Irmãos e crianças pequenas: quando o apoio deles faz diferença
Pesquisas recentes mostram irmãos apoiando a linguagem, a aprendizagem e a adaptação de crianças pequenas, mas os efeitos variam conforme o contexto. Veja o que esses estudos permitem levar para a educação infantil brasileira.
Pesquisas recentes mostram que irmãos podem apoiar a linguagem, a leitura e a aprendizagem de crianças pequenas. Mas esse papel não produz os mesmos efeitos em todos os contextos: um estudo com pré-escolares chineses, por exemplo, encontrou benefício dos irmãos para a teoria da mente sobretudo entre crianças com pouca interação com pares. Para professores, a principal pista é considerar a rede familiar sem presumir que toda criança vive a mesma experiência.
Cena hipotética: no canto da leitura, uma criança de quatro anos aponta para as figuras enquanto o irmão mais velho espera a vez de contar o que aconteceu na história. A professora observa que os dois alternam entre ouvir, completar frases e rir de uma mesma cena. Essa interação entre irmãos pode apoiar a aprendizagem de crianças pequenas — e o que as pesquisas recentes mostram sobre quando esse apoio faz diferença?
A resposta não é que ter irmãos, por si só, garanta uma vantagem. Os estudos reunidos aqui apontam para possibilidades concretas: irmãos podem participar da aprendizagem dentro da família, apoiar atividades de leitura e oferecer oportunidades de interação. Mas os efeitos variam conforme a experiência, a idade, o contexto familiar e as relações com outras pessoas. Para o professor, a pergunta útil não é “irmãos ajudam sempre?”, mas “como reconhecer e acolher as diferentes redes de apoio de cada criança?”.
O que são pesquisas sobre crianças pequenas, irmãos e experiências em outros países — e por que isso importa para o professor?
Esse tema reúne estudos que investigam como as relações entre irmãos se conectam à aprendizagem, à linguagem, à vida social e às mudanças familiares na infância. Na rotina escolar, ele aparece quando uma criança conta que aprendeu uma brincadeira com a irmã, quando um irmão mais velho participa de uma leitura em casa ou quando a chegada de um bebê altera os sentimentos e a organização da família. Também aparece, de forma menos visível, nas diferenças entre crianças que têm irmãos e aquelas cuja rede cotidiana é formada por outros familiares ou adultos.
Os estudos vêm de contextos diversos, incluindo China, Tajiquistão e um ambiente trilíngue cuja localização não é informada no resumo. Por isso, os resultados não devem ser transformados automaticamente em regras para famílias brasileiras. Eles ajudam a formular perguntas e a pensar em possibilidades; cabe ao professor considerar as condições locais, escutar cada família e evitar supor que todas as crianças convivam com irmãos ou tenham a mesma relação com eles.
Também é importante separar três coisas: o que uma pesquisa encontrou, o que ela apenas investigou e o que pode ser uma proposta de aplicação escolar. Um estudo de caso, por exemplo, pode oferecer uma experiência contextualizada, mas não permite concluir que a mesma intervenção funcionará da mesma maneira para todas as crianças. Essa distinção mantém o uso da pesquisa útil e responsável.
O que a pesquisa recente mostra sobre irmãos e aprendizagem na infância?
A família que apoia a criança pode ser maior do que o par de pais e filhos
Em Wakhan, uma área rural do Tajiquistão, Muminova investigou como a família participa do apoio à aprendizagem de crianças pequenas. O estudo se baseou em entrevistas com mães e pais e em diários em vídeo produzidos por crianças de cinco famílias. Os resultados destacam o papel fundamental de irmãos e avós na educação das crianças e propõem olhar para a “participação da família”, em vez de limitar a análise à participação parental (Muminova, 2025).
