Saneamento nas escolas de ensino médio: água potável importa mais que a estrutura sozinha?
Estudos recentes em diferentes países investigam água potável, instalações sanitárias e aprendizagem ambiental. Um resultado chama atenção: em uma pesquisa, a água teve relação significativa com o desempenho, mas o saneamento, isoladamente, não.
Água potável, instalações sanitárias e gestão de resíduos fazem parte das condições concretas em que estudantes do ensino médio aprendem, por isso vale olhar com atenção para o que pesquisas recentes encontraram em outros países. O que esses estudos investigaram sobre saneamento e aprendizagem? O que a água potável parece acrescentar ao debate sobre desempenho? E como levar o tema para a sala de aula sem tratar contextos estrangeiros como se fossem iguais ao brasileiro?
As respostas não formam uma receita universal. Uma pesquisa na Indonésia encontrou uma relação estatisticamente significativa entre água potável e desempenho acadêmico, enquanto não identificou efeito significativo do saneamento quando analisado separadamente. Outros estudos, em países diferentes, investigaram consciência ambiental, resíduos, atividades práticas e avaliação. Juntos, eles ajudam a construir perguntas melhores para a escola e para as aulas.
O que é saneamento básico em escolas de ensino médio em outros países e por que importa para o professor?
Na rotina escolar, saneamento básico envolve condições materiais que permitem usar água e instalações sanitárias e lidar com resíduos. Para o professor, o tema aparece tanto nas condições em que a turma frequenta a escola quanto em situações de aprendizagem: observar o uso da água, discutir a destinação de resíduos ou analisar como uma questão ambiental pode ser investigada com dados. Os estudos reunidos aqui não usam todos a mesma definição de saneamento; alguns tratam diretamente de água e instalações, enquanto outros abordam resíduos e educação ambiental.
Essa distinção importa. Uma escola pode ser discutida sob o ângulo do acesso à água potável, da disponibilidade de instalações sanitárias ou das práticas de gestão de resíduos. São dimensões relacionadas, mas não intercambiáveis. O estudo de Tangerang, na Indonésia, examinou água potável e saneamento em relação ao desempenho acadêmico; pesquisas de Joanesburgo, Bandung, Almaty e Gana abordaram práticas ambientais, avaliação ou atividades científicas relacionadas a resíduos (Raranta, 2025; Parayiwa, 2025; Ramadhani, 2025; Kabylbek, 2025; Ortiz, 2025).
Para o professor, o saneamento também pode funcionar como tema que atravessa áreas de conhecimento. Uma situação sobre consumo de água pode suscitar leitura de dados; resíduos podem servir de contexto para elaborar questões de matemática ou ciências; a participação em uma atividade ambiental pode abrir espaço para argumentação e reflexão. Essas possibilidades são aplicações pedagógicas, não resultados que todos os estudos tenham testado. A pesquisa ajuda a separar o que foi efetivamente observado do que podemos propor para a nossa turma.
O que a pesquisa recente mostra sobre saneamento, água e aprendizagem?
Os estudos recentes apontam para três frentes que se complementam: as condições de água e saneamento em relação ao desempenho; a distância possível entre conhecer uma questão ambiental e mudar práticas; e o potencial de experiências concretas e avaliações contextualizadas. Eles foram realizados em países e contextos diferentes, portanto não devem ser lidos como comparação direta entre sistemas escolares.
Água potável e instalações sanitárias não aparecem como fatores idênticos
O estudo mais diretamente ligado à pergunta sobre desempenho foi conduzido com estudantes do ensino médio do Grupo 1 da Regência de Tangerang, na Indonésia. Os pesquisadores investigaram como o acesso à água potável e às instalações sanitárias se relacionava ao desempenho acadêmico. Aplicaram questionários com escala Likert e analisaram os dados por regressão linear múltipla (Raranta, 2025).
