Engajamento de adolescentes no início da adolescência: vínculo, pertencimento e voz do aluno
Estudos recentes investigam intervenções que apoiam o engajamento de adolescentes por meio de vínculos, pertencimento, apoio entre pares e participação dos estudantes. Os resultados variam conforme a proposta e o contexto.
Intervenções podem apoiar o engajamento de estudantes no início da adolescência quando consideram vínculos com professores, pertencimento social, apoio entre pares e voz dos próprios alunos. Estudos recentes investigaram propostas diferentes, de atividades breves a programas de reengajamento. Os resultados são promissores em alguns contextos, mas não indicam uma solução única para todas as turmas.
Como reengajar estudantes no início da adolescência sem reduzir o problema a falta de interesse? A pesquisa recente aponta caminhos ligados a vínculo, pertencimento e apoio entre pares. Também mostra que a voz dos próprios jovens pode ajudar a entender o que faz uma intervenção funcionar para eles.
Isso não significa que exista uma atividade única capaz de resolver o desengajamento em qualquer turma. Os estudos analisam propostas diferentes, em contextos distintos, e ajudam a pensar intervenções mais atentas às relações, às necessidades dos alunos e às condições concretas da escola.
O que é engajamento de estudantes do início da adolescência por meio de intervenções e por que importa para o professor?
Engajar estudantes é criar condições para que participem da vida escolar, se envolvam com as atividades e mantenham uma relação de conexão com a escola. No início da adolescência, isso pode aparecer na disposição para tentar uma tarefa, pedir ajuda, colaborar com colegas ou sentir que há adultos e pares com quem contar. Uma intervenção, nesse contexto, é uma ação intencional para apoiar esse envolvimento, seja voltada à turma toda, seja dirigida a necessidades específicas.
Na rotina, o tema surge quando um aluno se afasta de uma atividade, evita participar, falta, tem conflitos com colegas ou parece não encontrar sentido na escola. Esses sinais não apontam automaticamente para uma única causa. Pesquisas reunidas aqui relacionam engajamento a fatores como bem-estar, pertencimento, qualidade das relações e apoio social. Para o professor, a consequência prática é olhar além da tarefa: observar também o ambiente relacional em que a aprendizagem acontece.
O que a pesquisa recente mostra
Os estudos não avaliam uma intervenção universal. Eles examinam programas e práticas que atuam em pontos diferentes: conexão com a escola, relações docentes, apoio entre pares, expressão dos estudantes, clima de turma e resposta a sinais emocionais. Em conjunto, sugerem que reengajar envolve tanto o desenho das atividades quanto a maneira como os jovens são reconhecidos e apoiados.
Vínculo e pertencimento podem ser trabalhados de forma intencional
Uma pesquisa sobre o programa Keeping Kids Engaged in School investigou como estudantes, familiares e profissionais de quatro escolas públicas estaduais da Austrália Ocidental percebiam a iniciativa. Participaram grupos focais com 24 estudantes do 5º ao 8º ano e entrevistas com cinco responsáveis e cinco integrantes da equipe escolar. Os participantes das quatro escolas endossaram fortemente o valor do programa; os autores destacam especialmente a importância de ouvir os jovens a quem a intervenção se destinava (Coffey, 2024).
Esse resultado é relevante para o planejamento: a percepção dos estudantes não é um detalhe a recolher depois, mas uma fonte para compreender se uma proposta é significativa para quem participa. O estudo investigou avaliações de stakeholders e relatou esse endosso; não autoriza concluir que qualquer programa com nome ou objetivo semelhante terá o mesmo efeito em outras escolas.
Outra iniciativa, Strong and Belong, foi concebida como programa universal de sessão única para estudantes do primeiro ano do ensino médio. Conduzida por professores, combinou conteúdo pré-gravado sobre pertencimento, histórias pessoais e narrativas de profissionais da escola, seguidos por duas atividades de escrita reflexiva. A avaliação indicou forte engajamento nas instruções das atividades. Os dados do segundo ano também apontaram alguns impactos em conexão social e busca de ajuda, embora fossem necessárias mais avaliações (Winer, 2026).