O ponto central não é que todas as famílias funcionem do mesmo modo, mas que uma definição estreita de envolvimento pode deixar de fora pessoas que de fato cuidam, conversam e apoiam a aprendizagem. No contexto rural tajique estudado, os autores consideram a abordagem centrada na família mais adequada por representar melhor a natureza coletiva e culturalmente enraizada do cuidado. Para a escola, essa pesquisa oferece uma lente: perguntar quem acompanha a criança pode revelar apoios que não aparecem quando o contato se dirige apenas aos pais.
Essa perspectiva também ajuda a evitar que a escola classifique como desinteresse uma família que não corresponde ao modelo esperado de participação. Uma avó, um irmão ou outro familiar pode ter papel importante, embora a pesquisa não proponha uma fórmula única de comunicação com esses participantes. O achado é contextual; a aplicação brasileira precisa começar pela escuta, não pela suposição de que toda família extensa atua da mesma maneira.
Os irmãos podem apoiar a linguagem, mas o tipo de interação importa
Um estudo com 850 crianças chinesas da educação infantil com TDAH comparou leitura dialógica com pais e com irmãos mais velhos, além de grupos de controle correspondentes. Depois de 12 semanas, tanto a leitura dialógica com pais quanto com irmãos favoreceu as habilidades linguísticas e o interesse pela leitura. As crianças que leram com irmãos tiveram avanços maiores em vocabulário expressivo, leitura de caracteres, consciência morfológica, consciência fonológica e interesse pela leitura, mas avanço menor em compreensão oral em comparação com as que leram com pais (Dong, 2023).
Esse resultado mostra por que “ajuda dos irmãos” não deve ser tratada como uma categoria única. O formato da atividade e o aspecto da linguagem observado fazem diferença: no estudo, houve benefícios nos dois tipos de parceria, mas o perfil dos avanços não foi igual. A pesquisa se refere a crianças chinesas com TDAH em contexto de educação infantil; portanto, não é evidência direta de que a mesma comparação se repetiria com qualquer criança, em qualquer língua ou em uma turma brasileira.
Em outro recorte, um estudo longitudinal acompanhou três pares de irmãos em idade escolar que cresciam em contexto trilíngue e analisou narrativas orais ao longo de três anos. As crianças recontavam filmes de animação, e a análise observou extensão das produções, diversidade lexical e sofisticação do vocabulário nas três línguas. O desenvolvimento variou de criança para criança, embora tenha sido observada uma tendência de o vocabulário escolar se tornar mais sofisticado (Zago, 2024).
Esse estudo investiga pares de irmãos, mas não compara diretamente o efeito de ter irmãos com o de não ter. Seu valor para a conversa está em mostrar a complexidade do desenvolvimento linguístico em crianças que usam mais de uma língua e em reforçar que trajetórias individuais podem variar. Não é adequado concluir que irmãos causam a evolução observada; o resumo relata um acompanhamento de narrativas e uma tendência relacionada ao vocabulário escolar.
Ter irmãos não garante um efeito igual para todas as crianças
Pesquisadores que estudaram 225 crianças chinesas em idade pré-escolar avaliaram a teoria da mente, isto é, aspectos da compreensão de que outras pessoas podem ter pensamentos e perspectivas diferentes. Cem participantes tinham irmãos e 125 não tinham. Considerando apenas a presença de irmãos, o estudo não encontrou um efeito principal na teoria da mente, independentemente da ordem de nascimento ou da idade dos irmãos (Zhu, 2024).
O resultado mudou quando os autores consideraram também a interação com pares e os estilos parentais. O efeito dos irmãos tornou-se perceptível entre as crianças com níveis baixos de interação com pares; a conclusão do estudo aponta uma influência positiva dos irmãos nesse grupo. Assim, a presença de irmãos não apareceu como vantagem geral. A relação com os pares ajudou a explicar em que condição o efeito era observado, o que convida o professor a olhar para o conjunto das experiências sociais da criança.
