Transição escolar de alunos com autismo: por que o apoio precisa continuar
Estudos recentes associam transições mais bem avaliadas a apoio contínuo, colaboração entre escola e família e atenção às características de cada estudante. Veja o que essas pesquisas sugerem para o planejamento escolar.
A transição escolar de estudantes com autismo é a passagem entre etapas ou escolas, que pode envolver mudanças de rotina, relações e demandas de aprendizagem. As pesquisas reunidas apontam a importância de planejar apoio contínuo, articular escola e família e considerar características individuais, como engajamento, necessidades de apoio e contexto familiar. O planejamento não deve ser igual para todos.
Cena hipotética: no corredor, uma estudante autista para diante da porta da nova sala enquanto a turma anterior já segue para outra atividade. O espaço mudou, os adultos de referência também, e a rotina que ela conhecia não está mais ali.
A passagem entre etapas pode trazer oportunidades e exigências novas, mas não acontece da mesma forma para todos. Como planejar a transição sem tratar estudantes autistas como um grupo uniforme e sem deixar o apoio desaparecer justamente quando o ambiente muda?
O que é a transição escolar de estudantes com autismo e por que importa para o professor?
Transição escolar é a passagem entre ambientes ou etapas — por exemplo, da educação infantil para o ensino fundamental, de uma escola para outra ou do ensino médio para a vida pós-secundária. Para o professor, importa porque mudam pessoas, espaços, horários, demandas e formas de apoio; preparar essa mudança envolve conhecer as necessidades daquele estudante e articular continuidade entre quem sai e quem recebe.
Na rotina, a transição não se resume ao primeiro dia. Pode envolver a familiarização com ambientes, a comunicação entre profissionais, a participação da família e a preparação do próprio estudante para novas atividades e relações. Os estudos reunidos aqui abordam diferentes momentos: entrada na educação infantil, passagem para uma nova escola, chegada ao ensino secundário e ingresso no ensino superior. Eles não oferecem uma receita única, mas ajudam a perceber quais dimensões merecem atenção.
Considerar características individuais significa não presumir que duas pessoas autistas terão as mesmas preferências, formas de comunicação, habilidades ou desafios. Os resumos mostram que características da criança, da família e da escola podem se relacionar com avaliações e experiências de transição. Também apontam que o apoio pode ser acadêmico, social, emocional e prático. Para o professor, isso convida a planejar com o estudante e sua rede, em vez de depender apenas de um protocolo geral.
O que a pesquisa recente mostra sobre transições escolares no autismo?
A pesquisa recente retrata a transição como um processo que depende de continuidade, preparação e colaboração, mas também de características específicas do estudante e de seu contexto. Os estudos variam em etapa, método e país; alguns avaliam intervenções, outros descrevem associações ou investigam expectativas. A seguir, estão organizados por ideias que podem orientar a leitura e o planejamento.
A continuidade e a colaboração ajudam a atravessar a mudança
Uma intervenção desenvolvida em parceria com a comunidade oferece evidência de que preparar cuidadores e aproximar família e escola pode contribuir para uma passagem mais bem avaliada. O programa Building Better Bridges reuniu orientação sobre comunicação eficaz com a escola, direitos educacionais, defesa de direitos e estratégias para preparar a criança. Em um ensaio controlado randomizado realizado em quatro locais, cuidadores e professores que participaram do grupo da intervenção avaliaram mais positivamente a transição para a nova sala de aula do que os do grupo de comparação, que recebeu módulos e recursos (Nuske, 2025).
Esse resultado é especialmente útil porque mostra uma intervenção concreta, não apenas uma lista de fatores associados. O resumo caracteriza o programa como de baixo custo e sugere que pode melhorar o processo para famílias e estudantes com alto risco de vivenciar transições difíceis. O estudo não autoriza concluir que qualquer ação isolada terá o mesmo efeito: trata-se de um programa específico, implementado em contextos próprios. Ainda assim, comunicação e preparação aparecem como componentes possíveis de organizar antes da mudança.