O estudo francês sobre a classe de educação geral e profissional adaptada examinou estudantes com dificuldades escolares graves e persistentes reengajados em projetos escolares e profissionais. Em comparação com estudantes de classes regulares, o grupo da AGVEC apresentou desempenho acadêmico semelhante, menos faltas relacionadas à saúde, menos dificuldades de sono e sintomas depressivos e mais apoio social. As comparações com estudantes de baixo desempenho em classes regulares também apontaram diferenças favoráveis em vários indicadores escolares, de saúde e apoio (Chau, 2023). A proposta é específica ao contexto francês, mas reforça que reengajamento pode envolver projetos e apoio, não apenas insistência para que o aluno cumpra tarefas.
As relações com adultos e colegas fazem parte do ambiente de aprendizagem
Um estudo com jovens de 12 a 14 anos investigou quais práticas docentes ajudam a construir relações positivas durante a transição para os anos finais do ensino fundamental. A análise das conversas em grupos focais identificou cinco dimensões: acessibilidade, cuidado sensível, ensino motivacional, atenção personalizada e autoridade justa. A partir delas, os pesquisadores desenvolveram o questionário TAP-S, com versão final de 25 itens. As dimensões se associaram positivamente a aspectos da qualidade da relação, do engajamento e do autoconceito acadêmico (Buyse, 2026).
O trabalho não apresenta uma receita de frases ou comportamentos que sirva para toda turma. Sua contribuição é tornar mais concretas práticas que alunos dizem perceber na relação com o professor. A ideia de autoridade justa, por exemplo, ajuda a pensar que vínculo não é ausência de limites: envolve também consistência, respeito e atenção individual.
O apoio entre pares também aparece com uma relação complexa com o bullying. Com dados de adolescentes dos Estados Unidos, um estudo encontrou que a afiliação a pares pró-sociais amorteceu a relação entre vitimização e posterior perpetração de bullying. Mas, na outra direção, essa afiliação aumentou a associação entre perpetrar bullying e ser posteriormente vitimizado, em vez de amortecê-la. Os autores sugerem que intervenções antibullying podem ajudar jovens vítimas a se aproximarem de pares pró-sociais, sem que isso autorize tratar a dinâmica como simples ou igual em todas as situações (Seon, 2026).
Uma pesquisa com 232 adolescentes chineses examinou a relação entre vitimização por bullying e engajamento escolar. O bem-estar subjetivo mediou essa associação mais fortemente do que depressão e ansiedade e mediou totalmente as associações entre vitimização e cinco dimensões de engajamento consideradas pelo estudo. Os resultados apontam que o impacto da vitimização pode estar ligado à deterioração do bem-estar, que por sua vez prediz menor engajamento (Huang, 2026). É uma associação investigada em adolescentes chineses, não uma fórmula diagnóstica para interpretar individualmente um estudante brasileiro.
A participação dos jovens pode revelar necessidades que os adultos não percebem
Em uma escola na Irlanda, um projeto de fotovoz reuniu cinco turmas, 121 estudantes de 13 a 14 anos e cinco professores, como parte de uma intervenção de letramento em saúde. Os jovens usaram a metodologia para expressar perspectivas sobre a saúde na escola. A análise identificou temas relacionados aos desafios de saúde dos adolescentes e a um chamado à ação; a abordagem permitiu que estudantes apresentassem preocupações e possíveis soluções para questões da escola e da comunidade (Burke, 2026).
O estudo investigou as perspectivas dos alunos por meio de uma metodologia participativa; não testou se a fotovoz, por si só, aumentou o engajamento escolar. Ainda assim, oferece um exemplo de como criar espaços para que estudantes expressem o que consideram importante, em vez de presumir que os adultos já conhecem todas as barreiras.