O resultado central exige uma leitura cuidadosa: em conjunto, saneamento e água potável tiveram impacto significativo e explicaram 53% da variância observada no desempenho. Quando as contribuições foram examinadas separadamente, porém, somente a água potável apresentou efeito estatisticamente significativo; o saneamento, isoladamente, não. Os autores sugerem que a água pode ter um papel mais direto, ligado à hidratação, à função cognitiva e ao bem-estar geral. Isso não significa que instalações sanitárias sejam dispensáveis ou sem importância para a vida escolar. Significa que, naquele estudo, a contribuição estatística individual do saneamento não foi significativa.
O resultado não autoriza afirmar que água potável sempre melhora notas, nem que o mesmo padrão se repetirá em qualquer escola. A pesquisa examinou um contexto específico e uma relação entre variáveis. Para a conversa pedagógica, o achado oferece uma pergunta produtiva: quando avaliamos as condições da escola, estamos distinguindo o acesso à água das instalações sanitárias, em vez de agrupá-los numa única categoria?
Conhecimento ambiental não garante mudança duradoura de comportamento
Em Joanesburgo, África do Sul, pesquisadores investigaram consciência ambiental e práticas ecologicamente responsáveis em quatro escolas. O estudo qualitativo envolveu entrevistas, observações e questionários com estudantes do 11º ano e do 8º ano. Os temas incluíram gestão de resíduos, conservação de energia e participação em projetos ambientais (Parayiwa, 2025).
Os autores relatam diferenças de engajamento entre as escolas. Os estudantes demonstraram compreensão de como reduzir resíduos, reciclar e conservar energia pode contribuir para mitigar as mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, foram observadas dificuldades em transformar esse conhecimento em mudanças comportamentais de longo prazo. A pesquisa destaca a aprendizagem experiencial, incluindo jardinagem escolar e projetos de reciclagem, como caminhos para desenvolver conhecimento e responsabilidade socioambiental. Também defende maior integração da educação ambiental e envolvimento da comunidade.
Uma investigação no Cazaquistão ajuda a entender por que não basta supor que atitudes positivas significam conhecimento sólido. Em um levantamento com 124 estudantes do ensino médio, Sapanova e colegas encontraram atitudes ambientais fortemente positivas, mas uma base de conhecimentos ambientais pouco sólida e consciência limitada. As preocupações relatadas se concentraram, entre outros temas, na poluição do ar, na poluição de rios e mares e nas enchentes; foram menores em relação a resíduos radioativos, extinção de espécies, superpopulação e mudanças climáticas (Sapanova, 2024).
Esse estudo também examinou atividades extracurriculares. Elas se mostraram úteis para ampliar conhecimentos e consciência sobre desafios ambientais, mas não tiveram impacto nas atitudes ambientais. Os autores relatam ainda que o ano escolar influenciou os conhecimentos, enquanto gênero não influenciou conhecimentos, atitudes ou consciência. O ponto de contato com a pesquisa de Joanesburgo não é que ambas tenham provado a mesma intervenção: é a necessidade de distinguir o que os estudantes sabem, o que valorizam e o que fazem.
Experiências participativas podem tornar o tema investigável
Em Almaty, no Cazaquistão, Kabylbek e colegas investigaram alfabetização ambiental funcional e engajamento de estudantes do ensino médio. O levantamento reuniu 269 estudantes; outro grupo, de 65, participou de uma pesquisa experimental ao longo de três meses para avaliar mudanças nos conhecimentos de ecologia. A poluição e a gestão de resíduos apareceram como preocupações significativas, e os autores identificaram variações de consciência e participação entre contextos escolares (Kabylbek, 2025).
O resultado mais específico é que a participação em pesquisa-ação ampliou significativamente os conhecimentos dos estudantes sobre ecologia e ciências ambientais. A pesquisa também observou maior consciência de questões ambientais nas áreas urbanas, atitudes complexas influenciadas por contexto escolar, gênero e fatores socioeconômicos, e participação mais alta entre estudantes de escolas particulares. Esses resultados não devem ser transformados em uma afirmação de que toda atividade prática produzirá o mesmo efeito. Eles apontam para o potencial de envolver estudantes numa investigação, em vez de limitar o trabalho a exposição de conteúdos.