Essa diferença é relevante para a prática porque impede uma leitura simplista: “tem irmão, então já pratica convivência” ou “não tem irmão, então precisa de compensação”. O estudo foi realizado com crianças chinesas e examinou combinações específicas de fatores. Na escola brasileira, é mais prudente observar como cada criança participa das interações disponíveis — com colegas, familiares e adultos — sem presumir que uma relação substitua perfeitamente a outra.
As transições familiares podem pedir apoio atento, não uma receita pronta
Uma mudança importante para uma criança primogênita é a chegada de um irmão ou irmã. Na China, Fang e colegas investigaram uma intervenção de artes criativas para apoiar uma menina durante essa transição. O programa personalizado teve 17 sessões semanais e usou diferentes formas de arte para autoexploração, regulação emocional e reconstrução das dinâmicas familiares, em etapas. O estudo de caso utilizou um delineamento AB e métodos mistos (Fang, 2024).
Os autores relatam melhora na regulação emocional, no envolvimento familiar e na confiança social da criança, além de mudanças positivas no afeto entre irmãos e na capacidade de lidar com o ciúme. O estudo relaciona as dificuldades de adaptação ao contexto cultural da família chinesa e apresenta uma experiência específica, não uma intervenção testada em larga escala. A pesquisa oferece uma possibilidade de apoio centrado na criança e baseado nas artes, mas não autoriza prometer os mesmos resultados para todas as famílias.
Juntos, esses estudos apontam para uma ideia mais precisa do que “irmãos fazem bem”: irmãos podem participar de práticas de leitura, integrar a rede que apoia a aprendizagem e ser parte de mudanças emocionais importantes. O efeito depende da situação e não substitui o papel dos pares, dos adultos e das condições concretas de cuidado.
Como os estudos sobre irmãos e crianças pequenas se comparam?
Os estudos abaixo têm perguntas e desenhos diferentes: alguns observam relações entre fatores, outros comparam atividades e um acompanha uma experiência individual. A tabela ajuda a ver o que cada pesquisa investigou sem tratar resultados distintos como se fossem equivalentes.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| (Muminova, 2025) | Participação da família no apoio à aprendizagem de crianças pequenas. | Irmãos e avós tiveram papéis fundamentais; a participação da família é uma lente mais adequada ao contexto estudado. | Wakhan, área rural do Tajiquistão; entrevistas e diários em vídeo de cinco famílias. |
| (Kara, 2025) | Motivação para leitura e escrita e relação com idade, gênero, número de irmãos e escolaridade dos pais. | Entre estudantes com altas habilidades/superdotação, a motivação para escrita diminuía significativamente à medida que aumentava o número de irmãos. | Samsun, Turquia; 111 estudantes de 8 a 10 anos. |
| (Zhu, 2024) | Presença de irmãos, teoria da mente, interação com pares e estilos parentais. | Não houve efeito principal da presença de irmãos; o efeito foi perceptível entre crianças com baixa interação com pares. | China; 225 crianças em idade pré-escolar. |
| (Fang, 2024) | Intervenção com artes criativas durante a transição para a condição de irmão ou irmã. | No caso acompanhado, houve melhora em regulação emocional, envolvimento familiar, confiança social e relações entre irmãos. | China; estudo de caso de uma menina, com 17 sessões semanais. |
| (Zago, 2024) | Desenvolvimento lexical em narrativas de três pares de irmãos trilíngues. | O desenvolvimento variou entre crianças; observou-se tendência de maior sofisticação do vocabulário escolar. | Três pares de irmãos em idade escolar; contexto trilíngue, local não indicado no resumo; acompanhamento de três anos. |
| (Dong, 2023) | Leitura dialógica com pais ou irmãos mais velhos para crianças com TDAH. | Ambas as formas favoreceram linguagem e interesse pela leitura; os perfis de avanço diferiram entre os grupos. | China; 850 crianças da educação infantil com TDAH; intervenção de 12 semanas. |
O que há em comum e o que ainda diverge nas pesquisas?
