COVID-19 e sustentabilidade na educação: por que algumas práticas resistiram e outras não
Estudos recentes mostram que a pandemia acelerou inovações, mas não garantiu que elas continuassem. Apoio, adaptação ao contexto e acesso foram decisivos para sustentar práticas escolares.
A pandemia de COVID-19 mostrou que uma prática educacional não se torna sustentável apenas por ser inovadora ou digital. Pesquisas recentes apontam que sua continuidade depende de adaptação ao contexto, participação dos educadores, apoio adequado e atenção ao acesso. Algumas iniciativas foram mantidas ou ajustadas durante a crise; outras perderam espaço diante de condições complexas.
É comum ouvir que, depois da COVID-19, bastaria manter as ferramentas digitais adotadas às pressas para a escola ficar mais preparada para qualquer crise. Os estudos recentes complicam essa ideia: algumas práticas ganharam continuidade, enquanto outras foram abandonadas ou dependeram de condições que nem todas as escolas tinham.
A lição mais útil não é que a tecnologia salvou a educação, nem que tudo precisa voltar ao que era antes. A pesquisa aponta para uma questão mais concreta: o que ajuda uma prática a permanecer quando mudam as condições de trabalho, o acesso dos estudantes e as necessidades da comunidade? As respostas envolvem participação docente, adaptação, colaboração e alternativas para quem fica sem conexão.
O que é sustentabilidade na educação em tempos de COVID-19 e por que importa para o professor?
Sustentabilidade na educação, neste contexto, é a capacidade de manter e adaptar práticas que apoiam a aprendizagem ao longo do tempo, em vez de depender de uma resposta temporária a uma emergência. Para o professor, isso aparece em decisões cotidianas: que recursos continuam fazendo sentido, como acompanhar os estudantes, como ajustar uma atividade quando o acesso muda e de que modo a escola aprende com o que funcionou.
A pandemia colocou essa questão em evidência porque alterou rotinas, espaços e formas de contato. Houve escolas que recorreram a ambientes virtuais, encontros por videoconferência ou rádio; outras precisaram lidar com acesso limitado, falta de preparo e fechamento prolongado. A sustentabilidade, portanto, não equivale a usar mais tecnologia. Um recurso só é sustentável quando pode ser integrado ao trabalho pedagógico, é viável no contexto local e não deixa parte da comunidade para trás.
Também é importante distinguir continuidade de cópia. Uma atividade remota não precisa ser mantida exatamente como foi feita durante o fechamento das escolas. O que pode durar é o princípio que a orientou — por exemplo, oferecer mais de um caminho para acessar o conteúdo ou ouvir estudantes e famílias antes de decidir mudanças. Essa distinção ajuda a olhar para as experiências da pandemia sem transformar uma solução de emergência em receita universal.
O que a pesquisa recente mostra sobre práticas escolares sustentáveis?
Em conjunto, os estudos mostram que a continuidade depende menos de uma ferramenta isolada e mais das condições em torno dela. A pesquisa aborda tecnologias, programas, apoio ao comportamento, inovação escolar e parcerias de melhoria. São contextos diferentes, mas todos ajudam a pensar por que algumas práticas atravessaram a crise e outras tiveram de ser abandonadas ou refeitas.
Uma inovação precisa caber no contexto — e os professores precisam participar
Um estudo sobre adoção de ambientes virtuais de aprendizagem (AVAs) ouviu 253 professores da educação básica na era pós-pandemia. A pesquisa examinou como a complexidade percebida e o apoio organizacional se associavam à adoção continuada, considerando também a posição hierárquica dos professores e a localização das escolas. A complexidade percebida apresentou associação positiva com a adoção, particularmente entre professores de escolas rurais, que demonstraram maior adoção apesar dos desafios. Já o apoio organizacional apresentou associação negativa significativa, em especial entre professores em posições hierárquicas inferiores (Chuang, 2026).
Esse resultado pede cuidado: não significa que apoiar professores seja prejudicial. O estudo relata uma associação e destaca que a forma como o apoio é organizado importa. Os autores apontam para estratégias diferenciadas e participativas, sensíveis à posição dos docentes e ao contexto local. Para a escola, a pergunta prática não é apenas “que plataforma vamos usar?”, mas também “quem participou da escolha, que obstáculos encontra e que tipo de apoio realmente ajuda?”.
