Indisciplina e alunos com deficiência: quando regras iguais não são equitativas
Estudos recentes associam a deficiência à maior exposição a medidas disciplinares e mostram como regras e práticas escolares podem criar barreiras. Veja o que isso pode significar na rotina docente e como refletir sobre respostas mais equitativas.
Estudos recentes relatam que estudantes com deficiência têm maior risco de receber medidas disciplinares, incluindo suspensões e contenção. A pesquisa também aponta que regras aparentemente iguais podem impor barreiras diferentes e que engajamento, vínculos e práticas de apoio importam. Para o professor, o primeiro passo é examinar se a resposta à conduta considera as necessidades do estudante e as condições criadas pela escola.
Estudantes com deficiência aparecem com maior frequência em algumas medidas disciplinares excludentes do que colegas sem deficiência. Isso muda a pergunta: além de “qual regra foi descumprida?”, vale examinar se a regra, o ambiente e a resposta adulta criaram condições diferentes para participar.
Estudos recentes investigam desde suspensões até contenção física, pertencimento e formação docente. Eles não oferecem uma fórmula única para cada turma, mas ajudam a perceber que uma resposta aparentemente neutra pode não produzir efeitos iguais — e que observar as próprias práticas é parte do trabalho pedagógico.
O que é indisciplina e sobrerrepresentação de alunos com deficiência e por que importa para o professor?
Sobrerrepresentação significa que um grupo aparece em medidas disciplinares em proporção maior do que outros grupos, como estudantes sem deficiência. Na rotina, isso pode se manifestar em encaminhamentos repetidos para fora da sala, suspensões internas ou externas, contenção e outras respostas que afastam o estudante das oportunidades de aprendizagem. O termo não significa, por si só, que todo conflito tenha a mesma causa ou que toda medida seja injustificada; indica um padrão que merece ser examinado.
Para o professor, a questão aparece em decisões concretas: que comportamento foi observado, qual expectativa estava em jogo, se ela foi ensinada com clareza e se o estudante teve condições de atendê-la. Uma regra igual pode impor um esforço maior a alguns alunos quando o comportamento esperado não considera barreiras relacionadas à deficiência. Poed e Fox, por exemplo, argumentam que práticas universais de apoio comportamental podem manter elementos capacitistas quando formulam expectativas que exigem mais de estudantes com deficiência (Poed, 2023).
Também importa distinguir disciplina de exclusão. Uma suspensão dentro da escola pode parecer menos grave do que mandar alguém para casa, mas ainda pode limitar o acesso à aprendizagem. Em um estudo sobre disparidades raciais, as duas modalidades apresentaram disparidades semelhantes, e ambas foram associadas a restrições de oportunidades educacionais (Anyon, 2023). A análise da sobrerrepresentação, portanto, não se resume a contar incidentes: envolve perguntar quem perde tempo de aprendizagem, como as decisões são tomadas e que condições antecedem a resposta.
O que a pesquisa recente mostra
Os estudos apontam que a sobrerrepresentação não se explica apenas pela existência de uma regra disciplinar. Ela também se relaciona à forma como expectativas são definidas, às condições de implementação, aos vínculos escolares e às decisões tomadas diante de comportamentos específicos. Os trabalhos abaixo vêm de contextos distintos e investigam diferentes grupos e medidas; seus resultados ajudam a formular perguntas para a escola, sem estabelecer uma receita universal.
Regras e respostas podem reduzir exclusões sem eliminar desigualdades
No Arkansas, Anderson e McKenzie avaliaram limites estaduais à suspensão e à expulsão do jardim de infância ao 5º ano. A política reduziu o risco geral dessas medidas, mas os benefícios não foram distribuídos igualmente: estudantes sem deficiência tiveram reduções maiores no risco do que estudantes com deficiência. A política também incluía exceções sujeitas a interpretação subjetiva (Anderson, 2024). O achado chama atenção para uma tensão importante: limitar uma medida pode diminuir sua frequência sem corrigir, por si só, a diferença entre grupos.
Um informe do Center for Learner Equity, baseado em dados da coleta de direitos civis dos Estados Unidos de 2020–2021, relata que suspensões, contenções físicas, isolamento e encaminhamentos à polícia continuavam diminuindo. Ainda assim, o informe identifica aplicação excessiva, desigual e preocupante de medidas disciplinares a estudantes com deficiência, tanto em escolas charter quanto em escolas públicas tradicionais (Center for Learner Equity, 2024). A tendência de queda e a persistência da desigualdade aparecem juntas, não como conclusões incompatíveis.
