Previsão em dialetos do árabe: por que a distância entre fala e escrita pesa
Estudos recentes sobre árabe mostram que prever leitura, aprendizagem de palavras e consciência morfológica exige considerar a distância entre a variedade falada e a padrão. Veja o que isso pode ensinar sobre avaliação e ensino de línguas.
É comum pensar que, para prever o desempenho de uma criança na leitura, basta observar se ela reconhece palavras e compreende o que ouve. No caso do árabe, essa explicação fica curta: a variedade falada no cotidiano e a variedade padrão usada em contextos de leitura podem diferir em sons, formas e vocabulário. Pesquisas recentes mostram que essa distância se relaciona com o que as crianças conseguem aprender, compreender e produzir.
Isso não significa que a diferença entre fala e escrita explique tudo, nem que os resultados possam ser transportados sem cuidado para qualquer língua. Os estudos investigam perguntas distintas: se habilidades iniciais predizem compreensão leitora, se a distância entre variedades dificulta aprender palavras, e como a consciência de formas gramaticais se desenvolve. Juntos, eles ajudam a pensar em avaliações mais atentas ao repertório linguístico do estudante e em tarefas que não confundam familiaridade com capacidade.
O que é previsão em dialetos do árabe e por que importa para o professor
Em linguagem simples, previsão é usar uma habilidade observada agora para estimar um resultado posterior ou relacionado, como usar decodificação e compreensão oral para prever compreensão leitora. Em pesquisas sobre árabe, a previsão também aparece como relação estatística entre o conhecimento de duas variedades e resultados em leitura, escrita ou aprendizagem de palavras. Não é adivinhar o futuro de uma criança: é investigar quais habilidades ajudam a explicar diferenças de desempenho em determinada população.
O contexto é a diglossia: a convivência de variedades linguísticas relacionadas, mas não idênticas. Nos estudos aqui reunidos, crianças falam uma variedade coloquial em casa e encontram uma variedade padrão ou literária em tarefas escolares e de leitura. Os trabalhos empregam siglas diferentes para essas variedades; por isso, ao longo do texto, “falada” e “padrão” são formas abreviadas de descrever a distinção examinada pelos próprios estudos.
Para o professor brasileiro, o interesse não está em supor que o português e o árabe funcionem do mesmo modo. Está em observar uma pergunta pedagógica que atravessa o ensino de línguas: o que acontece quando a linguagem que a criança usa com mais familiaridade não coincide plenamente com a linguagem da tarefa escolar? Essa diferença pode importar para a compreensão de instruções, para a análise de palavras e para a interpretação de um resultado de leitura.
O que a pesquisa recente mostra
Os estudos não formam um único experimento e não medem todos a mesma coisa. Em conjunto, investigam como a distância entre variedades se relaciona com habilidades linguísticas e acadêmicas, desde a aprendizagem de palavras até a compreensão leitora. Três ideias organizam melhor os resultados: a variedade linguística pode alterar o peso de habilidades usadas para prever leitura; a distância fonológica e morfológica pode tornar certas tarefas mais difíceis; e a maneira de avaliar pode mudar o desempenho observado.
A compreensão leitora não depende das mesmas pistas em todas as variedades
Um estudo longitudinal acompanhou 261 crianças da educação infantil até o primeiro ano do ensino fundamental. Os autores testaram se decodificação e compreensão auditiva na educação infantil prediziam a compreensão leitora mais tarde, comparando os modelos para a variedade falada e a literária. A proporção de variância explicada foi semelhante: 52% no modelo da variedade falada e 48% no da literária. Mas o peso relativo das habilidades mudou: na variedade falada, a compreensão auditiva contribuiu mais que a decodificação; na literária, o padrão se inverteu (Asadi, 2024).
Essa diferença importa porque impede uma leitura simplista de “boa compreensão oral significa boa compreensão de texto”. O resultado depende também da variedade linguística em que a criança precisa compreender. O estudo não afirma que uma habilidade deixa de importar; mostra que a relação entre componentes da leitura não foi igual nos dois modelos.
