Alunos do ensino médio como monitores: o que funciona além da boa vontade
Estudos recentes apontam resultados promissores da aprendizagem entre pares em matemática, engajamento e outras áreas, mas também mostram que a implementação importa. Veja como transformar a monitoria em uma intervenção planejada.
Alunos do ensino médio podem apoiar a aprendizagem e o engajamento de colegas quando a monitoria tem objetivos claros, preparação e acompanhamento docente. Estudos recentes encontraram resultados positivos em contextos específicos, como resolução de problemas matemáticos e interação social, mas os efeitos variam conforme a intervenção. Por isso, a monitoria deve ser planejada como estratégia de ensino, não como substituição do professor.
Monitoria entre estudantes pode melhorar a aprendizagem — mas não basta colocar um colega ao lado de outro e esperar que a ajuda aconteça.
Pesquisas recentes sobre matemática, inclusão, saúde e organização acadêmica apontam possibilidades reais para intervenções conduzidas por pares. Ao mesmo tempo, os estudos mostram que o objetivo, a preparação dos monitores, o acompanhamento e a forma de avaliar os resultados fazem diferença. Para o professor, a questão prática não é apenas quem pode ajudar, mas como organizar essa ajuda sem transferir aos estudantes uma responsabilidade que continua sendo da escola.
O que é intervenção com alunos do ensino médio como monitores de colegas e por que importa para o professor?
Uma intervenção com monitores de colegas é uma atividade planejada em que estudantes apoiam a aprendizagem, a participação ou o desenvolvimento de outros estudantes, com orientação e acompanhamento de um adulto. Na rotina escolar, pode aparecer como uma dupla que resolve problemas matemáticos, como apoio à participação em uma atividade regular ou como uma ação de educação entre pares sobre um tema de saúde. O ponto essencial é que não se trata simplesmente de pedir ao estudante com melhor nota que “explique a matéria”.
Os estudos incluídos nesta leitura usam formatos diferentes. Em alguns, pares apoiam estudantes com deficiência em tarefas acadêmicas e interações sociais; em outro, estudantes recebem formação para conduzir um programa de educação entre pares. Há também um estudo de aprendizagem a distância em que a colaboração entre colegas foi comparada ao ensino modular convencional. Esses modelos não são intercambiáveis: cada um tem público, propósito e desenho próprios.
Para o professor, a proposta importa porque o colega pode tornar uma atividade mais participativa e criar oportunidades de explicar, praticar e conversar sobre o conteúdo. Mas a monitoria precisa ter limites claros. O monitor não substitui o docente, não deve ser responsabilizado pelo resultado do colega e não precisa assumir tarefas para as quais não foi preparado. Uma forma prudente de começar é definir uma habilidade ou situação concreta, combinar o que o monitor fará e observar se a intervenção está ajudando os dois estudantes.
O que a pesquisa recente mostra
Os estudos recentes não apontam para uma receita única. Eles investigam diferentes intervenções e apresentam resultados que vão de melhorias em tarefas acadêmicas a associações mais cautelosas com mudanças de comportamento. A leitura conjunta ajuda a separar o que parece promissor do que ainda precisa ser testado em outras turmas.
Quando a monitoria é organizada em torno de uma tarefa acadêmica
Um estudo com estudantes do 10º ano comparou o apoio entre pares na aprendizagem a distância com o ensino modular convencional a distância. No delineamento cruzado, participaram um grupo de controle e um grupo experimental, cada qual com 20 estudantes, e foram avaliadas tarefas envolvendo círculos e geometria analítica. Os autores relatam que os dois métodos contribuíram para a aquisição de conhecimentos, mas que o grupo que recebeu apoio entre pares teve desempenho superior nos pós-testes. O resumo informa que não foram observados efeitos de transferência entre as condições (Rey-Coderias, 2026).
Esse resultado é promissor para a resolução de problemas, mas deve ser lido dentro do contexto investigado: aprendizagem a distância e conteúdos específicos de matemática. Ele não prova que qualquer formato de dupla funcionará da mesma maneira em uma aula presencial, em outra disciplina ou com outra faixa etária. Ainda assim, sugere uma pergunta útil para o planejamento: em que etapa da tarefa a explicação ou a colaboração de um colega pode ajudar o estudante a avançar?