Em matemática, uma pesquisa qualitativa examinou como um professor do ensino médio respondia a alertas emocionais gerados por IA durante a resolução de problemas por oito estudantes de alto desempenho. Os alertas direcionaram a atenção do professor para alunos ou momentos específicos, mas eram interpretados junto com ações observáveis e as demandas matemáticas da tarefa. O estudo apresenta a IA como recurso que medeia a tomada de decisão docente, não como agente instrucional autônomo (Swidan, 2026). A amostra e o contexto são específicos; o ponto útil é a centralidade do julgamento do professor ao interpretar sinais.
Intervenções de turma e apoio ao professor também importam
Uma intervenção chamada Senha da Sala de Aula foi avaliada em uma turma do 3º ano de uma escola regular no sudeste dos Estados Unidos. O estudo encontrou aumento do engajamento acadêmico e ligeira redução de comportamentos disruptivos. Quando a intervenção foi retirada, ambos retornaram aos níveis de linha de base. Como se tratou de uma única turma, os autores consideram promissores os resultados, mas indicam que são necessárias avaliações em mais turmas e anos escolares (Smith, 2026).
Embora essa faixa etária seja mais nova do que o foco principal deste artigo, o estudo lembra que estratégias de turma podem afetar tanto a participação quanto as interrupções, e que a manutenção da proposta merece atenção. Não se deve presumir que o mesmo procedimento produza igual resultado com adolescentes.
Por fim, Dawes e colegas discutem a capacidade docente de gerir o comportamento como fator maleável relacionado ao esgotamento profissional. O artigo apresenta perspectivas de professores dos anos finais do ensino fundamental sobre comportamentos desafiadores e necessidades de desenvolvimento profissional, e discute o potencial do modelo BASE e da profissionalização apoiada para fortalecer a gestão do contexto de sala (Dawes, 2024). O resumo descreve uma discussão e perspectivas de docentes, não uma avaliação de eficácia que permita afirmar que o modelo reduziu o esgotamento.
Os estudos lado a lado
A tabela resume o que cada estudo citado investigou e relatou. Os contextos variam bastante: há pesquisas qualitativas, avaliações de programas, análises de associações e um estudo de intervenção em uma turma. Essa variedade ajuda a ampliar perguntas, mas exige cuidado ao comparar resultados diretamente.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Dawes (2024) | Gestão de comportamento, apoio profissional e modelo BASE. | Discute perspectivas docentes e potencial de fortalecimento da capacidade de gerir a sala. | Professores dos anos finais do ensino fundamental; país não indicado no resumo. |
| Coffey (2024) | Percepções sobre Keeping Kids Engaged in School. | Participantes das quatro escolas endossaram fortemente o programa. | Quatro escolas públicas da Austrália Ocidental; 5º ao 8º ano. |
| Chau (2023) | Reengajamento em projeto escolar e profissional adaptado. | Grupo AGVEC apresentou diferenças favoráveis em indicadores escolares e de saúde. | Nordeste da França; estudantes do ensino fundamental II. |
| Seon (2026) | Afiliação pró-social e relações entre vitimização e perpetração de bullying. | Afiliação amorteceu uma relação, mas ampliou outra. | Adolescentes dos Estados Unidos; dados nacionalmente representativos. |
| Huang (2026) | Vitimização, bem-estar subjetivo e engajamento. | Bem-estar subjetivo foi mediador mais forte que depressão e ansiedade. | 232 adolescentes chineses; idade média de 14,4 anos. |
| Swidan (2026) | Alertas emocionais de IA e decisões docentes em matemática. | Alertas orientaram a atenção, interpretados com observações e tarefa. | Estudo qualitativo; um professor e oito estudantes do ensino médio. |
| Smith (2026) | Intervenção Senha da Sala de Aula. | Mais engajamento acadêmico e ligeira queda de comportamentos disruptivos; retorno à linha de base após retirada. | Uma turma do 3º ano no sudeste dos Estados Unidos. |
| Winer (2026) | Programa Strong and Belong de sessão única. | Forte engajamento nas atividades; dados do segundo ano indicaram alguns impactos em conexão social e busca de ajuda. | 327 estudantes do primeiro ano do ensino médio; programa desenvolvido em parceria entre universidade e escola. |
| Burke (2026) | Perspectivas sobre saúde escolar por fotovoz. | Jovens expressaram desafios e possíveis soluções. | Irlanda; estudantes de 13 a 14 anos e professores. |
| Buyse (2026) | Práticas afiliativas docentes e relação professor-aluno. | Identificou cinco dimensões e desenvolveu o questionário TAP-S; dimensões se associaram a engajamento e relação. | Estudantes de 12 a 14 anos; sétimo e oitavo anos. |
Pontos em comum e divergências entre os estudos
Um ponto comum é que o engajamento não aparece isolado da experiência social e emocional. Os estudos sobre pertencimento, bullying, vínculo professor-aluno e bem-estar mostram diferentes caminhos pelos quais relações e percepções podem se conectar à participação escolar. Outros trabalhos, como os de fotovoz e consulta a stakeholders, destacam que ouvir estudantes e adultos da comunidade escolar pode revelar como uma proposta é recebida.