Outra investigação, sobre gestores escolares na região da Caxemira, na Índia, explorou experiências de inovação durante a pandemia por meio de entrevistas com nove participantes. Os temas incluíram liderança diante dos desafios, aproximação dos estudantes, gestão de tarefas remotas, monitoramento virtual e exclusão digital. Os gestores relataram acesso limitado a recursos, falta de preparo e estresse associado ao fechamento prolongado; as inovações, ainda assim, ajudaram a atenuar desafios específicos das instituições (Nabi, 2025).
O estudo recomenda que políticas futuras priorizem equidade digital, desenvolvimento profissional de gestores e espaços flexíveis de aprendizagem virtual. A experiência da Caxemira não deve ser tratada como retrato de toda escola, mas reforça uma ideia aplicável a qualquer contexto: oferecer uma ferramenta sem considerar acesso e preparo não resolve o problema que levou a escola a adotá-la.
Continuar uma prática exige acompanhamento e adaptação, não só intenção
Uma pesquisa prospectiva de cinco anos acompanhou a implementação de um referencial universal de apoio ao comportamento positivo (PBIS) em escolas dos Estados Unidos. A maioria manteve a implementação após cinco anos. Os preditores mais fortes de continuidade no ano letivo de 2022–2023 foram a fidelidade adequada da implementação e o melhor uso dos dados pelas equipes para tomar decisões no primeiro ano. A etapa de ensino atendida e a localização das escolas também foram preditoras (McIntosh, 2026).
O estudo abrangeu profissionais de 595 escolas de 22 estados norte-americanos e considerou o período anterior e posterior ao início da pandemia. A mensagem não é que toda iniciativa precise de um sistema complexo de acompanhamento. É que uma prática tem mais chance de se sustentar quando a equipe sabe o que está implementando e usa informações para decidir o que ajustar, em vez de simplesmente manter atividades no piloto automático.
Uma parceria entre escolas e universidade nos Estados Unidos examinou, entre 2019 e 2022, elementos da ciência da melhoria: ciclos planejar-fazer-estudar-agir, aprendizagem em rede e diagramas de direcionadores. Durante a pandemia, as escolas abandonaram em grande parte os ciclos PDSA, enquanto os diagramas de direcionadores foram adaptados com êxito para sustentar o trabalho de melhoria. O estudo também discute o papel de parceiros universitários como orientadores (Viano, 2024).
A diferença entre os elementos é reveladora: um método que funciona em condições mais estáveis pode se tornar pesado durante uma ruptura, enquanto outro pode ser ajustado e continuar útil. A pesquisa não recomenda abandonar todo ciclo de avaliação. Mostra que vale examinar o esforço exigido por cada processo e preservar aquilo que ajuda a equipe a pensar com clareza, sem transformar o método em mais uma tarefa impossível.
Equidade e continuidade podem andar juntas, mas não se garantem sozinhas
O caso de um programa de educação bilíngue em uma escola pública Title I de Baltimore acompanhou os anos letivos de 2019–2020 e 2020–2021. Mesmo com desafios de padronização curricular e concepções equivocadas sobre bilinguismo, o programa registrou maior engajamento dos estudantes e participação das famílias e apoio da comunidade. Durante o ensino remoto de 2020–2021, os estudantes do programa mantiveram o desempenho; a Coorte 1 apresentou maior crescimento em leitura que os estudantes do programa ministrado exclusivamente em inglês, e a Coorte 3 alcançou níveis estatisticamente semelhantes aos pares desse programa (Mata-McMahon, 2025).
Os autores descrevem capacidade de expansão e sustentabilidade apesar das dificuldades da pandemia. É um resultado situado em um programa específico, não uma promessa de que qualquer iniciativa bilíngue terá os mesmos efeitos. Ainda assim, o estudo mostra que continuidade, participação das famílias e engajamento podem coexistir com o ensino remoto, enquanto problemas de implementação continuam exigindo atenção.