Uma pesquisa qualitativa na Tailândia também destaca a colaboração entre os atores. Entrevistas com estudantes autistas, familiares, gestores, professores e profissionais de equipes multiprofissionais abordaram desenvolvimento de planos, habilidades acadêmicas e sociais, envolvimento familiar e apoio externo às escolas. Os participantes também apontaram desafios de implementação relacionados a leis e políticas diferentes. A conclusão apresentada pelos autores é que transições bem-sucedidas exigem colaboração e apoio contínuo (Wongkittirungrueang, 2025).
Na educação infantil, a avaliação de 138 famílias acompanhou a passagem da intervenção comportamental precoce para a escola em três momentos. As percepções de qualidade foram geralmente positivas, mas diminuíram em pequena a média magnitude ao longo do tempo; a dimensão de validade teve a maior redução. Os fatores associados às avaliações e às mudanças variaram conforme a fase, incluindo características da criança, dos pais e da família (Mé, 2026). A mensagem prática não é que todas as famílias terão a mesma experiência, mas que a qualidade percebida pode mudar durante a própria transição.
As características individuais e familiares mudam o quadro
A transição para o ensino secundário foi estudada a partir da associação entre traços autísticos e resultados como qualidade de vida, saúde mental e pertencimento à escola. Os traços autísticos explicaram parte da variância nesses resultados: 12% na qualidade de vida, 24% na saúde mental e 9% no pertencimento. Consideradas essas características, outros fatores também se relacionaram às mudanças: gênero para qualidade de vida; funcionamento cognitivo, escolaridade dos pais, frequência e recusa escolar para pertencimento; e fatores familiares e problemas de sono para saúde mental (Whelan, 2024).
Esses números não significam que os traços autísticos determinem o percurso de um estudante. O estudo examinou associações e aponta um quadro em que variáveis individuais, familiares e escolares coexistem. Para quem planeja, isso reforça a necessidade de observar mais de uma dimensão: a adaptação pode envolver bem-estar, vínculo com a escola e participação, além de desempenho acadêmico.
As expectativas familiares para a educação pós-secundária também são moldadas por diferentes elementos. Em um estudo qualitativo com 11 pais de jovens autistas, as características dos jovens, o contexto familiar e o acesso a serviços de apoio influenciaram expectativas e esforços para alcançá-las. Os pais relataram desgaste emocional e físico durante esse processo, e os autores ressaltam a importância de uma abordagem centrada na família (Rispoli, 2024). O estudo não descreve uma estratégia escolar testada; ele dá visibilidade ao trabalho que pode estar por trás do planejamento familiar.
Na pré-escola, a relação entre autorregulação e aprendizagem variou conforme a área. A regulação emocional se associou significativamente à taxa de alcance de metas de alfabetização, enquanto habilidades de funções executivas — como controle inibitório e atencional e memória de trabalho — se associaram à aprendizagem em matemática. A associação entre regulação emocional e alfabetização foi mais forte quando havia maior engajamento escolar. Os níveis de características do autismo não mediaram nem moderaram as relações observadas (Chen, 2025).
Esse estudo investigou 32 crianças e não é uma pesquisa de transição entre escolas. Ainda assim, ajuda a evitar uma interpretação simplista de “prontidão”: a aprendizagem e o engajamento podem se relacionar a dimensões diferentes, conforme o conteúdo. Os autores apontam que práticas futuras devem considerar autorregulação e engajamento, além do desempenho acadêmico.