Os resultados também mostram por que é preciso observar como uma política é colocada em prática. Em vez de perguntar apenas se existe uma regra restritiva, a equipe pode verificar quais exceções são usadas, por quem e com que frequência. Essa é uma aplicação possível dos achados; os estudos citados não prescrevem um modelo de auditoria para escolas brasileiras.
Pertencimento, engajamento e vínculos não têm relações simples com a disciplina
Com dados de estudantes do ensino médio dos Estados Unidos, Cunningham e colegas encontraram maior risco de suspensão interna entre estudantes que recebiam atendimento de educação especial do que entre colegas da educação regular. Níveis mais altos de engajamento escolar estiveram associados a menor risco de suspensão interna, independentemente do atendimento de educação especial. Já a relação entre pertencimento e suspensão foi diferente conforme o grupo: mais pertencimento se associou a mais suspensões entre estudantes atendidos pela educação especial, enquanto o inverso ocorreu entre os demais (Cunningham, 2026).
Esse resultado não autoriza concluir que pertencimento cause suspensão. Os próprios autores indicam que são necessárias pesquisas adicionais para compreender essa relação singular. Para o professor, o ponto útil é evitar interpretações automáticas: uma medida geral de pertencimento não explica sozinha o que acontece com cada estudante, e engajamento e pertencimento não devem ser tratados como sinônimos.
Em Ontário, Sanders investigou as experiências de estudantes suspensos ou expulsos e de profissionais. Os relatos dos estudantes incluíram adversidades como violência na escola e na comunidade, racismo sistêmico e desigualdade. A importância dos vínculos apareceu nos dados, mas três fatores foram identificados como obstáculos: adversidades não reconhecidas, clima de medo e impacto desproporcional da limitação de recursos. O estudo defende respostas culturalmente sensíveis e informadas pelo trauma, que considerem as adversidades e os efeitos da disciplina ao longo da trajetória escolar (Sanders, 2024).
O desenho das expectativas e a implementação também são parte do problema
Poed e Fox analisaram práticas de apoio comportamental positivo em toda a escola na Austrália. As autoras argumentam que definir e ensinar comportamentos esperados, embora faça parte da abordagem, não basta se as condições criadas pela escola continuam funcionando como barreiras. A análise de matrizes australianas identificou formulações de expectativas que podem exigir esforço maior de estudantes com deficiência para atingir o padrão. O estudo apresenta sugestões para reconhecer e remover esse capacitismo das práticas de Nível 1 (Poed, 2023).
Essa discussão desloca o foco de “o aluno não correspondeu” para uma pergunta complementar: o que a expectativa exige e como foi ensinada? Se a turma deve demonstrar determinado comportamento, a equipe pode verificar se a forma de demonstrá-lo está acessível a diferentes estudantes. Essa reflexão é uma aplicação para o cotidiano, não a afirmação de que toda expectativa escolar seja discriminatória.
Outro conjunto de estudos trata de mudanças na ação de adultos. Em Illinois, uma avaliação de formação virtual para profissionais da pré-escola encontrou melhora nas atitudes informadas pelo trauma, redução do estresse percebido e aumento de práticas de autocuidado, segundo autorrelatos. As estratégias pró-sociais de manejo de sala também melhoraram no acompanhamento de três meses. Embora o risco de expulsão tenha aumentado após a formação, as práticas disciplinares excludentes e as expulsões relatadas diminuíram no acompanhamento (Shenberger, 2026). A combinação de resultados reforça que medidas diferentes podem seguir trajetórias distintas.
Em uma escola de educação alternativa dos Estados Unidos, um estudo de coaching com docentes do 5º e do 6º ano examinou estratégias voltadas a viés racial, manejo e relações com estudantes negros. Durante as fases de intervenção, um professor melhorou a comunicação positiva e manteve baixa a negativa; o outro apresentou mudanças menores e mais variáveis. Professores e estudantes de ambas as turmas relataram melhora nas relações, enquanto os resultados disciplinares informados pelos professores foram variáveis (Mossing, 2025). O trabalho não avalia diretamente uma intervenção sobre deficiência, mas contribui para refletir sobre vieses e relações na disciplina.
