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Sobre-representação racial nas decisões escolares: os dados nem sempre contam a mesma história

Encaminhamentos, identificação de deficiência, inclusão e disciplina podem revelar desigualdades diferentes. Pesquisas recentes mostram por que comparar grupos exige olhar também para o contexto e para as medidas usadas.

Sobre-representação racial nas decisões escolares: os dados nem sempre contam a mesma história

Por que estudantes de grupos raciais diferentes podem receber encaminhamentos, apoios ou punições diferentes diante de situações parecidas? A pesquisa recente não aponta uma resposta única. Ela mostra que cada decisão precisa ser examinada no seu contexto.

Há estudos sobre disciplina, identificação de deficiência, inclusão e acesso a professores que ajudam a pensar o problema. Em conjunto, eles pedem atenção ao modo como a escola observa, interpreta e registra o que acontece — sem transformar diferenças entre grupos em explicações sobre os próprios estudantes.

O que é sobre-representação racial e étnica em decisões escolares e por que importa para o professor

Sobre-representação acontece quando um grupo aparece em uma decisão escolar com frequência ou proporção diferente da observada em outro grupo, considerando o indicador escolhido. Na rotina, isso pode ser investigado em encaminhamentos para avaliação, identificação de deficiência, acesso a serviços, inclusão em turmas regulares, medidas disciplinares ou distribuição de estudantes entre professores. O conceito descreve um padrão a examinar; sozinho, não explica por que ele ocorre.

Para o professor, a questão aparece em decisões cotidianas: quem é descrito como desatento ou desafiador, que comportamento é encaminhado à coordenação, quem recebe apoio, quem é incluído em determinada atividade e quais informações chegam à família. O ponto não é presumir que todo resultado desigual decorra de preconceito individual, nem ignorar a desigualdade quando ela aparece. É perguntar se critérios, oportunidades de observação e respostas da escola são consistentes e adequados.

Também importa distinguir decisões que podem parecer semelhantes. Uma diferença na identificação de uma condição não é a mesma coisa que uma diferença na punição; tampouco uma diferença de acesso a professores de determinada identidade racial prova que houve discriminação em uma decisão específica. As pesquisas reunidas aqui estudam aspectos distintos. Lê-las com cuidado ajuda a não misturar resultados e a formular perguntas melhores para a própria escola.

O que a pesquisa recente mostra

Os estudos recentes não descrevem um único mecanismo de sobre-representação. Eles abordam decisões disciplinares, identificação de autismo, acesso a serviços e representatividade em experiências escolares. Alguns apresentam resultados, enquanto outros investigam uma questão sem que o resumo forneça uma conclusão final. Esse conjunto é útil justamente porque mostra que o padrão depende do que se mede.

Disciplina: a forma de medir pode mudar a leitura

Uma pesquisa comparou a desproporcionalidade disciplinar em escolas Montessori e não Montessori identificadas como Title 1, nos Estados Unidos. Os autores chamam a atenção para um problema importante: medidas comuns, como razões entre taxas e diferenças de risco, podem produzir resultados contraditórios ou esconder as taxas de base. Em outras palavras, uma comparação entre grupos não se interpreta bem sem saber qual medida foi escolhida e como são as taxas gerais de cada contexto.

Ao aplicar modelagem multinível junto com medidas tradicionais, o estudo encontrou desproporcionalidade disciplinar semelhante nos dois contextos escolares, embora as taxas gerais de disciplina fossem significativamente mais baixas nas escolas Montessori. O resultado não autoriza concluir que a desproporcionalidade deixou de existir, nem que um modelo de escola resolveria por si só a desigualdade. Ele ilustra que a taxa geral de punição e a diferença relativa entre grupos respondem a perguntas diferentes (LeBoeuf, 2024).

Para quem ensina, essa distinção tem consequência prática. Se a escola olha somente para o número total de ocorrências, pode não perceber diferenças entre grupos; se olha apenas para uma razão relativa, pode perder de vista o nível geral de punição. O estudo não oferece uma regra universal para medir disciplina em qualquer sistema, mas dá motivo para não tratar um indicador isolado como resposta completa.