Preparar uma nova etapa inclui descobrir o que funciona para cada pessoa
Uma pesquisa em uma escola do Meio-Oeste dos Estados Unidos examinou avaliações de preferência por tarefas de trabalho para oito estudantes autistas com deficiência intelectual em idade de transição para a vida adulta. Os pesquisadores compararam apresentações com imagens eletrônicas e vídeos a uma avaliação com objetos tangíveis, observando depois o engajamento em tarefas de alta e baixa preferência. Imagens e vídeos foram precisos e eficazes para alguns participantes, mas não tão eficazes quanto objetos para outros (Mucha, 2026).
O achado é delimitado, mas conversa diretamente com a ideia de individualizar. Uma modalidade que parece prática para um estudante pode não representar a preferência de outro com a mesma precisão. O estudo se refere a avaliações de preferência por tarefas de trabalho, não a um protocolo geral para todas as transições. Para a escola, é um lembrete de que oferecer escolhas e verificar se o modo de apresentá-las é acessível pode ser mais informativo do que supor que uma única ferramenta serve para todos.
Na educação infantil inclusiva em Israel, um estudo observou o interesse social espontâneo de colegas por crianças autistas. Participaram 193 crianças sem deficiência, de 3 a 6 anos, em 16 turmas. As crianças identificadas com interesse social eram mais novas, mais frequentemente meninos, apresentavam determinado perfil social e tinham melhor desempenho em tarefas de teoria da mente do que seus pares sem esse interesse. Os autores sugerem que identificar colegas interessados pode ajudar a envolvê-los como agentes de mudança para a inclusão social (Zakai-Mashiach, 2026).
Essa pesquisa não avaliou uma intervenção de transição, mas acrescenta uma dimensão importante: a integração social também depende das relações entre pares e das características dos colegas. Como o estudo foi realizado em Israel e em turmas de educação infantil, não se deve transportar seus resultados como regra para outras idades ou para escolas brasileiras. A ideia mais cautelosa é observar as relações existentes, sem designar automaticamente um colega como responsável pelo bem-estar de outro.
As passagens para o ensino superior exigem preparação para além da sala
Uma revisão sistemática da literatura sobre estudantes autistas em transição para o ensino superior examinou pesquisas anteriores e, após os critérios de inclusão e exclusão, chegou a nove artigos. A revisão identifica competência acadêmica, preparação para além dos aspectos acadêmicos e planejamento adequado da transição como elementos importantes. Também relata desafios de competência social e de preparação para a vida universitária, além de apoios acadêmicos e não acadêmicos oferecidos aos estudantes (Hadley, 2025).
Um artigo conceitual sobre o contexto do ensino superior propõe uma estrutura multifacetada para preparação e participação. O foco inclui necessidades acadêmicas, socioemocionais e de segurança, com estratégias para escolas de ensino médio, instituições de ensino superior e pessoas autistas que desenvolvem autodefensoria. O texto também ressalta que a conclusão de cursos por pessoas autistas em faculdades ou universidades gira em torno de 39% e relaciona a evasão a fatores específicos do autismo (Kenney, 2026).
Esses trabalhos tratam de uma etapa distante para alguns professores da educação básica, mas são úteis para pensar continuidade: a transição não deveria começar apenas no momento da saída. Ao mesmo tempo, a revisão e o referencial conceitual não são equivalentes a um ensaio de intervenção. Eles ajudam a mapear desafios e áreas de apoio, não a garantir resultados para cada estudante.
Quais estudos ajudam a entender cada tipo de transição?