Suspensão interna e contenção não são respostas neutras
Embora a suspensão interna mantenha o estudante dentro do prédio, isso não garante acesso às mesmas oportunidades de aprendizagem. Anyon e colegas encontraram disparidades raciais semelhantes nas suspensões dentro e fora da escola, com base em dados de um grande distrito escolar. Os autores apontam limites de políticas neutras em relação à raça e destacam a necessidade provável de mais recursos para iniciativas de mudança da cultura escolar explicitamente antirracistas (Anyon, 2023). O estudo não analisa especificamente a deficiência como foco principal, mas ajuda a evitar que uma modalidade de exclusão seja considerada equitativa apenas por ocorrer dentro do prédio.
A contenção física é apresentada por Cramer e colegas como procedimento de emergência que restringe movimentos e é usado quando há ameaça iminente de dano físico ao próprio estudante ou a outras pessoas. O resumo informa que estudantes com deficiência são submetidos a esses procedimentos sete vezes mais do que estudantes com desenvolvimento típico. Em levantamento com 180 docentes da pré-escola ao 12º ano, as experiências e políticas distritais variaram; a maioria afirmou seguir a política do distrito, mas docentes com níveis mais elevados de escolaridade tinham menor probabilidade de segui-la (Cramer, 2024).
O estudo de Tefera e colegas, realizado em um distrito suburbano, examinou como profissionais interpretaram e responderam a notificações sobre disparidades raciais na educação especial e na disciplina. Os autores encontraram influência de contextos históricos, espaciais e socioculturais. Também apontaram consequências de imagens prejudicadas de jovens com múltiplas marginalizações e famílias, além de limitações de respostas simbólicas e predominantemente cegas à cor (Tefera, 2023). Assim, registrar um problema ou responder a uma notificação não garante que as condições que o produzem sejam transformadas.
Os estudos lado a lado
Os estudos diferem em foco, método e contexto, mas permitem comparar que tipo de questão cada pesquisa ilumina. A tabela resume somente informações presentes nos resumos disponibilizados.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Cunningham (2026) | Relações entre educação especial, suspensão interna, pertencimento e engajamento. | Maior risco de suspensão interna para estudantes atendidos pela educação especial; engajamento mais alto associado a risco menor; relação entre pertencimento e suspensão varia entre grupos. | Estados Unidos; ensino médio; dados do estudo longitudinal de 2009. |
| Anderson (2024) | Efeitos de limites estaduais às medidas excludentes no ensino fundamental. | A política reduziu o risco de suspensão ou expulsão, mas as reduções foram maiores para estudantes sem deficiência, entre outros grupos. | Arkansas, Estados Unidos; jardim de infância ao 5º ano. |
| Cramer (2024) | Experiências docentes com contenção e políticas distritais. | Variação nas experiências e políticas; maioria relatou seguir a política; escolaridade mais elevada associou-se a menor probabilidade de adesão. | Estados Unidos; docentes da pré-escola ao 12º ano; 180 participantes. |
| Sanders (2024) | Experiências de estudantes suspensos ou expulsos e vínculos escolares. | Identificou adversidades, importância dos vínculos e fatores que dificultam a conexão: adversidades não reconhecidas, medo e recursos limitados. | Ontário; estudantes do ensino médio e profissionais; 15 estudantes e 16 profissionais. |
| Center for Learner Equity (2024) | Disciplina e envolvimento policial com estudantes com deficiência. | Relata queda de medidas, mas também aplicação excessiva e desigual de práticas disciplinares. | Estados Unidos; dados de 2020–2021; escolas charter e públicas tradicionais. |
| Tefera (2023) | Interpretações e respostas a notificações sobre disparidades raciais. | Contextos históricos, espaciais e socioculturais influenciaram as respostas; identifica limites de respostas simbólicas e cegas à cor. | Distrito escolar suburbano; país não especificado no resumo. |
| Anyon (2023) | Disparidades raciais entre suspensão interna e externa. | Encontrou disparidades raciais semelhantes nas duas modalidades e limites em políticas neutras quanto à raça. | Estados Unidos; grande distrito escolar. |
| Poed (2023) | Capacitismo em práticas universais de apoio comportamental positivo. | Identifica barreiras e expectativas que podem exigir mais esforço de estudantes com deficiência. | Austrália; análise de matrizes de apoio comportamental de Nível 1. |
| Mossing (2025) | Coaching docente voltado a viés implícito e relações com estudantes negros. | Melhoras relacionais relatadas; mudanças na comunicação e nos resultados disciplinares variaram entre docentes. | Estados Unidos; escola alternativa, turmas do 5º e 6º ano; dois docentes e seis estudantes negros. |
| Shenberger (2026) | Avaliação de formação para reduzir exclusão na pré-escola. | Melhora de atitudes informadas pelo trauma e práticas pró-sociais; práticas excludentes relatadas diminuíram no acompanhamento. | Illinois, Estados Unidos; educação infantil; 41 profissionais. |
O que os estudos têm em comum e onde divergem?