As intervenções, porém, diferem em finalidade e escala. Strong and Belong é uma proposta universal e breve; AGVEC atende estudantes com dificuldades persistentes por meio de um projeto escolar e profissional adaptado; a Senha da Sala de Aula foi testada em uma turma pequena; e o trabalho com alertas de IA trata de decisões docentes durante uma tarefa de matemática. Não são versões intercambiáveis de uma mesma estratégia.
Também há resultados que impedem conclusões simplistas. A afiliação a pares pró-sociais amortecia uma associação ligada à vitimização, mas não outra ligada à perpetração. A pesquisa sobre IA não propõe substituir o professor por um sistema. E a avaliação de Strong and Belong encontrou indicadores promissores, mas seus autores pedem mais avaliações. Permanecem em aberto questões de duração dos efeitos, adaptação a diferentes escolas, recursos necessários e quais componentes são decisivos em cada intervenção.
O que isso significa para a sala de aula?
Os estudos oferecem ideias para pensar a prática, mas nem toda sugestão abaixo foi testada como intervenção nas pesquisas citadas. As propostas a seguir são aplicações possíveis, que devem ser ajustadas à turma e acompanhadas com observação cuidadosa.
1. Pergunte aos estudantes como eles percebem a escola
Aplicação: reserve momentos curtos para recolher percepções sobre o que facilita ou dificulta a participação. Por exemplo, uma turma de 7º ano pode responder anonimamente a três perguntas sobre atividades em que se sente incluída, momentos em que hesita em pedir ajuda e mudanças que gostaria de experimentar. A pesquisa de Coffey e o projeto de fotovoz mostram a relevância de considerar a perspectiva dos jovens; o formato específico da escuta é uma escolha de aplicação, não um resultado testado por esses estudos.
2. Trate pertencimento como algo que pode ser cultivado
Aplicação: em vez de supor que todos se sentem parte do grupo, planeje uma atividade breve para que os estudantes reconheçam experiências comuns e reflitam sobre a possibilidade de construir conexões. Uma turma poderia escrever, sem obrigação de compartilhar algo íntimo, sobre um momento em que se sentiu acolhida em uma atividade escolar. Strong and Belong oferece um exemplo de intervenção que abordou pertencimento com narrativas e escrita reflexiva, mas sua adaptação deve preservar a segurança e a escolha dos alunos.
3. Torne visíveis práticas de vínculo no cotidiano
Aplicação: observe se há oportunidades para ser acessível, oferecer atenção personalizada, explicar limites com justiça e demonstrar cuidado sensível. Imagine um aluno que deixa de participar após errar: uma conversa breve, sem exposição diante da turma, pode mostrar disponibilidade e ajudá-lo a retomar a tarefa. As dimensões identificadas por Buyse podem servir como perguntas de reflexão docente; elas não são uma lista de comportamentos com efeito garantido em qualquer contexto.
