Satisfação e motivação docente: por que o bem-estar pesa tanto
Estudos recentes relacionam satisfação docente a bem-estar, motivação, liderança e condições de trabalho. Veja o que as pesquisas sugerem — e como transformar esses achados em escolhas possíveis na escola.
O que faz um professor continuar motivado quando a rotina escolar aperta? A resposta curta: não depende apenas da paixão individual. Pesquisas recentes apontam também para o bem-estar, a liderança, as relações e as condições concretas de trabalho.
Isso não significa que exista uma fórmula única para a satisfação docente. Os estudos mostram caminhos diferentes e ajudam a separar o que está nas mãos do professor do que depende da organização escolar. A seguir, vamos olhar para os achados e pensar em aplicações realistas para a escola brasileira.
O que é satisfação, atitudes e motivação docente no trabalho e por que importa para o professor
Satisfação no trabalho é a avaliação que o professor faz da própria experiência profissional: se encontra sentido no que faz, se sente apoiado e se as condições do cotidiano permitem realizar um trabalho que considera importante. Motivação diz respeito ao que sustenta seu envolvimento e sua disposição para agir. Atitudes incluem maneiras de perceber a profissão, a escola e as relações de trabalho.
Na rotina, essas dimensões aparecem em situações bem concretas: autonomia para decidir como ensinar, diálogo com a gestão, infraestrutura, reconhecimento, formação e possibilidade de acompanhar o desenvolvimento dos alunos. Não são peças isoladas. Uma escola pode ter profissionais muito comprometidos e, ao mesmo tempo, condições que dificultam esse compromisso. Também pode haver entusiasmo pela docência sem que isso apague cansaço ou insatisfação.
O tema importa porque a experiência profissional do professor não fica restrita ao espaço individual. Ela se relaciona ao modo como a equipe trabalha, enfrenta mudanças e sustenta as tarefas de ensino. Mas é importante não transformar essa relação em cobrança: falar de motivação não deve servir para atribuir ao professor a responsabilidade exclusiva por problemas organizacionais.
O que a pesquisa recente mostra sobre satisfação e motivação docente
Os estudos recentes não oferecem uma explicação única. Em conjunto, investigam relações entre fatores pessoais e organizacionais, mas variam em país, etapa de ensino, método e pergunta. Alguns encontram relações estatísticas entre variáveis; outros exploram relatos de professores. Organizar os resultados por temas ajuda a enxergar tanto os pontos de encontro quanto as diferenças.
Bem-estar e motivação aparecem ligados à satisfação
Um estudo com dados de 3.716 professores de 193 escolas chinesas de ensino secundário inferior examinou a relação entre liderança distribuída, bem-estar, motivação para o trabalho e satisfação profissional. Os autores encontraram efeitos diretos e indiretos da liderança distribuída sobre a satisfação. Bem-estar e motivação atuaram como mediadores parciais; entre as vias indiretas analisadas, a que passava pelo bem-estar foi a mais forte, e o bem-estar também teve os maiores efeitos diretos e totais sobre a satisfação (Ma, 2026).
Esse resultado destaca uma distinção útil: motivação e satisfação se conectam, mas não são sinônimos. O estudo encontrou participação de ambas na relação estudada, com maior peso do bem-estar em determinados caminhos do modelo. Como se trata de uma análise de dados de escolas chinesas, não é correto presumir que o mesmo padrão tenha a mesma intensidade em qualquer rede brasileira.
Uma pesquisa transversal com 460 professores da educação infantil em Kosovo também examinou relações entre motivação, satisfação, desenvolvimento profissional e esgotamento. A satisfação no trabalho e o desenvolvimento profissional foram preditores positivos significativos da motivação; o esgotamento foi preditor negativo significativo. No sentido inverso, motivação, satisfação e desenvolvimento profissional foram preditores negativos significativos do esgotamento, enquanto o esgotamento foi preditor negativo significativo da satisfação (Duraku, 2025).
Por ser transversal, esse estudo apresenta relações entre variáveis em um recorte, não uma sequência que prove o que causa o quê. Ainda assim, o conjunto de associações chama atenção para um ciclo possível a ser investigado: condições que acompanham satisfação e desenvolvimento profissional também se relacionam ao esgotamento e à motivação. O achado não autoriza dizer que uma oficina de formação, sozinha, evitará o esgotamento.
