Atividades sobre criação de narrativas ficcionais com gabarito — 6º ano, 7º ano (EF67LP30)
Quando recebo a EF67LP30 no planejamento, minha primeira reação é pensar no tamanho da tarefa: não basta pedir que a turma “escreva uma história”. Preciso ajudá-la a escolher um gênero, imaginar personagens, organizar conflito, sustentar um narrador e revisar escolhas de linguagem. Na prática, é uma habilidade que pede processo, não uma redação entregue de uma vez.
Eu costumo partir das histórias que os alunos já consomem: filmes de suspense, HQs, causos de família, jogos e séries. Daí transformo esse repertório em observação consciente e, depois, em escrita. Abaixo, reuni caminhos e questões que eu usaria com 6º e 7º ano.
O que a habilidade EF67LP30 pede, de verdade?
A EF67LP30 pede que o estudante seja autor de narrativas ficcionais e faça escolhas coerentes com o gênero que pretende escrever. Em linguagem de sala de aula, isso significa sair do texto solto, em que “muitas coisas acontecem”, para construir uma história com começo que prende, conflito que se desenvolve e desfecho que faz sentido. O aluno precisa decidir quem narra, onde e quando a ação acontece, quais personagens têm objetivos e obstáculos e como os fatos serão encadeados. Também precisa usar adequadamente verbos para narrar acontecimentos passados e conhecer formas de abrir uma história, como começar por uma ação, uma descrição, uma fala ou uma situação inesperada. Outro ponto importante é empregar discurso direto e indireto com intenção: a fala pode aproximar o leitor da cena; o relato do narrador pode acelerar a passagem do tempo. Não é uma habilidade exclusiva de conto de mistério, embora esse gênero seja excelente para trabalhar pistas, tensão e conflito.
“Criar narrativas ficcionais, tais como contos populares, contos de suspense, mistério, terror, humor, narrativas de enigma, crônicas, histórias em quadrinhos, dentre outros, que utilizem cenários e personagens realistas ou de fantasia, observando os elementos da estrutura narrativa próprios ao gênero pretendido, tais como enredo, personagens, tempo, espaço e narrador, utilizando tempos verbais adequados à narração de fatos passados, empregando conhecimentos sobre diferentes modos de se iniciar uma história e de inserir os discursos direto e indireto.”
Na BNCC, a habilidade pertence a Língua Portuguesa, no objeto de conhecimento Construção da textualidade Relação entre textos, e está prevista para 6º e 7º ano. Para conferir o detalhamento e acessar o acervo, vale consultar a consulta completa do código EF67LP30.
Como trabalhar EF67LP30 em sala?
1. Monte um banco de começos. Levo pequenos inícios de histórias: um diálogo, uma descrição de lugar, uma ação repentina e uma lembrança. Em duplas, os alunos identificam o efeito de cada abertura e escrevem quatro começos para a mesma história. Isso mostra que iniciar pelo “Era uma vez” não é a única possibilidade.
2. Use o mapa da narrativa antes da produção. No caderno, proponho cinco campos: personagem, objetivo, espaço, problema e desfecho possível. Não precisa virar um roteiro engessado; é uma âncora para evitar personagens sem motivação e finais que aparecem sem preparação.
3. Faça oficina de transformação de discurso. Entrego uma cena curta e peço que a turma a reescreva primeiro com discurso direto e depois com discurso indireto. Comparamos: qual versão deixa a cena mais viva? Qual avança mais rápido? Essa comparação costuma esclarecer muito mais do que uma explicação isolada de pontuação.
4. Trabalhe o clima de cada gênero. Com uma situação simples — por exemplo, “alguém encontra uma chave no pátio” — grupos criam versões de humor, terror, aventura e mistério. Depois, sublinham as palavras, ações e descrições que produziram cada efeito.
5. Reserve tempo para revisão entre pares. Uma lista curta resolve bem: há conflito? O narrador está definido? O tempo verbal se mantém? O final dialoga com o começo? O colega leitor consegue apontar uma pergunta que ficou sem resposta ou uma passagem confusa.
Como avaliar essa habilidade?
Uma boa avaliação de EF67LP30 não cobra apenas nomenclatura. Ela precisa verificar se o estudante reconhece e mobiliza elementos narrativos: coerência entre clima e continuação, papel do objetivo do personagem, construção de suspense, organização de enredo, efeitos do narrador e uso de discursos. Em uma produção escrita, eu avalio com critérios claros e conhecidos antes da escrita: adequação ao gênero, desenvolvimento do conflito, personagens e cenário, progressão dos fatos, marcas temporais e escolhas de linguagem.
Um erro comum é avaliar criatividade como se fosse sinônimo de fantasia extravagante. Uma narrativa realista pode ser muito criativa se tiver conflito bem desenvolvido. Outro erro é descontar tudo pela norma-padrão e não enxergar se o aluno construiu uma história. Também evito propostas vagas, como “faça um conto”, sem indicar leitor, extensão, gênero ou foco de revisão. Questões objetivas, como as abaixo, funcionam bem para diagnosticar leitura de escolhas narrativas; a produção autoral completa o retrato.
Questões prontas de EF67LP30 (com gabarito comentado)
1. Ao criar um conto de mistério, qual escolha ajuda a manter o leitor envolvido na descoberta do que aconteceu?
Uma turma planeja um conto em um farol isolado, com descrições do lugar, silêncio, tensão e desfecho surpreendente.