Identificação de deficiência: resultados variam conforme condição e grupo

Estudos sobre autismo mostram que as diferenças de identificação não caminham necessariamente na mesma direção para todos os grupos ou condições. Na Califórnia, uma pesquisa examinou identificação de autismo, inclusão no ensino regular e acesso a serviços, além das tendências entre 2008 e 2018. Estudantes hispânicos/latinos e das ilhas do Pacífico tinham menor probabilidade de serem identificados como autistas do que estudantes de outros grupos; entre estudantes negros autistas, havia menor probabilidade de inclusão em ambientes de ensino regular. A redução da diferença de identificação entre estudantes brancos e hispânicos/latinos ao longo da década sugere alguma melhora, mas as disparidades persistiam (Yu, 2025).

Em Nova York, outro estudo analisou crianças elegíveis ao Medicaid matriculadas em programas universais de pré-escola. Nesse contexto específico, crianças latinas e crianças classificadas racialmente como “Outras” tinham chances muito maiores de receber diagnóstico de autismo do que crianças brancas. Em contrapartida, todos os grupos não brancos tinham chances muito menores de receber diagnóstico de dificuldade de aprendizagem. O estudo investigou o contexto da expansão do programa Universal Pre-K for All e comparou diagnósticos em coortes anteriores e posteriores à expansão; não se deve converter seus resultados em uma regra geral sobre diagnósticos em outras localidades (Strassfeld, 2023).

Esses achados ajudam a evitar uma interpretação simplista: não basta perguntar se um grupo está “mais identificado” ou “menos identificado” em termos gerais. O resultado pode mudar conforme a condição considerada, a população, o período e o tipo de serviço examinado. A diferença de identificação pode influenciar o acesso a apoios, mas os dois estudos tratam de contextos dos Estados Unidos e não estabelecem diretamente o que acontece nas escolas brasileiras.

Decisões escolares também incluem quem encontra oportunidades

As decisões escolares não se limitam a encaminhar ou punir. A distribuição de professores por turma e o repertório oferecido aos estudantes também podem ser examinados pela lente da representação. No Tennessee, uma pesquisa acompanhou a exposição de estudantes do 3º ao 8º ano a professores de diferentes identidades raciais e étnicas. Um grupo considerável de estudantes nunca teve um professor de cor em disciplinas avaliadas entre o 3º e o 8º ano, e a exposição variava bastante entre regiões, distritos e escolas. Quase todos os estudantes brancos e a maioria dos estudantes negros tiveram ao menos um professor da mesma raça; muito poucos estudantes hispânicos e asiáticos tiveram (Binsted, 2025).

O estudo também encontrou evidências de que a presença de gestores negros tornava mais provável a exposição a professores negros. Os autores identificaram padrões de alocação estratégica de estudantes dentro das escolas para aumentar a correspondência racial com professores da mesma raça, padrão mais acentuado para estudantes negros em escolas com gestores negros. Esse resultado descreve distribuição e exposição; não permite inferir que toda alocação individual tenha sido feita por um motivo específico ou que a correspondência racial seja o único fator relevante.

Na Carolina do Norte, pesquisadores analisaram listas de repertório obrigatório para avaliações de programas de coral e banda no ensino fundamental anos finais e no ensino médio. Encontraram representação desproporcional de compositores brancos e homens nas listas de coral e de banda de sopros. É uma pesquisa sobre seleção de repertório, não sobre disciplina ou encaminhamentos, mas lembra que decisões sobre o que entra na experiência escolar também podem distribuir reconhecimento de maneira desigual (Kladder, 2025).

Desigualdade não é um diagnóstico pronto sobre cada decisão

Um estudo longitudinal dos Estados Unidos investigou desigualdades raciais e étnicas na identificação escolar de deficiências ao longo do ensino fundamental I, acompanhando uma coorte desde o início do jardim de infância até o fim do quinto ano. O resumo informa que a pesquisa estimou desigualdades para a identificação geral e para oito condições, com ajustes para características dos estudantes e fatores que variavam ao longo do tempo. Ele apresenta o debate e o objetivo da investigação, mas não informa os resultados finais das estimativas. Por isso, essa pesquisa não deve ser usada aqui como evidência de que determinado grupo foi identificado em excesso ou em menor proporção (Morgan, 2025).