Uma investigação com alunos do primeiro ano comparou 30 estudantes com dificuldades de aprendizagem e 30 sem essas dificuldades. Foram avaliadas precisão e fluência de leitura nos registros literário e coloquial, além da compreensão leitora. O grupo sem dificuldades apresentou medidas significativamente melhores de leitura e compreensão, e houve interação significativa entre leitura e compreensão na população estudada. Os autores destacam a importância de atenção específica aos alunos com dificuldades (Bishara, 2024). A pesquisa sustenta a relevância de observar leitura e compreensão conjuntamente, mas não autoriza atribuir toda diferença à diglossia.
Outro estudo examinou 30 crianças falantes de árabe do quinto e do sexto ano e relacionou consciência de diglossia a habilidades escolares. As pontuações de conhecimento explícito e consciência de diglossia prediziam significativamente resultados de leitura e escrita em árabe, mas não de matemática; sua contribuição para leitura e escrita ia além da consciência fonológica. Também foi encontrada correlação entre consciência diglóssica e fonológica (Khamis-Dakwar, 2024). Em termos práticos, saber que existem diferenças entre as variedades pode estar ligado a habilidades de alfabetização, sem ser simplesmente o mesmo que perceber sons.
A distância entre variedades pode tornar palavras e morfemas menos acessíveis
A aprendizagem de palavras foi estudada em cem crianças da educação infantil e do primeiro ano, com desenvolvimento típico de linguagem ou transtorno do desenvolvimento da linguagem. As tarefas de compreensão e produção compararam pseudopalavras formadas apenas por fonemas da variedade falada com outras que incluíam uma consoante exclusiva da variedade padrão. Em todos os grupos, o desempenho foi inferior quando a palavra-alvo era fonologicamente mais distante da variedade falada. As crianças com desenvolvimento típico tiveram escores mais altos em ambas as tarefas, e a interação nas tarefas de produção mostrou dinâmicas diferentes conforme grupo e etapa escolar (Ghawi-Dakwar, 2025).
O achado não diz que a criança seja incapaz de aprender uma forma menos familiar. Indica que a distância fonológica foi um fator de complexidade nas tarefas estudadas e que seu efeito variou com a modalidade, a aptidão linguística e o nível escolar. Para quem avalia, isso recomenda cautela: responder menos em uma tarefa com formas sonoras distantes não é, isoladamente, uma explicação completa sobre o conhecimento da criança.
Uma investigação transversal com 200 falantes de árabe palestino, do segundo ao décimo ano, examinou consciência morfológica flexional e derivacional em variedades falada e padrão. A consciência cresceu ao longo dos anos escolares nos grupos socioeconômicos estudados, embora o grupo de nível socioeconômico médio-alto tenha obtido, em geral, resultados maiores. Estruturas morfológicas exclusivas da variedade padrão apresentaram menor consciência que estruturas presentes também na falada. Esse efeito da distância foi mais forte entre crianças mais novas e no grupo de nível socioeconômico baixo (Shahbari-Kassem, 2025).
Um estudo longitudinal acompanhou 62 crianças do jardim de infância ao terceiro ano e comparou tarefas de consciência flexional verbal nas variedades palestina falada e padrão. Morfemas de alta diglossia, isto é, mais distantes entre as duas variedades, foram mais difíceis que os de baixa diglossia. Na variedade falada, a diferença entre os dois níveis de distância diminuiu e desapareceu no terceiro ano; na padrão, aumentou do jardim de infância ao terceiro ano (Joubran-Awadie, 2025). Esse contraste mostra que o desenvolvimento não precisa avançar de maneira idêntica em cada variedade.
Resultados sobre produção morfológica em crianças falantes do árabe kuwaitiano acrescentam uma perspectiva de desenvolvimento. Entre 512 crianças de 3 a 7 anos e 11 meses, foram identificadas trajetórias claras nas estruturas derivacionais estudadas. As derivações nominais surgiram mais tarde que as verbais, e a maioria dos erros analisados era morfológica, afetando principalmente a raiz (Al-Sulaihim, 2024). Em vez de tratar “morfologia árabe” como um bloco uniforme, esse trabalho ressalta que diferentes estruturas podem seguir percursos distintos.
