Avaliação de programas educacionais: por que alguns ganhos não aparecem em todas as habilidades
Estudos recentes de diferentes países mostram como intervenções educacionais podem melhorar alguns resultados sem alterar outros. Veja o que isso ensina sobre avaliar programas com atenção ao contexto e aos objetivos.
Avaliar um programa educacional é comparar o que acontece antes e depois da intervenção — e, quando possível, com um grupo que não a recebeu — considerando os objetivos definidos. Pesquisas recentes em diferentes países mostram que uma iniciativa pode melhorar certas habilidades e não outras. Por isso, vale observar resultados específicos, contexto, duração e experiência dos estudantes, sem concluir que um programa funciona para tudo.
Uma intervenção de sete semanas com estudantes do quarto ano na Turquia melhorou significativamente o pensamento crítico e a autoeficácia criativa, mas teve efeito desprezível sobre resolução de problemas e pensamento computacional (Ç, 2026). Esse contraste é uma boa notícia para quem avalia programas: uma iniciativa pode produzir mudanças reais sem transformar, ao mesmo tempo, todas as habilidades que pretendia mobilizar.
Na escola, é comum perguntar se uma atividade, sequência ou projeto “funcionou”. A resposta fica mais útil quando a pergunta é específica: funcionou para quem, em qual resultado, durante quanto tempo e em que contexto? Estudos recentes realizados em diferentes países ajudam a pensar essa avaliação sem prometer que uma estratégia dará o mesmo resultado em qualquer turma. Também mostram por que vale observar mais de um indicador e registrar o que mudou — e o que não mudou.
O que são intervenções e avaliação de programas educacionais em países estrangeiros e por que isso importa para o professor?
Uma intervenção educacional é uma estratégia planejada para influenciar algum aspecto da aprendizagem, da participação ou da experiência escolar. Pode ser uma sequência de leitura compartilhada, uma abordagem de ensino, um programa de hábitos saudáveis ou uma mudança no ambiente de aprendizagem. Avaliar um programa é observar de maneira organizada se os resultados esperados aparecem e como se relacionam com a experiência de quem participou.
Os estudos reunidos aqui foram conduzidos em países diferentes do Brasil e em etapas e situações variadas. Alguns compararam medidas antes e depois de uma intervenção; outros usaram grupos de comparação, entrevistas, diários ou observações. Para o professor, isso se conecta a decisões cotidianas: escolher um objetivo, acompanhar evidências de progresso e ajustar a proposta quando um resultado não aparece. Não é necessário transformar a sala em laboratório. É possível, por exemplo, definir uma habilidade a observar, guardar produções dos estudantes e conversar sobre o que a atividade tornou mais fácil ou mais difícil.
Importa ainda separar duas perguntas. A primeira é se houve mudança nos resultados observados. A segunda é se aquela mudança pode ser atribuída à intervenção e se é provável que se repita em outro contexto. Os desenhos de pesquisa e as condições locais variam, então os achados não autorizam uma receita universal. Eles oferecem pistas para formular boas perguntas e planejar experiências pedagógicas com objetivos mais claros.
O que a pesquisa recente mostra sobre a eficácia de programas educacionais?
Uma intervenção pode favorecer algumas habilidades e não outras
O estudo turco sobre pesquisa baseada em design acompanhou 431 estudantes do quarto ano em duas escolas rurais durante sete semanas. O modelo foi eficaz e os resultados apontaram melhora significativa no pensamento crítico e na autoeficácia criativa. Já os efeitos sobre resolução de problemas e pensamento computacional foram descritos como desprezíveis (Ç, 2026). O resultado não deve ser resumido como “o programa funcionou” ou “não funcionou”: a conclusão depende do objetivo avaliado.
Algo semelhante aparece em uma intervenção de leitura em inglês realizada com estudantes do nono ano de uma escola pública na Etiópia. Ao longo de dez semanas, o ensino baseado em tarefas produziu melhorias significativas nas dimensões cognitiva e conativa das atitudes de leitura. As mudanças na dimensão afetiva e na atitude geral não foram estatisticamente significativas. Entrevistas também apontaram ampliação da compreensão, do engajamento crítico, do prazer e da participação sustentada entre os estudantes do grupo experimental (Wordofa, 2026).
