Gastos e receitas das escolas públicas: dinheiro maior nem sempre reduz desigualdades
Pesquisas recentes mostram que gastos públicos podem ampliar matrículas, mas seus efeitos variam conforme o contexto. Entenda o que esses achados permitem — e não permitem — concluir sobre a realidade da escola brasileira.
É comum ouvir que, se a escola pública recebesse mais dinheiro, os problemas de funcionamento e aprendizagem estariam resolvidos. A ideia parece intuitiva: mais recursos significariam melhores condições para ensinar. Mas as pesquisas recentes sobre gastos e receitas escolares desenham um quadro mais complexo: o financiamento pode estar relacionado a mais matrículas, enquanto desigualdades entre grupos e regiões continuam presentes.
Para quem está em sala de aula, essa discussão não é apenas sobre números de orçamento. Ela ajuda a entender por que escolas e redes enfrentam condições diferentes, por que buscar recursos pode consumir tempo da gestão e por que “gastar mais” não responde, sozinho, à pergunta sobre quem se beneficia. Os estudos a seguir vêm de contextos diversos; servem para formular boas perguntas, não para presumir que a realidade brasileira seja igual à de outros países.
O que são gastos e receitas das escolas públicas e por que isso importa para o professor?
Receitas são os recursos que chegam ao sistema ou à rede; despesas são os valores destinados ao funcionamento, a diferentes serviços e a investimentos. Em termos de rotina escolar, essa distinção aparece na manutenção do prédio, na disponibilidade de materiais, na organização de serviços e nas decisões que afetam as condições de trabalho. Nem todo recurso é recebido ou administrado diretamente pela escola: parte dos dados financeiros pode estar registrada no nível da rede ou de outra agência pública.
Essa diferença de escala importa. Um relatório do sistema público dos Estados Unidos, por exemplo, organiza informações financeiras por rede escolar e separa receitas por fonte, despesas correntes por função e objeto e gastos de capital. Também inclui receitas e despesas por aluno e recursos federais de assistência relacionados à COVID-19 (Cornman, 2024). Isso mostra que “o orçamento da escola” pode reunir categorias distintas e não deve ser tratado como uma única quantia disponível para qualquer finalidade.
Para o professor, compreender o tema não significa assumir a função de gestor financeiro. Significa conseguir relacionar decisões e condições materiais ao trabalho pedagógico, conversar com a equipe com mais precisão e ajudar estudantes a pensar sobre escolhas coletivas. Um gasto maior não garante automaticamente um resultado melhor; é preciso perguntar que recurso foi destinado, a quem chegou e que problema pretendia enfrentar.
O que a pesquisa recente mostra sobre gastos e receitas escolares?
Os estudos selecionados apontam três ideias centrais: a forma de organizar e registrar as contas faz diferença; recursos financeiros podem se relacionar a resultados, mas os efeitos variam; e ampliar a igualdade segundo renda não elimina necessariamente desigualdades raciais ou territoriais. As pesquisas são de diferentes países e adotam perguntas e métodos distintos, portanto seus resultados não formam uma única comparação direta.
As contas escolares têm várias camadas — e o dinheiro pode disputar o tempo da gestão
O relatório de Cornman e colegas apresenta dados de receitas e despesas das redes públicas de ensino fundamental e médio dos Estados Unidos no exercício fiscal de 2022. Em vez de tratar financiamento como um total único, reúne categorias como receitas por fonte, despesas correntes por função e objeto, investimentos de capital e valores relacionados à assistência federal para a COVID-19. O propósito declarado é apresentar novos dados descritivos e mostrar a amplitude de informações disponíveis, sem enfatizar uma questão específica (Cornman, 2024).
Esse recorte ajuda a formular perguntas úteis para a escola: estamos falando de recursos que entram, de despesas do cotidiano ou de investimento? O valor é da unidade escolar ou da rede? Que tipo de gasto está sendo considerado? A pesquisa não responde a essas perguntas para o Brasil, mas evidencia por que comparações financeiras precisam especificar a categoria e a escala analisadas.