Liderança, reconhecimento e relações de trabalho fazem parte do quadro
Na pesquisa chinesa de Ma, a liderança distribuída foi examinada como parte das relações entre organização escolar e satisfação docente, com bem-estar e motivação no papel de mediadores. O resultado não reduz a satisfação a um estilo de gestão, mas indica que a liderança pode estar associada à experiência profissional por caminhos diretos e indiretos (Ma, 2026).
Outro estudo, com 812 professores de anos finais do ensino fundamental em 18 escolas de uma cidade do norte da China, investigou liderança distribuída, comunidades profissionais de aprendizagem, satisfação e comprometimento com a mudança. O resumo relata uma relação direta e positiva entre liderança distribuída e comprometimento dos professores com a mudança. Como esse é o resultado explicitado, não cabe atribuir ao estudo conclusões específicas sobre o efeito mediador da satisfação ou das comunidades profissionais (Xiu, 2026).
Em uma pesquisa com 251 docentes do ensino fundamental, Hardianto e colegas analisaram incentivos, liderança transformacional, motivação e satisfação profissional. Os resultados indicaram que liderança transformacional e incentivos influenciaram significativamente a motivação; a motivação mediou a relação com a satisfação. Também foram observados efeitos diretos e indiretos da liderança e dos incentivos sobre a satisfação por meio do aumento da motivação. Os autores recomendam sistemas de recompensas justos e transparentes e atenção à liderança transformacional (Hardianto, 2025).
As relações cotidianas aparecem ainda em um estudo qualitativo com 11 professores de diferentes disciplinas e etapas. Nos relatos, atitudes de gestores, colegas e pais podiam ter impactos positivos ou negativos sobre motivação e satisfação com a carreira. Os participantes apontaram também remuneração, infraestrutura, comunicação, motivação dos alunos e paixão pela profissão como fatores relevantes; associaram satisfação à possibilidade de contribuir para o desenvolvimento dos estudantes, inspirá-los e causar impacto duradouro (Altin, 2025). Esses relatos ajudam a nomear fatores, mas não medem quanto cada um pesa para todos os professores.
Paixão, autonomia e estresse não têm uma leitura simples
Uma pequena pesquisa qualitativa no sudeste da Inglaterra entrevistou dois professores de uma escola de ensino fundamental sobre paixão harmoniosa e motivação. Os autores relatam que essa forma de paixão contribuiu para manter a motivação por meio de maior satisfação no trabalho e bem-estar. Também relatam que falta de autonomia e pressões de políticas governamentais e escolares diminuíram a paixão harmoniosa e, consequentemente, a motivação (Webb, 2025). O recorte é pequeno, então a contribuição está em oferecer uma perspectiva aprofundada, não em representar todos os professores.
Já uma pesquisa com 917 docentes dos anos finais do ensino fundamental na China diferenciou estresse de desafio e estresse de obstrução. O primeiro se relacionou positivamente à paixão pelo trabalho e à profissionalidade docente; o segundo, negativamente a ambas. A paixão mediou a relação entre esses tipos de estresse e a profissionalidade (Chen, 2025). Isso não quer dizer que toda pressão seja benéfica: o estudo distingue tipos de estresse e seus padrões de associação, não recomenda aumentar a carga de trabalho.
A diferença entre esses estudos é importante. Pressões que o modelo de Chen classifica como desafio se associaram de modo positivo às variáveis analisadas, enquanto o estudo qualitativo inglês relaciona pressões de políticas e escola à diminuição da paixão harmoniosa. Os resumos não permitem concluir que os dois trabalhos mediram exatamente as mesmas pressões. A mensagem prudente é evitar tratar toda exigência como igual: algumas podem ser percebidas como desafio, outras como obstáculo à autonomia e ao trabalho.
