e o recurso peruano foi desenvolvido em uma situação linguística e cultural específica, com espanhol e quéchua e números incas.
Mesmo assim, as perguntas levantadas podem ser úteis para professores brasileiros. Há formação específica para organizar o ensino em uma turma com vários anos? Os instrumentos de avaliação reconhecem as condições do território? Há equipamentos e apoio para usar tecnologia, ou o plano depende de recursos que não existem? Como garantir que estudantes de todos os anos tenham objetivos de aprendizagem acompanhados? Essas perguntas ajudam a analisar a prática local sem afirmar que os estudos mediram escolas brasileiras.
Também é importante separar o que pode ser adaptado do que não deve ser simplesmente importado. Uma ideia geral, como diferenciar tarefas ou verificar etapas de compreensão, pode inspirar planejamento. Já um aplicativo, uma política de avaliação ou uma forma de organização precisa ser examinada quanto à língua, ao currículo, à cultura, à infraestrutura e às orientações da rede brasileira. A adaptação exige diálogo com estudantes, famílias, colegas e comunidade, além de atenção às necessidades concretas da escola.
Por fim, os resumos destacam que algumas respostas dependem de condições que o professor não controla sozinho. Formação, infraestrutura e apoio das direções aparecem entre os desafios relatados. Assim, uma leitura útil não transforma toda dificuldade em responsabilidade individual: ela ajuda a pensar o que o docente pode ajustar em sala e o que precisa ser discutido com a gestão e com a rede de ensino.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de cinco estudos recentes, e não na leitura integral de cada publicação. Os resumos informam os objetivos, alguns aspectos dos métodos e os resultados principais, mas não permitem examinar todos os instrumentos, análises, definições e condições de aplicação. Por isso, as conclusões foram apresentadas dentro do alcance descrito, sem generalizar os resultados para todas as escolas multisseriadas ou para o Brasil.
Ficam em aberto perguntas importantes: como os resultados se mantêm em outros anos e componentes curriculares? Quais formas de formação docente produzem mudanças duradouras? Como avaliar aprendizagens sem desconsiderar diferenças territoriais? Em que condições um recurso digital pode ser usado com grupos de idades variadas? E como comparar experiências de países diferentes sem reduzir as particularidades de cada comunidade?
Faz sentido consultar os estudos completos quando a escola ou a rede for tomar decisões sobre uma intervenção específica, adotar um recurso digital, revisar uma política de avaliação ou planejar formação. A leitura integral também é necessária para conferir os detalhes metodológicos e compreender melhor os limites de cada resultado. Aqui, o objetivo é oferecer um mapa inicial de questões e achados, não substituir a consulta às pesquisas originais.
Como o GeraProva pode ajudar com turmas multisseriadas?
O GeraProva pode ajudar o professor a criar questões e avaliações que atendam a objetivos diferentes, uma possibilidade útil quando a turma reúne estudantes em etapas distintas. A ferramenta não substitui o conhecimento docente sobre a comunidade, a revisão pedagógica nem o acesso a formação e recursos. Você pode conhecer o gerador de provas do GeraProva e fazer seu cadastro grátis para explorar como organizar materiais de avaliação para a sua realidade.
Perguntas frequentes sobre turmas multisseriadas em escolas rurais
O que os estudos apontam como principal desafio das turmas multisseriadas?
Os estudos mostram desafios diferentes, mas formação e condições de trabalho aparecem com destaque. No Zimbábue, profissionais entrevistados não tinham formação em pedagogia multisseriada, e a falta de preparação e apoio foi associada ao ensino concentrado nos conteúdos dos anos mais avançados e a defasagens entre estudantes dos anos iniciais (Jakachira, 2023). Na África do Sul, professores relataram obstáculos para integrar tecnologias, como falta de infraestrutura, formação limitada, pouco tempo e apoio insuficiente da direção (Taole, 2024). Esses resultados pertencem aos contextos pesquisados; não descrevem automaticamente todas as escolas brasileiras.
Uma turma multisseriada pode trabalhar um tema comum?
É possível planejar um assunto comum e variar as tarefas, mas os estudos reunidos não testaram esse formato como uma intervenção geral. Essa é uma possibilidade de aplicação pedagógica, desde que o tema compartilhado não apague as aprendizagens próprias de cada grupo. Uma investigação sobre o ambiente local, por exemplo, pode incluir observação, comparação e produção de explicações com diferentes níveis de complexidade. O alerta do estudo do Zimbábue é relevante: quando a falta de formação leva a concentrar o ensino nos conteúdos dos anos mais avançados, estudantes dos anos iniciais podem acumular defasagens (Jakachira, 2023).