Na África Subsaariana, uma análise documental examinou recomendações e financiamento do Banco Mundial para tecnologias educacionais entre 2011 e 2022. Antes da pandemia, a abordagem era mais centrada em infraestrutura, gestão e monitoramento; durante a crise, ganhou foco pedagógico, com desenvolvimento curricular, pedagogia, equidade e uso de múltiplas ferramentas de TIC para apoiar a aprendizagem remota. O estudo aponta maior alinhamento entre recomendações e investimentos durante a pandemia, mas considera incertas a sustentabilidade de longo prazo e a distribuição equitativa desses investimentos (Salimi, 2025).
Em outra situação, a ACE Radio School, na Nigéria, surgiu como resposta emergencial para crianças que não conseguiam acessar o ensino on-line durante a quarentena. A iniciativa oferece educação básica e secundária por rádio a crianças e adolescentes de 6 a 18 anos fora da escola; depois, passou a ser concebida para enfrentar o acesso precário em comunidades marginalizadas. Os roteiros são revistos quanto à criatividade, à interatividade e à pedagogia, e o currículo segue o currículo nacional nigeriano, facilitando a reinserção na educação formal (Shuaibu, 2024).
O rádio não aparece como solução universal: é uma alternativa ligada a barreiras concretas de acesso em comunidades nigerianas. Junto à análise da África Subsaariana, o caso amplia a ideia de tecnologia educacional. Sustentar a aprendizagem pode significar escolher uma ferramenta simples e acessível, em vez de presumir que todos conseguem usar a opção mais conectada.
Há sustentabilidade pedagógica, comunitária e também emocional
Um estudo sobre jovens participantes de uma iniciativa comunitária de letramento analisou 53 sessões semanais realizadas pelo Zoom entre março de 2020 e junho de 2021. Os jovens viviam, naquele período, as crises da pandemia, do racismo sistêmico e da violência racial. A pesquisa apresenta exemplos de interações entre pares em que compartilharam identidades e culturas, procuraram compreender acontecimentos atuais e imaginaram futuros sociais mais justos (Marciano, 2026).
O estudo focaliza as interações juvenis em uma iniciativa participativa de base comunitária, não uma turma escolar convencional. Mesmo assim, chama atenção para uma dimensão que pode se perder quando a conversa sobre inovação fica restrita a equipamentos: aprendizagem também envolve pertencimento, cultura, escuta e possibilidade de interpretar o mundo junto com outras pessoas.
Uma revisão sobre mindfulness na educação discute sua história, perspectivas teóricas e influência nos níveis de estudantes, professores e diretores. O texto apresenta o mindfulness como recurso para redução do estresse e aborda uma perspectiva educacional baseada na saúde física e mental, considerando a exposição da comunidade escolar a situações inesperadas, como a pandemia (Kim, 2025).
Esse trabalho oferece uma revisão e uma discussão conceitual, não um resultado de intervenção escolar descrito nos outros estudos. Sua contribuição aqui é lembrar que a sustentabilidade de uma prática também depende das pessoas que a mantêm. Isso não transforma mindfulness em resposta única ao estresse nem substitui apoio institucional; abre uma conversa sobre bem-estar na comunidade escolar.
Inovar em uma escola depende de condições que permitam continuar
O relatório do Projeto Canopy analisa cinco anos de inovação escolar, de 2019 a 2024, num cenário transformado pela pandemia e por mudanças políticas, sociais, econômicas e tecnológicas. Relata avanços e persistência em escolas pioneiras e sustenta que é possível repensar ambientes de aprendizagem de forma sustentável em diferentes escolas. Ao mesmo tempo, afirma que ampliar e manter a inovação exige condições apoiadas por formuladores de políticas, financiadores e pesquisadores (Waite, 2024).
Esse argumento complementa os estudos de sala e de escola: uma boa proposta não se sustenta apenas pela dedicação individual do professor. Ela precisa de espaço, tempo, recursos e apoio compatíveis. O relatório não apresenta uma receita única para todas as redes; seu ponto é que a inovação pode ser disseminada quando há condições para isso, e não apenas quando se pede que cada escola “se reinvente”.