Um ponto comum é que os irmãos aparecem como parte de relações e atividades, não como um fator isolado que explica todo o desenvolvimento. No estudo de Wakhan, eles integram uma rede familiar mais ampla; no de leitura dialógica, participam de uma atividade estruturada; na pesquisa sobre teoria da mente, seu possível efeito é considerado junto com as interações com pares. O foco, portanto, está menos em contar irmãos e mais em compreender que oportunidades de participação existem.
Os resultados não são uniformes. A pesquisa com crianças em idade pré-escolar não encontrou um efeito geral da presença de irmãos sobre a teoria da mente. O estudo com crianças com TDAH, por sua vez, relata benefícios da leitura dialógica tanto com pais quanto com irmãos, embora os avanços específicos tenham diferido. Já o estudo sobre motivação para escrita encontrou uma associação negativa entre número de irmãos e motivação para escrever em estudantes com altas habilidades/superdotação, de 8 a 10 anos (Kara, 2025).
Esse último achado exige cuidado especial. Ele trata de um grupo específico, de uma faixa etária posterior à primeira infância e de motivação para leitura e escrita. Não permite afirmar que ter mais irmãos reduz a motivação de qualquer criança, nem explica por que a associação apareceu. Os resultados não são necessariamente incompatíveis: os estudos medem aspectos diferentes, em grupos e contextos diferentes.
Também há uma diferença entre acompanhar uma experiência e estimar padrões em grupos. O relato de intervenção artística acompanha uma menina em uma transição familiar; a leitura dialógica compara grupos de crianças; o estudo de Wakhan explora as experiências de cinco famílias. Cada abordagem responde a perguntas diferentes. Ainda falta saber como práticas semelhantes funcionariam em outros contextos, com outros perfis de crianças e sob condições cotidianas diferentes.
Como levar essas pesquisas para a sala de aula?
Uma aplicação responsável não é pedir que irmãos assumam tarefas de cuidado ou transformar a relação familiar em requisito escolar. É criar oportunidades de aprendizagem acessíveis e reconhecer que as redes de apoio variam. As propostas a seguir são aplicações pedagógicas inspiradas pelos temas dos estudos, não resultados testados por eles em escolas brasileiras.
1. Pergunte quem participa da rotina da criança
Aplicação: em uma conversa de acolhimento, o professor pode perguntar de modo aberto quem costuma contar histórias, brincar ou conversar com a criança em casa. Uma criança pode mencionar a mãe, outra uma avó e outra um irmão mais velho. Essa informação ajuda a conhecer a rede de apoio sem pressupor que a participação familiar se limita aos pais, como sugere a perspectiva investigada em Wakhan (Muminova, 2025). A pergunta deve ser acolhedora, sem avaliar a família ou comparar a disponibilidade de adultos.
2. Planeje leitura compartilhada com diferentes parceiros
Aplicação: em uma atividade de leitura, a criança pode primeiro conversar sobre imagens com um colega e depois narrar a história para um adulto. Se a escola propuser uma atividade para casa, pode permitir que ela seja feita com qualquer familiar disponível, em vez de exigir a participação de um irmão. A leitura dialógica com pais e irmãos mostrou benefícios linguísticos para as crianças com TDAH estudadas na China, mas não há motivo para transformar esse formato em obrigação familiar (Dong, 2023).
3. Observe o que a criança consegue expressar em cada interação
Aplicação: durante uma conversa sobre uma história, o professor pode perceber se a criança nomeia elementos, organiza acontecimentos, explica relações ou responde melhor quando tem tempo para ouvir. A pesquisa de Dong encontrou perfis diferentes de avanço entre leitura com pais e com irmãos; isso lembra que uma atividade pode favorecer algumas dimensões mais do que outras. Na sala, a observação pode orientar novas oportunidades de fala, sem concluir que um parceiro é sempre superior ao outro.