Um ponto em comum é que contar com uma política ou expectativa não resolve automaticamente a desigualdade. No Arkansas, os limites à exclusão reduziram suspensões e expulsões, mas com ganhos menores para estudantes com deficiência. Na Austrália, formular comportamentos esperados não bastou quando as condições escolares continuavam criando barreiras. E, no estudo sobre notificações, respostas predominantemente simbólicas não enfrentaram as estruturas que sustentavam disparidades (Anderson, 2024; Poed, 2023; Tefera, 2023).
Os trabalhos também diferem no que chamam atenção. Alguns acompanham medidas disciplinares e subgrupos; outros investigam experiências, relações, políticas ou formação profissional. As populações e os métodos não são intercambiáveis. Por exemplo, os resultados de uma intervenção com dois docentes em uma escola alternativa não podem ser generalizados para todos os professores, assim como relatos de estudantes suspensos em Ontário não descrevem todas as experiências de alunos com deficiência.
Há tensões que permanecem abertas. A relação encontrada entre pertencimento e suspensão variou entre estudantes atendidos e não atendidos pela educação especial, mas os autores pedem mais pesquisa para compreendê-la. A formação de Illinois teve resultados favoráveis em alguns indicadores e aumento do risco de expulsão após a formação, junto à redução posterior de práticas excludentes relatadas. Esses resultados pedem acompanhamento atento, não uma leitura simplificada de “funcionou” ou “não funcionou”.
Outra questão é a interseção entre deficiência, raça, condições socioeconômicas e ambiente. Os resumos mostram que grupos podem ser afetados de maneira diferente, mas não oferecem uma explicação única aplicável a qualquer escola. É necessário analisar os registros e as condições locais, sem transformar padrões coletivos em rótulos sobre um estudante.
O que isso significa para a sala de aula?
Os estudos não determinam uma lista universal de condutas docentes. As propostas abaixo são aplicações práticas para reflexão, inspiradas nas questões investigadas; devem ser adaptadas às necessidades do estudante, às regras da escola e às normas brasileiras.
1. Descreva o comportamento antes de interpretar a intenção
Uma aplicação possível é separar o que foi observado da explicação que se atribui ao ato. Em vez de registrar apenas “desafiou a professora”, descreva a situação concreta: interrompeu a fala, saiu do lugar ou não iniciou a tarefa após a instrução. Imagine uma turma em que um estudante demora a começar: a equipe pode conferir se a orientação foi compreendida e acessível antes de concluir que houve recusa deliberada. Isso não elimina limites; torna a decisão mais verificável.
2. Confira se a expectativa foi ensinada e é acessível
Como aplicação das questões levantadas por Poed e Fox, examine se a regra foi explicitada e se há mais de uma maneira adequada de demonstrar o comportamento esperado. Imagine uma atividade em que se espera que todos aguardem em silêncio: a equipe pode discutir se a expectativa é necessária naquele momento e como o estudante pode participar sem que uma característica ligada à deficiência seja tratada automaticamente como infração. O objetivo é identificar barreiras, não presumir que toda dificuldade decorra delas.
3. Observe quem perde oportunidades de aprendizagem
Uma aplicação possível é acompanhar quando e por quanto tempo estudantes são retirados de atividades, inclusive por suspensão dentro da escola. Imagine dois alunos encaminhados para espaços diferentes após conflitos: a equipe pode verificar se ambos tiveram acesso ao conteúdo e a uma oportunidade de retomar a atividade. A pesquisa sobre modalidades de suspensão mostra que permanecer no prédio não significa necessariamente manter as mesmas oportunidades de aprendizagem (Anyon, 2023).