Quais estudos ajudam a entender a sustentabilidade na educação?
A tabela resume o foco e os resultados relatados nos dez estudos citados. Os contextos são diferentes; por isso, a coluna final ajuda a evitar que uma conclusão localizada seja apresentada como regra geral.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Chuang (2026) | Adoção continuada de AVAs, complexidade e apoio | Associações distintas conforme posição docente e localização; recomenda apoio participativo e contextualizado | 253 professores da educação básica; localização rural e demais contextos considerados |
| McIntosh (2026) | Implementação sustentada do PBIS | A maioria manteve a implementação; fidelidade e uso de dados foram preditores fortes | 595 escolas em 22 estados dos Estados Unidos; 2018–2019 a 2022–2023 |
| Marciano (2026) | Interações entre jovens em iniciativa de letramento comunitária | Exemplos de partilha cultural, interpretação do presente e imaginação de futuros mais justos | 53 sessões por Zoom; março de 2020 a junho de 2021 |
| Mata-McMahon (2025) | Sustentabilidade de programa de educação bilíngue | Engajamento e participação comunitária; resultados de leitura mantidos ou avançados durante ensino remoto | Escola pública Title I de Baltimore; 2019–2020 e 2020–2021 |
| Salimi (2025) | Políticas e financiamento de EdTech do Banco Mundial | Mudança para foco pedagógico e multimodal durante a pandemia; sustentabilidade e equidade permanecem incertas | África Subsaariana; documentos e projetos de 2011 a 2022 |
| Kim (2025) | História, perspectivas e influência do mindfulness na educação | Discute mindfulness como recurso relacionado à redução do estresse e à saúde física e mental | Revisão sobre estudantes, professores e diretores |
| Nabi (2025) | Experiências de gestores com inovações educacionais | Relata desafios de acesso e preparo e respostas inovadoras a dificuldades específicas | Nove participantes; região da Caxemira |
| Waite (2024) | Inovação escolar ao longo de cinco anos | Aponta avanços e a necessidade de condições para sustentar e disseminar inovações | Projeto Canopy; 2019–2024, Estados Unidos |
| Viano (2024) | Elementos da ciência da melhoria durante a COVID-19 | Ciclos PDSA foram em grande parte abandonados; diagramas de direcionadores foram adaptados | Parceria escola-universidade nos Estados Unidos; 2019–2022 |
| Shuaibu (2024) | Educação alternativa por rádio | Descreve iniciativa que atende crianças fora da escola e pode apoiar a reinserção formal | Nigéria; crianças e adolescentes de 6 a 18 anos |
O que os estudos têm em comum e onde divergem?
O ponto comum é que continuidade não acontece por inércia. Nos estudos sobre PBIS, AVAs, inovação escolar e ciência da melhoria, a permanência de uma prática se relaciona com condições de implementação, decisões da equipe e adaptação ao contexto. Nos trabalhos sobre rádio, educação bilíngue e interações comunitárias, aparecem também acesso, participação e vínculo. A palavra “sustentável” descreve, portanto, dimensões diferentes: manter um programa, apoiar a aprendizagem, reduzir barreiras ou conservar a capacidade de melhorar.
Os resultados não apontam para uma única forma de inovar. A complexidade percebida dos AVAs esteve positivamente associada à adoção no estudo de Chuang, enquanto a investigação de Viano encontrou que alguns processos de melhoria foram deixados de lado durante a crise. Isso não é uma contradição direta: são práticas, perguntas e contextos diferentes. Um ambiente virtual e um ciclo formal de melhoria não exigem as mesmas condições, e a adoção de uma ferramenta não garante que todo processo associado a ela seja mantido.
Há também diferença entre identificar um resultado e abrir uma pergunta. O estudo de McIntosh apresenta preditores de implementação sustentada; o de Salimi ressalta que a sustentabilidade de investimentos em tecnologia e sua distribuição equitativa permanecem incertas. O relatório de Waite defende que a inovação pode ser sustentada e ampliada, mas condiciona esse avanço ao apoio de atores externos às escolas. Em conjunto, esses trabalhos sugerem que a continuidade pode ser observada em uma iniciativa específica sem que se saiba ainda se os recursos necessários estarão disponíveis em larga escala.