Outro trabalho examinou a instrução baseada em esquemas modificada, conduzida por pares, para resolver problemas matemáticos apresentados em enunciados. A intervenção ocorreu em um programa de mentoria entre pares com estudantes do ensino médio e mentorados com deficiência intelectual. Os resultados do delineamento de caso único apontaram uma relação funcional entre a intervenção e os comportamentos de resolução de problemas. Todos os mentorados resolveram independentemente problemas de comparação multiplicativa após a intervenção; a maioria manteve e generalizou os resultados em grau considerado socialmente significativo pelos autores. Os mentores também implementaram o procedimento conforme planejado e apoiaram a expressão do raciocínio (Gilley, 2023).
Esse estudo chama atenção para a importância de ensinar uma estratégia, não apenas oferecer respostas. No caso investigado, a intervenção foi estruturada em torno de uma forma específica de abordar os problemas. A aplicação na escola brasileira precisaria respeitar os objetivos e os estudantes envolvidos, mas o princípio prático é claro: o monitor pode ajudar o colega a explicitar como pensa e a seguir passos compreensíveis, em vez de resolver a tarefa por ele.
Inclusão: os colegas também podem se beneficiar, mas cada resultado precisa ser interpretado
Em oito escolas públicas de ensino médio, um estudo-piloto acompanhou 204 estudantes que participaram como parceiros de colegas em um programa chamado Peer to Peer. O foco da pesquisa foi a reciprocidade: além de considerar o apoio recebido por estudantes com autismo e outras deficiências do desenvolvimento, os autores examinaram o que acontecia com os próprios parceiros. Após um semestre, encontraram aumento na média geral das notas e na frequência diária. Reduções modestas em encaminhamentos por questões comportamentais e suspensões apareceram apenas entre parceiros que já tinham esse tipo de ocorrência. Entre um subconjunto acompanhado por dois semestres, foram observadas melhorias nas quatro áreas analisadas (Owen-DeSchryver, 2024).
Esses resultados não significam que a participação como monitor produza os mesmos efeitos para todo estudante ou que a mudança se deva exclusivamente ao programa. O estudo é piloto e os dados disponíveis para dois semestres dizem respeito a um subconjunto. Ainda assim, ele amplia a conversa: a monitoria não deve ser pensada como um serviço unilateral em que um estudante “dá” e o outro apenas “recebe”. Os parceiros também podem ter experiências e resultados relevantes, que merecem ser observados sem transformar a ajuda em uma promessa de benefício automático.
Mahoney e Davis investigaram uma intervenção que combinou ensino mediado por pares e uma agenda visual de atividades para apoiar o engajamento acadêmico e as interações sociais de três estudantes do ensino médio com transtorno do espectro autista, em contextos de ensino regular. O estudo encontrou efeitos positivos no engajamento acadêmico dos três estudantes e nas interações sociais de dois deles. Os autores apontam a necessidade de continuar desenvolvendo estratégias que articulem habilidades acadêmicas e sociais (Mahoney, 2024).
O tamanho e o desenho desse estudo pedem cuidado ao generalizar. Ele não permite concluir que a mesma combinação produzirá resultados idênticos com outros estudantes. O que oferece é um exemplo de intervenção que une apoio de colegas, organização visual da atividade e atenção a mais de uma dimensão da participação. Para o professor, isso reforça a importância de decidir previamente se o objetivo é iniciar a tarefa, manter o envolvimento, favorecer uma interação ou combinar esses aspectos.
Educação entre pares em temas de saúde: formação e implementação contam
Uma pesquisa quase experimental com grupo de controle e pré e pós-teste investigou um modelo de educação entre pares sobre dependência de smartphones. Participaram 622 estudantes do ensino médio na Turquia, entre setembro de 2021 e fevereiro de 2022. O programa foi realizado em duas etapas: formação de educadores pares e implementação acompanhada da educação entre pares. As pontuações iniciais dos grupos não diferiam significativamente; no pós-teste, a diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa. Os autores concluíram que o modelo foi eficaz na redução da dependência de smartphones na população estudada e recomendaram programas escolares de educação entre pares (Avci, 2023).