4. Use registros para perceber padrões, não para rotular alunos
A escola pode revisar seus próprios registros por tipo de medida e grupo de estudantes, respeitando a privacidade. Como aplicação, imagine que uma equipe nota encaminhamentos frequentes de estudantes com deficiência em determinadas aulas. A pergunta não precisa ser “quem é o problema?”, mas se há padrões de contexto, regra ou resposta que merecem revisão. Os estudos sobre políticas e disparidades mostram que reduções gerais podem coexistir com diferenças persistentes entre grupos (Anderson, 2024; Center for Learner Equity, 2024).
5. Converse sobre vínculos e contexto sem presumir uma história
Uma aplicação inspirada no estudo de Sanders é abrir espaço para escutar o estudante e buscar compreender o que afeta sua participação, sem exigir que ele revele experiências pessoais. Imagine um aluno que passa a evitar uma atividade coletiva: o professor pode perguntar, de modo respeitoso, o que tornaria a participação possível e articular apoio com a equipe escolar. A pesquisa destaca a importância dos vínculos e a possibilidade de adversidades não reconhecidas, mas não autoriza atribuir uma causa específica ao comportamento de um aluno.
6. Trate medidas de emergência com clareza e responsabilidade
A contenção física, conforme descrita por Cramer e colegas, envolve restringir movimentos e é destinada a situações de ameaça iminente de dano físico. Como aplicação, o professor pode conhecer a política vigente da instituição, saber a quem recorrer e discutir como as responsabilidades e orientações são compreendidas pela equipe. Isso não é uma autorização para improvisar contenção: o estudo aponta variações em políticas e experiências, o que torna essencial seguir os procedimentos locais aplicáveis.
7. Reflita sobre vieses e peça apoio para revisar práticas
Uma aplicação possível é conversar com colegas ou coordenação sobre como interpreta comportamentos semelhantes em estudantes diferentes, com exemplos observáveis e sem acusações pessoais. Imagine que a equipe percebe respostas mais rápidas de retirada para determinados alunos: pode revisar os registros, discutir alternativas e buscar formação ou acompanhamento. O coaching estudado por Mossing e colegas teve resultados relacionais positivos relatados, mas os efeitos variaram entre docentes e os resultados disciplinares também foram variáveis (Mossing, 2025).
O que muda no contexto brasileiro?
Os estudos reunidos vêm majoritariamente dos Estados Unidos e também incluem pesquisas de Ontário e da Austrália. Eles tratam de regras, sistemas de dados, etapas escolares e programas próprios desses lugares. Por isso, termos como suspensão, expulsão, escola charter, notificações estaduais e os programas mencionados não devem ser transportados diretamente para a realidade brasileira como se fossem normas ou estruturas daqui.
O que pode ser aproveitado é a pergunta de fundo: estudantes diferentes estão recebendo respostas diferentes diante de situações semelhantes, e quais condições ajudam a explicar isso? Uma equipe brasileira pode adaptar essa reflexão aos registros e procedimentos da própria escola, sem presumir que os resultados observados em outro país se repetirão aqui. É importante considerar também as normas e orientações vigentes no sistema de ensino local e buscar apoio da gestão e dos profissionais responsáveis pela inclusão.
Os trabalhos sobre raça e deficiência reforçam a necessidade de não tratar grupos como homogêneos. Estudos realizados nos Estados Unidos e no Canadá discutem contextos específicos de racismo, desigualdade e políticas. No Brasil, a análise deve partir das experiências e dos dados locais, sem copiar explicações ou soluções estrangeiras. A transferência responsável consiste em usar as pesquisas para formular boas perguntas e, depois, verificar o que acontece na escola concreta.
Também é prudente evitar prometer que uma formação breve ou uma nova regra resolverá a sobrerrepresentação. A avaliação de Illinois encontrou mudanças em certos indicadores e resultados diferentes para o risco e para as práticas de exclusão. O estudo do Arkansas registrou redução geral, mas diferenças entre grupos persistiram. Para a escola brasileira, isso sugere acompanhar mais de um indicador e considerar a qualidade da implementação, sempre como hipótese de trabalho a ser testada no contexto local.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de dez estudos recentes, não na leitura integral dos artigos. Os resumos apresentam perguntas, contextos e resultados principais, mas não permitem examinar em profundidade todos os detalhes metodológicos, instrumentos, definições ou análises. Por isso, as conclusões foram limitadas ao que cada resumo relata, sem acrescentar números, explicações ou recomendações que não estejam nas fontes disponíveis.