A variedade e o formato da tarefa mudam o que a avaliação revela
Uma pesquisa com 37 crianças em idade pré-escolar comparou crianças com transtorno do desenvolvimento da linguagem e crianças com desenvolvimento típico em duas tarefas: contar uma história na variedade falada e recontar uma história ouvida na variedade padrão. O grupo com desenvolvimento típico teve resultados maiores em macroestrutura narrativa e na maioria dos aspectos de microestrutura. Também houve efeito do modo: nos dois grupos, macroestrutura e diversidade lexical foram maiores no reconto, enquanto a produtividade linguística foi maior ao contar histórias (Mahamid, 2025).
Esse resultado chama atenção para uma distinção importante: uma tarefa não mede apenas “quanto a criança sabe”. Ela também pede um tipo específico de produção, em uma variedade e sob determinadas condições. O reconto pode favorecer algumas dimensões narrativas e a contagem espontânea outras, de acordo com o estudo. Assim, comparar resultados exige saber como a tarefa foi apresentada e o que se esperava da criança.
Há ainda uma pesquisa que não estuda diretamente a diglossia do árabe: 152 falantes de árabe aprendendo inglês como língua estrangeira fizeram testes de reconhecimento de prefixos. A amplitude vocabular previu conhecimento da forma e do significado dos prefixos, e horas semanais de leitura e comunicação em inglês também contribuíram significativamente (Sonbul, 2024). É uma evidência sobre aprendizes de inglês, não sobre crianças aprendendo árabe. Ela pode ser mencionada como contexto mais amplo de aprendizagem de palavras e morfologia, mas não deve ser usada para afirmar que os mesmos fatores foram testados em dialetos árabes.
Os estudos lado a lado
A tabela resume as pesquisas citadas e explicita o que cada uma investigou. Os contextos são os descritos nos resumos; quando o resumo não informa um país, etapa ou local, a célula não acrescenta essa informação.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Khamis-Dakwar, 2024 | Consciência de diglossia e habilidades escolares. | A consciência prediz leitura e escrita em árabe, mas não matemática; contribui além da consciência fonológica. | 30 crianças do 5º e 6º ano; falantes de árabe. |
| Asadi, 2024 | Decodificação e compreensão auditiva como preditoras da compreensão leitora em duas variedades. | Variância explicada semelhante, mas pesos diferentes para compreensão auditiva e decodificação. | 261 crianças acompanhadas da educação infantil ao 1º ano; país não informado no resumo. |
| Bishara, 2024 | Leitura e compreensão em alunos com e sem dificuldades de aprendizagem. | O grupo sem dificuldades teve medidas melhores; leitura e compreensão interagiram. | 60 alunos do 1º ano; contexto diglóssico árabe. |
| Shahbari-Kassem, 2025 | Consciência morfológica falada e padrão e distância entre variedades. | Crescimento escolar; estruturas exclusivas da padrão tiveram menor consciência, com efeitos diferentes por idade e nível socioeconômico. | 200 falantes de árabe palestino, do 2º ao 10º ano. |
| Ghawi-Dakwar, 2025 | Aprendizagem de palavras com diferentes distâncias fonológicas. | A distância dificultou compreensão e produção; os efeitos variaram por grupo e etapa. | 100 crianças da educação infantil e do 1º ano; grupos com DTL e TDL. |
| Joubran-Awadie, 2025 | Consciência flexional verbal ao longo do tempo em duas variedades. | Maior distância foi mais difícil; trajetórias divergiram entre variedade falada e padrão. | 62 crianças acompanhadas do jardim de infância ao 3º ano. |
| Mahamid, 2025 | Narrativa em tarefas de contar e recontar, com DTL e TDL. | Diferenças entre grupos e efeitos do modo de narração em dimensões distintas. | 37 crianças pré-escolares; árabe falado e padrão. |
| Sonbul, 2024 | Reconhecimento de prefixos do inglês por falantes de árabe aprendizes de inglês. | Amplitude vocabular e exposição por leitura e comunicação contribuíram para o conhecimento. | 152 aprendizes de inglês como língua estrangeira; etapa escolar não informada. |
| Al-Sulaihim, 2024 | Desenvolvimento de estruturas derivacionais em árabe kuwaitiano. | Trajetórias claras; derivações nominais surgiram mais tarde que as verbais. | 512 crianças kuwaitianas de 3 a 7 anos e 11 meses. |
Pontos em comum e divergências entre os estudos
Um ponto em comum é que as tarefas linguísticas não são neutras em relação à variedade. A distância fonológica esteve ligada a menor desempenho na aprendizagem de palavras; a distância morfológica, a menor consciência de determinadas estruturas; e a variedade usada alterou o peso de componentes associados à compreensão leitora. Em outras palavras, a forma da linguagem testada faz parte do problema pedagógico e da interpretação dos resultados.