O que a pesquisa chilena encontrou sobre gráficos?
O estudo analisou respostas de 22 estudantes do 5º e do 6º ano em cinco escolas rurais multisseriadas. De modo geral, eles não tiveram dificuldade para responder a questões de leitura literal dos gráficos, mas as dificuldades aumentaram nos níveis mais altos de leitura. Os autores também identificaram dificuldades na construção de gráficos com distribuição de dados e na complementação de um gráfico com duas distribuições (Bustamante-Valdés, 2024). O resultado pode inspirar o professor a distinguir entre localizar informação, interpretar relações e produzir representações, mas não demonstra que a condição multisseriada tenha causado essas dificuldades.
A tecnologia resolve os desafios do ensino multisseriado?
Não por si só. Na África do Sul, professores apontaram que equipamentos para docentes e estudantes são fundamentais, mas também relataram dificuldades ligadas à infraestrutura, formação, tempo, contexto multisseriado e apoio da direção (Taole, 2024). No Peru, um recurso lúdico em tablet para leitura de números apresentou resultados positivos entre 12 crianças de uma escola rural bilíngue e multisseriada (Guzman-Jimenez, 2023). São experiências específicas, não uma prova de que qualquer tecnologia funciona em qualquer turma. A aplicação depende de acesso, objetivo de aprendizagem, adequação do recurso e possibilidade de acompanhar os estudantes.
As conclusões dos estudos podem ser aplicadas diretamente no Brasil?
Não sem adaptação. Os estudos foram realizados no Chile, na África do Sul, no Peru e no Zimbábue, em condições escolares, culturais e políticas próprias. Uma questão como a necessidade de formação docente pode ajudar redes brasileiras a refletir, mas a política de avaliação chilena ou a ferramenta numérica peruana não deve ser tratada como se fosse brasileira. O professor pode usar os achados para formular perguntas sobre sua realidade: quais grupos precisam de acompanhamento, que recursos estão disponíveis e se a avaliação considera o contexto. Decisões locais pedem análise das orientações da rede e diálogo com a comunidade.
Por que a formação específica aparece como tema importante?
Porque ensinar estudantes de diferentes anos em uma mesma sala exige organizar objetivos, atividades e acompanhamento para percursos distintos. No estudo do Zimbábue, a ausência de formação entre os profissionais entrevistados foi relacionada a práticas que priorizavam conteúdos dos anos mais avançados, deixando os anos iniciais em risco de acumular defasagens (Jakachira, 2023). A pesquisa recomenda incluir pedagogia multisseriada na formação inicial e continuada. Esse resultado não define um único curso ou método ideal; aponta que a preparação e o apoio precisam fazer parte da resposta, em vez de atribuir todas as dificuldades ao esforço individual de quem está em sala.
Referências
- Jakachira, Godfrey; Muchabaiwa, Wonder (2023). O dilema do ensino multisseriado nas escolas primárias satélites do Zimbábue: crise da educação multisseriada de qualidade (The Conundrum of Multi-Grade Teaching in Zimbabwe's Satellite Primary Schools: Quality Multi-Grade Education Crisis). Cogent Education. Link.
- Guzman-Jimenez, Rosario; Dhavit-Prem; Saldívar, Alvaro; Escotto-Córdova, Alejandro (2023). Alternâncias semióticas com a Yupana Inca Tawa Pukllay na aprendizagem gamificada de números em uma escola rural peruana (Semiotic Alternations with the Yupana Inca Tawa Pukllay in the Gamified Learning of Numbers at a Rural Peruvian School). Educational Technology & Society. Link.
- Bustamante-Valdés, Matías; Díaz-Levicoy, Danilo (2024). Compreensão de Gráficos Estatísticos de Estudantes de Escolas Rurais Multisseriadas no Chile (Understanding Statistical Graphs of Students Attending Multigrade Rural Schools in Chile). International Electronic Journal of Mathematics Education. Link.
- Taole, Matshidiso Joyce (2024). Integração das TIC em um contexto multisseriado: explorando as experiências de professores do ensino fundamental (ICT Integration in a Multigrade Context: Exploring Primary School Teachers Experiences). Research in Social Sciences and Technology. Link.
- Aliaga-Rojas, Jessica; Del Pino, Miguel (2025). Política de avaliação educacional no Chile: experiência em uma escola rural multisseriada como contribuição para a justiça social (Education Evaluation Policy in Chile: Experience at a Multigrade Rural School as a Contribution to Social Justice). Educational Assessment, Evaluation and Accountability. Link.
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