Ficam em aberto, entre outras, perguntas sobre como as relações observadas se desenvolvem ao longo do tempo, quais condições explicam diferenças entre escolas e como resultados de outros países se aplicariam a diferentes redes brasileiras. Também é importante saber como estudantes e famílias compreendem as medidas e que efeitos cada resposta tem sobre participação e aprendizagem. Alguns resumos apontam explicitamente a necessidade de pesquisas adicionais, como o estudo sobre pertencimento e suspensão.
Faz sentido ler o estudo completo quando a equipe pretende adotar uma intervenção específica, avaliar a qualidade das evidências, compreender melhor o método ou usar os resultados para orientar uma decisão institucional. Em especial, políticas de contenção, medidas excludentes e formações devem ser analisadas com atenção ao contexto, às normas aplicáveis e às características dos estudantes envolvidos.
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Perguntas frequentes sobre indisciplina e deficiência
O que significa sobrerrepresentação de estudantes com deficiência na disciplina escolar?
Significa que estudantes com deficiência aparecem em medidas disciplinares em proporção maior do que estudantes sem deficiência. Os estudos citados relatam diferenças em medidas como suspensão interna, suspensão ou expulsão e contenção física. Esse padrão não explica automaticamente cada ocorrência individual, nem permite concluir que todo episódio tenha a mesma causa. Ele indica que a escola pode examinar seus dados, suas regras e a forma como as decisões são aplicadas. O objetivo é identificar diferenças persistentes e compreender as condições que podem estar relacionadas a elas.
Uma regra igual para todos pode ser injusta?
Sim, uma regra formulada da mesma maneira para todos pode impor barreiras diferentes. Poed e Fox argumentam que algumas expectativas de comportamento podem exigir esforço maior de estudantes com deficiência, mesmo em práticas pensadas para toda a escola. Isso não quer dizer que toda regra seja inadequada. Uma aplicação útil é verificar se a expectativa é necessária, se foi ensinada claramente e se o modo de demonstrá-la é acessível. A pesquisa recomenda atenção às condições criadas pela escola, além da definição do comportamento esperado.
A suspensão dentro da escola é sempre uma alternativa mais equitativa?
Não é possível concluir isso apenas pelo fato de o estudante permanecer no prédio. O estudo de Anyon e colegas encontrou disparidades raciais semelhantes nas suspensões dentro e fora da escola e aponta que as duas modalidades podem limitar oportunidades de aprendizagem. Esse trabalho não trata a deficiência como foco principal, mas ajuda a questionar a ideia de que uma suspensão interna seja automaticamente equitativa. Para avaliar uma resposta, a escola pode considerar o que o estudante deixou de aprender, como se mantém o vínculo e se houve oportunidade de retornar às atividades.
O que posso fazer antes de encaminhar um aluno para fora da sala?
Uma aplicação possível é descrever o comportamento observado, conferir se a instrução estava clara e verificar se a expectativa era acessível naquele momento. Também vale considerar se o estudante compreendeu o que se esperava e se há apoio disponível para retomar a atividade. Essas ações não substituem os procedimentos da escola nem eliminam a necessidade de proteger a segurança. Elas ajudam a evitar interpretações automáticas e a registrar com mais precisão o que ocorreu. Os estudos apontam que regras, condições e respostas podem contribuir para padrões desiguais.
As pesquisas provam que formação docente reduz as medidas disciplinares?
Os resultados não permitem uma resposta universal. Na avaliação de uma formação para profissionais da pré-escola em Illinois, atitudes informadas pelo trauma melhoraram e práticas disciplinares excludentes relatadas diminuíram no acompanhamento, embora o risco de expulsão tenha aumentado após a formação. Em um estudo de coaching com docentes do 5º e do 6º ano, as melhoras nas relações foram relatadas, mas a comunicação e os resultados disciplinares variaram entre professores. As evidências sugerem possibilidades, não garantias; contexto e implementação importam.
Esses resultados podem ser aplicados diretamente às escolas brasileiras?
Não de forma automática. Os estudos vêm de diferentes contextos, sobretudo dos Estados Unidos, além de Ontário e da Austrália, com políticas e sistemas escolares próprios. Uma aplicação responsável é usar as pesquisas para levantar perguntas sobre os registros, as regras e as experiências da escola brasileira, e não importar programas ou normas estrangeiras como se fossem nacionais. A equipe precisa considerar as regras vigentes em sua rede e as necessidades dos estudantes. Para decisões institucionais importantes, pode ser necessário consultar os estudos completos e buscar orientação especializada.