Os estudos também reforçam que diferentes habilidades não devem ser confundidas. Reconhecer sons, aprender uma palavra, refletir sobre morfemas, narrar e compreender um texto são tarefas relacionadas, mas não idênticas. A consciência de diglossia acrescentou contribuição para leitura e escrita além da consciência fonológica em uma investigação, enquanto a compreensão auditiva teve pesos diferentes conforme a variedade em outro estudo (Khamis-Dakwar, 2024; Asadi, 2024).
As diferenças entre resultados são igualmente relevantes. Na consciência flexional, a distância entre variedades diminuiu ao longo das séries na variedade falada, mas aumentou na padrão no estudo longitudinal (Joubran-Awadie, 2025). Em tarefas narrativas, contar e recontar favoreceram dimensões diferentes, não um único desempenho geral (Mahamid, 2025). Não há, portanto, uma regra simples de que a distância sempre diminui com a idade ou de que uma tarefa seja globalmente mais fácil.
Permanece em aberto como esses resultados se comparam entre dialetos árabes, contextos escolares e instrumentos distintos. Os resumos não estabelecem um modelo único que explique toda previsão de aprendizagem ou leitura. Também não permitem concluir que os mesmos efeitos ocorram em português ou em outras línguas com relação diferente entre fala e escrita. A conclusão segura é mais delimitada: nos contextos investigados, variedade, distância linguística, habilidade avaliada e formato da tarefa precisam ser considerados em conjunto.
O que isso significa para a sala de aula
Os estudos foram realizados com crianças falantes de árabe em contextos específicos, e não testaram as propostas abaixo com turmas brasileiras. As ideias a seguir são aplicações pedagógicas possíveis, não resultados comprovados pelas pesquisas. Podem servir como ponto de partida para adaptar atividades de língua adicional, leitura e análise linguística ao repertório real dos estudantes.
1. Descubra que linguagem a tarefa está pedindo
Como aplicação, antes de interpretar uma resposta, o professor pode separar o que a atividade exige: compreender uma instrução, reconhecer uma forma escrita, explicar uma palavra ou produzir uma frase em registro mais formal. Imagine uma turma que aprende inglês: um estudante pode entender a ideia de um texto, mas não reconhecer um prefixo específico. Registrar qual etapa gerou dificuldade ajuda a planejar o próximo exercício, em vez de resumir tudo como “não sabe vocabulário”.
2. Compare fala, leitura e escrita sem tratar uma como defeito
Como aplicação, proponha comparar uma expressão cotidiana e uma formulação mais formal, perguntando o que muda no significado, na forma ou na situação de uso. Em uma atividade hipotética de língua adicional, grupos podem classificar exemplos de conversa e de texto escolar. A intenção não é dizer que a linguagem cotidiana é errada, mas tornar visível que os registros podem obedecer a expectativas diferentes e que o estudante pode precisar transitar entre eles.
3. Ensine palavras em contexto e observe som e significado
Como aplicação, ao introduzir vocabulário, combine escuta, pronúncia, significado e uso em uma frase, em vez de avaliar apenas a tradução. Imagine uma turma aprendendo palavras com partes recorrentes: os alunos podem agrupar exemplos pela forma e depois verificar se a semelhança também aparece no sentido. Essa rotina é uma sugestão inspirada no interesse dos estudos por aprendizagem lexical e morfologia; não é uma intervenção cuja eficácia tenha sido medida nesses trabalhos.