4. Não use o número de irmãos como atalho para interpretar uma criança
Aplicação: se uma criança participa pouco de conversas em grupo, não conclua que isso acontece por ser filha única ou por ter muitos irmãos. O estudo sobre teoria da mente não encontrou um efeito geral da presença de irmãos, e apontou a interação com pares como parte importante do quadro (Zhu, 2024). O professor pode observar as interações reais da criança e oferecer convites variados para participar, sem atribuir a ela uma característica com base na composição familiar.
5. Dê espaço para narrativas em diferentes línguas
Aplicação: uma criança pode recontar uma história usando palavras de mais de uma língua, ou explicar como uma personagem é chamada em casa. O estudo com pares de irmãos trilíngues acompanhou desenvolvimento lexical em três línguas e encontrou variação entre crianças, com tendência de maior sofisticação do vocabulário escolar (Zago, 2024). Uma proposta de sala pode acolher essas narrativas sem exigir que todas as línguas tenham o mesmo nível de domínio ou que a criança traduza cada palavra.
6. Acolha sentimentos ligados à chegada de um bebê
Aplicação: se a criança falar sobre ciúme, preocupação ou mudança na rotina depois da chegada de um irmão, o professor pode oferecer desenho, brincadeira simbólica ou conversa individual como formas de expressão. O caso chinês de intervenção com artes criativas relata melhora em aspectos emocionais e familiares para uma menina acompanhada (Fang, 2024). Isso não equivale a um protocolo escolar comprovado; é uma inspiração para escutar sem repreender sentimentos e para conversar com a família quando houver necessidade de apoio adicional.
7. Convide a família sem transformar o irmão em auxiliar da escola
Aplicação: se a escola organiza uma atividade de contação, pode sugerir que a criança convide alguém de sua rede para ouvir uma história, deixando claro que a participação é opcional. O propósito é ampliar as formas de vínculo, não transferir responsabilidades pedagógicas ou de cuidado para crianças mais velhas. Essa distinção é importante: reconhecer o papel dos irmãos, como fazem alguns estudos, não significa exigir que eles ensinem, supervisionem ou substituam adultos.
O que muda quando pensamos no contexto brasileiro?
Os estudos aqui discutidos não foram realizados no Brasil. Há pesquisas em contextos chineses, no Tajiquistão e em um contexto trilíngue cuja localização não aparece no resumo. Assim, referências a práticas familiares, políticas de fertilidade, organização de serviços ou relações entre línguas pertencem aos contextos descritos pelos autores e não devem ser apresentadas como características brasileiras.
Para o professor brasileiro, a contribuição mais transferível é a pergunta sobre quem participa da vida da criança e de que maneira. Famílias podem organizar o cuidado de formas diversas, e o vínculo mais significativo para a aprendizagem não precisa corresponder a um único modelo. Ao mesmo tempo, não se deve concluir que irmãos estejam sempre disponíveis, que tenham tempo para apoiar tarefas ou que todas as crianças vivam com eles. Uma proposta de comunicação deve oferecer alternativas e respeitar a rotina de cada família.
As diferenças linguísticas também pedem atenção. O estudo trilíngue mostra uma trajetória variável e considera a língua de escolarização, mas não descreve uma turma brasileira. Em contextos brasileiros com crianças que usam outras línguas em casa, uma aplicação possível é valorizar relatos e palavras trazidos pela criança, sem tratar uma língua familiar como obstáculo nem presumir que toda criança multilíngue tenha o mesmo percurso. Essa é uma escolha pedagógica inspirada pelo tema, não uma conclusão direta do estudo.