Uma perspectiva diferente vem de diretores de escolas de ensino médio de uma grande cidade da Turquia. Em entrevistas com 16 gestores de contextos socioeconômicos diversos, o estudo encontrou que a busca por recursos os afetava negativamente e reduzia o tempo disponível para suas atribuições principais. O contexto socioeconômico da escola também tinha papel importante na obtenção de recursos. Entre as propostas dos entrevistados estava permitir que diretores gerassem receitas de fontes não governamentais para despesas de funcionamento e reforma, sem repassar essa receita ao governo central (Sipahioglu, 2023).
Esse resultado não deve ser lido como prova de que a mesma situação ocorre no Brasil, nem como recomendação automática para transferir responsabilidades financeiras à direção. Ele chama atenção para uma tensão concreta: buscar recursos pode responder a necessidades, mas também competir com o tempo de gestão. A diferença entre a estrutura institucional turca e a brasileira precisa ser considerada antes de transportar qualquer proposta.
Mais gasto pode estar associado a mais matrícula, mas o efeito depende do contexto
Dois estudos de Beri e colaboradores analisam gastos públicos e matrícula em países de baixa e média renda, mas não fazem exatamente a mesma pergunta. Um estudo usa dados de 74 países entre 1990 e 2021 para investigar se a relação entre gastos públicos, matrícula e abandono varia entre países com níveis baixos, medianos e altos desses indicadores. Seus resultados mostram que os gastos são significativos para a matrícula na educação infantil em países com taxas medianas e altas, mas não nos países com as menores taxas. Para a matrícula no ensino fundamental, os gastos influenciam o resultado em todas as categorias de taxas de matrícula; já para os países com as menores taxas de abandono, o efeito dos gastos não é significativo (Beri, 2025).
O outro estudo acompanha países de baixa e média renda entre 1990 e 2020 e examina a relação de longo prazo entre investimento público e matrícula no ensino primário. Os autores relatam impacto positivo e significativo dos gastos na matrícula na amostra de países de baixa e média renda e em subgrupos de países de baixa renda, renda média-baixa e África Subsaariana. Os efeitos persistem em especificações não lineares do modelo. O trabalho também destaca a importância de financiamento contínuo e eficiente para as metas de matrícula (Beri, 2025).
Em conjunto, os resultados sustentam uma leitura cuidadosa: há evidência de relação entre recursos públicos e matrícula, mas ela não se apresenta de modo uniforme para todos os indicadores e grupos analisados. Matrícula, abandono e qualidade da experiência escolar são dimensões diferentes. Esses estudos não autorizam concluir que qualquer aumento de despesa produzirá o mesmo efeito em todas as escolas, nem medem diretamente o que acontece em uma sala de aula brasileira.
Reduzir uma desigualdade não garante reduzir todas
Uma análise de reformas no financiamento escolar nos Estados Unidos, ampliada até 2022, investigou efeitos sobre o financiamento segundo renda, raça e etnia. Os autores encontraram que as reformas aumentaram a igualdade no financiamento segundo a renda, mas trouxeram, no máximo, benefícios modestos para a igualdade racial e étnica. Os efeitos sobre a desigualdade racial foram maiores em estados com baixa desigualdade inicial e baixa segregação por raça e renda. A conclusão destaca os limites de reformas estaduais baseadas em classe social quando o objetivo é enfrentar desigualdades raciais e étnicas (Rauscher, 2026).
Esse achado é importante porque evita tratar “equidade” como uma medida única. Uma política pode melhorar a distribuição de recursos em relação à renda e, ao mesmo tempo, não resolver diferenças associadas a raça ou etnia. O estudo não oferece uma regra pronta para o Brasil, mas sugere que avaliar uma política exige perguntar qual desigualdade ela pretende enfrentar e se seus efeitos alcançam os grupos em questão.
