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Língua nativa e espanhol entre mexicano-americanos: o contato prolongado molda o espanhol de herança

Estudos com crianças mexicano-americanas mostram que a experiência e o contato com o espanhol se relacionam ao desenvolvimento do espanhol de herança. Pesquisas também exploram como práticas bilíngues valorizam repertórios culturais e linguísticos na escola.

Língua nativa e espanhol entre mexicano-americanos: o contato prolongado molda o espanhol de herança

Pesquisas com crianças mexicano-americanas indicam que o desenvolvimento do espanhol de herança varia conforme a predominância linguística, o contato e o uso da língua. Estudos em escolas dos Estados Unidos também investigam práticas que valorizam repertórios bilíngues e conhecimentos culturais. Para professores brasileiros, essas evidências inspiram atividades de escuta e produção, mas não podem ser transferidas sem considerar nosso contexto.

Cena hipotética: numa atividade de leitura, uma criança reconhece em espanhol uma expressão que ouve em casa e a explica aos colegas, enquanto outra participa principalmente em português. As duas acompanham a história, mas chegam ao texto por caminhos linguísticos diferentes. O que a pesquisa sobre crianças mexicano-americanas e espanhol de herança pode ajudar professores a perceber nessa diferença?

A resposta não está em tratar o bilinguismo como uma escala simples, com um idioma forte e outro fraco, nem em presumir que toda criança de uma mesma origem usa as línguas do mesmo jeito. Os estudos reunidos aqui mostram como experiência linguística, relações de poder, leitura e vínculos culturais entram na aprendizagem. Também oferecem pistas para pensar práticas escolares no Brasil sem copiar automaticamente um contexto dos Estados Unidos.

O que é espanhol de herança e por que importa para o professor?

Espanhol de herança é a língua espanhola presente na vida de crianças que têm vínculos familiares ou comunitários com ela, mesmo quando vivem e estudam em um ambiente onde outro idioma ocupa mais espaço. No estudo de Cuza, por exemplo, as crianças eram filhas de pais nascidos no México e nasceram e cresceram nos Estados Unidos. Esse contexto específico ajuda a entender o que os autores chamam de espanhol de herança infantil (Cuza, 2025).

Na escola, o tema aparece em escolhas bem concretas: que língua pode ser usada para conversar sobre uma leitura, como o professor interpreta uma resposta, quais conhecimentos familiares entram numa atividade e que oportunidades existem para ler, falar ou escrever em mais de um idioma. A criança pode entender uma ideia e ainda estar desenvolvendo formas específicas de expressá-la em espanhol. Separar essas dimensões evita confundir domínio linguístico com compreensão conceitual, uma distinção valorizada na prática descrita por Lang e García (Lang, 2024).

O rótulo de “língua nativa” também não significa que todos os estudantes com uma mesma herança tenham o mesmo repertório ou nível de proficiência. Cuza encontrou variação entre crianças, relacionada à predominância linguística e à experiência com o espanhol. Para o professor, isso recomenda curiosidade e observação, não suposições baseadas em sobrenome, origem familiar ou aparência (Cuza, 2025).

O que a pesquisa recente mostra sobre espanhol de herança e bilinguismo?

O contato com a língua participa do desenvolvimento, que pode seguir um percurso prolongado

Uma investigação sobre a posse inalienável em espanhol — como a maneira de dizer que alguém quebrou o braço — comparou 20 crianças de herança, 20 pais imigrantes de primeira geração, 27 crianças com predominância do espanhol e 12 pais monolíngues em espanhol residentes no México. Em tarefas de perguntas e respostas, as crianças de herança usaram menos a construção com se e determinante definido, como “Ella se rompió el brazo”, e estenderam mais o uso do possessivo, em comparação com os outros grupos (Cuza, 2025).