4. Use mais de um modo de demonstrar compreensão
Como aplicação, ofereça em momentos diferentes uma tarefa de reconto, uma resposta oral espontânea e uma questão de compreensão. Um estudante pode organizar bem os acontecimentos ao recontar uma narrativa, mas produzir mais linguagem quando inventa a própria história. A pesquisa com crianças árabes encontrou diferenças entre essas modalidades, mas não avaliou uma estratégia de sala brasileira. O uso de formatos variados pode ajudar o professor a perceber capacidades que uma única tarefa deixaria menos visíveis.
5. Separe precisão, fluência e compreensão
Como aplicação, numa atividade de leitura, registre separadamente se o aluno decodifica as palavras, lê com fluidez e explica o sentido. Imagine um estudante que lê sem muitas hesitações, mas não consegue relacionar informações do texto. Essa distinção permite escolher uma atividade de compreensão, em vez de repetir automaticamente o mesmo treino de leitura em voz alta. Os estudos árabes avaliaram componentes diferentes e encontraram relações entre eles, mas não demonstram que uma ficha específica resolva dificuldades.
6. Acompanhe o progresso por habilidade, não por rótulo amplo
Como aplicação, mantenha registros simples ao longo do tempo: compreensão de instruções, uso de vocabulário novo, leitura de palavras e explicação de formas linguísticas. Uma turma hipotética pode repetir uma tarefa curta em semanas diferentes, observando mudanças sem comparar estudantes como se tivessem trajetórias idênticas. Isso conversa com estudos que acompanharam desenvolvimento ou compararam etapas, mas não equivale a um protocolo diagnóstico. Se houver preocupação persistente, a avaliação deve considerar o contexto e os profissionais responsáveis.
7. Diferencie familiaridade linguística de dificuldade de aprendizagem
Como aplicação, ao notar uma resposta incorreta, pergunte se a forma ou o vocabulário da tarefa é familiar ao estudante e ofereça uma oportunidade de demonstrar compreensão por outra via. Imagine que uma palavra nova contenha uma sequência sonora pouco comum para a turma: uma atividade de escuta e contraste pode esclarecer o obstáculo. As pesquisas com crianças árabes mostram que a distância pode afetar tarefas, inclusive em grupos diferentes, mas não autorizam diagnosticar uma criança brasileira com base em um erro isolado.
O que muda no contexto brasileiro
Os estudos descrevem comunidades de língua árabe, incluindo falantes de árabe palestino, kuwaitiano e jordaniano, além de crianças em contextos de diglossia entre variedades faladas e padrão. Isso não é a mesma configuração do português brasileiro. Portanto, não se deve importar para a escola brasileira a descrição de uma política linguística, de um currículo ou de uma relação entre variedades como se fosse universal; os resumos também não fornecem base para afirmar que testaram estudantes no Brasil.
O ponto de comparação útil é a pergunta, não uma equivalência automática: a linguagem da atividade está próxima da que o estudante usa e compreende com familiaridade? Em turmas com estudantes multilíngues, de diferentes repertórios regionais ou em aprendizagem de uma língua adicional, o professor pode observar se vocabulário, pronúncia, registro e estrutura da tarefa estão interferindo no desempenho. Isso é uma aplicação pedagógica geral, não uma conclusão empírica direta dos estudos árabes.
Também é importante evitar transformar diferenças linguísticas em sinais de déficit. Os trabalhos mostram que a distância entre variedades pode influenciar tarefas específicas e que trajetórias podem variar por habilidade, grupo e etapa. Para o cenário brasileiro, isso recomenda avaliação contextualizada: uma resposta precisa ser interpretada à luz da língua em que a criança aprendeu, da variedade que conhece e do tipo de tarefa aplicada. Os resultados apresentados não substituem avaliação profissional nem fornecem normas para crianças brasileiras.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponíveis na fonte de pesquisa, não na leitura integral dos trabalhos. Por isso, apresenta os objetivos e resultados relatados nos resumos, sem preencher detalhes metodológicos que eles não trazem. As pesquisas abrangem amostras, idades, variedades linguísticas e tarefas distintas; não são uma única base comparável e não sustentam uma generalização para todas as crianças falantes de árabe.