Essa cautela também vale para os demais estudos: uma diferença observada é um sinal para investigar, não uma explicação automática sobre intenção, competência ou comportamento de cada estudante. Em vez de rotular crianças, a pergunta pedagógica é se os critérios e os caminhos de apoio estão claros, se são aplicados de forma consistente e se a escola acompanha os efeitos das decisões.

Os estudos lado a lado

Os estudos abaixo analisam decisões e experiências diferentes. A tabela resume o que cada um investigou e o que o resumo informa, para que não se confunda um achado sobre identificação com um resultado sobre disciplina ou oportunidades.

EstudoO que investigouO que relataContexto
LeBoeuf (2024)Medidas de desproporcionalidade disciplinar em escolas Montessori e não Montessori.A desproporcionalidade foi semelhante entre contextos; as taxas gerais foram significativamente mais baixas nas escolas Montessori. Medidas tradicionais podem gerar ambiguidades.Escolas Title 1 nos Estados Unidos; comparação entre contextos escolares.
Yu (2025)Identificação do autismo, inclusão no ensino regular e acesso a serviços ao longo do tempo.Menor probabilidade de identificação para estudantes hispânicos/latinos e das ilhas do Pacífico; menor inclusão de estudantes negros autistas em ambientes regulares; a diferença entre brancos e hispânicos/latinos diminuiu, mas persistiu.Sistema educacional da Califórnia; tendências entre 2008 e 2018.
Strassfeld (2023)Diagnósticos de autismo e de outras deficiências entre crianças elegíveis ao Medicaid em pré-escolas universais.Crianças latinas e “Outras” tinham chances maiores de diagnóstico de autismo que crianças brancas; grupos não brancos tinham chances menores de diagnóstico de dificuldade de aprendizagem.Nova York; dados de 2006 a 2016 e expansão do Universal Pre-K for All.
Binsted (2025)Exposição de estudantes a professores de diferentes identidades raciais e alocação dentro das escolas.A exposição variava entre regiões, distritos e escolas; muitos estudantes nunca tiveram professor de cor nas disciplinas analisadas. A presença de gestores negros esteve associada a maior exposição a professores negros.Tennessee; estudantes do 3º ao 8º ano.
Kladder (2025)Representação étnica e de gênero em listas obrigatórias de repertório de coral e banda.Havia representação desproporcional de compositores brancos e homens nas listas analisadas.Carolina do Norte; programas de coral e banda no ensino fundamental anos finais e médio.
Morgan (2025)Desigualdades na identificação de deficiências em geral e em oito condições específicas.O resumo descreve a investigação longitudinal, mas não informa os resultados finais das estimativas.Estados Unidos; acompanhamento do jardim de infância ao quinto ano.

Pontos em comum e divergências entre os estudos

O ponto comum é que as decisões escolares merecem ser examinadas em mais de uma dimensão. Identificação, inclusão, disciplina e distribuição de oportunidades não são a mesma coisa, mas todas dependem de processos institucionais que podem produzir padrões diferentes entre grupos. Os estudos também mostram que raça e etnia não devem ser tratadas como uma categoria uniforme: os resultados relatados variam entre grupos e entre condições avaliadas.

Há divergências importantes nos sentidos dos resultados. Na Califórnia, estudantes hispânicos/latinos e das ilhas do Pacífico tinham menor probabilidade de identificação de autismo; no estudo de pré-escolas de Nova York, crianças latinas tinham chances maiores de diagnóstico de autismo, embora grupos não brancos tivessem chances menores de diagnóstico de dificuldade de aprendizagem. Isso não é necessariamente uma contradição: são contextos, populações, períodos e desenhos diferentes, e um estudo examinou mais de um tipo de diagnóstico.

Na disciplina, a tensão principal é entre indicadores. A pesquisa de LeBoeuf e colegas mostra que medidas diferentes podem produzir leituras ambíguas, enquanto a modelagem multinível esclareceu que a desproporcionalidade era semelhante nos dois contextos comparados, apesar de taxas gerais diferentes. Ainda ficam em aberto questões sobre como esses padrões aparecem em outros sistemas escolares, quais mecanismos explicam decisões específicas e quais práticas mudam resultados de forma consistente. Os resumos disponíveis não permitem responder a tudo isso.

O que isso significa para a sala de aula

Os estudos não testaram as sugestões abaixo como um pacote de intervenção para escolas brasileiras. São aplicações possíveis para transformar os achados em perguntas de trabalho pedagógico, sem atribuir às pesquisas recomendações que elas não fizeram.