Na Türkiye, uma pesquisa examinou desigualdades regionais considerando escolaridade, distribuição de renda e gastos com educação. Entre 2008 e 2020, a média de anos de escolaridade aumentou em todas as regiões, e medidas de desigualdade intrarregional diminuíram, embora diferenças significativas entre regiões persistissem. O estudo também encontrou predomínio desproporcional do grupo de renda mais alta na distribuição dos gastos com educação e na participação da educação nas despesas de consumo. A diferença de gastos entre os quintis de renda mais alto e mais baixo cresceu junto com a escolaridade (Gultekin, 2025).
Os dois trabalhos não medem a mesma coisa: um estima efeitos de reformas sobre financiamento nos Estados Unidos; o outro examina desigualdades educacionais regionais e gastos na Türkiye. Ainda assim, ambos mostram por que médias gerais podem ocultar disparidades. Uma melhoria agregada não significa que todas as regiões, grupos ou famílias tenham passado a contar com condições equivalentes.
O que os estudos sobre gastos escolares mostram lado a lado?
A tabela resume as perguntas e os resultados relatados nos resumos. Os contextos indicam onde cada pesquisa foi realizada; não são equivalentes ao cenário brasileiro.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Cornman, 2024 | Receitas e despesas de redes públicas de ensino fundamental e médio. | Organiza dados por fonte de receita, tipo de despesa, investimento de capital e valores por aluno; relatório descritivo. | Redes dos Estados Unidos; exercício fiscal de 2022. |
| Sipahioglu, 2023 | Opiniões de diretores sobre financiamento escolar. | A busca de recursos afetava negativamente gestores e seu tempo; o contexto socioeconômico influenciava a obtenção de recursos. | 16 diretores de escolas de ensino médio em uma cidade da Türkiye. |
| Rauscher, 2026 | Efeitos de reformas de financiamento segundo renda, raça e etnia. | As reformas melhoraram a igualdade por renda, mas trouxeram benefícios raciais e étnicos modestos, no máximo. | Estados Unidos; análise ampliada até 2022. |
| Beri, 2025 — gastos e resultados | Relação entre gastos públicos, matrícula e abandono em diferentes níveis desses indicadores. | Os efeitos variam conforme a categoria; gastos influenciaram a matrícula no ensino fundamental em todas as categorias estudadas. | 74 países de baixa e média renda; 1990–2021. |
| Gultekin, 2025 | Desigualdade regional, escolaridade, renda e gastos com educação. | A escolaridade cresceu em todas as regiões, mas persistiram diferenças regionais e disparidades nos gastos por renda. | Türkiye; 2008–2020. |
| Beri, 2025 — matrícula primária | Relação de longo prazo entre gastos públicos e matrícula no ensino primário. | Encontrou impacto positivo e significativo dos gastos na matrícula nos grupos de países analisados. | Países de baixa e média renda; 1990–2020. |
O que há em comum e o que diverge entre as pesquisas?
As pesquisas convergem em um ponto: financiamento escolar não deve ser reduzido à pergunta “quanto se gastou?”. É preciso saber em que nível as contas foram registradas, que tipo de recurso foi considerado, qual resultado está em análise e quem se beneficia. Os trabalhos sobre matrícula encontram relações relevantes entre gasto e acesso, mas mostram variações conforme o indicador e o grupo de países. Os estudos sobre desigualdade, por sua vez, indicam que avanços em uma dimensão podem coexistir com disparidades em outras.
As diferenças entre os estudos são importantes. Cornman apresenta dados financeiros descritivos, enquanto Beri estima relações entre gastos e matrícula. Sipahioglu investiga experiências de gestores por meio de entrevistas. Rauscher examina reformas e desigualdades de financiamento, e Gultekin analisa diferenças regionais na Türkiye. Como perguntas, métodos, períodos e contextos variam, não faz sentido somar os resultados como se fossem uma única avaliação de uma política universal.
Também permanecem questões abertas: como diferentes tipos de despesa se relacionam com as condições concretas de ensino? Como os recursos se distribuem dentro de cada rede? Que fatores explicam por que um mesmo tipo de gasto está associado a resultados diferentes? Os resumos disponíveis não respondem a todas essas perguntas. O conjunto, porém, ajuda a substituir uma conclusão simplista por uma análise mais precisa: recursos importam, mas sua distribuição, seu uso e o resultado observado também importam.