O contexto turco e o tema específico importam. O estudo ocorreu durante um período marcado pela pandemia e pelo aumento do uso de atividades educacionais on-line, conforme descrito no resumo. Não se pode transportar diretamente o resultado para uma ação brasileira ou supor que uma conversa entre colegas sobre qualquer assunto terá o mesmo efeito. O estudo, porém, mostra um formato que vale considerar: os estudantes foram preparados antes de conduzir as atividades, e o programa teve implementação acompanhada.
Já um ensaio randomizado do programa Sources of Strength, realizado em 20 escolas de ensino médio no Colorado, examinou prevenção conduzida por pares relacionada à violência baseada em gênero e a atitudes que desconsideram o assédio sexual. Os autores não encontraram efeitos diretos da intervenção. Contudo, a exposição autorrelatada às mensagens do programa esteve associada, no segundo ano, a pequenas reduções em alguns desfechos, como a prática de assédio sexual e a prática e vitimização por contato sexual forçado. Indicadores mais altos de fidelidade de implementação também estiveram associados à exposição às mensagens (Espelage, 2024).
O resultado pede uma leitura cuidadosa: ausência de efeito direto não é a mesma coisa que comprovação de que o programa não teve qualquer relação com mudanças. O resumo relata associações ligadas à exposição, não um efeito direto geral da intervenção. A pesquisa também destaca a fidelidade de implementação. Em termos cotidianos, isso lembra que uma intervenção depende de como é conduzida, de quem recebe suas mensagens e de quanto ela é realizada conforme o planejado. O programa e o contexto do Colorado não são modelos prontos para o Brasil, especialmente em um tema sensível como violência e assédio.
Há propostas promissoras que ainda estavam sendo testadas
O STRIPES foi descrito em um protocolo de ensaio randomizado: o estudo iria testar uma intervenção conduzida por pares, durante o ano letivo, para estudantes do 9º ano com sintomas de TDAH que causam prejuízo. A proposta mira habilidades de organização, gerenciamento do tempo e planejamento, e pretende avaliar efetividade, implementabilidade, aceitabilidade e viabilidade, entre outros aspectos. Como se trata de um protocolo, o resumo apresenta o que a pesquisa planejava investigar, não resultados de efetividade já encontrados (Macphee, 2023).
Essa distinção é fundamental para professores que leem notícias sobre intervenções. Um protocolo pode revelar uma pergunta bem formulada e um caminho de avaliação, mas não deve ser apresentado como evidência de que a estratégia já funcionou. O tema, ainda assim, ajuda a imaginar aplicações: em vez de pedir que um monitor “cuide” da organização do colega, pode-se testar uma atividade delimitada em que os dois revisem etapas de planejamento, sob supervisão do professor.
Também é possível relacionar essas propostas à discussão sobre motivação e autorregulação. Sansone e colegas integram pesquisas sobre valor da tarefa e desenvolvimento do interesse para discutir como estudantes regulam sua aprendizagem e como intervenções de valor utilitário podem ajudá-los a refletir sobre a utilidade dos conteúdos. O trabalho propõe um referencial e discute direções futuras; não é uma avaliação de um programa específico de monitoria entre pares (Sansone, 2026).
Essa contribuição conceitual pode ajudar o professor a pensar na conversa que acompanha a atividade: o monitor e o colega conseguem relacionar o que fazem a um propósito que faça sentido para eles? Isso é uma sugestão de aplicação apoiada pelo tema do estudo, não um resultado testado sobre monitoria. A diferença entre uma intervenção pesquisada e uma ideia de planejamento deve continuar visível.