4. Inclua apoio entre pares sem transformar colegas em responsáveis pelo problema
Aplicação: pense em formas seguras de ampliar interações cooperativas e de evitar que um aluno isolado seja exposto ou encarregado de resolver conflitos. Por exemplo, em uma atividade em duplas, o professor pode organizar pares com critérios claros e acompanhar como a colaboração acontece. O estudo de Seon sugere atenção à afiliação pró-social em intervenções contra bullying, mas também mostra uma relação que não funciona do mesmo modo em todas as direções. A mediação de adultos continua necessária.
5. Observe sinais de bem-estar junto com participação
Aplicação: quando o envolvimento cai, considere conversar em particular e observar mudanças em presença, interação e disposição para pedir ajuda, sem diagnosticar o estudante. Imagine uma aluna que antes contribuía e agora se retrai depois de conflitos com colegas. Os resultados de Huang associam vitimização, bem-estar subjetivo e engajamento; isso pode orientar perguntas cuidadosas e encaminhamentos conforme os recursos e protocolos da escola, não uma conclusão clínica feita pelo professor.
6. Use sinais como convite para investigar, não como veredito
Aplicação: um erro persistente, silêncio ou abandono de uma atividade pode levar o professor a verificar se a tarefa está clara, se há dificuldade conceitual ou se o estudante precisa de uma pausa. O estudo de Swidan mostra que alertas emocionais de IA foram interpretados junto com comportamentos observáveis e demandas matemáticas. Se não houver tecnologia, a mesma prudência pode orientar a observação cotidiana: um sinal isolado não explica sozinho o que se passa com o aluno.
7. Planeje como acompanhar uma intervenção, inclusive depois de iniciá-la
Aplicação: escolha um objetivo observável, como aumentar a participação em uma atividade, e combine um período de acompanhamento. Uma turma poderia registrar, de forma simples, em quais momentos mais estudantes iniciam a tarefa ou pedem ajuda. O estudo da Senha da Sala de Aula observou que os comportamentos retornaram à linha de base após a retirada da intervenção. Isso sugere uma pergunta prática sobre continuidade, não que professores devam adotar o mesmo procedimento.
8. Inclua as condições de trabalho docente no planejamento
Aplicação: ao propor uma nova estratégia, considere tempo, apoio da equipe e possibilidade de discutir casos sem culpabilizar o professor ou o aluno. Uma equipe pode reservar reuniões para analisar situações desafiadoras e identificar recursos de formação. Dawes discute capacidade de gestão de sala, profissionalização apoiada e esgotamento docente; não apresenta uma promessa de que uma técnica isolada resolva o desgaste. A sustentabilidade da intervenção também merece fazer parte da conversa.
O que muda no contexto brasileiro?
Os estudos citados foram conduzidos em países e sistemas distintos: Austrália, França, Estados Unidos, China e Irlanda, além de pesquisas cujo resumo não especifica o país. Há diferenças entre etapas, programas, organização escolar e recursos disponíveis. Por isso, resultados de uma iniciativa estrangeira não devem ser transplantados como se fossem uma política pronta para escolas brasileiras.
O que pode viajar com mais facilidade são perguntas de planejamento: os estudantes entendem a proposta? Sentem que podem pedir ajuda? Há espaço para que expressem necessidades? O vínculo com os adultos é percebido como acessível e justo? Essas perguntas podem ser investigadas localmente, sem assumir que as respostas serão iguais às encontradas em outros países. Uma conversa com a turma, uma atividade-piloto e a observação de participação podem ajudar a adaptar uma ideia ao cotidiano da escola.
Também é importante não confundir a função do professor com a de profissionais de saúde. Estudos sobre bullying, bem-estar, sintomas depressivos e saúde apontam relações importantes, mas não autorizam diagnóstico em sala de aula. Se houver sinais de sofrimento ou risco, a escola deve seguir seus fluxos de acolhimento e encaminhamento. E, em propostas que envolvam escrita reflexiva, imagens ou relatos pessoais, vale oferecer alternativas de participação, proteger a privacidade e evitar que os alunos sejam pressionados a revelar experiências íntimas.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes fornecidos, não na leitura integral dos trabalhos. Os resumos permitem identificar objetivos e resultados relatados, mas não respondem a todas as perguntas sobre instrumentos, procedimentos, duração, implementação e análise. Também reúnem desenhos de pesquisa diferentes, de modo que não é adequado comparar diretamente a força de todos os resultados.