Esses casos mostram que resultados diferentes podem coexistir. Um estudante pode passar a usar estratégias mais ativas sem relatar, naquele período, uma mudança geral na atitude; uma proposta pode estimular pensamento crítico sem alterar uma medida de resolução de problemas. A avaliação fica mais informativa quando os resultados são separados por dimensão, em vez de condensados em uma nota única de sucesso.
Comparar antes e depois ajuda, mas não responde a tudo
Na província chinesa de Yunnan, uma intervenção de quatro semanas integrou ensino comunicativo de inglês e ferramentas apoiadas por inteligência artificial para 35 estudantes do sexto ano. O desempenho oral médio passou de 14,74 no pré-teste para 17,11 no pós-teste, com melhora significativa e ganhos notáveis em fluência e vocabulário. Os participantes relataram satisfação moderada, destacando o retorno imediato e as tarefas comunicativas; também indicaram maior confiança e menos ansiedade ao falar inglês (Zhao, 2026).
Na Espanha, alunos monolíngues falantes de espanhol do primeiro ano foram organizados em três condições: desenvolvimento típico da leitura, risco de transtorno de leitura com intervenção e risco sem a intervenção, seguindo o ensino habitual. Ao final do ano, o grupo em risco que recebeu a intervenção obteve resultados significativamente superiores aos do grupo em risco sem ela. Também passou de uma estratégia de decodificação som por som para uma estratégia capaz de combinar sons ao ler uma pseudopalavra com eficácia semelhante à dos alunos com desenvolvimento típico (Crespo, 2026).
Já uma pesquisa-ação com dez estudantes do terceiro ano em Tinoc, nas Filipinas, examinou leitura compartilhada em inglês. Os resultados indicaram melhora significativa no desempenho geral depois da intervenção; ao final das sessões, a maioria havia alcançado níveis instrucional e independente, embora alguns ainda apresentassem níveis de frustração em reconhecimento de palavras e compreensão (Lumecio, 2026). Em conjunto, esses estudos mostram a utilidade de acompanhar o ponto de partida e o resultado posterior, sem deixar que uma média esconda necessidades individuais.
Nem todo resultado esperado se movimenta na mesma direção
O programa Let's Go! 5-2-1-0 foi avaliado em duas escolas de ensino fundamental II em Istambul, na Turquia, com 150 adolescentes distribuídos entre grupo de intervenção e grupo de controle. Após seis sessões, o grupo participante apresentou redução significativa na proporção de estudantes com IMC superior a 85 e mudanças em vários hábitos alimentares, como maior frequência de café da manhã, refeições em família e ingestão de água. Também houve redução no consumo de refrigerantes e de bebidas prontas. No entanto, não foram encontradas diferenças significativas nas pontuações de atividade física entre os grupos (Ozmet, 2026).
Esse resultado põe em evidência uma diferença importante entre componentes de um mesmo programa. O fato de alguns hábitos terem mudado não permite concluir que todas as metas foram alcançadas. Os autores concluem que o programa promoveu hábitos alimentares saudáveis e reduziu o IMC dos adolescentes, enquanto seus efeitos sobre atividade física foram limitados; sugerem desenvolver iniciativas escolares voltadas a estilos de vida mais ativos (Ozmet, 2026). Para quem avalia, a ausência de mudança também é informação útil: aponta onde talvez seja preciso rever a proposta ou criar uma ação complementar.
Um programa não precisa ser descartado automaticamente porque uma medida permaneceu estável. Pode haver ganhos relevantes em outros objetivos, ou a medida escolhida pode não captar a mudança que o professor esperava. A interpretação exige olhar para cada resultado previsto e para o tempo e as condições em que foi observado.
Experiências e efeitos percebidos também ajudam a interpretar os números
Uma experiência de aprendizagem em serviço sobre poluição por microplásticos foi realizada em uma escola pública de ensino médio no Caribe colombiano. A intervenção passou por quatro fases, da sensibilização à reflexão final, e combinou pré e pós-teste com grupos focais, diários de estudantes e análise narrativa. Os achados apontaram mudanças cognitivas, emocionais e comportamentais, com melhorias estatisticamente significativas no conhecimento ecológico e nas atitudes pró-ambientais. Os dados qualitativos também registraram responsabilidade crescente, comunicação, educação por pares, envolvimento familiar e protagonismo socioambiental (Henao-Castro, 2026).