Por fim, os estudos variam em método e foco. Há levantamentos, estudos de caso, análise documental, entrevistas, revisão e acompanhamento de programas. Alguns relatam associações, outros apresentam experiências ou exemplos. Não se deve ler um resultado situado como prova de que uma prática funcionará em qualquer escola. O que atravessa as pesquisas é uma orientação mais prudente: observar as condições, acompanhar o que acontece e ajustar sem presumir que uma solução seja universal.
Como aplicar essas lições na sala de aula?
As pesquisas não entregam um plano pronto para cada turma brasileira. As propostas abaixo são aplicações possíveis inspiradas nos temas que os estudos investigaram, e não resultados testados por eles em escolas do Brasil.
1. Comece pelo problema de aprendizagem, não pela ferramenta
Aplicação sugerida: antes de adotar uma plataforma, defina o que a turma precisa fazer e que obstáculo se quer reduzir. Imagine uma turma de 7º ano em que parte dos estudantes não consegue acompanhar atividades digitais em casa. Em vez de decidir de imediato que todos usarão o mesmo recurso, o professor pode verificar quais caminhos são acessíveis — por exemplo, acesso presencial, material impresso ou áudio — e escolher a combinação possível com a escola. A proposta acompanha a preocupação dos estudos com contexto e acesso; não presume que uma tecnologia tenha sido comprovada como melhor.
2. Convide os professores que vão usar a prática para planejar
Aplicação sugerida: organize uma conversa curta com docentes antes de adotar uma rotina ou ferramenta e inclua quem tem menos poder de decisão na escola. Uma equipe pode registrar dificuldades e sugestões, testar uma mudança pequena e rever o plano após ouvir os envolvidos. Essa forma de trabalho é coerente com a ênfase de Chuang em estratégias participativas e diferenciadas. A aplicação não significa que qualquer reunião resolva problemas de apoio; serve para tornar visíveis necessidades que uma decisão centralizada pode deixar passar.
3. Escolha um sinal simples para acompanhar a prática
Aplicação sugerida: se a turma passar a usar uma rotina de apoio ou uma nova atividade, combinem um indicador observável, como a participação nas tarefas ou a frequência de devolutivas, e definam quando a equipe vai conversar sobre ele. Imagine professores de uma turma que percebem queda nas entregas depois de uma mudança: olhar para um registro comum pode ajudar a discutir se a dificuldade está na proposta, no acesso ou no tempo. O estudo de McIntosh destaca fidelidade e uso de dados como preditores de continuidade; não determina qual indicador deve ser escolhido no Brasil.
4. Mantenha o propósito e ajuste o formato
Aplicação sugerida: em uma semana de interrupção, uma atividade planejada como encontro ao vivo pode virar uma sequência mais flexível, sem perder o objetivo de conversa e acompanhamento. Uma turma pode receber uma pergunta para responder em áudio e retomá-la coletivamente quando houver oportunidade. A experiência de Viano, em que alguns elementos foram abandonados e outros adaptados, oferece uma razão para distinguir o que é essencial do formato usado em condições normais. Não é necessário conservar cada procedimento só porque foi adotado durante a pandemia.
5. Planeje mais de um caminho para acessar uma atividade
Aplicação sugerida: ao propor uma tarefa digital, pense também em quem tem conexão instável, compartilha aparelho ou não consegue participar no horário marcado. Imagine uma atividade com instruções que possam ser consultadas em mais de um momento e uma alternativa de contato organizada com a escola. O caso do rádio na Nigéria e a análise sobre multimodalidade na África Subsaariana mostram respostas a barreiras específicas de acesso. A sugestão é planejar alternativas de acordo com a realidade local, não presumir que rádio ou qualquer outra modalidade seja apropriada para todas as turmas.