Um projeto com biodigestores modelo em Gana oferece um exemplo de atividade científica autêntica conectada a resíduos orgânicos. Os equipamentos usados no projeto reduziam resíduos e produziam biogás e fertilizante. Estudantes do ensino médio participaram de atividades que incluíam formular perguntas de pesquisa e planejar experimentos, em um clube de ciências no contraturno escolar que reuniu duas turmas, em verões consecutivos, com estudantes universitários dos Estados Unidos e de Gana (Ortiz, 2025).
Os resultados mostraram alto impacto na comunicação de informações, no uso de dados para responder a perguntas, na formulação de problemas e no planejamento e realização de investigações. Os impactos foram menores em obter e avaliar informações, construir explicações e desenhar soluções, analisar e interpretar dados e colaborar por meio da argumentação. É uma distinção útil para o planejamento: uma atividade pode favorecer algumas práticas científicas mais do que outras, então vale decidir de antemão o que a turma vai exercitar e observar.
Resíduos podem ser contexto de avaliação, não apenas assunto de debate
Em Bandung, na Indonésia, Ramadhani e colegas desenvolveram um instrumento de avaliação de letramento matemático no contexto da gestão de resíduos. A pesquisa seguiu o modelo ADDIE, com fases de análise, planejamento, desenvolvimento, implementação e avaliação. O teste foi aplicado em campo com 50 estudantes do segundo ano do ensino médio de uma escola pública estadual (Ramadhani, 2025).
O instrumento desenvolvido tinha 15 questões e foi considerado válido e adequado pelos especialistas. Na aplicação-piloto, a maioria das questões apresentou validade satisfatória, alta confiabilidade, bom índice de discriminação e nível moderado de dificuldade. O estudo não informa que a avaliação tenha melhorado a aprendizagem, nem compara esse formato com uma prova de outro tema. O que oferece é um exemplo de desenvolvimento e teste de instrumento que usa a gestão de resíduos como contexto para avaliar letramento matemático.
Essa pesquisa se conecta às demais por mostrar que resíduos podem ser mais do que um tópico de conscientização: podem constituir o cenário de uma tarefa que exige interpretar e usar matemática. Essa ligação é uma possibilidade de aplicação em outras turmas, não uma conclusão testada pelos autores para qualquer currículo ou faixa etária.
O que os estudos sobre saneamento e escolas mostram lado a lado?
Os estudos abaixo foram realizados em contextos distintos e investigaram perguntas diferentes. A tabela resume o que cada um examinou e relata, sem sugerir que os resultados sejam diretamente comparáveis.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Parayiwa, 2025 | Consciência e práticas ambientais, incluindo gestão de resíduos | Engajamento variou entre escolas; estudantes compreendiam práticas de sustentabilidade, mas havia dificuldades em mudanças duradouras. O estudo destaca experiências práticas. | Quatro escolas no Distrito Central de Joanesburgo, África do Sul; estudantes do 11º e 8º anos. |
| Ramadhani, 2025 | Desenvolvimento de avaliação de letramento matemático no contexto de gestão de resíduos | Instrumento de 15 questões considerado válido e adequado; a maioria das questões apresentou propriedades satisfatórias na aplicação-piloto. | Bandung, Indonésia; 50 estudantes do segundo ano do ensino médio. |
| Raranta, 2025 | Relação entre saneamento, água potável e desempenho acadêmico | Em conjunto, as variáveis explicaram 53% da variância observada; apenas água potável teve efeito individual estatisticamente significativo. | Grupo 1 da Regência de Tangerang, Indonésia; estudantes do ensino médio. |
| Kabylbek, 2025 | Alfabetização ambiental e efeito de pesquisa-ação participativa | A pesquisa-ação ampliou significativamente conhecimentos de ecologia e ciências ambientais; consciência e participação variaram entre contextos. | Almaty, Cazaquistão; levantamento com 269 estudantes e grupo experimental de 65. |
| Ortiz, 2025 | Atividades de ciência autêntica com biodigestores modelo | Altos impactos relatados em comunicação, formulação de perguntas e planejamento de investigações; impactos menores em outras práticas científicas. | Gana; duas turmas em clube de ciências no contraturno, em 2022 e 2023. |
| Sapanova, 2024 | Conhecimento, atitudes, consciência, preocupação e atividades extracurriculares | Atitudes positivas coexistiram com conhecimentos pouco sólidos e consciência limitada; atividades extracurriculares ampliaram conhecimentos e consciência. | Cazaquistão; questionário com 124 estudantes do ensino médio. |
Quais pontos se repetem e onde os estudos divergem?