1. Revise o caminho que leva a um encaminhamento

Uma forma de aplicar essa leitura é mapear quais observações levam a encaminhar um estudante à coordenação ou a uma avaliação. Imagine uma turma em que dois alunos interrompem a aula de modos parecidos: o professor pode anotar a situação, o contexto e as tentativas de apoio feitas antes de decidir. O objetivo não é impedir encaminhamentos necessários, mas tornar os critérios explícitos e verificáveis.

2. Separe observação de interpretação

Como aplicação, registre o que aconteceu antes de atribuir uma intenção. “Levantou-se três vezes durante a atividade” descreve algo observável; “não respeita ninguém” já é uma interpretação. Em um exemplo hipotético, essa distinção ajuda a equipe a comparar situações sem transformar uma impressão sobre a personalidade do estudante em justificativa automática para punição.

3. Acompanhe as decisões por grupo com cuidado

Uma escola pode, como aplicação, revisar seus próprios registros de encaminhamentos, advertências e suspensões, quando dispõe de dados adequados e protegidos. A comparação deve considerar quantos estudantes compõem cada grupo, o tipo de ocorrência e a resposta aplicada. O estudo sobre disciplina sugere que uma medida isolada pode esconder aspectos importantes; por isso, convém olhar tanto para os totais quanto para as diferenças entre grupos.

4. Verifique se o acesso a apoio acompanha a necessidade

Uma forma de usar as pesquisas sobre identificação é perguntar se estudantes que precisam de apoio conseguem chegar a ele, e se o processo de avaliação é compreensível para as famílias. Imagine uma criança com dificuldades persistentes: a equipe pode conferir se observações de diferentes momentos foram reunidas e se a família recebeu informação clara sobre os próximos passos. Isso é uma sugestão de aplicação, não um procedimento validado pelos estudos citados.

5. Revise o que acontece depois da identificação

Identificar uma necessidade não encerra o trabalho. Como aplicação, professores e coordenação podem conferir se os apoios definidos estão chegando à rotina e se o estudante participa das atividades da turma. O resultado da Califórnia, que encontrou menor probabilidade de inclusão em ambientes regulares para estudantes negros autistas, torna pertinente fazer essa pergunta, sem presumir que o padrão seja igual no Brasil.

6. Observe quem recebe oportunidades de participar

Uma aplicação possível é acompanhar quem é convidado a explicar uma estratégia, liderar uma atividade ou participar de uma apresentação. Em uma situação hipotética, a professora pode perceber que chama repetidamente os mesmos estudantes para demonstrar uma solução. Fazer um rodízio transparente e observar a participação do grupo pode ampliar as oportunidades, embora esse procedimento não tenha sido testado nos estudos aqui citados.

7. Pergunte quais vozes aparecem nos materiais e repertórios

O estudo sobre repertório musical oferece uma pergunta transferível: quais criadores e perspectivas estão representados no material escolhido? Como aplicação, um professor pode rever uma seleção de músicas, exemplos ou textos e observar quem aparece e quem fica de fora. A proposta não é escolher materiais apenas por identidade, mas ampliar referências e refletir sobre os critérios usados.

O que muda no contexto brasileiro

Os estudos citados foram realizados nos Estados Unidos, em estados e sistemas específicos, e alguns se referem a etapas ou serviços particulares. Termos como Title 1 e Universal Pre-K for All pertencem a programas daquele país; não correspondem automaticamente a políticas brasileiras. Da mesma forma, as categorias raciais utilizadas nos estudos não devem ser traduzidas mecanicamente para as formas brasileiras de classificação e autodeclaração.

Isso não torna os estudos irrelevantes para professores daqui. Eles ajudam a formular perguntas que uma escola brasileira pode investigar: quem recebe advertências com mais frequência, quem é encaminhado para avaliação, quem participa de atividades e quem acessa apoios? Mas a resposta depende de dados locais, das práticas da rede, do território e dos critérios adotados. Não é correto importar uma conclusão sobre Tennessee, Califórnia ou Nova York como se descrevesse escolas brasileiras.