Como levar o tema de gastos e receitas para a sala de aula?
Os exemplos abaixo são sugestões de aplicação pedagógica, não resultados encontrados pelas pesquisas. O professor pode ajustá-los à idade dos estudantes, ao currículo e aos recursos disponíveis, sem transformar a turma em responsável por decisões orçamentárias da escola.
1. Separar receita, despesa e investimento
Uma forma de usar isso em sala é propor uma situação hipotética: uma escola recebeu recursos e precisa distinguir valores destinados a despesas de funcionamento daqueles reservados a uma melhoria estrutural. Os estudantes podem classificar exemplos inventados em “entrada de recursos”, “despesa cotidiana” e “investimento”. A atividade ajuda a perceber que um orçamento tem partes diferentes. Deixe claro que os exemplos não descrevem as contas reais da escola; o objetivo é compreender conceitos e fazer perguntas melhores sobre o uso de recursos públicos.
2. Comparar necessidades sem fingir que todos os contextos são iguais
Uma aplicação possível é apresentar duas escolas hipotéticas com necessidades distintas: uma precisa de reparos no prédio e outra precisa ampliar determinado serviço. Peça que os grupos expliquem quais informações faltariam antes de propor uma distribuição. A conversa pode incluir número de estudantes, condições de funcionamento ou tipo de despesa, sempre como elementos para investigar, não como dados de uma pesquisa específica. O foco é mostrar que uma divisão igual em valores pode não responder às necessidades de cada contexto.
3. Transformar uma tabela de orçamento em perguntas de leitura
Se a turma trabalhar com dados públicos adequados à faixa etária, uma forma de aplicação é pedir que identifique o que cada coluna mede: receita, despesa corrente ou investimento, por exemplo. Antes de comparar valores, os estudantes podem responder: os dados são da escola ou da rede? Correspondem ao mesmo ano? Estão na mesma categoria? Essa prática conversa com a variedade de dados organizada por Cornman (2024), mas a atividade em si é uma sugestão pedagógica, não uma recomendação testada pelo estudo.
4. Discutir por que médias não contam a história toda
Uma atividade possível é criar um conjunto de números fictícios em que a média de recursos pareça adequada, mas algumas unidades tenham condições muito diferentes. Convide a turma a identificar o que a média esconde e que outras informações seriam necessárias. Relacione a discussão, com cuidado, aos estudos que registram desigualdades entre grupos de renda ou regiões (Rauscher, 2026; Gultekin, 2025). Explique que os dados desses trabalhos são de outros países e que os números inventados não representam escolas brasileiras.
5. Fazer um debate sobre acesso e permanência
Uma forma de aplicação é organizar um debate hipotético sobre como o financiamento público pode se relacionar à matrícula e ao abandono. Cada grupo pode distinguir “mais estudantes matriculados” de “estudantes permanecem e aprendem”, sem tratar essas medidas como sinônimos. Os estudos de Beri investigaram matrícula e abandono em diferentes conjuntos de países, com efeitos que variaram conforme o indicador (Beri, 2025). A turma pode usar essa diferença para praticar leitura crítica: uma conclusão sobre acesso não responde automaticamente a todas as perguntas sobre a experiência escolar.
6. Analisar o tempo de trabalho da equipe gestora
Como sugestão de aplicação, apresente uma situação fictícia em que uma direção precisa buscar apoio para uma necessidade de manutenção e, ao mesmo tempo, organizar suas tarefas cotidianas. Peça aos estudantes que discutam custos e benefícios possíveis, sem concluir que a gestão deve arrecadar recursos de determinada maneira. A pesquisa com diretores na Türkiye encontrou que a busca por recursos podia reduzir o tempo dedicado às atribuições principais (Sipahioglu, 2023). A discussão permite considerar que obter dinheiro também pode envolver trabalho e escolhas institucionais.
O que muda quando pensamos no contexto brasileiro?