Um ponto comum é a importância de separar dimensões que parecem próximas. Água e saneamento foram analisados em conjunto e também individualmente na pesquisa de Tangerang; conhecimento, atitude e consciência foram tratados como aspectos distintos no estudo do Cazaquistão; e as práticas científicas foram examinadas por componentes no projeto de biodigestores em Gana. Para a escola, a lição de leitura é simples: um indicador não resume todas as condições nem todas as aprendizagens.
Outra aproximação está no valor de atividades que envolvem participação. Os estudos de Joanesburgo e Almaty destacam aprendizagem experiencial ou pesquisa-ação; o projeto de Gana relata ganhos em práticas de investigação; e a pesquisa sobre atividades extracurriculares no Cazaquistão encontrou ampliação de conhecimento e consciência. Porém, as perguntas, os métodos e os resultados não são iguais. Não se pode concluir que todas as atividades práticas, em qualquer escola, produzirão os mesmos efeitos.
Há também uma tensão importante entre resultados positivos e limites. Atitudes ambientais podem ser favoráveis sem uma base sólida de conhecimento, como em Sapanova; compreensão de práticas sustentáveis pode coexistir com dificuldade de mudança duradoura, como em Parayiwa. Já o estudo de Tangerang mostra que a associação conjunta entre água, saneamento e desempenho não se traduz em efeito estatisticamente significativo de cada componente. O que ainda não está resolvido é como esses achados se comportariam em outros contextos, com diferentes condições escolares e formas de medir aprendizagem e infraestrutura.
Os estudos não compõem uma classificação de países nem permitem dizer qual sistema escolar oferece melhor saneamento. Alguns tratam de condições materiais e desempenho; outros estudam educação ambiental, avaliação ou ciência. A comparação mais útil é entre perguntas: o que se mede, que atividade é proposta e qual resultado é observado. Essa leitura evita transformar um estudo localizado em regra geral.
Como trabalhar saneamento e água potável em sala de aula?
Uma forma de usar essas pesquisas é transformar o tema em investigação, avaliação e conversa sobre evidências. As sugestões a seguir são aplicações pedagógicas possíveis; não são intervenções cuja eficácia tenha sido testada em todas as turmas pelos estudos citados.
1. Diferencie água, instalações e resíduos
Como aplicação, proponha que a turma organize uma conversa ou um esquema com três dimensões: acesso à água potável, condições das instalações sanitárias e gestão de resíduos. Em uma turma de ensino médio, por exemplo, os grupos podem discutir que perguntas seriam necessárias para descrever cada dimensão sem presumir que uma substitui a outra. A distinção conversa com o estudo que analisou separadamente as contribuições de água e saneamento para o desempenho (Raranta, 2025).
2. Use uma pergunta investigável, não uma conclusão pronta
Como aplicação, convide a turma a formular uma pergunta delimitada, como “que informações precisamos para entender como a água é utilizada na escola?”. Os estudantes poderiam propor categorias de observação e discutir limites de coleta, sem registrar dados pessoais nem tirar conclusões sobre saúde. A escolha de fazer perguntas e planejar investigações aparece entre as práticas favorecidas no projeto de biodigestores em Gana (Ortiz, 2025).
3. Construa uma atividade de matemática com resíduos
Como aplicação, elabore um conjunto de dados hipotéticos sobre tipos ou quantidades de resíduos e peça aos estudantes que interpretem tabelas, comparem valores ou expliquem um procedimento matemático. Deixe claro que os dados são inventados para a atividade, se esse for o caso. O estudo de Bandung não fornece uma coleção de questões para reprodução, mas mostra que a gestão de resíduos pode ser usada como contexto para desenvolver e testar itens de letramento matemático (Ramadhani, 2025).