Na Austrália, um programa de brincadeiras na natureza de dez semanas para estudantes do primeiro ano deu origem a um estudo qualitativo sobre as experiências de duas professoras. Elas relataram fortalecimento das relações com os estudantes, redução de desafios de gestão do comportamento e uma compreensão diferente do envolvimento infantil. Também descreveram renovação emocional e reflexão profissional (Harper, 2026). O estudo oferece percepções preliminares sobre as docentes, não uma estimativa ampla de efeitos para todas as escolas.
Outra pesquisa, realizada no Japão com 48 estudantes de duas turmas de uma mesma série, comparou o uso alternado de cadeiras comuns e cadeiras risshin durante aproximadamente cinco semanas. Os autores relataram efeitos em aspectos específicos da postura. A melhora da postura de costas retas esteve relacionada a menos pensamentos distrativos sobre o tempo de aula, maior agradabilidade e sensação diária de realização escolar (Murakami, 2026). A investigação mostra que avaliar um programa pode incluir experiência e bem-estar, além de desempenho acadêmico.
Em um estudo de caso qualitativo com uma estudante superdotada e artisticamente talentosa de 14 anos, a orientação de carreira integrativa a ajudou a refletir sobre opções profissionais e facilitou a reflexividade. A pesquisa não oferece uma medida de eficácia generalizável para outros estudantes; seu foco é a experiência de uma participante e as possibilidades de uma intervenção individualizada (Maree, 2026). É uma lembrança de que nem toda avaliação busca comparar médias: algumas investigam processos e sentidos em profundidade.
O que os estudos mostram lado a lado?
A tabela reúne o foco e os resultados relatados nos estudos citados. Os contextos variam bastante; por isso, cada linha deve ser lida junto com o objetivo e o desenho da pesquisa.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Wordofa (2026) | Ensino de leitura baseado em tarefas | Melhora cognitiva e conativa; sem mudança significativa afetiva ou geral | Etiópia; nono ano; dez semanas |
| Maree (2026) | Orientação de carreira integrativa | A intervenção facilitou a reflexão da participante | Estudo de caso; estudante de 14 anos |
| Henao-Castro (2026) | Aprendizagem em serviço sobre microplásticos | Melhora no conhecimento ecológico e nas atitudes pró-ambientais, além de mudanças qualitativas | Caribe colombiano; ensino médio |
| Zhao (2026) | Ensino comunicativo de inglês integrado a IA | Melhora oral; satisfação moderada, confiança maior e ansiedade menor relatadas | Yunnan, China; sexto ano; quatro semanas |
| Ozmet (2026) | Programa sobre alimentação e atividade física | Mudanças alimentares e redução na proporção com IMC superior a 85; sem diferença significativa em atividade física | Istambul, Turquia; ensino fundamental II |
| Murakami (2026) | Intervenção com cadeira risshin | Melhora em aspectos específicos da postura e resultados subjetivos associados | Japão; ensino fundamental II; cerca de cinco semanas |
| Ç (2026) | Pesquisa baseada em design | Melhora no pensamento crítico e na autoeficácia criativa; efeito desprezível em outras habilidades medidas | Turquia; quarto ano; escolas rurais; sete semanas |
| Crespo (2026) | Intervenção em estratégias de decodificação | Grupo em risco com intervenção superou grupo em risco sem ela | Espanha; primeiro ano |
| Harper (2026) | Brincadeiras na natureza e experiências docentes | Professoras relataram relações fortalecidas, menos desafios comportamentais e renovação emocional | Austrália; primeiro ano; dez semanas |
| Lumecio (2026) | Intervenção de leitura compartilhada | Melhora significativa geral; a maioria chegou a níveis instrucional e independente | Filipinas; terceiro ano; dez estudantes |
Quais são os pontos em comum e as divergências entre os estudos?
Um ponto em comum é que os resultados mais úteis são específicos. Em vários estudos, algumas dimensões mudaram enquanto outras permaneceram estáveis ou tiveram efeitos limitados. A pesquisa baseada em design distinguiu pensamento crítico e autoeficácia criativa de resolução de problemas e pensamento computacional; o ensino de leitura baseado em tarefas separou atitudes cognitivas e conativas das afetivas e gerais; o programa de saúde separou mudanças alimentares de atividade física. Essa distinção evita transformar evidências parciais em uma avaliação totalizante.