O resultado não aponta para uma incapacidade geral de usar espanhol. Os autores relatam que as crianças com maior predominância do espanhol e mais contato e uso desse idioma se aproximavam mais dos pais e das crianças com predominância do espanhol no uso do determinante definido. Também não observaram divergências no uso do determinante definido em contextos de posse alienável. A conclusão proposta é a de um desenvolvimento prolongado, associado à influência entre línguas, à predominância da língua minoritária e à experiência linguística (Cuza, 2025).

Para a sala de aula, a diferença é importante: uma forma não convencional em determinada construção gramatical não resume o conhecimento da criança sobre a língua. O achado é específico a uma estrutura do espanhol, em uma pesquisa com crianças criadas nos Estados Unidos. Não deve ser transformado em regra para avaliar toda fala de estudantes bilíngues, muito menos em diagnóstico sobre o que sabem ou não sabem.

As línguas e os conhecimentos familiares podem entrar juntos na aprendizagem

Em um bairro historicamente mexicano-americano no Texas, um evento de biletramento em uma turma do Head Start convidou famílias a compartilhar tradições ligadas a celebrações importantes. As apresentações combinaram fala bilíngue, recursos visuais e digitais e textos escritos. O estudo situa essa proposta nos estudos sociais e descreve como as famílias mobilizaram conhecimentos e práticas culturais para compartilhar o que consideravam importante (Riojas-Cortez, 2024).

O relato também destaca que algumas famílias conduzem a vida em duas línguas de forma fluida, por meio de histórias orais e escritas, apoiando o biletramento. A contribuição para o professor não é a afirmação de que uma atividade festiva, sozinha, garante aprendizagem. É um exemplo de como uma escola pode abrir espaço para que experiências familiares e práticas linguísticas diversas façam parte de uma atividade curricular, com as famílias participando como fontes de conhecimento (Riojas-Cortez, 2024).

Outra pesquisa analisou leituras em voz alta feitas por dois professores latinos com crianças bilíngues pequenas, usando o livro ilustrado bilíngue espanhol-inglês “Niño Wrestles the World”. A escolha intencional do texto criou oportunidades para as crianças mobilizarem seus repertórios linguísticos e conhecimentos culturais. Durante as leituras, professores e crianças coconstruíram afeto e brincadeira por meio de performances corporificadas e da translinguagem, isto é, do uso integrado dos recursos linguísticos de pessoas bilíngues (Beauchemin, 2023).

Mediação docente pode reduzir barreiras, mas nem todas estão sob controle da turma

Em uma turma bilíngue do segundo ano no Meio-Oeste dos Estados Unidos, uma professora trabalhou com estudantes de famílias hispanofalantes da classe trabalhadora e estudantes de famílias anglófonas da classe média. O estudo etnográfico examinou como a docente facilitava a transposição de fronteiras entre grupos. Ela usou suas experiências e conhecimentos sobre bilinguismo para se posicionar contra a discriminação linguística, distinguiu compreensão conceitual de domínio da segunda língua e promoveu a translinguagem (Lang, 2024).

A professora também organizou grupos e conversou com estudantes que tinham o inglês como língua dominante sobre o desrespeito envolvido em se recusarem a falar espanhol com colegas que tinham o espanhol como língua dominante. Ao mesmo tempo, os autores identificaram barreiras que ela não podia alterar sozinha: o status elevado do inglês na escola e a expectativa de que estudantes hispanofalantes ajudassem os colegas com o espanhol sem reciprocidade. A pesquisa aponta, portanto, tanto possibilidades pedagógicas quanto limites institucionais (Lang, 2024).

Esse quadro evita uma interpretação simplista de que basta permitir duas línguas para que a participação se torne justa. Também importam quem tem mais prestígio, quem é solicitado a fazer o esforço de comunicação e quem recebe reconhecimento por seu repertório. Os autores defendem formação para docentes de turmas bilíngues e mais pesquisa sobre relações de poder entre grupos linguísticos minoritários e majoritários (Lang, 2024).