A tabela reúne os estudos citados e resume o que cada um investigou e relatou. O contexto só é identificado quando aparece no resumo da pesquisa; a ausência de país ou etapa abaixo não deve ser preenchida por suposição.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Mé, 2026 | Percepções de 138 famílias durante a passagem da intervenção precoce para a educação infantil. | Avaliações geralmente positivas, com reduções ao longo do tempo; fatores preditivos variaram por fase. | Transição para a educação infantil; local não indicado no resumo. |
| Whelan, 2024 | Associação entre traços autísticos, fatores da criança, família e escola e resultados da transição. | Traços autísticos explicaram parte da variância em qualidade de vida, saúde mental e pertencimento; outros fatores também se associaram às mudanças. | Passagem para o ensino secundário; país não indicado. |
| Rispoli, 2024 | Expectativas de 11 pais para educação pós-secundária e relação com funcionamento familiar. | Características dos jovens, contexto familiar e acesso a serviços moldaram expectativas; pais relataram desgaste. | Educação pós-secundária; país não indicado. |
| Mucha, 2026 | Modalidades de avaliação de preferência por tarefas de trabalho. | Imagens e vídeos foram eficazes para alguns, mas objetos funcionaram melhor para outros. | Escola do Meio-Oeste dos Estados Unidos; oito estudantes em idade de transição para a vida adulta. |
| Zakai-Mashiach, 2026 | Características de crianças com interesse social espontâneo por colegas autistas. | O grupo com interesse social apresentou diferenças em características sociais e desempenho em teoria da mente. | 16 turmas inclusivas de educação infantil em Israel; crianças de 3 a 6 anos. |
| Kenney, 2026 | Referencial para apoiar pessoas autistas na preparação e participação no ensino superior. | Propõe apoio multifacetado nas áreas acadêmica, socioemocional e de segurança; informa taxa de conclusão em torno de 39%. | Ensino superior; país não indicado no resumo. |
| Chen, 2025 | Relações entre autorregulação, engajamento e aprendizagem acadêmica na pré-escola. | Regulação emocional associou-se à alfabetização; funções executivas, à matemática; engajamento fortaleceu uma associação. | 32 crianças autistas em idade pré-escolar; país não indicado. |
| Nuske, 2025 | Intervenção de orientação a cuidadores para transição a uma nova escola. | Cuidadores e professores avaliaram mais positivamente a transição no grupo da intervenção. | Ensaio controlado em quatro locais; comunidades diversas e com poucos recursos; país não especificado no resumo. |
| Hadley, 2025 | Revisão sistemática de experiências de estudantes autistas na transição ao ensino superior. | Destaca preparação acadêmica e não acadêmica, planejamento e apoios; relata desafios sociais e de vida universitária. | Revisão de nove artigos; países não informados no resumo. |
| Wongkittirungrueang, 2025 | Perspectivas de atores sobre serviços de transição entre escolas inclusivas. | Destaca planejamento, habilidades, participação familiar, cooperação e desafios de implementação. | Tailândia; passagem do ensino fundamental para o ensino médio. |
O que os estudos têm em comum e onde divergem?
Em conjunto, os estudos tratam a transição como algo mais amplo do que uma mudança de sala ou de matrícula. Preparação, relações e apoios aparecem repetidamente: a intervenção BBB envolve cuidadores e escola; a pesquisa tailandesa destaca colaboração entre atores; os estudos sobre ensino superior incluem preparação acadêmica e não acadêmica. Há também convergência na importância de olhar para características da pessoa e do contexto, em vez de presumir uma experiência uniforme.
Os estudos divergem no que conseguem afirmar. O ensaio randomizado de Nuske e colaboradores relata avaliações mais positivas no grupo da intervenção; o trabalho qualitativo de Rispoli descreve expectativas e desgaste de famílias; Whelan examina associações estatísticas; Kenney apresenta um referencial conceitual. Já Mucha compara modalidades específicas para avaliar preferências por tarefas. Esses tipos de evidência respondem a perguntas diferentes e não devem ser tratados como se testassem a mesma solução.
Também mudam as etapas e os cenários: pré-escola, educação infantil, ensino secundário e universidade. Um resultado observado em crianças pequenas não deve ser aplicado automaticamente a adolescentes, assim como um modelo voltado ao ensino superior não define o que fazer na educação infantil. Ainda ficam em aberto questões como quais componentes de apoio funcionam melhor para diferentes estudantes, como manter a continuidade ao longo do tempo e como adaptar intervenções a escolas com recursos e estruturas distintos.