Etapas e funções diferentes trazem perguntas próprias
Uma pesquisa australiana entrevistou nove docentes de Educação e Formação Profissional que trabalhavam em escolas de ensino médio. O estudo investigou trajetórias, motivações e satisfação, usando a Teoria da Autodeterminação como referencial. Os autores encontraram aspectos em comum com pesquisas mais amplas sobre ingresso e permanência na docência, mas também fatores específicos ligados ao trabalho desses docentes. O resumo não detalha quais são esses fatores, por isso não cabe enumerá-los como se fossem resultados explícitos (Rice, 2025).
Na educação infantil dos Emirados Árabes Unidos, um estudo com 305 professores examinou trabalho emocional, autoeficácia e dedicação ao trabalho. A expressão de emoções sentidas naturalmente teve relação direta positiva com dedicação e autoeficácia, e a autoeficácia mediou parcialmente a relação entre essa expressão e a dedicação. A atuação superficial foi menos frequente do que a atuação profunda e a expressão de emoções sentidas naturalmente na comparação apresentada (Zhang, 2025). Dedicação não é exatamente satisfação, mas a pesquisa ajuda a entender uma dimensão do envolvimento profissional.
Por fim, uma pesquisa em 83 centros educacionais de quatro regiões da Espanha analisou dimensões que incluíam comunicação, gestão, apoio e reconhecimento, clima, satisfação e relações externas. Identificou três perfis de centros, com impacto alto, médio e baixo associado à implementação da ISO 9001. O impacto foi maior em centros da Comunidade Valenciana e da Andaluzia com 9 a 11 anos de implementação, que recebiam ajuda financeira ou financiamento interno e eram centros conveniados (Rodríguez-Mantilla, 2025). O resultado descreve perfis e condições naquele contexto espanhol; não estabelece que implantar um sistema de qualidade aumentará satisfação em qualquer escola.
Os estudos lado a lado: o que cada pesquisa investigou
A tabela reúne os estudos citados e resume o que seus resumos permitem afirmar. Os contextos são diferentes; por isso, os achados devem ser lidos em relação à etapa, ao país e ao tipo de investigação, e não como uma classificação universal das escolas.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Ma (2026) | Liderança distribuída, bem-estar, motivação e satisfação. | Efeitos diretos e indiretos; bem-estar e motivação mediam parcialmente, com maior via indireta pelo bem-estar. | 3.716 professores de 193 escolas chinesas; ensino secundário inferior; dados de 2018. |
| Xiu (2026) | Liderança distribuída, comunidades profissionais, satisfação e compromisso com mudança. | Relação direta e positiva entre liderança distribuída e compromisso com a mudança. | 812 professores de anos finais do ensino fundamental, 18 escolas no norte da China. |
| Webb (2025) | Paixão harmoniosa e manutenção da motivação. | Relatos relacionam paixão a satisfação e bem-estar; falta de autonomia e pressões diminuíram essa paixão. | Entrevistas com dois professores; escola de ensino fundamental no sudeste da Inglaterra. |
| Altin (2025) | Motivação profissional, competência digital e satisfação com a carreira. | Relatos apontam relações, fatores internos, competências digitais e condições de trabalho. | 11 professores de diferentes disciplinas e etapas; país não informado no resumo. |
| Duraku (2025) | Motivação, satisfação, desenvolvimento profissional e esgotamento. | Satisfação e desenvolvimento predizem positivamente motivação; esgotamento associa-se negativamente a satisfação e motivação. | Estudo transversal com 460 professores da educação infantil em Kosovo. |
| Hardianto (2025) | Incentivos, liderança, motivação e satisfação. | Liderança e incentivos influenciaram motivação; motivação mediou relações com satisfação. | 251 docentes do ensino fundamental; país não informado no resumo. |
| Rice (2025) | Trajetórias, motivações e satisfação de docentes de educação profissional. | Aspectos comuns à docência em geral e fatores específicos da educação profissional. | Nove docentes VET em escolas de ensino médio na Austrália. |
| Rodríguez-Mantilla (2025) | Perfis de centros ligados à implementação da ISO 9001. | Identificou três perfis de impacto; condições variaram entre os centros. | 83 centros de quatro regiões da Espanha; 2.132 participantes. |
| Chen (2025) | Estresse de desafio e obstrução, paixão e profissionalidade. | Estresse de desafio associou-se positivamente e o de obstrução negativamente à paixão e profissionalidade. | 917 professores dos anos finais do ensino fundamental na China. |
| Zhang (2025) | Trabalho emocional, autoeficácia e dedicação. | Expressão natural associou-se positivamente à dedicação e autoeficácia; mediação parcial pela autoeficácia. | 305 professores de creches e jardins de infância nos Emirados Árabes Unidos. |
Quais pontos em comum e divergências aparecem nas pesquisas?