Ficam em aberto, por exemplo, quais componentes das intervenções são mais importantes, por quanto tempo os efeitos se mantêm, como os programas se comportam em escolas com condições distintas e que adaptações são necessárias para diferentes grupos de estudantes. Também não se pode afirmar, a partir destes resumos, que uma estratégia específica será eficaz em uma turma brasileira. Ler os estudos completos faz sentido antes de adotar um programa, investir recursos, replicar um protocolo ou tirar conclusões sobre sua eficácia e seus limites.
Como o GeraProva ajuda com este assunto?
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Perguntas frequentes sobre engajamento de adolescentes
O que pode ajudar a reengajar estudantes no início da adolescência?
Os estudos investigam caminhos diferentes, incluindo pertencimento, conexão com a escola, relações positivas com professores, apoio entre pares e projetos escolares e profissionais. O programa Keeping Kids Engaged in School foi fortemente endossado por participantes de quatro escolas na Austrália Ocidental; Strong and Belong apresentou forte engajamento nas atividades de escrita e alguns indicadores de conexão social e busca de ajuda no segundo ano. Esses resultados são promissores, mas não estabelecem uma solução única. Uma aplicação prudente é ouvir a turma, identificar barreiras percebidas e testar ações compatíveis com o contexto local.
Uma atividade sobre pertencimento funciona para todos os alunos?
Os estudos não permitem afirmar que uma atividade específica funcione para todos. Strong and Belong foi desenvolvido como programa universal de sessão única para estudantes do primeiro ano do ensino médio, com conteúdo sobre pertencimento e atividades de escrita reflexiva. A avaliação encontrou forte engajamento nas instruções e alguns impactos em conexão social e busca de ajuda nos dados do segundo ano, mas os autores indicam a necessidade de mais avaliações. Na prática, convém permitir diferentes formas de participação e não exigir relatos pessoais, além de verificar como os alunos recebem a proposta.
Qual é a relação entre bullying e engajamento escolar?
Os estudos apresentados apontam relações que passam por mais de um fator. Em adolescentes chineses, o bem-estar subjetivo mediou a associação entre vitimização por bullying e engajamento escolar, com papel mais forte que depressão e ansiedade no modelo investigado. Outro estudo, com adolescentes dos Estados Unidos, analisou relações entre vitimização e perpetração e encontrou um papel diferente da afiliação a pares pró-sociais em cada direção. Esses achados ajudam a levar a sério o impacto social e emocional do bullying, mas não substituem a investigação cuidadosa de cada situação nem os procedimentos de proteção da escola.
Como o professor pode fortalecer o vínculo com alunos adolescentes?
Uma pesquisa com estudantes de 12 a 14 anos identificou cinco dimensões de práticas afiliativas: acessibilidade, cuidado sensível, ensino motivacional, atenção personalizada e autoridade justa. Essas dimensões se associaram positivamente a aspectos da qualidade da relação, do engajamento e do autoconceito acadêmico. Uma aplicação possível é revisar situações cotidianas: os alunos sabem como pedir ajuda? Recebem atenção sem exposição? Entendem os limites e sua aplicação? Isso não significa que exista uma fórmula de vínculo ou que toda relação mude rapidamente, mas oferece categorias úteis para refletir sobre a experiência dos estudantes.
É necessário usar inteligência artificial para perceber o engajamento?
Não. O estudo sobre alertas emocionais de IA investigou como um professor de matemática incorporava esses sinais à tomada de decisão durante a resolução de problemas. Os alertas direcionavam a atenção, mas eram interpretados em conjunto com as ações observáveis dos estudantes e as exigências da tarefa. A pesquisa não apresenta a IA como substituta do julgamento docente nem demonstra que a tecnologia seja necessária para apoiar o engajamento. Sem ferramentas digitais, o professor também pode observar participação, dificuldades, pedidos de ajuda e mudanças de comportamento, sempre evitando concluir demais a partir de um sinal isolado.