Leitura, conhecimento prévio e identidade podem ser relacionados sem confundir contextos

Um estudo sobre tradução pedagógica acompanhou duas turmas mistas de espanhol do ensino médio em uma escola do sudoeste dos Estados Unidos, com estudantes de língua de herança e estudantes de segunda língua. Após uma atividade de tradução pedagógica, ambos os grupos demonstraram consciência metalinguística e aprendizagem de vocabulário, considerados indicadores de compreensão leitora no estudo. A pesquisa também discutiu diferenças entre as abordagens de aprendizagem desses grupos (Albrecht, 2025).

Esse resultado é útil para pensar propostas em que comparar escolhas de linguagem faça parte da leitura, mas não significa que traduzir seja sempre a melhor estratégia, nem que os dois perfis de estudantes aprendam de forma idêntica. A pesquisa é exploratória e ocorreu em turmas de espanhol nos Estados Unidos. A aplicação em outros contextos pede adaptação do objetivo, dos textos e das línguas envolvidas (Albrecht, 2025).

Um estudo com estudantes bilíngues espanhol-inglês do sexto ano, também nos Estados Unidos, comparou a produção de inferências após a leitura de textos narrativos e expositivos. Em geral, os estudantes responderam com mais acurácia a perguntas sobre textos narrativos, e participantes com maior conhecimento tiveram vantagem. Ao analisar a variação entre toda a amostra, maior conhecimento também se associou a respostas mais rápidas e a tempos menores de processamento de frases (Cain, 2025).

Esse estudo não investiga especificamente crianças mexicano-americanas nem espanhol de herança. Sua contribuição aqui é mais delimitada: lembra que desempenho de leitura envolve características do leitor e do texto, e que conhecimento prévio tem papel relevante. Portanto, diferenças de resposta entre estudantes não devem ser atribuídas automaticamente ao bilinguismo; o gênero textual e o conhecimento mobilizado também entram na interpretação (Cain, 2025).

Os estudos lado a lado: o que cada pesquisa investigou?

Em conjunto, os estudos olham para dimensões distintas: uma construção gramatical, experiências familiares de biletramento, interações em sala bilíngue, leitura em voz alta, tradução pedagógica e compreensão de textos. A tabela resume o foco de cada pesquisa citada e delimita o contexto informado nos resumos.

EstudoO que investigouO que relataContexto
Cuza, 2025Uso da posse inalienável em espanhol por crianças de herança.As crianças de herança usaram menos a construção com se e determinante definido; maior contato e predominância do espanhol se relacionaram a maior aproximação dos grupos de comparação.Crianças criadas nos Estados Unidos, filhas de pais nascidos no México; comparações com grupos nos Estados Unidos e no México.
Riojas-Cortez, 2024Evento familiar de biletramento ligado a celebrações e estudos sociais.Famílias compartilharam tradições por apresentações bilíngues, recursos visuais e digitais e textos escritos.Turma do Head Start em bairro historicamente mexicano-americano no Texas.
Lang, 2024Mediação docente e fronteiras linguísticas em turma bilíngue.A docente combateu discriminação linguística, distinguiu compreensão de proficiência e promoveu translinguagem; algumas desigualdades institucionais permaneceram.Segundo ano, turma bilíngue no Meio-Oeste dos Estados Unidos.
Beauchemin, 2023Leitura em voz alta com translinguagem, afeto e brincadeira.Um livro bilíngue criou oportunidades para mobilizar repertórios linguísticos e conhecimentos culturais.Professores latinos e crianças bilíngues pequenas nos Estados Unidos.
Albrecht, 2025Tradução pedagógica e compreensão leitora em turmas mistas.Estudantes de herança e de segunda língua demonstraram consciência metalinguística e aprendizagem de vocabulário após a atividade.Duas turmas de espanhol do ensino médio no sudoeste dos Estados Unidos.
Cain, 2025Características do leitor e do texto na produção de inferências.Houve vantagem geral para textos narrativos e para participantes com maior conhecimento.Estudantes bilíngues espanhol-inglês e monolíngues de inglês do sexto ano, nos Estados Unidos.

O que os estudos têm em comum e onde diferem?