Também há variedade nos modos de observar a mudança. Alguns trabalhos usaram pré e pós-testes, grupos de comparação ou acompanhamento de medidas; outros acrescentaram entrevistas, diários, observações e relatos. O caso colombiano combinou medidas quantitativas e registros qualitativos. A investigação australiana concentrou-se na experiência de duas professoras, enquanto o estudo de orientação de carreira acompanhou uma estudante. Esses desenhos respondem a perguntas diferentes, e não devem ser tratados como se medissem a mesma coisa.
Os estudos divergem em escala, duração, etapa escolar e conteúdo: há intervenções de quatro semanas e de dez semanas, estudos com grupos numerosos e estudos com poucas participantes. Também diferem no tipo de resultado esperado, de leitura e expressão oral a alimentação, postura, meio ambiente e bem-estar docente. Ainda não fica resolvido, a partir desse conjunto, quais estratégias se mantêm eficazes no longo prazo, como se comportariam em outras escolas ou quais componentes explicam cada mudança. Essas questões pedem acompanhamento e investigação em contextos variados.
Como aplicar essas lições à avaliação na sala de aula?
Uma aplicação possível é planejar cada proposta com um objetivo observável e recolher evidências compatíveis com ele. Os exemplos a seguir são sugestões de aplicação inspiradas nas perguntas levantadas pelos estudos; não são resultados testados por eles em escolas brasileiras.
1. Separe os objetivos antes de começar
Em vez de avaliar uma sequência apenas com “deu certo?”, defina quais dimensões quer observar. Uma forma de usar isso em sala é propor uma atividade de leitura e acompanhar separadamente a compreensão, a participação e a disposição para continuar lendo. Imagine uma turma de 7º ano em que o objetivo é discutir textos em grupo: um registro breve de intervenções orais pode informar sobre participação, enquanto uma tarefa de compreensão observa outro resultado. Um avanço em uma medida não precisa ser confundido com avanço em todas.
2. Registre um ponto de partida simples
Uma forma de aplicação é guardar uma amostra de produção ou fazer uma atividade curta antes da sequência, repetindo uma tarefa comparável ao final. Isso não precisa ser um teste extenso. Imagine uma turma que vai trabalhar estratégias de leitura: o professor pode registrar como os estudantes justificam suas respostas antes e depois. A comparação ajuda a olhar para mudança, mas deve ser interpretada junto com as condições de aplicação, o tempo decorrido e o que foi efetivamente ensinado.
3. Combine evidências diferentes
Uma aplicação possível é aproximar o desempenho de relatos e observações. Se uma atividade pretende ampliar a participação, por exemplo, o professor pode acompanhar quem contribui e também pedir aos estudantes uma breve avaliação sobre o que facilitou ou dificultou o envolvimento. Imagine uma turma que participa de um projeto ambiental hipotético: uma produção final pode mostrar o conhecimento mobilizado, enquanto uma conversa de fechamento revela como os estudantes entendem a ação. Um tipo de evidência não substitui o outro; cada um responde a perguntas diferentes.
4. Observe quem avançou e quem ainda precisa de apoio
Uma média geral pode esconder trajetórias diferentes. Como aplicação, organize resultados por estudante ou por necessidade de aprendizagem, respeitando a privacidade e evitando rótulos. Imagine um grupo de leitura em que a maioria melhora, mas alguns alunos ainda encontram dificuldades para reconhecer palavras. O próximo passo pode ser oferecer apoio direcionado e acompanhar essas necessidades em vez de concluir que todos avançaram igualmente. O estudo filipino, por exemplo, relata melhora geral e também a permanência de dificuldades para alguns participantes.
5. Não descarte um programa por um resultado isolado
Uma aplicação útil é revisar cada objetivo antes de decidir se mantém ou altera uma proposta. Imagine uma atividade interdisciplinar que aumenta o conhecimento sobre alimentação, mas não parece mudar a prática de movimento. O professor pode preservar o que atende ao primeiro objetivo e planejar outra estratégia para o segundo, sem declarar que toda a iniciativa foi inútil. A avaliação do programa turco oferece um exemplo de resultados diferentes entre hábitos alimentares e atividade física, mas a decisão em uma turma brasileira dependerá de evidências locais.