O ponto de encontro mais claro é que a experiência docente aparece ligada a mais de uma dimensão. Motivação, satisfação, bem-estar, liderança, relações, autonomia e condições materiais surgem em combinações diferentes. Nenhum resumo sustenta que a motivação seja apenas uma característica individual ou que uma única medida resolva a insatisfação.
Há também convergência em torno do papel da organização. Liderança e incentivos aparecem associados à motivação e à satisfação em alguns estudos; apoio, reconhecimento e comunicação aparecem nos relatos de professores; autonomia surge como questão na pesquisa inglesa. Isso não prova que todas as escolas devam adotar o mesmo modelo de gestão. Significa que as relações de trabalho são uma parte plausível e recorrente da conversa sobre satisfação.
As diferenças são igualmente relevantes. Há estudos quantitativos com centenas ou milhares de participantes e estudos qualitativos com poucos entrevistados. Alguns investigam satisfação diretamente; outros se concentram em dedicação, profissionalidade, compromisso com mudança ou esgotamento. Etapas e funções também variam, da educação infantil à educação profissional. Por isso, não se deve somar os resultados como se todos respondessem à mesma pergunta.
Permanece em aberto como esses padrões se manifestam em diferentes redes brasileiras, quais fatores têm maior peso em cada etapa e como mudam ao longo do tempo. Um estudo transversal ou uma associação entre variáveis não prova causalidade. Entender o contexto local exige ouvir os professores e observar condições de trabalho, sem reduzir o problema a uma receita motivacional.
O que isso significa para a sala de aula e para a equipe?
Os estudos não testaram as sugestões abaixo como intervenções escolares. São aplicações possíveis, inspiradas nos temas investigados, que precisam ser adaptadas às condições da rede e construídas com a equipe.
1. Separar motivação individual de condições de trabalho
Aplicação: em uma reunião de equipe, pode ser útil distinguir o que depende de escolhas pessoais, o que exige apoio da gestão e o que depende de recursos da rede. Imagine uma equipe que esteja com dificuldade para preparar avaliações: em vez de concluir que falta empenho, pode identificar se há tempo de planejamento, acesso a materiais e clareza sobre expectativas. Essa conversa não resolve tudo, mas evita transformar um problema de organização em falha moral do professor.
2. Criar espaços reais de participação
Aplicação: se a escola discute mudanças no calendário ou nos critérios de avaliação, pode convidar docentes a participar da definição dos passos e registrar quais decisões podem ser compartilhadas. A relação entre liderança distribuída e satisfação, bem-estar ou compromisso com mudança foi investigada em estudos chineses, mas cada rede precisa avaliar como participação funciona no seu contexto. Uma consulta sem influência real pode não produzir a mesma experiência que uma decisão construída com a equipe.
3. Tratar reconhecimento como prática concreta e justa
Aplicação: a gestão pode explicitar critérios para distribuir oportunidades de formação, funções e incentivos que existam na rede, e abrir espaço para que os professores entendam como as decisões são tomadas. O estudo de Hardianto e colegas recomenda sistemas de recompensas justos e transparentes, mas isso não equivale a prometer que um prêmio aumentará a satisfação em qualquer escola. Reconhecimento também pode incluir retorno profissional específico e respeito ao tempo de trabalho, conforme as possibilidades locais.
4. Fazer da formação um apoio ao trabalho, não mais uma cobrança
Aplicação: antes de propor um curso, a equipe pode perguntar que dificuldade concreta ele pretende apoiar e como o professor terá tempo para experimentar o que aprendeu. A pesquisa com professores da educação infantil em Kosovo encontrou desenvolvimento profissional associado positivamente à motivação e negativamente ao esgotamento, sem provar que qualquer formação produza esses efeitos. Um exemplo hipotético seria organizar um encontro curto para compartilhar estratégias de avaliação já usadas pela equipe, em vez de acrescentar uma tarefa sem conexão com a rotina.