Como o professor pode apoiar a transição na sala de aula?
Os estudos sugerem áreas de atenção, mas não entregam um roteiro universal pronto. As ideias a seguir são aplicações possíveis para a escola: devem ser ajustadas às preferências, às necessidades e à participação do estudante e de sua família, sem serem confundidas com resultados testados por todas as pesquisas.
1. Comece a conversa antes da mudança
Aplicação possível: combine com antecedência um contato entre quem acompanha o estudante atualmente e quem o receberá. Em uma cena hipotética, a professora da turma de saída compartilha com a equipe seguinte quais rotinas favorecem participação, quais situações pedem preparação e como o estudante costuma comunicar desconforto. Isso se inspira na ênfase em comunicação e coordenação, mas o formato exato precisa ser definido pela escola e pela família.
2. Planeje mais de um momento de acompanhamento
Aplicação possível: não concentre toda a preparação em uma visita ou no primeiro dia. Uma equipe pode estabelecer conversas antes da passagem, no início e após as primeiras semanas, para verificar o que está funcionando. A pesquisa sobre a transição para a educação infantil encontrou mudanças nas percepções de qualidade entre diferentes fases; isso sugere que vale acompanhar o processo, sem presumir que uma preparação inicial resolve todas as necessidades.
3. Pergunte ao estudante como prefere receber informações e opções
Aplicação possível: ofereça formas acessíveis de conhecer atividades ou escolher entre tarefas e confira se a modalidade realmente ajuda aquela pessoa. Em um exemplo hipotético, um estudante responde melhor a objetos concretos do que a imagens em uma atividade de preferência. O estudo de Mucha encontrou diferenças entre participantes, então testar e observar pode ser mais prudente do que impor um formato único.
4. Considere bem-estar e pertencimento junto com o desempenho
Aplicação possível: ao planejar uma nova etapa, inclua perguntas sobre participação, vínculo com a turma, frequência e sinais de dificuldade, além das metas acadêmicas. Uma professora pode conversar com a equipe quando percebe que uma aluna participa menos após a mudança, sem concluir de imediato qual é a causa. O estudo de Whelan relacionou resultados da transição a fatores diversos, enquanto reforça que bem-estar e pertencimento merecem atenção própria.
5. Observe a relação entre engajamento, autorregulação e tarefa
Aplicação possível: em uma atividade hipotética de alfabetização, o professor nota que a criança se envolve mais quando a tarefa é apresentada de modo previsível e com apoio adequado. Pode registrar quais condições acompanham maior participação e conversar com a equipe. Chen encontrou associações específicas entre autorregulação, aprendizagem e engajamento na pré-escola; a aplicação é observar o estudante, não atribuir dificuldades a uma característica diagnóstica.
6. Convide a família como parceira, sem transferir a ela todo o trabalho
Aplicação possível: pergunte à família quais informações considera importantes para a nova equipe e combine formas viáveis de troca. Não transforme o contato em uma lista de tarefas que a família precisa resolver sozinha. Os estudos relatam tanto a utilidade da comunicação e orientação a cuidadores quanto o desgaste emocional e físico vivido por pais que apoiam expectativas de futuro. Uma parceria escolar deve reconhecer esse esforço e dividir responsabilidades.
7. Pense nas relações com os pares sem criar obrigações artificiais
Aplicação possível: facilite atividades compartilhadas e observe com quem o estudante se sente à vontade, mas não nomeie um colega como responsável por cuidar dele. O estudo israelense sobre interesse social trata de crianças pequenas em turmas inclusivas e propõe identificar pares interessados como possível recurso de inclusão. Para outras idades e contextos, use a ideia com cautela e preserve a autonomia de todos os estudantes.