Os estudos lado a lado
A tabela reúne os estudos citados e separa o que cada um investigou do que seus resumos relatam. Quando o resumo não identifica país, a tabela não o presume; os estudos com contexto internacional explicitado são identificados dessa forma.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Rey-Coderias, 2026 | Apoio entre pares na aprendizagem a distância em comparação com ensino modular convencional, em matemática. | Ambos os métodos contribuíram para a aprendizagem; o grupo de apoio entre pares teve pós-teste superior. | Estudantes do 10º ano; aprendizagem a distância; país não informado no resumo. |
| Gilley, 2023 | Instrução baseada em esquemas modificada, conduzida por pares, para problemas matemáticos em enunciados. | Todos os mentorados resolveram independentemente problemas de comparação multiplicativa após a intervenção; a maioria manteve e generalizou resultados. | Estudantes do ensino médio em programa de mentoria entre pares; país não informado no resumo. |
| Owen-DeSchryver, 2024 | Resultados acadêmicos e comportamentais dos parceiros em programa entre pares. | Aumento na média geral e frequência após um semestre; resultados adicionais em um subconjunto após dois semestres. | Oito escolas públicas de ensino médio; país não informado no resumo. |
| Mahoney, 2024 | Ensino mediado por pares combinado a agenda visual para estudantes com TEA. | Efeitos positivos no engajamento acadêmico dos três estudantes e nas interações sociais de dois. | Três estudantes do ensino médio em contextos de ensino regular; país não informado. |
| Avci, 2023 | Educação entre pares para reduzir dependência de smartphones. | Diferença estatisticamente significativa entre os grupos no pós-teste; autores relatam eficácia no contexto estudado. | 622 estudantes do ensino médio na Turquia, 2021–2022. |
| Espelage, 2024 | Programa conduzido por pares sobre violência baseada em gênero e atitudes diante do assédio sexual. | Sem efeitos diretos; exposição às mensagens associada a pequenas reduções em alguns desfechos no segundo ano. | 20 escolas de ensino médio no Colorado, Estados Unidos; estudantes do 9º ao 11º ano. |
| Macphee, 2023 | Protocolo para testar o STRIPES, intervenção entre pares ligada a habilidades de organização, tempo e planejamento. | O resumo descreve objetivos e métodos planejados; não relata resultados de efetividade. | Estudantes do 9º ano com sintomas de TDAH; país não informado no resumo. |
| Sansone, 2026 | Integração conceitual entre valor utilitário, interesse e autorregulação. | Propõe um referencial e discute possíveis apoios e direções futuras; não avalia monitoria específica. | Discussão sobre estudantes do ensino médio e superior; país não indicado. |
Quais são os pontos em comum e as divergências entre os estudos?
O ponto comum mais útil é que “intervenção entre pares” não descreve uma atividade única. Nos estudos, ela pode significar apoio acadêmico em matemática, parceria inclusiva, formação de educadores pares ou um programa de prevenção. Em vários casos, há uma estrutura definida: uma estratégia de resolução, uma combinação com agenda visual, etapas de formação ou implementação planejada. Isso é diferente de simplesmente sentar dois estudantes juntos e considerar a atividade concluída.
Os resultados também não têm a mesma força nem respondem à mesma pergunta. Há estudos com resultados positivos em desempenhos ou engajamento, como os trabalhos de matemática e o estudo com estudantes com TEA. O estudo sobre smartphones relata uma diferença entre grupos no pós-teste. Em contrapartida, o estudo de prevenção no Colorado não encontrou efeitos diretos, embora relate associações entre exposição às mensagens e mudanças pequenas em alguns desfechos. O protocolo do STRIPES ainda descrevia uma avaliação planejada, e o texto de Sansone discute um referencial, não um teste de monitoria.
Outra diferença é quem pode ser beneficiado. Algumas pesquisas enfocam principalmente os estudantes apoiados; Owen-DeSchryver e colegas examinam também os parceiros. Isso abre uma questão importante para o planejamento: o que conta como resultado bem-sucedido? Uma resposta correta pode ser relevante, mas talvez o professor também queira observar se o estudante explica o raciocínio, participa da atividade ou consegue realizar a tarefa com maior independência.