4. Separe o que a turma sabe, sente e faz
Como aplicação, proponha três perguntas diferentes: o que os estudantes sabem sobre água e resíduos, que preocupações têm e que práticas conhecem ou realizam. Uma turma hipotética poderia perceber que há respostas diferentes para cada pergunta. Essa organização evita interpretar uma atitude favorável como prova de conhecimento aprofundado ou de mudança de comportamento, distinção que os estudos do Cazaquistão e de Joanesburgo tornam relevante (Sapanova, 2024; Parayiwa, 2025).
5. Planeje uma atividade prática com um objetivo observável
Como aplicação, escolha uma atividade segura e compatível com os recursos da escola, como analisar exemplos de separação de resíduos ou planejar uma proposta de redução de desperdício. Antes de começar, defina qual aprendizagem será observada: formular pergunta, registrar observação, interpretar evidência ou apresentar uma explicação. Essa escolha ajuda a não tratar “participar” como sinônimo automático de dominar todas as práticas científicas. O estudo de Gana encontrou impactos diferentes entre competências (Ortiz, 2025).
6. Avalie também a qualidade das questões
Como aplicação, depois de criar uma atividade ou prova contextualizada, revise se cada questão realmente permite avaliar a habilidade pretendida. Uma questão sobre resíduos pode pedir cálculo, interpretação ou justificativa; o contexto sozinho não garante que todos esses aspectos estejam presentes. O trabalho realizado em Bandung oferece uma referência de processo: elaborar, submeter o instrumento à avaliação de especialistas e testar itens, sem implicar que essa validação formal esteja ao alcance de toda atividade cotidiana (Ramadhani, 2025).
7. Convide a comunidade sem prometer mudanças imediatas
Como aplicação, uma turma pode preparar perguntas para uma conversa com a comunidade escolar sobre resíduos ou uso da água, respeitando as decisões e os procedimentos da escola. O objetivo pode ser compreender perspectivas e identificar questões para estudar, não prometer que uma atividade breve mudará comportamentos de longo prazo. A pesquisa em Joanesburgo defende maior envolvimento comunitário e relata a dificuldade de converter conhecimento em mudanças duradouras (Parayiwa, 2025).
O que muda quando trazemos esses resultados para o Brasil?
O principal cuidado é não importar conclusões como se descrevessem automaticamente escolas brasileiras. Os estudos ocorreram na África do Sul, Indonésia, Cazaquistão e Gana, com participantes, instrumentos e perguntas diferentes. A relação observada entre água potável e desempenho em Tangerang não estabelece uma regra para escolas do Brasil, e as experiências de educação ambiental de outros países não comprovam que a mesma atividade terá o mesmo resultado aqui.
Também é importante observar a diferença entre saneamento como condição material e saneamento como tema curricular. Uma escola pode usar água e resíduos como contexto de aprendizagem, mas isso não substitui a atenção às condições concretas. Da mesma forma, uma aula sobre reciclagem não demonstra, por si só, que os estudantes tenham acesso a água potável ou a instalações adequadas. São conversas relacionadas, mas com objetivos distintos.
Para adaptar os estudos, o professor pode começar por perguntas locais e proporcionais ao seu papel: que conceitos a turma precisa compreender? Que dados são seguros e apropriados para usar? Há uma atividade possível sem expor estudantes ou funcionários? Se a infraestrutura for objeto de preocupação, a discussão deve seguir os canais da escola e não transformar alunos em responsáveis por resolver problemas institucionais. Essas são cautelas de aplicação, não resultados dos estudos.
Há ainda limites de transferência entre etapas. Algumas pesquisas se referem a estudantes do ensino médio; o estudo de Joanesburgo inclui também estudantes do 8º ano. Se o professor atua na educação infantil ou no ensino fundamental, pode simplificar o contexto e a tarefa, mas deve tratar essa adaptação como decisão pedagógica própria. Os resultados citados não estabelecem qual atividade é adequada a cada idade ou etapa no Brasil.