Uma adaptação responsável começa pelo processo, não pela cópia de um resultado. A equipe pode acordar definições comuns para registrar ocorrências, conferir se comparações usam denominadores apropriados e conversar com as famílias sobre como as decisões são tomadas. Também é importante proteger informações sensíveis e evitar que uma análise coletiva vire rótulo para uma criança. As pesquisas servem como ponto de partida para perguntas, não como diagnóstico da escola local.

Limites desta leitura

Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponibilizados, não na leitura integral de cada publicação. Por isso, as explicações sobre métodos e resultados ficam restritas ao que esses resumos informam; em particular, o resumo de Morgan descreve a investigação, mas não apresenta as estimativas finais. Os estudos também se concentram em contextos dos Estados Unidos e abordam populações, etapas e decisões diferentes, o que limita comparações diretas e qualquer generalização para o Brasil.

Ficam em aberto perguntas sobre os critérios concretos usados por escolas em cada decisão, os mecanismos que produzem diferenças e quais mudanças de prática alteram esses padrões. Faz sentido ler o estudo completo quando a escola, a rede ou um grupo de pesquisa quiser avaliar a qualidade das medidas, conhecer limitações do desenho, entender as categorias usadas ou aplicar resultados a uma política específica. Para decisões sobre um estudante, nenhum desses resumos substitui avaliação contextualizada e diálogo com a família.

Como o GeraProva ajuda com este assunto

O GeraProva pode ajudar a criar provas e atividades, mas uma ferramenta de geração de questões não substitui a revisão pedagógica de critérios de avaliação, encaminhamento ou disciplina. O professor pode usar o gerador de provas do GeraProva para preparar materiais e conferir se as questões são claras, pertinentes e adequadas à turma; quem quiser testar a plataforma pode fazer o cadastro grátis.

Perguntas frequentes

Sobre-representação racial significa necessariamente discriminação?

Não. Sobre-representação descreve uma diferença entre grupos em uma decisão ou resultado; por si só, não identifica a causa nem prova a intenção de uma pessoa. Os estudos mostram por que é necessário examinar o contexto e a forma de medir. Na pesquisa sobre disciplina, indicadores diferentes podiam levar a leituras ambíguas, e as taxas gerais também diferiam entre escolas Montessori e não Montessori (LeBoeuf, 2024). Para uma escola, a diferença observada deve abrir uma investigação sobre critérios, registros e oportunidades, sem ser ignorada ou convertida automaticamente em acusação sobre um caso individual.

As pesquisas dizem que estudantes negros são sempre mais punidos?

Não. Entre os estudos resumidos aqui, o trabalho sobre disciplina compara a desproporcionalidade entre dois contextos escolares, mas não apresenta uma conclusão geral de que estudantes negros sejam sempre mais punidos. Ele relata desproporcionalidade semelhante nos contextos comparados e taxas gerais significativamente mais baixas nas escolas Montessori (LeBoeuf, 2024). O resultado depende da medida e da comparação adotadas. Portanto, não é adequado transformar essa pesquisa em afirmação universal sobre estudantes negros ou sobre todas as escolas. Para responder a uma pergunta local, seria necessário analisar dados da própria rede.

Um grupo aparecer menos em diagnósticos significa que suas necessidades não existem?

Não. Uma frequência menor de identificação em determinado estudo não demonstra que o grupo tenha menos necessidades, assim como uma frequência maior não prova, sozinha, identificação excessiva. Na Califórnia, estudantes hispânicos/latinos e das ilhas do Pacífico tinham menor probabilidade de identificação de autismo do que outros grupos, enquanto estudantes negros autistas tinham menor probabilidade de inclusão em ambientes regulares (Yu, 2025). Em Nova York, crianças latinas tinham chances maiores de diagnóstico de autismo do que crianças brancas, mas grupos não brancos tinham chances menores de diagnóstico de dificuldade de aprendizagem (Strassfeld, 2023). Os contextos e as condições importam.

Posso usar resultados dos Estados Unidos para avaliar minha escola?

Use-os para formular perguntas, não como retrato direto da realidade brasileira. Os estudos citados tratam de sistemas, categorias, períodos e políticas dos Estados Unidos, incluindo Tennessee, Califórnia, Carolina do Norte e Nova York. Seus resultados ajudam a pensar sobre medidas disciplinares, identificação, inclusão e distribuição de oportunidades, mas não provam que a mesma diferença exista em uma escola brasileira. Uma avaliação local precisa definir o que será comparado, considerar o tamanho dos grupos e proteger os dados dos estudantes. É importante também distinguir uma pergunta sobre padrões coletivos de uma conclusão sobre uma criança específica.