8. Para transições mais distantes, inclua competências para além do conteúdo
Aplicação possível: ao conversar sobre etapas futuras, explore junto ao estudante quais apoios acadêmicos, sociais e práticos podem ser necessários, dentro do que cabe à escola. Um exemplo hipotético é discutir como pedir ajuda em um ambiente novo ou a quem recorrer diante de uma dificuldade. A revisão sobre ensino superior e o referencial de apoio destacam preparação para além dos aspectos acadêmicos; isso não significa antecipar exigências universitárias em qualquer série.
O que muda ao aplicar essas pesquisas no contexto brasileiro?
Os estudos vêm de contextos diversos. A pesquisa sobre interesse social ocorreu em turmas de educação infantil em Israel; o estudo de transição entre escolas inclusivas foi realizado na Tailândia; e a comparação de avaliação de preferências ocorreu em uma escola do Meio-Oeste dos Estados Unidos. O resumo do estudo Building Better Bridges informa quatro locais, mas não identifica o país. Para os demais, o contexto nacional não está especificado nos resumos fornecidos. Portanto, não é adequado apresentar seus sistemas, serviços ou regras como se fossem brasileiros.
No Brasil, cada rede e escola tem sua organização, seus recursos e suas formas de articulação entre profissionais e família. A aplicação responsável é aproveitar princípios gerais — comunicação, continuidade, participação do estudante e atenção às características individuais — e verificar como concretizá-los na realidade local. Um modelo descrito na Tailândia não substitui as normas e os procedimentos brasileiros; uma intervenção de outro cenário tampouco garante o mesmo resultado em qualquer rede.
Também convém evitar importar soluções sem considerar acesso e viabilidade. A tecnologia de imagens ou vídeos estudada em tarefas de trabalho não deve ser tratada como ferramenta universal. Da mesma maneira, reconhecer o papel da família não significa exigir que ela compense a falta de articulação institucional. O ponto de partida pode ser simples: reunir as pessoas envolvidas, registrar informações úteis com consentimento e combinar acompanhamento após a mudança.
Quais são os limites desta leitura dos estudos?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponibilizados para a pauta, não na leitura integral dos artigos. Os resumos permitem apresentar objetivos, métodos gerais e resultados relatados, mas não oferecem todos os detalhes necessários para avaliar instrumentos, critérios, procedimentos, limitações ou aplicabilidade a uma escola específica. Por isso, as conclusões foram mantidas dentro do que os resumos informam.
As perguntas em aberto incluem como os resultados se distribuem entre estudantes com perfis e necessidades diferentes, quais apoios produzem efeitos duradouros e como intervenções desenvolvidas em outros contextos se adaptam às redes brasileiras. Também é importante distinguir estudos que observam associações, pesquisas qualitativas, revisões, propostas conceituais e ensaios de intervenção: cada desenho permite conclusões diferentes.
Faz sentido consultar o estudo completo quando a escola pretende adotar uma intervenção específica, quando precisa avaliar se uma ferramenta é adequada a determinado estudante ou quando uma decisão exige conhecer detalhes metodológicos e limites. A leitura integral também é importante para compreender as condições de implementação e não transformar um resultado localizado em regra geral.
Como o GeraProva ajuda com este assunto?
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Perguntas frequentes sobre transição escolar e autismo
O que significa planejar uma transição escolar para um estudante autista?
Significa preparar a passagem entre etapas ou ambientes com atenção às mudanças de rotina, pessoas, espaços e apoios, em diálogo com o estudante e sua família. Os estudos reunidos não apontam um procedimento único. Eles abordam comunicação entre escola e cuidadores, planejamento, continuidade e características individuais. Uma transição não precisa ser considerada concluída no primeiro dia: acompanhar a experiência depois da mudança pode ajudar a identificar ajustes necessários. O planejamento deve ser adequado ao estudante, e não aplicado como uma lista idêntica para todos.
Quais fatores podem influenciar a experiência de transição?