Referências
As referências abaixo correspondem aos estudos citados no texto; os títulos em inglês identificam os trabalhos originais.
- Cunningham, M. C., McDermott, L., & Cruz, R. A. (2026). Eu ainda pertenço? A relação entre educação especial, suspensão interna na escola, sentimento de pertencimento e engajamento (Do I Belong Yet? The Relationship between Special Education, In-School Suspension, Belonging, and Engagement). Remedial and Special Education. Link.
- Anderson, K. P., & McKenzie, S. (2024). Desproporcionalidade na aplicação de medidas disciplinares e reforma de políticas no Arkansas: efeitos dos limites estaduais às medidas disciplinares excludentes no ensino fundamental (Discipline Disproportionality and Policy Reform in Arkansas: Effects of State-Wide Limits on Exclusionary Discipline in Elementary School). Journal of Education for Students Placed at Risk. Link.
- Cramer, A. M., Barnard-Brak, L., Watkins, L., & Fedewa, M. P. (2024). Experiências de professores com episódios de contenção e políticas dos distritos escolares sobre o uso da contenção com crianças com deficiência (Teacher Experiences of Restraint Events and School District Policies on the Use of Restraint with Children with Disabilities). Behavioral Disorders. Link.
- Sanders, J. E. (2024). “Acho que os professores realmente deveriam se conectar mais com os alunos”: a influência do racismo sistêmico, da desigualdade e da violência na escola e na comunidade sobre os vínculos de estudantes do ensino médio suspensos ou expulsos (“I Think the Teachers Should Really Connect More with the Students”: The Influence of Systemic Racism, Inequity, School, and Community Violence on Connection for High School Students Who Are Suspended or Expelled). Youth & Society. Link.
- Center for Learner Equity. (2024). Estudantes com deficiência, disciplina escolar e acionamento das autoridades policiais. Fatos rápidos 4 (Students with Disabilities, School Discipline and Engagement of Law Enforcement. Fast Facts 4). Center for Learner Equity. Link.
- Tefera, A. A., Artiles, A. J., Kramarczuk Voulgarides, C., Aylward, A., & Alvarado, S. (2023). As consequências das notificações de desproporcionalidade: situando as interseções entre deficiência e raça em contextos históricos, espaciais e socioculturais (The Aftermath of Disproportionality Citations: Situating Disability-Race Intersections in Historical, Spatial, and Sociocultural Contexts). American Educational Research Journal. Link.
- Anyon, Y., Wiley, K., Samimi, C., & Trujillo, M. (2023). Retirados da sala ou mandados para casa: compreendendo as disparidades raciais entre tipos de suspensão a partir das perspectivas da Teoria Crítica da Raça e da QuantCrit (Sent out or Sent Home: Understanding Racial Disparities across Suspension Types from Critical Race Theory and Quantcrit Perspectives). Race, Ethnicity and Education. Link.
- Poed, S., & Fox, R. A. (2023). Identificando e removendo o capacitismo das práticas de apoio comportamental positivo em toda a escola no Nível 1 (Identifying and Removing Ableism from Tier 1 School-Wide Positive Behaviour Support Practices). International Journal of Developmental Disabilities. Link.
- Mossing, K. W., Collins, T. A., Newman, D. S., King, K. A., & Pollard, J. F. (2025). Coaching de professores com consciência racial: combatendo o viés implícito e melhorando a relação entre professores e estudantes negros (Race-Conscious Teacher Coaching: Disrupting Implicit Bias and Improving Teachers' Relationships with Black Students). Journal of Educational and Psychological Consultation. Link.
- Shenberger, E., & Zinsser, K. (2026). Uma avaliação de “Prevenindo a expulsão na pré-escola”: formação docente baseada na terapia cognitivo-comportamental e nos pontos fortes para reduzir práticas disciplinares excludentes na primeira infância (An Evaluation of “Preventing Expulsion in Preschool”: A Cognitive-Behavioral, Strengths-Based Teacher Training to Reduce Early Childhood Exclusionary Discipline). Infant Mental Health Journal: Infancy and Early Childhood. Link.
Se este tema conversa com desafios da sua escola, escolha um registro ou uma regra para olhar com mais atenção e convide a equipe a refletir junto: pequenas perguntas bem feitas podem abrir caminhos mais equitativos.
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