O que permanece em aberto é como os resultados se transferem para escolas brasileiras com outras condições de turma, tempo, recursos, formação e apoio especializado. Também não existe, nesses resumos, uma comparação direta entre todos os formatos de monitoria. Por isso, faz sentido evitar a conclusão de que “pares funcionam” ou “pares não funcionam” em geral. A pergunta produtiva é mais específica: para qual objetivo, com que preparação e em que condições essa intervenção pode ser útil?
Como aplicar a monitoria entre estudantes na sala de aula?
Uma aplicação responsável começa com um objetivo pequeno e observável. As sugestões abaixo são formas de levar os temas da pesquisa à sala de aula; não são resultados testados diretamente pelos estudos, salvo quando indicado.
1. Defina o que a dupla deve conseguir fazer
Uma forma de usar isso em sala é escrever para si mesmo um objetivo que caiba na atividade: por exemplo, que o estudante explique uma etapa de um problema, inicie a tarefa seguindo uma sequência ou participe de uma conversa acadêmica. Imagine uma turma do ensino médio em que alguns estudantes travam na leitura de problemas matemáticos. Em vez de designar um monitor para “ajudar em matemática”, o professor pode estabelecer que a dupla identifique informações, discuta a estratégia e só então tente resolver. A especificidade ajuda a planejar a instrução e a observar se a intervenção teve utilidade.
2. Ensine o monitor a apoiar sem dar a resposta
Como aplicação, combine frases e ações que estimulem o raciocínio: “Qual é o primeiro passo?”, “Como você sabe?” ou “Vamos conferir o que o problema pede?”. O estudo de Gilley e colegas investigou uma instrução estruturada em que os mentores apoiavam os estudantes na expressão do raciocínio, além de seguir o procedimento planejado. Em uma turma hipotética, o monitor pode receber uma demonstração breve do professor e praticar com um exemplo antes de trabalhar com o colega. A preparação não precisa transformar o aluno em especialista; serve para dar limites e ferramentas claras.
3. Planeje uma tarefa que tenha etapas visíveis
Uma forma de aplicar a combinação investigada por Mahoney e Davis é organizar a atividade em passos simples e previsíveis, com apoio visual adequado aos estudantes. Imagine uma atividade em que a dupla precisa escolher materiais, começar uma tarefa e depois compartilhar uma resposta. Uma sequência visual pode ajudar a mostrar o que vem primeiro e o que acontece a seguir, enquanto o monitor oferece apoio combinado com o professor. O estudo encontrou resultados positivos de engajamento para três estudantes com TEA, mas a aplicação em outra turma deve ser ajustada às necessidades e à resposta de cada estudante.
4. Trate a parceria como recíproca
Como sugestão de aplicação, escolha atividades em que os dois estudantes tenham algo a fazer e em que os papéis não sejam fixos por status ou desempenho. Pode haver alternância entre quem explica uma etapa, quem confere e quem apresenta uma dúvida. O estudo de Owen-DeSchryver e colegas examinou resultados dos próprios parceiros, o que ajuda a lembrar que eles também são participantes da intervenção. Em uma turma hipotética, o professor pode observar se o monitor está aprendendo, se a responsabilidade está equilibrada e se a dupla continua sendo respeitosa para ambos.
5. Prepare antes de iniciar uma ação sobre tema sensível
Se a atividade tratar de saúde, assédio, violência ou outro assunto delicado, uma aplicação prudente é preparar os estudantes, delimitar o que cabe ao monitor e combinar como encaminhar dúvidas e situações que exigem intervenção adulta. O estudo turco sobre smartphones incluiu formação de educadores pares e implementação acompanhada; o Sources of Strength no Colorado também torna visível a importância da implementação e da exposição às mensagens. Esses achados não oferecem um roteiro pronto para o Brasil. A recomendação de criar um fluxo de apoio adulto é uma medida de planejamento responsável, não um efeito atribuído às pesquisas.