Os resultados de pesquisas de outros países podem ser aplicados no Brasil?
Podem inspirar perguntas e adaptações, mas não devem ser tratados como garantia de resultado. Os estudos foram realizados em contextos como Austrália, França, Estados Unidos, China e Irlanda, com programas, etapas e grupos diferentes. A classe AGVEC, por exemplo, é uma estrutura francesa específica; não corresponde automaticamente a uma organização brasileira. Uma forma cuidadosa de aproveitar as ideias é identificar o princípio investigado — como escuta, pertencimento ou apoio social — e construir uma aplicação pequena, adequada à realidade da escola, acompanhando como os estudantes respondem.
Referências
- Dawes et al. (2024). Fortalecendo a Capacidade dos Professores de Gerir o Comportamento em Sala de Aula como Meio de Reduzir o Esgotamento Profissional (Enhancing Teachers' Capacity to Manage Classroom Behavior as a Means to Reduce Burnout). Journal of Emotional and Behavioral Disorders. Link.
- Coffey et al. (2024). Engajando o Early Adolescent: o que os stakeholders dizem sobre o programa Keeping Kids Engaged in School? (Engaging the Early Adolescent: What Do Stakeholders Say about the Keeping Kids Engaged in School Program?). Issues in Educational Research. Link.
- Chau et al. (2023). Reengajamento de adolescentes em início da adolescência com sérias dificuldades escolares em projeto escolar/profissional reduz problemas escolares, comportamentais e de saúde (Re-Engagement of Early Adolescents with Severe School Issues in School/Professional Project Reduces School-Behavior-Health Problems). Journal of School Health. Link.
- Seon e Smith-Adcock (2026). Afiliação a Pares Pró-Sociais como Fator de Amortecimento na Relação Bidirecional entre Vitimização e Perpetração de Bullying em Early Adolescents (Prosocial Peer Affiliation as a Buffer of the Bidirectional Relationship between Bullying Victimization and Perpetration in Early Adolescents). Journal of Early Adolescence. Link.
- Huang e Chui (2026). Vitimização por bullying e engajamento escolar: o papel do bem-estar subjetivo (Bullying Victimization and School Engagement: The Role of Subjective Well-Being). Asia Pacific Education Review. Link.
- Swidan (2026). Respondendo a Alertas Emocionais Gerados por IA: Intervenção Docente e Engajamento dos Estudantes na Aula de Matemática (Responding to AI-Generated Emotional Alerts: Teachers' Intervention and Students' Engagement in the Mathematics Classroom). ZDM: Mathematics Education. Link.
- Smith et al. (2026). Você ouviu isso? Usando a senha da sala de aula para promover o engajamento acadêmico em uma turma do 3º ano do Ensino Fundamental (Did You Hear That? Using Classroom Password to Target Academic Engagement in a Third Grade Classroom). Contemporary School Psychology. Link.
- Winer et al. (2026). Strong and Belong: Construção e Piloto de um Programa Universal de Sessão Única sobre Pertencimento Social para Estudantes do Primeiro Ano do Ensino Médio (Strong and Belong: Building and Piloting a Single-Session Universal Social Belongingness Program for First-Year High School Students). Psychology in the Schools. Link.
- Burke et al. (2026). Saúde em nossa escola: um projeto de fotovoz (Health in Our School: A Photovoice Project). Health Education. Link.
- Buyse et al. (2026). Práticas Afiliativas dos Professores para Apoiar as Relações Professor-Aluno: Traduzindo as Vozes de Jovens Adolescentes em um Questionário para Estudantes (Teachers' Affiliative Practices to Support Teacher-Student Relationships: Translating Young Adolescents' Voices into a Student Questionnaire). Psychology in the Schools. Link.
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