O principal cuidado é não transportar para o Brasil as regras, as fontes de receita ou as propostas de outros países. Os dados de redes apresentados por Cornman são dos Estados Unidos; as entrevistas de Sipahioglu foram realizadas na Türkiye; e os estudos sobre reformas e desigualdades também se referem a contextos específicos. As análises de Beri abrangem países de baixa e média renda, mas isso não significa que seus resultados descrevam diretamente uma rede brasileira ou uma escola particular.
Para fazer uma leitura brasileira, é necessário identificar quem administra o recurso analisado, a que etapa ou serviço ele se destina e qual período cobre. Também é importante diferenciar gastos da rede e recursos disponíveis diretamente na unidade escolar. Um valor agregado pode não mostrar como as condições variam entre escolas. Os estudos selecionados não apresentam uma análise específica das receitas e despesas das escolas públicas brasileiras, portanto não permitem afirmar quais fontes financiam determinada unidade no país.
Há, ainda, uma oportunidade pedagógica: usar as pesquisas como ponto de partida para perguntas locais, sem atribuir a elas respostas que não oferecem. A turma pode investigar quais informações estão publicadas pela rede ou pelo município, caso sejam acessíveis, e discutir como conferir a data e o nível dos dados. Esse exercício não deve exigir que estudantes exponham dificuldades da própria escola ou identifiquem pessoas responsáveis por decisões financeiras. A comparação internacional serve para ampliar o repertório; a interpretação do caso brasileiro precisa de dados brasileiros.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de seis estudos recentes, e não na leitura integral dos trabalhos. Os resumos permitem apresentar as perguntas investigadas e os resultados que os próprios registros destacam, mas não oferecem sempre os detalhes necessários para avaliar todas as escolhas de análise, as definições usadas ou a força das evidências. Além disso, os estudos abordam países, períodos, populações e resultados diferentes; por isso, não devem ser tratados como uma comparação direta entre sistemas escolares.
Ficam em aberto perguntas importantes para a prática brasileira: como se distribuem os recursos dentro de cada rede? Que tipos de despesa chegam a responder a necessidades específicas? Como orçamento, organização da gestão e condições pedagógicas se relacionam em diferentes municípios? Para responder, seria necessário consultar dados locais e, quando a decisão exigir uma avaliação mais profunda, ler os estudos completos, verificar seus métodos e conhecer as fontes originais. A leitura integral faz mais diferença quando o professor vai usar um resultado para embasar uma proposta, formação ou debate público.
Como o GeraProva pode ajudar a trabalhar esse assunto?
Uma forma honesta de levar o tema para uma atividade avaliativa é pedir que os estudantes diferenciem receitas e despesas, interpretem uma tabela fictícia ou expliquem por que matrícula e equidade são perguntas distintas. O gerador de provas do GeraProva pode ajudar a criar questões e atividades sobre esses conceitos, que o professor deve revisar e adaptar à turma. Para conhecer a plataforma, acesse o cadastro grátis.
Perguntas frequentes sobre gastos e receitas das escolas públicas
Mais dinheiro sempre melhora os resultados escolares?
Os estudos não sustentam uma resposta universal. Pesquisas de países de baixa e média renda encontraram relações positivas entre gastos públicos e matrícula em alguns contextos, mas também diferenças conforme o indicador e o grupo analisado (Beri, 2025). Matrícula não é a mesma coisa que aprendizagem, permanência ou qualidade das condições escolares. Além disso, estudos sobre desigualdade mostram que melhorias em uma dimensão podem coexistir com diferenças por renda, raça ou região. Uma conclusão responsável é que recursos podem importar, mas o resultado depende do que está sendo medido e de como os recursos são distribuídos e utilizados.
Qual é a diferença entre receita escolar e despesa escolar?
Receita é o recurso que entra no sistema ou na rede; despesa é o valor destinado a uma finalidade, como funcionamento ou investimento. O relatório de Cornman organiza dados financeiros das redes públicas dos Estados Unidos separando fontes de receita, despesas correntes por função e objeto e investimentos de capital (Cornman, 2024). Essa organização mostra por que é importante especificar de que tipo de valor estamos falando. Também é necessário observar a escala: um dado pode se referir à rede inteira, e não ao orçamento diretamente disponível para uma escola.