Por fim, os resultados sobre intervenção não devem ser copiados sem considerar recursos e responsabilidades. As 17 sessões de artes criativas descritas por Fang ocorreram em um estudo de caso; a leitura dialógica de Dong envolveu uma intervenção estruturada de 12 semanas com crianças chinesas com TDAH. Uma escola brasileira pode adaptar ideias simples de narrativa e expressão, mas precisa diferenciar uma atividade pedagógica cotidiana de um programa de intervenção e buscar apoio especializado quando a situação exigir.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponíveis como fonte, não na leitura integral dos artigos. Os resumos permitem identificar objetivos, contextos e resultados principais, mas não respondem a todas as perguntas sobre os instrumentos, as condições de aplicação, a análise completa ou os limites discutidos pelos autores. Por isso, as conclusões foram mantidas no nível de detalhe informado e não foram acrescentadas amostras, explicações ou recomendações que não apareçam nesses resumos.
Ficam em aberto, por exemplo, como os achados se aplicariam a grupos diferentes dos estudados; quais aspectos da interação entre irmãos contribuem para os resultados; e como fatores de casa, escola, língua e relações com pares se combinam ao longo do tempo. Também seria importante compreender melhor por que a associação entre número de irmãos e motivação para escrita apareceu no estudo com estudantes com altas habilidades/superdotação, sem estendê-la a outras populações.
Faz sentido consultar o estudo completo quando a equipe pretende adotar uma intervenção, discutir um resultado em formação docente ou avaliar se os métodos e participantes se aproximam da realidade local. Essa leitura adicional é especialmente importante para decisões sobre atendimento a crianças com TDAH, transições familiares ou desenvolvimento socioemocional. Para uma reflexão inicial sobre como observar redes de apoio e promover conversas e narrativas, os resumos já oferecem pistas úteis, desde que sejam tratados como ponto de partida.
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Perguntas frequentes sobre irmãos e aprendizagem na infância
Ter irmãos melhora o desenvolvimento de toda criança?
Não é isso que os estudos permitem afirmar. Na pesquisa chinesa sobre teoria da mente, a presença de irmãos não teve efeito principal para o grupo estudado; o efeito apareceu quando se consideraram também as interações com pares e foi perceptível entre crianças com baixa interação com eles (Zhu, 2024). Outros estudos investigaram atividades específicas, como leitura dialógica, em vez de comparar simplesmente crianças com e sem irmãos. O mais adequado é observar as experiências reais de cada criança, sem presumir uma vantagem ou dificuldade pela composição familiar.
Irmãos mais velhos podem ajudar na linguagem de crianças pequenas?
Um estudo com crianças chinesas da educação infantil com TDAH encontrou benefícios da leitura dialógica tanto com pais quanto com irmãos mais velhos. No grupo que leu com irmãos, alguns avanços — entre eles vocabulário expressivo e interesse pela leitura — foram maiores, enquanto o avanço em compreensão oral foi menor do que no grupo que leu com pais (Dong, 2023). O resultado se refere a uma intervenção e a uma população específicas. Ele não significa que todo irmão mais velho seja responsável por ensinar ou que a leitura com irmãos seja sempre melhor.
O que fazer se a criança não tem irmãos?
Os estudos não indicam que crianças sem irmãos precisem de uma atividade compensatória específica. A pesquisa sobre teoria da mente não encontrou uma vantagem geral associada à presença de irmãos e também considerou a interação com pares (Zhu, 2024). Na escola, uma aplicação possível é garantir oportunidades variadas de conversa, brincadeira, narrativa e colaboração com colegas e adultos para todas as crianças. Isso é uma proposta pedagógica, não a afirmação de que colegas substituem irmãos; são relações diferentes, e a experiência de cada criança merece ser observada sem comparação.
Como envolver a família sem depender apenas dos pais?
Uma possibilidade é perguntar, com abertura e sem julgamento, quais pessoas costumam participar das conversas, brincadeiras ou leituras da criança. Em Wakhan, no Tajiquistão, a pesquisa destacou irmãos e avós no apoio à aprendizagem e defendeu uma abordagem que considera a família de forma ampla (Muminova, 2025). Para uma escola brasileira, isso pode inspirar convites mais flexíveis, mas não deve virar uma expectativa de que avós ou irmãos estejam disponíveis. O contato precisa respeitar a realidade da família e as responsabilidades próprias de cada pessoa.