6. Considere a experiência de estudantes e docentes
Uma forma de aplicação é incluir uma pergunta curta sobre como a atividade foi vivida: o que ajudou, o que cansou, o que tornou a participação possível? Imagine um projeto fora da sala em que a turma demonstra interesse, mas a organização exige muito do professor. Registrar as duas perspectivas pode apoiar ajustes mais realistas. Os estudos sobre brincadeiras na natureza e cadeira risshin mostram que pesquisas podem investigar experiência e bem-estar, além de medidas acadêmicas; isso inspira a pergunta, mas não garante que a mesma estratégia terá efeitos equivalentes em qualquer escola.
7. Planeje o que fazer com um resultado inesperado
Antes de iniciar uma proposta, combine um momento para revisar as evidências e decidir o próximo passo. Uma aplicação possível é perguntar: o objetivo foi alcançado? Para quem? O que pode ter interferido? Imagine que uma sequência aumente a participação oral, mas não altere a qualidade das respostas. O professor pode manter oportunidades de fala e acrescentar momentos de preparação e revisão. Essa hipótese de ajuste é uma escolha pedagógica, não uma conclusão automática dos estudos; o importante é não confundir ausência de mudança em uma medida com ausência total de aprendizagem.
O que muda quando essas pesquisas são consideradas no contexto brasileiro?
Os estudos foram realizados em contextos estrangeiros: entre outros, escolas na Etiópia, China, Turquia, Japão, Espanha, Austrália, Colômbia e Filipinas. As línguas ensinadas, os recursos disponíveis, as características das escolas e as condições de implementação não são necessariamente iguais às de uma escola brasileira. Uma intervenção testada com leitura em inglês, por exemplo, não permite prever diretamente resultados de leitura em português; as estratégias e os instrumentos precisam ser considerados à luz do idioma e do objetivo local.
Também é necessário distinguir programas ligados a uma política ou estrutura específica de uma proposta que pode inspirar uma atividade. A experiência colombiana foi alinhada ao Projeto Ambiental Escolar daquele país. Isso não significa que a mesma estrutura institucional exista no Brasil, nem que o projeto possa ser copiado sem adaptação. O que pode ser aproveitado como inspiração é a sequência de sensibilização, diagnóstico, ação e reflexão, ajustada aos temas e às condições da comunidade escolar brasileira.
Uma aplicação responsável começa em escala manejável: explicitar o objetivo, verificar o que a turma já sabe, acompanhar alguns indicadores e pedir retorno aos estudantes. Antes de adotar um programa por causa de um resultado publicado, o professor pode perguntar se a duração, os materiais e o tipo de apoio são viáveis na sua escola. Resultados de estudos em outros países são pistas, não garantias de efeito local. A decisão deve considerar a realidade da turma, o currículo efetivamente trabalhado e os recursos disponíveis.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de dez estudos recentes, e não na leitura integral dos trabalhos. Os resumos permitem identificar objetivos, aspectos gerais dos métodos e resultados relatados, mas nem sempre apresentam informações suficientes para avaliar todos os detalhes da implementação, dos instrumentos ou das análises. Por isso, as conclusões aqui se limitam ao que os resumos descrevem; não se deve inferir que todos os programas foram testados em condições equivalentes ou que os efeitos persistiram depois do período observado.
Também há diferenças importantes de escala. Alguns estudos envolveram centenas de estudantes; outros se concentraram em uma escola, em dez participantes, em duas professoras ou em uma única estudante. Há pesquisas com grupos de comparação e outras orientadas à compreensão de experiências particulares. Isso limita a possibilidade de comparar os tamanhos dos efeitos ou generalizar os resultados para qualquer etapa, disciplina e comunidade escolar.
Ficam em aberto perguntas sobre efeitos de longo prazo, repetição em escolas diferentes, condições necessárias para a implementação e influência de fatores próprios de cada contexto. Ler o estudo completo faz sentido quando o professor ou a rede pretende adotar uma intervenção, precisa avaliar a qualidade das medidas ou quer entender em detalhe o que foi feito. Para decidir sobre uma adaptação importante, é prudente consultar o trabalho completo e verificar se o cenário, a população e os recursos se aproximam dos da escola.
Como o GeraProva ajuda com avaliação de programas educacionais?