5. Conversar sobre autonomia e pressões de modo específico
Aplicação: em vez de perguntar apenas se a equipe está “motivada”, a coordenação pode identificar quais decisões pedagógicas os docentes conseguem tomar e quais exigências são percebidas como obstáculos. Imagine professores que precisam adaptar uma atividade para ritmos diferentes: uma conversa sobre o que pode ser ajustado e o que é obrigatório torna as margens de decisão mais claras. A pesquisa inglesa abordou autonomia e pressões; o estudo chinês distinguiu estresse de desafio e de obstrução. Esses conceitos não devem ser usados para chamar qualquer sobrecarga de desafio saudável.
6. Reconhecer o trabalho emocional sem exigir entusiasmo permanente
Aplicação: a escola pode considerar que ensinar envolve relações e emoções, sem cobrar que o professor demonstre alegria o tempo todo. Se uma turma está passando por uma situação hipotética de conflito, a equipe pode combinar formas de apoio e de encaminhamento, em vez de deixar que cada docente administre sozinho todas as demandas emocionais. O estudo dos Emirados Árabes Unidos investigou expressão emocional, autoeficácia e dedicação; não recomenda mascarar sentimentos nem estabelece um padrão emocional ideal.
7. Verificar se as soluções servem a etapas e funções diferentes
Aplicação: antes de generalizar uma iniciativa, a gestão pode ouvir separadamente profissionais da educação infantil, dos anos finais e de áreas profissionais, caso existam na escola ou rede. As pesquisas incluem grupos com tarefas e trajetórias distintas. Imagine uma escola de ensino médio com docentes de formação profissional: suas necessidades podem não ser idênticas às dos demais professores. O estudo australiano investigou especificidades desse grupo, embora o resumo não enumere cada fator específico.
O que muda quando pensamos no contexto brasileiro?
Os estudos apresentados vêm de China, Inglaterra, Kosovo, Austrália, Espanha e Emirados Árabes Unidos; em alguns casos, o país não aparece no resumo. Eles não descrevem diretamente as redes brasileiras, suas regras, formas de contratação, jornadas ou políticas. Portanto, seus resultados ajudam a formular perguntas, mas não devem ser tratados como diagnóstico do Brasil.
O que pode ser levado para cá são temas de investigação: como a gestão compartilha decisões, se há apoio e reconhecimento, como o professor percebe autonomia, que condições favorecem desenvolvimento profissional e que demandas aumentam o esgotamento. A resposta pode variar entre escolas e redes. Uma escola pequena, uma rede municipal e uma instituição privada podem ter margens de decisão e recursos diferentes.
Também é preciso cuidado com recomendações ligadas a sistemas específicos. O estudo espanhol analisou a implementação da ISO 9001 em centros daquele país; seus resultados não demonstram que a certificação seja solução para a satisfação de escolas brasileiras. Da mesma forma, recomendações sobre incentivos precisam ser avaliadas conforme políticas locais, orçamento e critérios de equidade. A adaptação responsável começa por ouvir os professores e entender o problema concreto, não por importar um programa pronto.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de dez estudos recentes, não na leitura integral dos trabalhos. Os resumos permitem apresentar objetivos, contextos e resultados ali descritos, mas nem sempre detalham instrumentos, definições completas, análises ou limitações dos autores. Por isso, as interpretações aqui ficam restritas ao que foi informado.
As perguntas em aberto incluem como os resultados se aplicariam a professores brasileiros, como satisfação e motivação mudam ao longo da carreira e quais intervenções escolares produzem efeitos duradouros. Também é necessário distinguir associação de causalidade: estudos transversais e modelos de relações entre variáveis não demonstram, por si sós, que uma condição cause outra. Pesquisas qualitativas pequenas oferecem profundidade, mas não estimam a frequência de uma experiência em toda a categoria.