Um ponto de encontro é que a aprendizagem linguística não aparece isolada da experiência. Em Cuza, o contato e o uso do espanhol se relacionam à variação observada numa estrutura gramatical. Em Riojas-Cortez, histórias e tradições familiares entram em um evento de biletramento. Em Beauchemin, o texto bilíngue permite mobilizar repertórios linguísticos e conhecimentos culturais. Em Lang, as relações entre grupos e o status atribuído às línguas condicionam a participação (Cuza, 2025; Riojas-Cortez, 2024; Beauchemin, 2023; Lang, 2024).

Os trabalhos também diferem no que podem sustentar. Cuza examina uma estrutura gramatical específica e compara grupos; Lang acompanha a mediação de uma professora em uma turma; Riojas-Cortez descreve um evento familiar; Beauchemin analisa interações em leituras em voz alta. Albrecht investiga uma atividade de tradução e Cain estuda inferências em textos narrativos e expositivos. Não são medidas equivalentes de uma mesma habilidade, nem devem ser somadas como se fossem uma única experiência de ensino.

Há uma tensão útil para o planejamento: valorizar o repertório de uma criança não elimina a necessidade de ensinar formas linguísticas, ampliar a leitura ou avaliar o que ela está aprendendo. Ao mesmo tempo, uma avaliação que observa apenas uma forma padrão pode deixar de perceber compreensão e conhecimento. Os resumos não resolvem como equilibrar reconhecimento do repertório e ensino explícito em cada turma; essa decisão depende do objetivo da atividade e do contexto linguístico.

Também permanece em aberto o quanto os resultados de contextos dos Estados Unidos se transferem para escolas brasileiras. Os estudos não investigam diretamente estudantes brasileiros que usam espanhol em casa, nem descrevem a diversidade de situações de contato com o espanhol no Brasil. O que oferecem são questões e princípios de observação que podem orientar adaptações, não um modelo pronto.

Como aplicar essas ideias na sala de aula?

As sugestões a seguir são aplicações possíveis inspiradas pelos temas das pesquisas, não resultados testados por elas em escolas brasileiras. O professor pode ajustá-las ao idioma ensinado, à idade dos estudantes, aos repertórios da turma e ao objetivo curricular.

1. Separe compreensão conceitual de precisão linguística

Uma aplicação possível é registrar primeiro o que o estudante compreendeu e, depois, observar os recursos linguísticos usados para expressar essa compreensão. Em uma atividade hipotética de ciências, por exemplo, uma criança pode explicar oralmente uma relação entre dois fenômenos com palavras conhecidas de casa e ainda precisar de apoio para formular a resposta escrita em português. Essa distinção acompanha a atenção de Lang à diferença entre domínio linguístico e compreensão conceitual, sem presumir que as duas coisas sejam iguais (Lang, 2024).

2. Trate as formas variáveis como ponto de observação, não como rótulo

Ao ouvir uma expressão não convencional em uma língua, o professor pode anotar em que contexto ela aparece e que significado o estudante está tentando construir. Em uma turma hipotética que estuda espanhol, a turma pode comparar maneiras de falar sobre relações de posse em frases criadas para a aula. O exemplo de Cuza mostra por que uma construção específica deve ser observada como parte do desenvolvimento, considerando experiência e contato linguístico, e não como retrato total da capacidade de alguém (Cuza, 2025).

3. Convide conhecimentos familiares sem transformar estudantes em representantes de uma cultura

Uma atividade pode abrir espaço para relatos voluntários sobre celebrações, narrativas ou práticas familiares, oferecendo também alternativas para quem prefere não compartilhar aspectos pessoais. Por exemplo, a turma pode comparar formas de contar uma tradição em diferentes fontes, sem pedir que um estudante fale em nome de todo um grupo. O evento descrito por Riojas-Cortez oferece uma referência para aproximar famílias e currículo, mas a forma de participação precisa respeitar escolhas e diferenças dentro de qualquer comunidade (Riojas-Cortez, 2024).