O que um professor pode fazer sem transformar os alunos em números?

Uma possibilidade é combinar registros consistentes com observação individualizada. O professor pode descrever comportamentos concretos, rever os critérios que levam a uma advertência ou encaminhamento e conversar com a equipe sobre os apoios oferecidos. Se a escola comparar registros por grupo, a análise deve servir para revisar processos, não para rotular estudantes. Uma forma de aplicação é perguntar se situações semelhantes recebem respostas semelhantes e se todos têm acesso a oportunidades e apoios. Essa orientação é uma sugestão prática inspirada pelas questões levantadas nos estudos, não uma intervenção comprovada por eles.

Os estudos apontam uma solução única para reduzir as diferenças?

Não. Os resumos não apresentam uma solução única aplicável a todas as escolas. Eles examinam questões diferentes: disciplina e métodos de comparação, identificação e inclusão no autismo, acesso a professores e representatividade em repertórios. Alguns encontram diferenças entre grupos; outros destacam que as medidas podem alterar a leitura; um resumo descreve uma investigação sem apresentar seus resultados finais. Assim, faz mais sentido usar essas pesquisas para identificar onde a escola precisa olhar com atenção e, depois, avaliar as práticas locais. Qualquer mudança deve ser acompanhada por evidências do próprio contexto e por diálogo com a comunidade escolar.

Referências

  1. LeBoeuf, Lee; Goldstein-Greenwood, Jacob; Lillard, Angeline S. (2024). A modelagem multinível resolve ambiguidades nas análises da desproporcionalidade disciplinar: uma demonstração comparando escolas Título 1 Montessori e não Montessori (Multilevel Modeling Resolves Ambiguities in Analyses of Discipline Disproportionality: A Demonstration Comparing Title 1 Montessori and Non-Montessori Schools). Journal of Research on Educational Effectiveness. Link.
  2. Yu, Yue; Schetter, Patricia; Melgarejo, Melina; Suhrheinrich, Jessica; Holmes, Jamie; Gonsier-Gerdin, Jean; Stahmer, Aubyn C. (2025). Análise de uma década de mudanças na identificação do autismo e na inclusão por raça e etnia no sistema educacional da Califórnia (Examining a Decade of Changes in Autism Identification and Inclusion by Race and Ethnicity in California Education System). Journal of Special Education. Link.
  3. Strassfeld, Natasha M.; Cherng, Hua-Yu Sebastian; Wang, Scarlett; Glied, Sherry. (2023). Análise das taxas de prevalência de diagnósticos de autismo por raça/etnia entre crianças elegíveis ao Medicaid matriculadas em programas de pré-escola universal de Nova York (Examining the Prevalence Rates of Autism Diagnosis by Race/Ethnicity for Medicaid-Eligible Children Enrolled in NYC Universal Pre-Kindergarten Programs). Journal of Research in Childhood Education. Link.
  4. Binsted, Kaitlin; Grissom, Jason A. (2025). Quais Estudantes Têm Contato com Professores Negros e Pardos? (Which Students Are Exposed to Teachers of Color?). Peabody Journal of Education. Link.
  5. Kladder, Jonathan; Strand, Katy. (2025). Avaliação de Desempenho em Educação Musical: Uma Análise das Listas de Repertório Obrigatório de Professores de Música da Carolina do Norte (Performance Assessment in Music Education: An Analysis of North Carolina Music Educators Required Repertoire Lists). Contributions to Music Education. Link.
  6. Morgan, Paul L.; Hu, Eric Hengyu; Oh, Yoonkyung. (2025). Desigualdades raciais e étnicas na identificação de deficiências no contexto escolar: evidências longitudinais relativas a oito condições (Racial and Ethnic Disparities in School-Based Disability Identification: Longitudinal Evidence across Eight Conditions). Society for Research on Educational Effectiveness. Link.

Se essas perguntas fazem sentido para a sua escola, escolha uma decisão cotidiana para observar com atenção e converse com a equipe sobre como torná-la mais clara, consistente e acolhedora.

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