O GeraProva pode apoiar a criação de instrumentos de avaliação, como provas e atividades alinhadas ao objetivo de aprendizagem que você quer acompanhar. Ele não determina sozinho se um programa funciona nem substitui a análise do professor, mas pode ajudar a preparar perguntas e tarefas para observar conhecimentos antes ou depois de uma sequência. Você pode conhecer o gerador de provas do GeraProva e fazer o cadastro grátis.
Perguntas frequentes sobre avaliação de programas educacionais
Como saber se uma intervenção pedagógica funcionou?
Comece identificando o resultado que a intervenção pretendia alcançar e escolha uma forma coerente de observá-lo. Uma comparação entre uma atividade inicial e outra ao final pode ajudar, mas não precisa ser a única evidência: produções, observações e relatos dos estudantes também podem oferecer informação. Os estudos reunidos mostram que resultados diferentes podem ocorrer dentro de uma mesma proposta. Por isso, é mais preciso perguntar se ela funcionou para um objetivo definido e para quais estudantes do que dar um veredito geral baseado em uma única medida.
Se uma habilidade não melhora, significa que o programa fracassou?
Não necessariamente. Alguns estudos encontraram melhora em determinados resultados e mudanças limitadas ou não significativas em outros. A pesquisa baseada em design na Turquia relatou avanços em pensamento crítico e autoeficácia criativa, mas efeito desprezível em resolução de problemas e pensamento computacional. O programa turco sobre hábitos saudáveis também apresentou mudanças alimentares sem diferença significativa nas pontuações de atividade física. Esses resultados não justificam ignorar o objetivo que não avançou; ajudam a identificar o que precisa de nova análise, apoio ou estratégia complementar.
Por que avaliar mais de um resultado?
Porque uma intervenção costuma envolver diferentes dimensões, e uma única medida pode não captar tudo o que mudou. No estudo etíope sobre ensino de leitura baseado em tarefas, houve melhora significativa nas dimensões cognitiva e conativa, mas não nas dimensões afetiva e geral. No estudo colombiano de aprendizagem em serviço, as medidas quantitativas foram acompanhadas por grupos focais, diários e análise narrativa. Para a prática, combinar resultados de aprendizagem com observações ou relatos pode oferecer uma imagem mais completa, desde que cada evidência esteja ligada a uma pergunta clara.
Os resultados de outros países servem para minha escola?
Servem como referências para pensar e formular perguntas, não como garantia de que uma estratégia terá o mesmo efeito no Brasil. Os estudos foram conduzidos em países, etapas, disciplinas e condições diferentes. Uma intervenção de leitura em inglês, por exemplo, não pode ser transferida sem considerar o idioma, os objetivos e o contexto da turma. O professor pode aproveitar princípios ou formatos de avaliação, mas deve ajustar a proposta e observar os resultados localmente. Antes de adotar um programa de modo amplo, vale consultar o estudo completo e verificar como foi realizado.
Preciso usar testes para avaliar uma atividade ou programa?
Não há uma única forma de avaliação entre os estudos. Alguns utilizaram testes de pré e pós-intervenção; outros também recorreram a entrevistas, diários, observações ou questionários. A escolha depende do que se quer saber. Uma tarefa pode ser apropriada para observar aprendizagem, enquanto uma conversa ou registro pode ajudar a entender participação e experiência. Uma aplicação possível é combinar uma evidência de desempenho com uma pergunta de reflexão dos estudantes. Isso não substitui um desenho de pesquisa formal, mas pode apoiar decisões pedagógicas cotidianas com objetivos explícitos.
Quanto tempo uma intervenção precisa durar para ser avaliada?
Os estudos apresentados tiveram durações diferentes: houve intervenções de quatro semanas, cerca de cinco semanas, sete semanas e dez semanas, além de pesquisas acompanhadas ao longo de um ano escolar ou descritas sem a mesma estrutura de duração. Não é possível extrair daqui um período ideal que sirva para toda proposta. O tempo deve ser compatível com a estratégia e com o tipo de mudança esperada. Para interpretar um resultado, registre quanto tempo a turma participou e evite concluir que uma mudança breve necessariamente permanecerá ou que uma mudança não observada nesse intervalo nunca ocorrerá.