6. Observe o processo, não apenas a nota final
Como aplicação, registre sinais simples ligados ao objetivo escolhido: começou a tarefa, explicou uma estratégia, pediu ajuda ou concluiu uma etapa? Um resultado acadêmico isolado pode não mostrar como a dupla chegou lá. O estudo de apoio a distância em matemática examinou pré e pós-testes e comparou métodos; outros trabalhos analisaram engajamento, interações ou resultados dos parceiros. Uma escola pode adaptar essa ideia de avaliação ao seu cotidiano com observações breves e trabalhos da própria atividade, sem alegar que esse procedimento seja o mesmo desenho de pesquisa.
7. Faça uma revisão e ajuste a intervenção
Uma forma de usar os achados em sala é reservar um momento curto para decidir se a parceria continuará, mudará de formato ou será encerrada. Pergunte ao estudante apoiado se o apoio ajuda, escute o monitor e observe se a atividade preserva a autonomia de ambos. Se o monitor acaba fazendo o trabalho, ou se o estudante apoiado fica dependente da presença dele, é hora de ajustar a tarefa. Essa revisão é uma sugestão de implementação; os estudos apresentados não testam uma regra única de duração ou de troca de duplas.
O que muda ao levar essas ideias para o contexto brasileiro?
Os resultados vêm de contextos diferentes e não devem ser tratados como evidência automática sobre escolas brasileiras. O estudo de Avci foi realizado na Turquia; o de Espelage, em escolas do Colorado, nos Estados Unidos. Os demais resumos não identificam o país, portanto não é possível atribuir-lhes uma origem nacional. As etapas e os programas descritos também não equivalem necessariamente à organização escolar brasileira. Antes de adaptar uma intervenção, o professor precisa olhar para a realidade de sua turma e da escola, inclusive o tempo disponível, a composição das duplas e os apoios que já existem.
Em temas de prevenção e proteção, a adaptação exige cuidado adicional. Uma ação entre pares não deve substituir os canais de escuta e a responsabilidade dos adultos. No Brasil, cada escola precisa seguir seus procedimentos institucionais e buscar o suporte apropriado para situações que ultrapassam uma atividade pedagógica. Isso é uma orientação de cautela para a aplicação local, não uma conclusão dos estudos citados. Também é importante não importar nomes de programas, regras ou estruturas de outros países como se fossem políticas brasileiras.
Na inclusão, evitar rótulos é tão importante quanto definir a atividade. Os estudos sobre TEA e deficiência intelectual examinam intervenções com participantes e objetivos específicos; não autorizam presumir que todos os estudantes com o mesmo diagnóstico tenham as mesmas necessidades. Uma aplicação brasileira deve considerar a comunicação, as preferências, os objetivos educacionais e o apoio disponível para cada estudante. A parceria precisa ser voluntária e respeitosa, e a participação do monitor não deve virar trabalho gratuito ou permanente em lugar do ensino oferecido pelo professor.
Por fim, a pesquisa pode inspirar testes pequenos e honestos na escola: estabelecer um objetivo, acompanhar o que acontece e rever a proposta. Se a atividade for apresentada como tentativa pedagógica, o professor pode registrar o que observou sem chamar isso de eficácia comprovada. Essa postura permite aprender com a própria turma sem confundir uma experiência local com os resultados de estudos realizados em outros contextos.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponíveis no material de pesquisa, não na leitura integral dos artigos. Os resumos ajudam a identificar perguntas, métodos gerais e resultados relatados, mas não oferecem todos os detalhes necessários para avaliar instrumentos, procedimentos, condições de implementação ou análises. Por isso, as recomendações práticas aqui são apresentadas como sugestões de aplicação sempre que não correspondem diretamente a um achado descrito.
Ficam em aberto perguntas importantes: como os formatos se adaptam a turmas brasileiras? Que formação mínima permite que um monitor ajude sem assumir responsabilidades indevidas? Quanto tempo uma intervenção precisa durar? Quais estudantes se beneficiam mais, e em quais condições? Como garantir que os resultados observados permaneçam ou se transfiram para novas tarefas? Os resumos também descrevem desenhos diferentes, então seus achados não podem ser comparados como se fossem uma disputa direta entre programas.