Quais são os limites desta leitura?
Esta leitura se baseia nos resumos de estudos recentes disponíveis na base ERIC, não na consulta integral aos artigos. Por isso, apresenta os objetivos e resultados que os resumos informam, sem tentar reconstruir detalhes metodológicos que não aparecem ali. As pesquisas têm contextos, amostras, instrumentos e desenhos diferentes; seus resultados não constituem uma comparação direta entre países nem uma avaliação geral do saneamento escolar no mundo.
Ficam em aberto perguntas importantes: como as condições específicas das escolas influenciaram os resultados? Como foram definidos e medidos alguns indicadores? Que fatores adicionais podem explicar as relações observadas? Como atividades ambientais se mantêm ao longo do tempo? O resumo de cada pesquisa oferece apenas parte das respostas, e nem todos os estudos investigam diretamente água, instalações sanitárias e desempenho acadêmico.
Faz sentido consultar o estudo completo quando você pretende citar um resultado em formação docente, comparar métodos, construir uma pesquisa escolar ou adaptar um instrumento de avaliação. O texto integral pode ajudar a verificar procedimentos, limitações e condições de aplicação. Para planejar uma conversa ou uma atividade introdutória, os resumos oferecem pistas; para sustentar uma decisão institucional ou uma afirmação mais específica, é melhor ler a pesquisa completa.
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Perguntas frequentes sobre saneamento em escolas de ensino médio
O estudo da Indonésia provou que água potável melhora as notas?
Não é correto resumir o resultado dessa forma. A pesquisa realizada no Grupo 1 da Regência de Tangerang encontrou uma relação significativa entre saneamento e água potável considerados em conjunto, que explicaram 53% da variância observada no desempenho. Na análise individual, somente a água potável teve efeito estatisticamente significativo; o saneamento, isoladamente, não. Os autores apontam possíveis relações com hidratação, função cognitiva e bem-estar, mas o resultado se refere àquele estudo e não comprova uma regra universal para todas as escolas (Raranta, 2025).
Os estudos mostram que ensinar sobre resíduos muda o comportamento dos estudantes?
Não de maneira geral. Em Joanesburgo, os estudantes demonstraram compreensão de práticas como redução de resíduos, reciclagem e conservação de energia, mas os pesquisadores observaram dificuldades em transformar conhecimento em mudanças comportamentais de longo prazo. No Cazaquistão, atividades extracurriculares ampliaram conhecimentos e consciência, mas não tiveram impacto nas atitudes ambientais. Esses resultados sugerem que conhecimento, consciência, atitude e comportamento são dimensões diferentes. Uma atividade pode ser útil para aprender sem que isso garanta uma mudança duradoura de prática (Parayiwa, 2025; Sapanova, 2024).
Posso usar gestão de resíduos em uma prova de matemática?
Sim, como possibilidade de aplicação pedagógica. Um estudo realizado em Bandung desenvolveu um instrumento de 15 questões para avaliar letramento matemático no contexto da gestão de resíduos. Os especialistas consideraram o instrumento válido e adequado, e a aplicação-piloto encontrou propriedades satisfatórias na maioria das questões. Isso mostra que o tema pode servir de contexto para avaliação matemática, mas não significa que qualquer questão sobre resíduos avalie letramento matemático. O professor ainda precisa conferir se o item exige a habilidade que pretende observar (Ramadhani, 2025).
Atividades práticas são sempre melhores do que aulas expositivas?
Os estudos reunidos não autorizam uma conclusão universal desse tipo. Pesquisas em Joanesburgo e Almaty destacam o potencial da aprendizagem experiencial e da pesquisa-ação, enquanto um projeto de biodigestores em Gana relatou resultados diferentes entre práticas científicas: impactos maiores em algumas, menores em outras. Esses achados dão motivos para considerar atividades participativas, mas não demonstram que toda atividade prática seja superior em qualquer contexto ou para todo objetivo. Uma boa aplicação é escolher a atividade em função da aprendizagem que você quer observar.