6. Trate família e comunidade como parte da continuidade
Aplicação sugerida: quando uma prática depende da participação dos estudantes fora da escola, explique às famílias o propósito e pergunte que condições podem facilitar ou dificultar o envolvimento. Imagine que uma turma mantenha uma atividade de leitura em diferentes formatos; uma conversa breve pode revelar que a proposta precisa de outra duração ou de um canal mais acessível. O estudo do programa bilíngue de Baltimore relata participação familiar e apoio comunitário junto ao engajamento estudantil. A aplicação serve para abrir diálogo, não para transferir às famílias a responsabilidade por condições que cabem à instituição.
7. Abra espaço para cultura, pertencimento e bem-estar
Aplicação sugerida: em uma discussão sobre acontecimentos atuais, o professor pode criar uma atividade em que estudantes relacionem diferentes perspectivas, histórias e experiências, respeitando os limites de exposição pessoal. Imagine uma turma que analisa como uma comunidade enfrenta uma mudança e constrói perguntas coletivas, sem exigir que alguém conte uma experiência íntima. As interações estudadas por Marciano oferecem exemplos de jovens compartilhando culturas e imaginando futuros mais justos. A revisão de Kim também coloca saúde mental e redução do estresse em pauta; nenhuma dessas fontes indica uma atividade única que sirva para todos.
8. Revise a carga de trabalho antes de manter um método
Aplicação sugerida: ao fim de um período, a equipe pode identificar quais etapas de uma prática ajudam a decidir e quais viraram apenas preenchimento. Se uma rotina de acompanhamento consome tempo sem orientar mudanças, talvez seja possível simplificá-la, preservando a conversa sobre o que os estudantes precisam. A pesquisa de Viano mostra que elementos diferentes responderam de maneira diferente à turbulência. A meta não é reduzir a reflexão, mas evitar que um procedimento difícil de manter tome o lugar do trabalho pedagógico que deveria apoiar.
O que muda quando levamos esses estudos para a realidade brasileira?
O primeiro cuidado é lembrar que os estudos vieram de contextos diversos: Estados Unidos, Caxemira, Nigéria e África Subsaariana, além de uma revisão sobre mindfulness. As escolas diferem em organização, recursos, políticas, formação e condições de acesso. Um programa público de Baltimore, uma iniciativa de rádio nigeriana e um estudo com gestores da Caxemira não podem ser tratados como retratos diretos das redes brasileiras.
Isso não torna as pesquisas inúteis para professores daqui. Elas ajudam a formular perguntas para a própria escola: quem consegue usar o recurso? Os professores participaram da decisão? Há tempo para acompanhar a implementação? A atividade preserva espaço para as culturas e experiências dos estudantes? Existe uma alternativa quando a conexão ou o equipamento falha? As respostas precisam vir do contexto brasileiro, não ser copiadas dos casos estrangeiros.
Também é importante não confundir tecnologia disponível com acesso efetivo. Os estudos sobre Caxemira, África Subsaariana e Nigéria descrevem barreiras e respostas distintas. Para uma escola brasileira, a aplicação depende de verificar as condições concretas da comunidade, sem presumir que todos os estudantes tenham conexão, aparelho ou apoio em casa. Da mesma forma, experiências de aprendizagem por rádio podem inspirar a busca por alternativas acessíveis, mas não autorizam concluir que essa modalidade seja adequada em qualquer rede.
Os resultados sobre programas e estruturas também pedem adaptação. O PBIS estudado nos Estados Unidos, por exemplo, é um referencial específico; a lição mais segura para o professor brasileiro é observar o que a pesquisa destaca — implementação consistente, uso de informações e continuidade — sem importar automaticamente o programa ou suas regras. O mesmo vale para abordagens de melhoria escolar e para conclusões sobre educação bilíngue.
Em termos práticos, adaptar significa preservar perguntas e princípios, não copiar a solução inteira. A participação docente, o planejamento de alternativas, o acompanhamento da aprendizagem e o envolvimento da comunidade podem ser discutidos em escolas brasileiras de diferentes etapas. O modo de fazê-lo deve considerar as condições da rede e a experiência dos estudantes e profissionais locais.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de dez estudos recentes disponibilizados pelo ERIC, não na leitura integral dos trabalhos. Por isso, a síntese apresenta os objetivos e resultados tal como descritos nesses resumos, sem acrescentar detalhes metodológicos, instrumentos ou explicações que não estejam informados ali.