- ❌ A) Usar o humor como principal recurso para criar a tensão. O humor pode existir, mas não é o recurso central para sustentar a atmosfera de mistério.
- ❌ B) Explicar antecipadamente todos os detalhes da situação. Isso entrega informações antes que o leitor possa formular hipóteses.
- ✅ C) Apresentar informações que permitam diferentes interpretações até o desfecho. Pistas e dúvidas mantêm o leitor envolvido até a revelação final.
- ❌ D) Resolver o conflito logo nas primeiras linhas do conto. Sem conflito em desenvolvimento, o suspense desaparece.
- ❌ E) Apresentar somente situações comuns, sem conflito ou dúvida. A incerteza é essencial ao mistério.
2. Qual continuação mantém o clima de mistério e suspense do texto-base?
No texto, Lúcia encontra um envelope com a pista “Procure onde as sombras se encontram” na antiga sala de leitura.
- ✅ A) Descrevendo o ranger de uma porta ao fundo da biblioteca, enquanto um vento gelado apaga a única vela que iluminava o corredor. Sons e sensações ampliam o suspense criado.
- ❌ B) Apresentando detalhes históricos da construção da biblioteca. A informação técnica não sustenta a tensão narrativa.
- ❌ C) Utilizando humor com um rato que rouba o envelope. A cena cômica quebra o tom sombrio.
- ❌ D) Revelando imediatamente o remetente e seus motivos. A resposta imediata interrompe a investigação.
- ❌ E) Narrando uma reação apocalíptica dos estudantes. O exagero desloca o suspense sutil do texto.
3. Qual orientação é mais eficaz para manter o suspense ao final de cada cena?
Um roteiro propõe ganchos, ruídos estranhos, cores sombrias, flashbacks extensos e piadas inesperadas.
- ✅ A) Criar um gancho no final de cada cena deixando perguntas sem resposta. O gancho cria expectativa e impulsiona a leitura.
- ❌ B) Inserir flashbacks extensos que expliquem todo o passado do protagonista. Explicações longas diminuem a dúvida.
- ❌ C) Descrever ruídos estranhos e passos ecoando nos corredores. Ajuda no clima, mas não mantém a passagem de uma cena para outra como o gancho.
- ❌ D) Pintar o ambiente com cores sombrias e objetos antigos. A ambientação reforça o gênero, porém não cria continuidade de suspense.
- ❌ E) Interromper momentos de tensão com piadas inesperadas. As piadas aliviam justamente a tensão necessária.
4. Qual continuação preserva o clima de suspense no sótão?
O narrador encontra um baú no sótão da casa dos avós, ouve estrondos e vê algo deslizar pela parede.
- ❌ A) Uma risada aguda cortou o silêncio e logo me lembrei da festa de aniversário surpresa. A explicação festiva quebra o mistério.
- ❌ B) Uma tempestade de neve começou a cair lá fora. O foco sai da ação ameaçadora dentro do sótão.
- ❌ C) Uma luz violeta invadiu o sótão, iluminando potes químicos. A proposta muda para ficção científica.
- ✅ D) Uma sombra saiu do canto, contornou o baú e lançou um olhar fixo antes que eu pudesse me mover. A ação vaga e ameaçadora preserva a tensão.
- ❌ E) Uma figura dançava alegremente ao som de música antiga. A atmosfera festiva é incompatível com o trecho.
5. Qual continuação mantém o tom de suspense e a coerência narrativa?
Marina está em um cemitério abandonado à meia-noite e vê uma sombra atrás de um mausoléu.
- ❌ A) O sol surgiu no horizonte, iluminando flores coloridas. O tom diurno e alegre rompe a ambientação construída.
- ✅ B) A ponte balança sob passos silenciosos, e uma figura encapuzada ergue lentamente a mão em direção a Marina. A tensão aumenta de modo coerente com a cena.
- ❌ C) O narrador explicou a história arquitetônica do mausoléu. A explicação informativa prejudica o ritmo do suspense.
- ❌ D) Marina começou a dançar ao ritmo de uma música animada. A descontração destoa do medo apresentado.
- ❌ E) Marina sorriu ao lembrar do bolo de chocolate. O detalhe cotidiano e alegre dissolve a tensão.
6. Qual elemento é essencial para a construção do personagem em uma narrativa de terror?
No planejamento, o professor explica que o personagem precisa ter algo que oriente suas ações e construa o conflito.
- ❌ A) Um relacionamento amoroso. Pode aparecer, mas não é obrigatório.
- ✅ B) Um objetivo claro. É o objetivo que move as ações do personagem e ajuda a criar o conflito.
- ❌ C) Uma aparência comum. A aparência pode variar e não organiza a ação narrativa.
- ❌ D) Habilidades especiais. Terror não exige personagens poderosos ou fantásticos.
- ❌ E) Um passado trágico. É um recurso possível, não uma condição indispensável.
Próximos passos para levar à aula
Eu usaria essas questões como aquecimento ou diagnóstico e, em seguida, proporia uma escrita breve de suspense com revisão em dupla. Se quiser montar uma lista, um simulado ou uma avaliação com outros recortes da habilidade, o acervo reúne 30 questões alinhadas à EF67LP30. Dá para criar e adaptar atividades no gerador de provas do GeraProva e começar pelo cadastro grátis.
As questões ajudam a diagnosticar aprendizagens, mas a escrita do aluno é o centro desta habilidade. Use os resultados para planejar intervenções, valorizar boas escolhas narrativas e dar um próximo passo possível para cada turma.