Referências
- Wordofa, Yohannes Joressa; Gencha, Mulu Geta; Hadgu, Aregay Meressa (2026). Aprimorando as Atitudes Cognitiva, Afetiva e Conativa de Estudantes de Inglês como Língua Estrangeira em relação à Leitura: O Papel do Ensino Baseado em Tarefas (Enhancing EFL Students' Cognitive, Affective, and Conative Reading Attitudes: The Role of Task-Based Instruction). SAGE Open. Link.
- Maree, Jacobus Gideon (2026). Desafiando estereótipos na orientação de carreira: possibilitando a uma estudante superdotada e artisticamente talentosa a busca por carreiras com propósito e sustentáveis (Challenging Stereotypes in Career Counselling: Enabling a Gifted, Artistic Learner to Pursue Purposeful, Sustainable Careers). Gifted Education International. Link.
- Henao-Castro, Alejandro; Vives-Hurtado, Martha Patricia (2026). Aprendizagem em Serviço para a Educação Ambiental Marinha: Uma Experiência Pedagógica em uma Escola Secundária do Caribe Colombiano (Service Learning for Marine Environmental Education: A Pedagogical Experience in a Colombian Caribbean Secondary School). Environmental Education Research. Link.
- Zhao, Qin; Charunsri, Kamonwan (2026). O Efeito da Integração da Abordagem de Ensino Comunicativo de Língua com a Tecnologia de Inteligência Artificial (IA) na Melhoria da Expressão Oral em Inglês de Estudantes do Ensino Fundamental Anos Iniciais de uma Escola Nacional na Província de Yunnan, China (The Effect of Integrating Communicative Language Teaching Approach with Artificial Intelligence Technology (AI) on Enhancing English Speaking of National Primary School Students in Yunnan Province, China). Journal of Education and Learning. Link.
- Ozmet, Tugba Duygu; Ergun, Ayse (2026). Efetividade do programa Let's Go! 5-2-1-0 sobre alimentação, atividade física e índice de massa corporal em adolescentes turcos (Effectiveness of Let's Go! 5-2-1-0 on Nutrition, Physical Activity and Body Mass Index among Turkish Adolescents). Health Education Journal. Link.
- Murakami, Yusuke; Akiyama, Takashi; Sugamura, Genji (2026). Efeitos de uma intervenção postural com cadeira "risshin" na postura física, na percepção do tempo de aula e no bem-estar subjetivo de estudantes do ensino fundamental II (Effects of Postural Intervention Using a "Risshin" Chair on Physical Posture, Class Time Perception, and Subjective Well-Being in Junior High School Students). British Journal of Educational Psychology. Link.
- Çavuş, Emrah; İdil, Şahin; Dönmez, İsmail (2026). Efeitos de uma abordagem de pesquisa baseada em design sobre o pensamento crítico, as habilidades de resolução de problemas, o pensamento computacional e a autoeficácia criativa de estudantes do quarto ano (Effects of a Design-Based Research Approach on Fourth-Grade Students' Critical Thinking, Problem-Solving Skills, Computational Thinking, and Creativity Self-Efficacy). International Journal of Technology and Design Education. Link.
- Crespo, Patricia; Jiménez, Juan E.; Rodríguez, Cristina; Baker, Doris Luft; Hernández Cabrera, Juan A. (2026). Estratégias de decodificação em alunos do 1º ano do ensino fundamental na Espanha com risco de dificuldades de leitura (Decoding Strategies in Spanish First-Grade Students at Risk of Reading Difficulties). Learning Disability Quarterly. Link.
- Harper, Alexandra; Gray, Tonia (2026). “Foi uma aventura e algo de que me lembrarei para sempre”: percepções de duas professoras australianas do ensino primário que participaram de um programa de escola na natureza de 10 semanas ("It Has Been an Adventure and Something I'll Remember Forever": Insights from Two Australian Primary Teachers Participating in a 10-Week Bush School Program). Australian Educational Researcher. Link.
- Lumecio, Deborah; Canuto, Peter Paul; Bulintao, Jeraquel; Balabal, Jerachel; Agiao, Jeberlyn; Olnas, Jesa; Madanni, Gloria (2026). Aprimoramento do reconhecimento de palavras em inglês e da compreensão leitora de estudantes do Ensino Fundamental por meio de uma intervenção de leitura compartilhada (Enhancing English Word Recognition and Reading Comprehension of Primary School Students through Shared Reading Intervention). Problems of Education in the 21st Century. Link.
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