Os estudos apontam fatores relacionados ao estudante, à família e à escola. Entre os aspectos investigados estão traços autísticos, funcionamento cognitivo, frequência e recusa escolar, sono, funcionamento familiar, escolaridade dos pais e acesso a serviços. Na passagem para a educação infantil, características da criança e dos pais também se relacionaram às avaliações de qualidade dos serviços. Esses resultados descrevem associações e variações entre contextos; não permitem prever a experiência de uma pessoa apenas com base em uma característica.
Como envolver a família sem sobrecarregá-la?
Uma possibilidade é tratar a família como parceira de informação e decisão, mantendo a escola responsável por organizar a própria articulação. O estudo Building Better Bridges incluiu orientação a cuidadores sobre comunicação com a escola, direitos, defesa de direitos e preparação da criança, e encontrou avaliações mais positivas da transição no grupo da intervenção. Já uma pesquisa sobre expectativas pós-secundárias relata desgaste emocional e físico entre pais. Esses achados reforçam a importância de combinar formas viáveis de contato e não transferir toda a preparação para casa.
É melhor usar imagens, vídeos ou objetos para preparar o estudante?
Não há uma resposta única nos estudos apresentados. Em uma avaliação de preferência por tarefas de trabalho com estudantes autistas e deficiência intelectual, imagens eletrônicas e vídeos foram eficazes para alguns participantes, mas a modalidade com objetos foi melhor para outros. Esse resultado se refere à avaliação de preferências em um contexto específico, não a todo tipo de preparação escolar. Uma aplicação possível é observar como cada estudante responde às diferentes formas de apresentação e escolher a que lhe permite compreender e expressar preferências com mais clareza.
Quais apoios considerar na passagem para o ensino médio?
Os estudos sobre transição ao ensino secundário relacionam a experiência a fatores individuais, familiares e escolares, incluindo pertencimento, saúde mental e qualidade de vida. A pesquisa qualitativa realizada na Tailândia também aborda planejamento, habilidades acadêmicas e sociais, envolvimento familiar e cooperação entre profissionais. Para aplicar essas ideias no Brasil, vale conversar com o estudante e a família, combinar informações entre as equipes e acompanhar a adaptação. Os resultados de outros países ajudam a formular perguntas, mas não substituem as regras e condições de cada rede brasileira.
O que os estudos dizem sobre preparar estudantes autistas para o ensino superior?
Uma revisão sistemática identificou competência acadêmica, preparação para além dos aspectos acadêmicos e planejamento adequado como elementos importantes para a transição. Ela também relata desafios de competência social e preparação para a vida universitária, além de apoios acadêmicos e não acadêmicos. Um referencial conceitual acrescenta áreas socioemocionais e de segurança, bem como autodefensoria. São contribuições para pensar continuidade e necessidades futuras, não uma garantia de sucesso nem um roteiro obrigatório para todos os estudantes.
Referências
- Rivard, Mélina; Chatenoud, Céline; Chiu, Chun-Yu; Aldersey, Heather; Coulombe, Patrick; Morin, Marjorie; Mello, Catherine; Magnan, Charlotte (2026). Da intervenção comportamental precoce à escola: uma avaliação sistemática das perspectivas dos pais sobre a qualidade dos serviços para o autismo durante a transição para a educação infantil (From Early Behavioral Intervention to School: A Systematic Evaluation of Parents' Perspectives on the Quality of the Autism Services during the Transition to Kindergarten). Journal of Autism and Developmental Disorders. Link.
- Whelan, Moira; McGillivray, Jane; Rinehart, Nicole J. (2024). Usando a Teoria do Curso de Vida para explorar a associação entre traços autísticos, fatores relacionados à criança, à família e à escola e a transição bem-sucedida para o ensino secundário (Using Life Course Theory to Explore the Association between Autistic Traits, Child, Family, and School Factors and the Successful Transition to Secondary School). Journal of Autism and Developmental Disorders. Link.