Esses resultados podem ser aplicados diretamente às escolas brasileiras?
Não sem adaptação. As pesquisas foram realizadas em contextos da África do Sul, Indonésia, Cazaquistão e Gana, e investigaram questões variadas, desde água e desempenho até educação ambiental e avaliação. As condições escolares, os instrumentos e os participantes não são intercambiáveis. Um professor brasileiro pode usar os estudos para levantar perguntas e planejar atividades, mas deve evitar afirmar que os resultados descrevem sua escola. Para decisões institucionais ou comparações mais detalhadas, vale consultar os estudos completos e informações locais.
Qual é a principal pergunta para levar à sala de aula?
Uma pergunta produtiva é: “Que evidências precisamos para entender uma questão de água, saneamento ou resíduos na escola?”. Ela permite separar observação, conhecimento e opinião, e pode gerar tarefas de matemática, ciências ou argumentação. A proposta é uma aplicação pedagógica inspirada nos temas investigados, não um resultado diretamente testado por todos os estudos. Uma turma pode começar por um cenário hipotético ou por dados preparados pelo professor, sem avaliar pessoas nem atribuir aos estudantes a responsabilidade por resolver questões de infraestrutura.
Referências
- Parayiwa, Shorai Prisca; Shabalala, Nonkanyiso Pamella (2025). Despertando a Consciência Ambiental: Como Estudantes do Ensino Médio de Joanesburgo Estão Construindo um Futuro Mais Sustentável (Nurturing Environmental Awareness: How High School Students in Johannesburg Are Shaping a Greener Future). International Journal of Development Education and Global Learning. Link.
- Ramadhani, R.; Nuraeni, Eni; Purwianingsih, Widi (2025). Desenvolvimento de avaliação baseada no PISA sobre questões ambientais: promoção do letramento matemático por meio do contexto da gestão de resíduos (PISA-Based Assessment Development in Environmental Issues: Fostering Numeracy Literacy through Waste Management Context). Journal of Biological Education Indonesia (Jurnal Pendidikan Biologi Indonesia). Link.
- Raranta, Joice Ester; Siallagan, Jamson; Zega, Idaman; Sihombing, Iin Nur Indrayani; Tando, Djanne; Sigalingging, Jamsah (2025). A influência do saneamento e da água potável no desempenho acadêmico de estudantes do ensino médio do Grupo 1 da Regência de Tangerang (The Influence of Sanitation and Clean Water on Academic Achievement of High School Students in Gugus 1 Kabupaten Tangerang). International Society for Technology, Education, and Science. Link.
- Kabylbek, Kulshash; DeChano-Cook, Lisa M.; Childibaev, Dzhumadil; Balta, Nuri (2025). Determinando a alfabetização ambiental funcional de estudantes do ensino médio e o efeito da pesquisa-ação participativa sobre essa alfabetização (Determining High School Students' Functional Environmental Literacy and the Effect of Participatory Action Research on Functional Environmental Literacy). Environmental Education Research. Link.
- Ortiz, Rita; Vicario, Elizabeth; Owusu, Kofi Acheaw; Feldman, Allan; Alsultan, Jawaher; Asare, Elijah; Ghebremichael, Kebreab; Ergas, Sarina J. (2025). Um Estudo sobre o Engajamento de Estudantes do Ensino Médio em Gana em Ciência Autêntica Utilizando Biodigestores Modelo (A Study of the Engagement of Ghanaian High School Students in Authentic Science Using Model Biodigesters). International Journal of Science and Mathematics Education. Link.
- Sapanova, Nurbanu; Cessna, Stephen; DeChano-Cook, Lisa M.; Childibaev, Dzhumadil; Balta, Nuri (2024). Conhecimentos, atitudes, consciência e preocupação ambiental de estudantes do ensino médio do Cazaquistão (Kazakhstani High School Students' Environmental Knowledge, Attitudes, Awareness and Concern). International Research in Geographical and Environmental Education. Link.
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