Vale ler o estudo completo quando a escola estiver considerando implementar um programa específico, quando a decisão envolver estudantes com necessidades de apoio complexas, ou quando for necessário conhecer detalhes de formação, consentimento, materiais, avaliação e fidelidade de implementação. Em particular, o protocolo do STRIPES merece ser distinguido de resultados de um ensaio concluído, enquanto os estudos de caso e os estudos-piloto pedem leitura cuidadosa antes de generalizar. A leitura integral pode esclarecer aspectos que não cabem nos resumos e apoiar decisões mais informadas.
Como o GeraProva ajuda com este assunto?
Uma intervenção entre pares pode ser acompanhada por atividades curtas que ajudem o professor a identificar conhecimentos prévios, propor uma tarefa de prática ou verificar o que os estudantes compreenderam depois da colaboração. O gerador de provas do GeraProva pode apoiar a criação de questões para esse tipo de avaliação, enquanto o cadastro grátis permite conhecer a plataforma. A ferramenta não substitui a formação dos monitores nem comprova a eficácia de uma intervenção; pode apenas ajudar a preparar materiais avaliativos alinhados ao objetivo definido pelo professor.
Perguntas frequentes sobre alunos do ensino médio como monitores
Alunos do ensino médio podem ensinar colegas com bons resultados?
Alguns estudos recentes encontraram resultados promissores, mas em intervenções e contextos específicos. Em matemática, pesquisas relataram melhora em resolução de problemas quando o apoio entre pares foi estruturado; estudos com estudantes com deficiência também encontraram resultados positivos em engajamento ou desempenho. Isso não significa que qualquer estudante possa ensinar qualquer conteúdo sem preparação. O monitor precisa de uma tarefa clara, orientação e acompanhamento docente. A pergunta mais útil é qual apoio será oferecido, para quem e com que objetivo, não se a monitoria funciona sempre.
É preciso escolher como monitor apenas quem tem as melhores notas?
Os estudos apresentados não estabelecem uma regra de seleção baseada nas notas. No estudo sobre parceiros entre pares, os voluntários tinham perfis acadêmicos e comportamentais variados antes da participação. Isso não prova que qualquer critério de escolha seja adequado, mas ajuda a questionar a ideia de que só estudantes com desempenho alto podem assumir uma função de parceria. Como aplicação, o professor pode observar disponibilidade, responsabilidade, escuta e interesse, além de oferecer preparação. Também é importante evitar que a mesma pessoa seja sempre convocada ou que a monitoria se torne uma obrigação.
Como evitar que o monitor faça a atividade pelo colega?
Defina previamente o que significa ajudar. Uma possibilidade é orientar o monitor a fazer perguntas, pedir que o colega explique sua estratégia e apoiar a revisão de etapas, sem dar a resposta pronta. O estudo de Gilley e colegas investigou uma intervenção estruturada em que os mentores apoiavam os mentorados a expressar o raciocínio e implementavam o procedimento planejado. Como aplicação, o professor pode modelar uma conversa antes da atividade e circular entre as duplas. Se o colega não consegue avançar, cabe ao adulto ajustar o apoio, não cobrar que o monitor resolva a situação sozinho.
A monitoria entre pares serve apenas para estudantes com deficiência?
Não. Os estudos incluídos abordam estudantes com autismo e deficiência intelectual, mas também investigam apoio acadêmico em matemática, educação sobre smartphones e prevenção escolar. Cada pesquisa tem um objetivo diferente, então não se deve misturar os resultados nem supor que um formato serve para todas as necessidades. A monitoria pode ser pensada para uma tarefa específica de aprendizagem ou participação, desde que o professor defina o propósito e acompanhe a atividade. Quando envolve estudantes com deficiência, é essencial ajustar a intervenção às necessidades individuais e não presumir que um diagnóstico determine uma única forma de apoio.
O que fazer se a intervenção não produzir o resultado esperado?