Ficam em aberto perguntas importantes: quais práticas continuam funcionando em diferentes redes brasileiras? Que apoios são mais úteis para professores em posições e escolas distintas? Como a continuidade se relaciona com as condições de acesso ao longo do tempo? Quais resultados de aprendizagem se mantêm quando uma inovação é ampliada para mais escolas? E como avaliar, em diferentes contextos, os efeitos de alternativas como rádio, ambientes virtuais ou programas comunitários?
Faria sentido consultar os estudos completos quando a escola ou a rede estiver considerando implementar uma iniciativa específica, precisar conhecer os procedimentos usados ou quiser avaliar a qualidade e o alcance de um resultado. Isso é especialmente importante antes de tomar decisões de política, orçamento ou formação com base em um caso situado. Para uma primeira conversa pedagógica, os resumos ajudam a localizar questões relevantes; para uma decisão de implementação, é preciso aprofundar.
Como o GeraProva ajuda com este assunto?
Uma forma de levar essas ideias para a avaliação é propor questões que ajudem a turma a comparar respostas a uma crise, identificar barreiras de acesso e discutir por que uma prática pode ou não continuar, sem apresentar casos estrangeiros como se fossem experiências brasileiras. O gerador de provas do GeraProva pode ajudar a criar questões e atividades sobre esses temas; você também pode fazer o cadastro grátis para explorar a plataforma e adaptar os materiais ao seu planejamento.
Perguntas frequentes sobre COVID-19 e sustentabilidade na educação
A pandemia tornou as escolas mais sustentáveis?
Os estudos não permitem uma resposta única. Eles relatam práticas que continuaram, programas que se adaptaram e também incertezas sobre a duração e a distribuição equitativa de investimentos. A maioria das escolas acompanhadas no estudo de PBIS manteve a implementação após cinco anos, enquanto a pesquisa sobre políticas de tecnologia na África Subsaariana aponta que a sustentabilidade de longo prazo permanece incerta. A conclusão mais fiel é que a crise acelerou mudanças, mas não garantiu sua continuidade: isso depende de condições, adaptação e acompanhamento.
Usar tecnologia é suficiente para manter a aprendizagem em uma crise?
Não. As pesquisas sobre gestores na Caxemira e políticas de tecnologia na África Subsaariana descrevem questões de acesso, preparo e equidade, além da escolha das ferramentas. O caso da ACE Radio School, na Nigéria, mostra uma alternativa para crianças que não conseguiam acessar o ensino on-line, mas não indica que o rádio sirva para todas as escolas. Em sala, uma aplicação possível é planejar mais de um caminho para acessar uma atividade e verificar as condições reais da turma antes de decidir o formato.
O que ajuda uma prática escolar a continuar depois de uma emergência?
Os estudos apontam elementos diferentes, e nenhum deles oferece uma fórmula universal. No acompanhamento do PBIS, fidelidade de implementação e uso de dados pelas equipes foram preditores fortes de continuidade. A pesquisa sobre AVAs destaca a importância de apoio sensível à posição dos professores e ao contexto local; o relatório sobre inovação escolar chama atenção para as condições de apoio necessárias para manter e ampliar mudanças. Uma aplicação possível é combinar uma prática clara com acompanhamento e espaço para rever o que não funciona.
As experiências dos Estados Unidos e de outros países servem para escolas brasileiras?
Podem ajudar a formular perguntas, mas não devem ser copiadas automaticamente. Os estudos citados envolvem contextos como Baltimore, escolas de 22 estados norte-americanos, a Caxemira, a Nigéria e a África Subsaariana. As condições de acesso, as estruturas escolares e as políticas podem ser diferentes das brasileiras. Uma aplicação cuidadosa é identificar o princípio que interessa — por exemplo, participação docente ou alternativas de acesso — e decidir como testar uma resposta compatível com a comunidade local.
Como conversar com os estudantes sobre sustentabilidade e crise?