4. Planeje leituras em que mais de um recurso linguístico seja útil

Uma possibilidade é selecionar um texto bilíngue ou oferecer apoio em mais de uma língua para discutir personagens, imagens e ideias. Numa cena hipotética de leitura compartilhada, os estudantes podem comentar uma passagem usando os recursos linguísticos de que dispõem e, em seguida, produzir uma síntese no idioma definido para a tarefa. A pesquisa de Beauchemin sugere que a escolha intencional de um texto bilíngue pode abrir espaço para participação lúdica e para a mobilização de repertórios, embora cada professor precise verificar a adequação do material à turma (Beauchemin, 2023).

5. Faça da comparação entre línguas uma ferramenta de leitura

Como aplicação da investigação de Albrecht, o professor pode propor que estudantes comparem palavras, escolhas de tradução ou sentidos de uma passagem. Em uma atividade hipotética de língua estrangeira, um grupo poderia discutir por que uma expressão não se traduz palavra por palavra e registrar o vocabulário que aprendeu. A comparação deve servir à compreensão do texto, não virar uma prova de quem conhece mais idiomas nem pressupor que estudantes de herança e de segunda língua partam do mesmo ponto (Albrecht, 2025).

6. Ofereça oportunidades equilibradas de participação entre grupos

Em atividades em duplas ou grupos, uma aplicação possível é observar quem traduz, explica, escuta e toma decisões. O professor pode alternar papéis e explicitar que a comunicação e a aprendizagem são responsabilidades compartilhadas. A pesquisa de Lang alerta que estudantes de uma língua minoritária podem ser colocados na posição de ajudar os demais sem receber reciprocidade. Uma turma hipotética pode revisar as regras de conversa antes de um trabalho bilíngue e combinar como todos contribuirão (Lang, 2024).

7. Varie os textos e ative conhecimentos antes de avaliar inferências

Se a tarefa pede que estudantes deduzam informações, uma aplicação é incluir textos narrativos e expositivos e conversar sobre o que a turma já sabe do tema. Uma pergunta hipotética sobre uma história pode ser mais acessível a alguns estudantes do que uma pergunta equivalente após um texto informativo, como sugere a vantagem geral observada para narrativas no estudo de Cain. Isso não significa retirar o desafio dos textos expositivos: significa interpretar as respostas considerando gênero textual e conhecimento prévio (Cain, 2025).

O que muda ao levar essas pesquisas para o contexto brasileiro?

Os estudos centrais sobre crianças mexicano-americanas e espanhol de herança ocorreram nos Estados Unidos, em contextos marcados pela relação entre inglês e espanhol, por programas bilíngues e por comunidades com histórias próprias. No Brasil, a língua de instrução, as políticas escolares, as trajetórias migratórias e as formas de contato com o espanhol são diferentes. Não se deve transportar para cá, como se fossem brasileiras, as hierarquias linguísticas ou as regras de programas descritos nesses estudos.

Ainda assim, professores brasileiros podem usar as pesquisas para formular perguntas locais: que idiomas circulam entre os estudantes e suas famílias? Que conhecimentos aparecem nas conversas, mas raramente nas atividades? Há estudantes que compreendem um conteúdo, embora ainda estejam desenvolvendo o português acadêmico? Em vez de presumir que uma criança de origem latino-americana fala espanhol, vale conhecer o repertório de cada estudante de forma respeitosa e sem exposição pública desnecessária.

Uma adaptação cuidadosa pode acontecer em aulas de línguas, projetos de leitura ou atividades interdisciplinares. Por exemplo, o professor pode comparar versões de uma narrativa em línguas que os estudantes conheçam, se houver recursos e se a turma desejar participar. Também pode usar histórias familiares como uma entre várias fontes de conhecimento, sem reduzir uma comunidade a festas ou comidas. Essas são propostas de aplicação inspiradas nas pesquisas, não conclusões testadas no Brasil.