Como acolher ciúme ou insegurança com a chegada de um bebê?
O estudo de Fang acompanhou uma menina chinesa durante a transição para a condição de irmã e relatou resultados positivos de uma intervenção individualizada com artes criativas, realizada em 17 sessões semanais (Fang, 2024). Para a escola, uma aplicação possível é oferecer espaço seguro para desenho, brincadeira simbólica ou conversa, e manter diálogo cuidadoso com os responsáveis. Como foi um estudo de caso, não é possível afirmar que a mesma proposta produzirá os mesmos resultados para outras crianças. Se a dificuldade persistir ou preocupar a família, pode ser apropriado buscar orientação especializada.
As pesquisas permitem concluir que mais irmãos reduzem a motivação escolar?
Não. Um estudo com 111 estudantes de 8 a 10 anos com altas habilidades/superdotação, em Samsun, na Turquia, encontrou diminuição significativa da motivação para escrita à medida que aumentava o número de irmãos (Kara, 2025). O resultado se refere a esse grupo e a essa medida; o resumo não permite generalizar a conclusão para todas as crianças, nem explicar a associação. Além disso, o estudo trata de estudantes mais velhos do que muitas crianças da educação infantil. Para interpretar motivação, o professor deve observar a criança e seu contexto, sem usar o número de irmãos como previsão.
Referências
- Muminova, Z. (2025). Da “participação parental” à “participação da família”: explorando o papel da família no apoio à aprendizagem de crianças pequenas em Wakhan, Tajiquistão (Shifting from “Parental Engagement” to “Family Engagement”: Exploring the Role of Family in Supporting Young Children's Learning in Wakhan, Tajikistan). Early Child Development and Care. Link.
- Kara, D. O., Aydogan, M., Celik Sahin, A., & Iseri Kobal, B. (2025). Um estudo quantitativo sobre as motivações para a leitura e a escrita de crianças com altas habilidades/superdotação de 8 a 10 anos (A Quantitative Study on Reading and Writing Motivations of 8-10 Years Old Gifted Children). Psychology in the Schools. Link.
- Zhu, C., Hong, Y., Dai, X., Chen, B.-B., & Yan, N. (2024). O efeito dos irmãos sobre a teoria da mente de crianças chinesas em idade pré-escolar: considerando o papel dos estilos parentais e das interações com os pares (The Sibling Effect on Theory of Mind among Chinese Preschoolers: Considering the Role of Parenting Style and Peer Interaction). Early Education and Development. Link.
- Fang, S., Bian, X., & Chen, Y. (2024). Intervenção com artes criativas para uma criança primogênita durante a transição para a condição de irmão ou irmã: um estudo de caso chinês (Creative Arts Intervention for a Firstborn Child during the Transition to Siblinghood: A Chinese Case Study). Early Child Development and Care. Link.
- Zago, E. R.-B., & Berthele, R. (2024). Narrativas de crianças trilíngues: um estudo longitudinal do desenvolvimento lexical (Trilingual Children's Narratives: A Longitudinal Study of Lexical Development). International Journal of Multilingualism. Link.
- Dong, Y., Chow, B. W.-Y., Mo, J., & Zheng, H.-Y. (2023). Leitura dialógica com crianças da educação infantil com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH): ler com os pais ou com os irmãos favorece o desenvolvimento da linguagem? (Dialogic Reading with Attention-Deficit-Hyperactivity Disorder (ADHD) Kindergarteners: Does Reading with Parents or Siblings Enhance Their Language Development?). Developmental Psychology. Link.
Se este tema conversa com algo que você observa na sua turma, vale levar as perguntas para uma conversa com a equipe e com as famílias — sempre com curiosidade, respeito e espaço para cada realidade.
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