- Rispoli, Kristin M.; Lee, Gloria K.; Okyere, Christiana; Nelson, Sydney R.; Norman, Mackenzie Z. (2024). Expectativas dos pais em relação à transição para a educação pós-secundária de jovens com TEA: explorando o papel da saúde mental da família (Parent Expectations for Postsecondary Transition among Youth with ASD: Exploring the Role of Family Mental Health). Contemporary School Psychology. Link.
- Mucha, Lauren E.; Cushing, Lisa S. (2026). Comparação de modalidades de apresentação baseadas em tecnologia em avaliações de preferência por tarefas de trabalho com múltiplos estímulos (Comparison of Technology-Based Presentation Modalities in Multiple Stimulus Job Task Preference Assessments). Focus on Autism and Other Developmental Disabilities. Link.
- Zakai-Mashiach, Mati; Al-Yagon, Michal; Dromi, Esther (2026). Interesse social dos colegas por pares autistas incluídos: características sociais e pessoais (Classmates' Social Interest toward Included Autistic Peers: Social and Personal Characteristics). Focus on Autism and Other Developmental Disabilities. Link.
- Kenney, Christine Kaye; Sreckovic, Melissa A.; Schultz, Tia R. (2026). Maximizando o sucesso: um processo multifacetado para apoiar pessoas com transtorno do espectro autista no contexto do ensino superior (Maximizing Success: A Multi-Pronged Process to Support Individuals with Autism Spectrum Disorder in the Higher Education Context). Psychology in the Schools. Link.
- Chen, Yanru; Jahromi, Laudan B. (2025). Autorregulação e aprendizagem acadêmica em crianças pré-escolares com transtorno do espectro autista: relações com o engajamento escolar e os níveis de características do autismo (Self-Regulation and Academic Learning in Preschoolers with Autism Spectrum Disorder: Links to School Engagement and Levels of Autism Characteristics). Journal of Autism and Developmental Disorders. Link.
- Nuske, Heather J.; Smith, Tristram; Levato, Lynne; Bronstein, Briana; Sparapani, Nicole; Garcia, Consuelo; Castellon, Fernanda; Lee, Hyon Soo; Vejnoska, Sarah F.; Hochheimer, Samantha; Fitzgerald, Amber R.; Chiappe, Jenny C.; Dimachkie Nunnally, Amanda; Li, Jennica; Shih, Wendy; Brown, Ashlee; Cullen, Michelle; Hund, Lisa M.; Stahmer, Aubyn C.; Iadarola, Suzannah; Mandell, David S.; Hassrick, Elizabeth McGhee; Kataoka, Sheryl; Kasari, Connie (2025). Construindo pontes melhores: resultados de uma intervenção de transição para uma nova escola, desenvolvida em parceria com a comunidade, para estudantes no espectro autista (Building Better Bridges: Outcomes of a Community-Partnered New School Transition Intervention for Students on the Autism Spectrum). Journal of Autism and Developmental Disorders. Link.
- Hadley, Wanda; Mapondera, Aaron (2025). Estudantes com autismo em transição para o ensino superior: uma revisão sistemática da literatura (Students with Autism Transitioning into Higher Education: A Systematic Review of Literature). Review Journal of Autism and Developmental Disorders. Link.
- Wongkittirungrueang, Sawitree; Cheausuwantavee, Tavee (2025). Desenvolvimento de um modelo de serviços de transição para estudantes autistas na passagem do ensino fundamental para o ensino médio em escolas inclusivas: um estudo qualitativo (Development of a Transition Service Model for Autistic Students from Inclusive Primary to Secondary Schools: A Qualitative Study). Journal of Social Studies Education Research. Link.
Se este tema faz parte do seu planejamento, converse com a equipe e com a família para descobrir quais apoios fazem sentido para o estudante que está diante de vocês. Pequenos acordos antes da mudança podem ajudar a construir uma passagem mais acolhedora.
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