Por fim, reconhecer repertórios linguísticos não exige abandonar o ensino explícito do português ou de outra língua curricular. É possível acolher diferentes formas de expressão e, ao mesmo tempo, ensinar vocabulário, gêneros e convenções adequados a cada tarefa. O cuidado está em não transformar diferenças de trajetória em déficits pessoais nem em tomar um único desempenho como medida completa da aprendizagem.

Quais são os limites desta leitura?

Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes, não na leitura integral de cada publicação. Por isso, apresenta os objetivos, contextos e resultados que os resumos informam, sem afirmar detalhes adicionais sobre procedimentos, instrumentos ou análises que não estejam descritos ali. Os estudos também tratam de perguntas diferentes; alguns exploram contextos específicos, e seus resultados não representam todas as crianças mexicano-americanas, todas as famílias bilíngues nem todas as escolas.

Ficam em aberto perguntas importantes: como se desenvolvem outras dimensões do espanhol de herança além da estrutura examinada por Cuza? Que efeitos duradouros podem ter eventos familiares de biletramento e leituras bilíngues? Como práticas de translinguagem funcionam em outros arranjos escolares? E que adaptações são adequadas a estudantes e escolas brasileiras? Os resumos não permitem responder a essas questões de forma conclusiva.

Faz sentido consultar os estudos completos quando o professor ou a equipe pretende reproduzir uma intervenção, escolher um instrumento de avaliação, planejar uma formação ou fundamentar uma decisão institucional. Isso é especialmente importante quando a aplicação envolve avaliação individual, políticas linguísticas ou programas curriculares. Para uma reflexão inicial sobre planejamento, os resumos ajudam a identificar possibilidades e limites; para uma implementação, é preciso conhecer melhor os métodos e as condições de cada pesquisa.

Como o GeraProva ajuda com este assunto?

O GeraProva pode ajudar o professor a transformar um tema de leitura, bilinguismo ou identidade em perguntas e atividades para avaliação formativa, desde que o docente revise o material e ajuste o vocabulário e o contexto à sua turma. A ferramenta não substitui o conhecimento sobre os estudantes nem decide como valorizar seus repertórios. Você pode conhecer o gerador de provas do GeraProva e fazer o cadastro grátis.

Perguntas frequentes sobre espanhol de herança e escola

Espanhol de herança significa que a criança domina igualmente espanhol e inglês?

Não. Os estudos não definem espanhol de herança como domínio igual dos dois idiomas. No trabalho de Cuza, as crianças tinham pais nascidos no México, mas nasceram e foram criadas nos Estados Unidos; os resultados variaram conforme a predominância linguística e a experiência com o espanhol. Isso mostra que a trajetória de cada criança importa. Para o professor, é mais útil observar o que o estudante compreende e como participa em diferentes situações do que deduzir seu nível de proficiência a partir de sua origem familiar (Cuza, 2025).

Uma forma gramatical diferente indica que o estudante não sabe espanhol?

Não é possível chegar a essa conclusão a partir de uma forma isolada. Cuza investigou a produção de uma estrutura específica de posse inalienável e encontrou diferenças entre grupos, além de variação relacionada à predominância e à experiência linguística. O estudo não mede todo o conhecimento de espanhol das crianças. Na prática, o professor pode observar a forma no contexto, verificar o sentido pretendido e identificar o que vale ensinar explicitamente, sem transformar um traço particular em um rótulo sobre a competência geral do estudante (Cuza, 2025).

Permitir que estudantes usem mais de uma língua ajuda a aprender?

Os estudos descrevem situações em que práticas bilíngues abriram oportunidades de participação e aprendizagem, mas não provam que qualquer uso de duas línguas funcione sempre ou para qualquer objetivo. Em leituras em voz alta, crianças mobilizaram repertórios linguísticos e conhecimentos culturais com um texto bilíngue; em outro contexto, uma atividade de tradução esteve associada a consciência metalinguística e aprendizagem de vocabulário. O professor pode planejar o uso de mais de um idioma de acordo com a tarefa e avaliar se isso apoia a compreensão buscada (Beauchemin, 2023; Albrecht, 2025).