Faz sentido consultar o estudo completo quando uma escola ou rede quiser desenhar uma política, comparar instrumentos de avaliação, compreender como uma variável foi medida ou verificar limites e recomendações em detalhe. Para uma decisão importante, vale ainda buscar pesquisas brasileiras e ouvir os profissionais que serão afetados.
Como o GeraProva ajuda com este assunto?
O GeraProva não substitui políticas de valorização, apoio da gestão nem condições adequadas de trabalho. Pode, porém, apoiar uma tarefa específica do cotidiano: preparar provas e atividades com mais agilidade, para que o professor tenha uma ferramenta a mais no planejamento e na avaliação. Conheça o gerador de provas do GeraProva ou faça seu cadastro grátis.
Perguntas frequentes sobre satisfação e motivação docente
Satisfação no trabalho e motivação docente são a mesma coisa?
Não. Os estudos tratam satisfação e motivação como dimensões relacionadas, mas distintas. Na pesquisa com professores de escolas chinesas, bem-estar e motivação mediaram parcialmente a relação entre liderança distribuída e satisfação, e o bem-estar teve destaque nos caminhos analisados (Ma, 2026). Em Kosovo, satisfação e desenvolvimento profissional foram preditores positivos da motivação, enquanto esgotamento foi um preditor negativo (Duraku, 2025). Esses resultados sugerem conexão, não equivalência. Um professor pode sentir sentido e disposição para ensinar e ainda estar insatisfeito com aspectos de suas condições de trabalho.
O que mais aparece relacionado à satisfação dos professores?
Não há um fator único nos estudos. Aparecem bem-estar, motivação, liderança, incentivos, desenvolvimento profissional, relações com gestores e colegas, remuneração, infraestrutura e autonomia. O peso de cada elemento não foi medido do mesmo modo em todas as pesquisas. Por exemplo, relatos de 11 professores destacaram diferentes fatores ligados à carreira, enquanto uma pesquisa quantitativa encontrou relações entre liderança, incentivos, motivação e satisfação (Altin, 2025; Hardianto, 2025). É mais prudente usar essa lista para orientar conversas locais do que supor uma hierarquia universal.
Uma liderança participativa garante professores mais satisfeitos?
Os estudos não permitem prometer isso para qualquer escola. A pesquisa com professores chineses encontrou efeitos diretos e indiretos da liderança distribuída sobre satisfação, com mediação parcial do bem-estar e da motivação (Ma, 2026). Outro estudo encontrou uma relação direta e positiva entre liderança distribuída e compromisso com a mudança, mas o resumo não relata resultados específicos para satisfação (Xiu, 2026). Esses achados tornam a participação um tema importante a considerar, mas não provam que adotar um modelo de gestão, sem olhar para contexto e implementação, garanta satisfação.
Paixão pela profissão basta para evitar o esgotamento?
Não há base nesses estudos para afirmar isso. A pesquisa qualitativa inglesa relacionou paixão harmoniosa a satisfação e bem-estar, mas também apontou que falta de autonomia e pressões podiam reduzir essa paixão e a motivação (Webb, 2025). Em Kosovo, esgotamento apareceu como preditor negativo da satisfação e da motivação, e o desenvolvimento profissional se relacionou a essas dimensões (Duraku, 2025). Paixão pode fazer parte da experiência docente, mas não deve ser usada para justificar condições difíceis nem para responsabilizar individualmente quem está esgotado.
Todo estresse no trabalho docente é prejudicial?
O estudo realizado com professores dos anos finais na China distinguiu estresse de desafio e estresse de obstrução. O primeiro se relacionou positivamente à paixão pelo trabalho e à profissionalidade; o segundo, negativamente a ambas. A paixão mediou as relações estudadas (Chen, 2025). Isso não significa que a escola deva aumentar a pressão, nem que uma carga excessiva se torne benéfica se for chamada de desafio. A pesquisa reforça a importância de distinguir demandas percebidas como mobilizadoras daquelas que atrapalham o trabalho, sem transformar essa distinção em cobrança ao professor.
Como aplicar esses achados sem importar conclusões de outros países?