Os estudos não testaram uma atividade única para todas as turmas, mas a pesquisa de Marciano apresenta jovens compartilhando identidades e culturas, interpretando acontecimentos atuais e imaginando futuros mais justos. Uma aplicação possível é propor uma discussão guiada sobre como diferentes comunidades respondem a uma interrupção e que condições ajudam a aprendizagem a continuar. O professor pode usar situações hipotéticas ou exemplos cuidadosamente contextualizados, sem exigir relatos pessoais dos estudantes nem presumir que todos viveram a pandemia da mesma maneira.
Mindfulness é uma solução comprovada para o estresse escolar causado pela pandemia?
A revisão de Kim apresenta o mindfulness como recurso associado à redução do estresse e discute sua influência na educação para estudantes, professores e diretores. Porém, a síntese aqui não descreve uma intervenção específica nem permite afirmar que uma prática isolada resolva o estresse de uma comunidade escolar. Se o tema interessar à equipe, uma aplicação possível é discutir bem-estar e saúde física e mental como parte das condições de trabalho e aprendizagem, sem substituir apoio institucional ou tratar uma técnica como resposta universal.
Referências
- Chuang (2026). Rumo à inovação digital sustentável na educação: contextualizando a adoção de ambientes virtuais de aprendizagem por meio da complexidade percebida, do apoio organizacional e da posição dos professores na era pós-pandemia (Toward Sustainable Digital Innovation in Education: Contextualizing LMS Adoption through Perceived Complexity, Organizational Support, and Teacher Positionality in the Post-Pandemic Era). Education and Information Technologies. Link.
- McIntosh (2026). Preditores da implementação sustentada de um referencial universal de apoio ao comportamento durante a pandemia de COVID-19 (Predictors of Sustained Implementation of a Universal Behavior Support Framework through the COVID-19 Pandemic). Journal of Positive Behavior Interventions. Link.
- Marciano (2026). Examinando as interações culturalmente sustentadoras entre pares de jovens em uma iniciativa de pesquisa participativa de base comunitária (Examining Youths' Culturally Sustaining Peer Interactions in a Community-Based Participatory Research Initiative). Urban Education. Link.
- Mata-McMahon (2025). Sustentabilidade de um programa de educação bilíngue durante e após os desafios da COVID-19 (Sustainability of a Dual Language Program during and beyond COVID-19 Challenges). International Journal of Bilingual Education and Bilingualism. Link.
- Salimi (2025). Alinhando políticas e práticas: a abordagem do Banco Mundial para a tecnologia educacional na África Subsaariana (Aligning Policy and Practice: The World Bank's Approach to EdTech in Sub-Saharan Africa). Policy Futures in Education. Link.
- Kim (2025). Compreendendo a História, as Perspectivas Teóricas e a Influência do Mindfulness: Construindo Sustentabilidade por meio do Mindfulness na Educação (Understanding the History, Theoretical Perspectives, and Influence of Mindfulness: Building Sustainability through Mindfulness in Education). International Journal of Educational Reform. Link.
- Nabi (2025). Conduzindo o novo normal: experiências vividas por gestores escolares com inovações educacionais em meio à pandemia de COVID-19 (Steering New Normal: School Administrators' Lived Experiences of Educational Innovations amidst COVID-19 Pandemic). Leadership and Policy in Schools. Link.
- Waite (2024). Avanços promissores, bases frágeis: uma análise de cinco anos da inovação escolar, 2019–2024 (Promising Progress, Fragile Foundations: A Five-Year Analysis of School Innovation, 2019-2024). Center on Reinventing Public Education. Link.
- Viano (2024). Adaptação de uma parceria para a melhoria escolar antes e durante a COVID-19: um estudo de caso sobre a resiliência da ciência da melhoria diante da complexidade (Adapting a School Improvement Partnership before and during COVID-19: A Case Study of the Resilience of Improvement Science to Complexity). Journal of Educational Administration. Link.
- Shuaibu (2024). O Rádio como Ferramenta de Educação Alternativa na Nigéria (Radio as a Tool for Alternative Education in Nigeria). Childhood Education. Link.
Se alguma dessas perguntas combina com os desafios da sua escola, vale levá-la para uma conversa com a equipe e pensar, juntos, no próximo passo possível.
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