Os estudos mostram que o financiamento reduz desigualdades?
Não de maneira uniforme. A análise de reformas nos Estados Unidos encontrou ganhos de igualdade no financiamento segundo renda, mas benefícios raciais e étnicos modestos, no máximo (Rauscher, 2026). A pesquisa sobre a Türkiye também registrou diferenças regionais persistentes e disparidades nos gastos com educação entre grupos de renda (Gultekin, 2025). Esses resultados não são evidência direta sobre o Brasil, mas ajudam a distinguir dimensões de desigualdade. Ao avaliar uma política, vale perguntar qual grupo ela busca alcançar e se os indicadores usados conseguem mostrar diferenças entre grupos e territórios.
Por que os estudos falam tanto de matrícula?
Matrícula é um resultado que pode ser analisado em relação ao investimento público e permite investigar o acesso à educação. Os estudos de Beri examinaram essa relação em países de baixa e média renda, em períodos extensos, e encontraram efeitos que variam conforme o nível de matrícula e abandono considerado. Um dos trabalhos relatou impacto positivo de longo prazo sobre matrícula no ensino primário em grupos de países analisados (Beri, 2025). Isso não significa que matrícula represente, sozinha, aprendizagem, permanência ou equidade. Cada indicador responde a uma pergunta diferente e deve ser interpretado dentro do contexto estudado.
O que um professor pode fazer com essas pesquisas?
O professor pode usá-las para construir atividades de leitura crítica de dados e discutir como recursos públicos se relacionam a acesso e desigualdade. Por exemplo, uma turma pode comparar categorias fictícias de receitas e despesas e explicar que informação ainda falta antes de propor uma distribuição. Essa é uma aplicação pedagógica sugerida, não uma atividade testada pelos estudos. Também é possível conversar sobre a diferença entre dados de uma rede e de uma escola. Evite apresentar resultados de outros países como retrato do Brasil ou pedir aos alunos que exponham situações financeiras da própria comunidade.
Referências
- Cornman, S. Q., Ampadu, O., Hanak, K., & Wheeler, S. (2024). Receitas e Despesas das Redes Públicas de Ensino Fundamental e Médio: Ano Letivo 2021-22 (Exercício Fiscal de 2022). Relatório de Primeira Visão. NCES 2024-309 (Revenues and Expenditures for Public Elementary and Secondary School Districts: School Year 2021-22 (Fiscal Year 2022). First Look Report. NCES 2024-309). National Center for Education Statistics. Link.
- Sipahioglu, M. (2023). Diretores escolares enfrentam dificuldades com o financiamento das escolas na Turquia: o dinheiro importa (Principals Struggling with School Financing in Turkey: Money Matters). Journal of School Administration Research and Development. Link.
- Beri, P. B., & Cochrane, L. (2025). Gastos públicos, educação infantil e resultados no ensino fundamental: contribuições da análise de regressão quantílica (Public Spending, Early Childhood Education, and Primary School Outcomes: Insights from Quantile Regression Analysis). International Journal of Educational Management. Link.
- Beri, P. B., Cochrane, L., & Fazlullah, S. S. (2025). Gastos públicos e matrícula no ensino primário: uma abordagem autorregressiva de defasagens distribuídas (Public Spending and Primary School Enrollment: An Autoregressive Distributed Lag Approach). Education Policy Analysis Archives. Link.
- Rauscher, E., & Fiel, J. E. (2026). Progresso lento: reformas no financiamento escolar e desigualdades raciais no financiamento (Slow Progress: School Finance Reforms and Racial Disparities in Funding). Educational Evaluation and Policy Analysis. Link.
- Gultekin, D., & Yildiz, S. (2025). Desigualdade educacional regional multifacetada: evidências da Türkiye (Multifaceted Regional Educational Inequality: Evidence from Türkiye). Compare: A Journal of Comparative and International Education. Link.
Se este tema aparecer em uma conversa com seus estudantes ou colegas, use as pesquisas como ponto de partida e adapte as perguntas à realidade da sua escola. Boa leitura e bom trabalho!
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