Use os estudos como ponto de partida para perguntas, não como receita. Os contextos incluem países e etapas diferentes, e não representam automaticamente as redes brasileiras. Uma equipe pode investigar se tem autonomia suficiente, como funciona o reconhecimento, quais apoios faltam e que demandas dificultam o trabalho. Também pode ouvir grupos diferentes, pois docentes da educação infantil, dos anos finais e da educação profissional podem ter experiências específicas. Para criar uma política ou escolher uma intervenção, convém consultar estudos completos, pesquisas brasileiras e os próprios profissionais envolvidos.
Referências
- Ma, Xiaorong; Marion, Russ (2026). Relação entre liderança distribuída e satisfação profissional docente na China: os papéis mediadores do bem-estar docente e da motivação para o trabalho (Linking Distributed Leadership to Teacher Job Satisfaction in China: Mediating Roles of Teacher Well-Being and Work Motivation). Educational Management Administration & Leadership. Link.
- Xiu, Qi; Liu, Peng; Yao, Hao; Liu, Lili (2026). A Relação entre Liderança Distribuída e o Comprometimento dos Professores com a Mudança: Os Papéis Mediadores das Comunidades Profissionais de Aprendizagem e da Satisfação no Trabalho (The Relationship between Distributed Leadership and Teacher Commitment to Change: The Mediating Roles of Professional Learning Communities and Job Satisfaction). Asia Pacific Education Review. Link.
- Webb, Penny; Piggott, Rebecca (2025). A paixão harmoniosa como facilitadora da motivação para a profissão docente: contribuições de um estudo qualitativo de pequena escala (Harmonious Passion as an Enabler of Motivation for the Teaching Profession: Insights from a Small-Scale Qualitative Study). Teacher Education Advancement Network Journal. Link.
- Altin, Arzu; Topcu, Zuhal (2025). Influência da motivação profissional e da competência digital na satisfação dos professores com a carreira (Influence of Professional Motivation and Digital Competence on Teachers' Career Satisfaction). Asian Journal of Education and Training. Link.
- Duraku, Zamira Hyseni; Jahiu, Genta; Geci, Donjeta (2025). A inter-relação entre fatores individuais e organizacionais e o nível de motivação para o trabalho, satisfação no trabalho e esgotamento profissional de professores da educação infantil (The Interplay of Individual and Organizational Factors with Early Childhood Teachers' Level of Work Motivation, Job Satisfaction, and Burnout). International Journal of Educational Reform. Link.
- Hardianto, Hardianto; Hidayat, Hidayat; Setiawan, Muhammad Nurhisyam Ali (2025). A influência das recompensas, da liderança transformacional e da motivação na satisfação profissional de professores do ensino fundamental (The Influence of Reward, Transformational Leadership and Motivation on Job Satisfaction of Primary School Teachers). Journal of Pedagogical Research. Link.
- Rice, Suzanne; Gillis, Shelley; Dawborn-Gundlach, Merryn; van Driel, Jan; Koh, Stanley; Speldewinde, Chris (2025). Docentes da Educação Profissional em contextos escolares: trajetórias profissionais e motivações (Vocational Teachers in School Settings: Career Pathways and Motivations). Journal of Vocational Education and Training. Link.
- Rodríguez-Mantilla, Jesús Miguel; Martínez-Zarzuelo, Angélica; León-Carrascosa, Víctor (2025). Identificação de perfis em organizações educacionais como resultado da implementação de um sistema de gestão da qualidade (Identification of Profiles in Educational Organizations as a Result of the Implementation of a Quality Management System). International Journal of Educational Management. Link.
- Chen, Shuzhen; Liu, Wenping (2025). Navegando pela profissionalidade docente: a influência do estresse de desafio e do estresse de obstrução por meio da paixão pelo trabalho (Navigating Teacher Professionalism: The Influence of Challenge and Hindrance Stress through Work Passion). Psychology in the Schools. Link.
- Zhang, Qilong; AlMurshidi, Ghadah; Jiang, Ke (2025). O efeito do trabalho emocional na dedicação ao trabalho de professores da educação infantil nos Emirados Árabes Unidos: o papel mediador da autoeficácia docente (The Effect of Emotional Labour on Job Dedication among Early Childhood Teachers in the UAE: The Mediating Role of Teaching Self-Efficacy). Early Childhood Education Journal. Link.
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