Ficam em aberto perguntas sobre como os resultados variam entre outros dialetos, como se relacionam com práticas reais de sala de aula e quais intervenções ajudam mais em cada habilidade. Também não é possível concluir, a partir desses resumos, que os achados se aplicam diretamente ao português brasileiro ou que uma prática sugerida aqui terá eficácia comprovada. Para tomar decisões clínicas, construir instrumentos de avaliação ou desenvolver uma intervenção específica, faz sentido consultar os estudos completos e, quando necessário, profissionais especializados.
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Perguntas frequentes
O que significa prever a compreensão leitora?
Em pesquisa, prever significa verificar se uma habilidade medida antes ou em outra tarefa ajuda a estimar um resultado, como a compreensão leitora. Não é uma previsão individual infalível. No estudo longitudinal com crianças falantes de árabe, decodificação e compreensão auditiva na educação infantil foram examinadas como possíveis preditoras da compreensão leitora no primeiro ano. O peso relativo dessas habilidades variou entre a variedade falada e a literária. Isso mostra por que uma previsão precisa ser entendida dentro da língua, da variedade e da tarefa investigadas.
Por que a diglossia pode afetar a leitura?
Nos estudos reunidos, as crianças encontravam diferenças entre uma variedade falada e uma variedade padrão ou literária. Essas diferenças podem envolver sons e estruturas morfológicas, e as pesquisas encontraram relações entre distância linguística e desempenho em tarefas específicas. Por exemplo, estruturas morfológicas exclusivas da variedade padrão tiveram menor consciência em um estudo com falantes de árabe palestino, e a distância fonológica dificultou a aprendizagem de palavras em outra investigação. Isso não significa que toda criança terá a mesma dificuldade nem que a diglossia, sozinha, explique o desempenho leitor.
Os estudos mostram que compreender bem a fala basta para ler bem?
Não. O estudo longitudinal sobre compreensão leitora encontrou uma contribuição diferente da compreensão auditiva e da decodificação conforme a variedade árabe analisada. Na variedade falada, a compreensão auditiva contribuiu mais que a decodificação; na literária, a relação se inverteu. Isso não torna uma habilidade dispensável: mostra que o peso de cada componente pode variar com a linguagem da tarefa. Para a prática docente, é mais informativo observar compreensão oral, decodificação e compreensão de texto separadamente do que presumir que uma delas resume todas as demais.
A distância entre variedades afeta todas as crianças da mesma forma?
Os resumos não indicam um efeito uniforme. Na aprendizagem de palavras, a distância fonológica dificultou o desempenho, mas sua dinâmica de produção variou entre crianças com desenvolvimento típico e com transtorno do desenvolvimento da linguagem e entre etapas escolares. Na consciência morfológica, o efeito da distância também foi mais acentuado em crianças mais novas e em um grupo socioeconômico no estudo transversal. Esses resultados apontam diferenças entre tarefas e grupos. Não servem para prever automaticamente o percurso de um estudante individual, que precisa ser avaliado em seu contexto linguístico.
Os resultados podem ser aplicados diretamente ao português brasileiro?
Não de forma direta. As pesquisas citadas investigaram crianças e aprendizes em contextos ligados ao árabe, como variedades palestinas, kuwaitianas e jordanianas, ou falantes de árabe aprendendo inglês. O português brasileiro não tem necessariamente a mesma relação entre variedades, leitura e morfologia. O que pode ser aproveitado como pergunta pedagógica é se a linguagem da tarefa é familiar ao estudante e quais habilidades específicas ela exige. Qualquer aplicação no Brasil deve ser tratada como adaptação docente, não como resultado comprovado pelos estudos apresentados.
Qual é uma forma simples de levar o tema para uma atividade?