Como valorizar a cultura familiar sem expor ou estereotipar estudantes?

Uma possibilidade é convidar contribuições voluntárias e oferecer formas alternativas de participação, sem pedir que uma criança represente uma comunidade inteira. O evento estudado por Riojas-Cortez permitiu que famílias compartilhassem tradições ligadas a celebrações por meio de apresentações bilíngues e textos. Isso pode inspirar propostas que reconheçam conhecimentos familiares, mas não exige repetir o mesmo formato. O cuidado está em permitir escolhas, acolher diferenças dentro de cada grupo e trabalhar também com outras fontes, para que uma cultura não seja reduzida a um conjunto fixo de costumes (Riojas-Cortez, 2024).

O que fazer quando estudantes de uma língua ajudam sempre os demais?

Vale observar se essa ajuda é voluntária, recíproca e compatível com o objetivo da atividade. No estudo de Lang, a professora percebeu uma expectativa de que estudantes hispanofalantes apoiassem colegas anglófonos com o espanhol sem que a troca fosse equivalente. Ela organizou grupos e tornou a questão do respeito linguístico explícita, embora não pudesse mudar todas as relações de poder da escola. Como aplicação, o professor pode distribuir papéis, alternar contribuições e conversar sobre responsabilidades compartilhadas (Lang, 2024).

Essas pesquisas podem ser aplicadas diretamente a escolas brasileiras?

Não sem adaptação. Os estudos sobre espanhol de herança citados ocorreram nos Estados Unidos, em contextos escolares e sociais diferentes dos brasileiros. Eles não testaram suas propostas em escolas do Brasil nem descrevem todos os repertórios linguísticos encontrados aqui. Podem, porém, ajudar a formular perguntas sobre contato com línguas, participação, conhecimento prévio e avaliação. Antes de adotar uma atividade, o professor deve considerar quais idiomas os estudantes realmente usam, qual é o objetivo curricular e como preservar a participação voluntária e o respeito às diferenças (Lang, 2024; Riojas-Cortez, 2024).

Referências dos estudos citados

  1. Cuza (2025). Desenvolvimento prolongado do espanhol de herança infantil: evidências da posse inalienável (Protracted Development in Child Heritage Spanish: Evidence from Inalienable Possession). Second Language Research. link.
  2. Riojas-Cortez (2024). Cuentos Festivos de Mi Gente: um evento familiar de biletramento em uma turma do Head Start (Cuentos Festivos de Mi Gente: A Family Biliteracy Event in a Head Start Classroom). Dimensions of Early Childhood. link.
  3. Lang (2024). A mediação de uma professora nas transposições de fronteiras de estudantes imigrantes mexicanos em uma sala de aula bilíngue (A Teacher's Facilitation of Mexican Immigrant Students' Border Crossings in a Dual-Language Classroom). International Journal of Bilingual Education and Bilingualism. link.
  4. Beauchemin (2023). Professores bilíngues e crianças pequenas coconstruindo afetos e brincadeiras em leituras em voz alta com translinguagem (Bilingual Teachers and Young Children Co-Constructing Affect and Play in Translanguaging Read-Alouds). English Teaching: Practice and Critique. link.
  5. Albrecht (2025). Tradução pedagógica para a compreensão leitora em turmas mistas de espanhol do ensino médio, com alunos de língua de herança e de segunda língua (Pedagogical Translation for Reading Comprehension in Mixed HL-L2 Secondary Classrooms). Foreign Language Annals. link.
  6. Cain (2025). A influência das características do leitor e do texto na produção de inferências por alunos do sexto ano (The Influence of Reader and Text Characteristics on Sixth Graders' Inference Making). Journal of Research in Reading. link.

Se esse tema conversa com sua turma, escolha uma atividade pequena para experimentar: uma leitura, uma conversa sobre repertórios ou uma avaliação que separe compreensão de forma linguística. Depois, observe o que seus estudantes mostram e adapte o próximo passo com eles.

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