Não conclua de imediato que o estudante não consegue aprender ou que a colaboração entre pares nunca funciona. Verifique se a tarefa estava clara, se o monitor recebeu orientação, se a atividade aconteceu como planejado e se o objetivo escolhido era observável. O estudo de Espelage não encontrou efeitos diretos do programa, embora relate associações entre exposição às mensagens e pequenas reduções em alguns desfechos. O resultado lembra que implementação e exposição podem importar, mas não garante que ajustes resolverão qualquer dificuldade. Como aplicação, converse com os estudantes, revise o formato e, se necessário, suspenda a parceria.
Como avaliar se a monitoria está ajudando?
Escolha indicadores ligados ao objetivo antes de iniciar. Se a meta é resolução de problemas, observe se o estudante explica uma estratégia ou resolve uma tarefa; se é participação, observe o envolvimento na atividade. Os estudos utilizaram medidas variadas, como pré e pós-testes, resultados acadêmicos, frequência, engajamento e interações. Esses instrumentos não precisam ser reproduzidos literalmente em sala, mas mostram por que uma nota final pode não contar toda a história. Como aplicação, combine evidências simples, como uma resposta individual após a atividade e uma observação breve do processo, e use-as para decidir os próximos passos.
Referências
- Rey-Coderias (2026). Apoio entre pares na aprendizagem a distância como intervenção para melhorar o desempenho dos estudantes em matemática: um estudo cruzado (Assisting Peer on Distance Learning as Intervention to Improve Students' Performance in Mathematics: A Cross-Over Study). Journal of Education and Learning (EduLearn). Link.
- Gilley (2023). Instrução baseada em esquemas modificada, conduzida por pares, para resolução de problemas matemáticos apresentados em enunciados por estudantes do ensino médio com deficiência intelectual (Peer-Delivered Modified Schema-Based Instruction in Word Problem-Solving for High-School Students with Intellectual Disability). Research and Practice for Persons with Severe Disabilities. Link.
- Owen-DeSchryver (2024). A reciprocidade das intervenções mediadas por pares: examinando os resultados para os pares (The Reciprocity of Peer-Mediated Interventions: Examining Outcomes for Peers). School Psychology Review. Link.
- Mahoney (2024). Apoio ao engajamento acadêmico de estudantes do ensino médio com autismo por meio do uso de uma agenda visual de atividades e do ensino e das intervenções mediados por pares (Supporting the Academic Engagement of Secondary Students with Autism through the Use of a Visual Activity Schedule and Peer-Mediated Instruction and Interventions). Education and Training in Autism and Developmental Disabilities. Link.
- Avci (2023). Estudantes como professores: efeito do modelo de educação entre pares na redução da dependência de smartphones em adolescentes (Students as Teachers: Effect of the Peer Education Model on Reducing Smartphone Addiction in Adolescents). Health Education Research. Link.
- Espelage (2024). Um ensaio clínico randomizado do programa de prevenção primária do ensino médio Sources of Strength sobre a prática e a vitimização de violência sexual e a atitude de desconsiderar o assédio sexual (An RCT of Sources of Strength High School Primary Prevention Program on Sexual Violence Perpetration and Victimization and Dismissiveness of Sexual Harassment). School Psychology Review. Link.
- Macphee (2023). Protocolo de Estudo de um Ensaio Randomizado do STRIPES: Uma Intervenção de Ano Letivo, Conduzida por Pares, no Ensino Médio para Estudantes com TDAH (Study Protocol of a Randomized Trial of STRIPES: A Schoolyear, Peer-Delivered High School Intervention for Students with ADHD). Grantee Submission. Link.
- Sansone (2026). Motivando a autorregulação: valor utilitário, desenvolvimento do interesse e potencial de intervenção (Motivating Self-Regulation: Utility Value, Interest Development, and the Potential for Intervention). Educational Psychology Review. Link.
Se você está pensando em organizar uma parceria entre estudantes, comece por um objetivo pequeno, combine os papéis e observe o que acontece. Uma boa intervenção pode ser ajustada junto com a turma.
Encontrou um erro neste conteúdo? Veja nossa política editorial e avise a gente.
O GeraProva busca questões com gabarito comentado e BNCC no acervo e monta a prova pronta para imprimir.