Como sugestão de aplicação, o professor pode escolher palavras de uma unidade e pedir que os alunos identifiquem partes recorrentes, comparem formas e expliquem o significado em frases. Outra opção é comparar uma resposta oral espontânea com um reconto de texto, observando o que cada formato revela. Essas propostas não foram testadas pelos estudos como intervenções de sala de aula brasileira. Elas se inspiram nas perguntas de pesquisa sobre aprendizagem de palavras, morfologia e modos de narração e podem ser adaptadas ao objetivo da aula e ao repertório da turma.
Referências
- Al-Sulaihim, N., Abdalla, F., Mahfoudhi, A., & Shaalan, S. (2024). Desenvolvimento da morfologia derivacional em crianças falantes do árabe kuwaitiano (Development of Derivational Morphology in Kuwaiti Arabic-Speaking Children). First Language. Link.
- Asadi, I. A., & Kasperski, R. (2024). Compreensão leitora na diglossia árabe: o Modelo Simples de Leitura entre as variedades falada e literária (Reading Comprehension in the Arabic Diglossia: The SVR between the Spoken and Literary Varieties). Journal of Psycholinguistic Research. Link.
- Bishara, S. (2024). Predição da compreensão leitora pelo nível de leitura e pela diglossia: comparação entre alunos diglóssicos do primeiro ano com e sem dificuldades de aprendizagem (Predicting Reading Comprehension by Reading Level and Diglossia: A Comparison between Diglossic First Grade Students with and without Learning Disabilities). Online Submission. Link.
- Ghawi-Dakwar, O., & Saiegh-Haddad, E. (2025). Aprendizagem de palavras em diglossia árabe por crianças com desenvolvimento típico de linguagem e com transtorno do desenvolvimento da linguagem (Word Learning in Arabic Diglossia in Children with Typical Language Development and Developmental Language Disorder). Journal of Speech, Language, and Hearing Research. Link.
- Joubran-Awadie, N., & Shalhoub-Awwad, Y. (2025). O Impacto da Distância Flexional Verbal na Consciência Morfológica em Diglossia Árabe: Evidências de um Estudo Longitudinal (Jardim de Infância ao 3º Ano) (The Impact of Verb Inflectional Distance on Morphological Awareness in Arabic Diglossia: Insights from a Longitudinal Study (Kindergarten to Grade 3)). Journal of Speech, Language, and Hearing Research. Link.
- Khamis-Dakwar, R., & Makhoul, B. (2024). A relação entre o conhecimento explícito e a consciência de diglossia das crianças e o sucesso na aprendizagem do árabe: uma investigação preliminar (The Relationship between Children's Explicit Knowledge and Awareness of Diglossia and Success in Learning Arabic: A Preliminary Investigation). Journal of Multilingual and Multicultural Development. Link.
- Mahamid, B. H., & Saiegh-Haddad, E. (2025). O papel do modo de narração nas habilidades narrativas de crianças em situação de diglossia árabe: comparação entre crianças com desenvolvimento típico da linguagem e com transtorno do desenvolvimento da linguagem (The Role of Story Mode in the Narrative Skills of Children in Arabic Diglossia: Comparing Children with Typical Language Development and Developmental Language Disorder). Journal of Speech, Language, and Hearing Research. Link.
- Shahbari-Kassem, A., Schiff, R., & Saiegh-Haddad, E. (2025). Desenvolvimento da consciência morfológica em árabe: o papel do sistema morfológico e da distância morfológica (Development of Morphological Awareness in Arabic: The Role of Morphological System and Morphological Distance). Reading and Writing: An Interdisciplinary Journal. Link.
- Sonbul, S., & El-Dakhs, D. A. S. (2024). Conhecimento de prefixos do inglês como L2: efeito da amplitude vocabular e da exposição (L2 Knowledge of English Prefixes: The Effect of Vocabulary Breadth and Exposure). Language Teaching Research. Link.
Se este tema dialoga com sua turma, experimente observar não apenas o acerto, mas também a linguagem e o formato que a atividade exige. Uma boa pergunta de avaliação pode abrir caminho para uma boa conversa de aprendizagem.
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