Altruísmo na escola: pesquisas mostram influência do contexto, não um perfil previsível
Estudos internacionais encontram resultados variados sobre altruísmo entre crianças e adolescentes: necessidade, reputação e relações entre grupos podem importar, mas não há um perfil previsível. Veja o que essas pesquisas podem sugerir para a sala de aula brasileira.
Pesquisas internacionais indicam que o altruísmo de crianças e adolescentes pode variar conforme o contexto: a necessidade de quem recebe, a reputação e as relações entre grupos aparecem entre os fatores investigados. Os resultados não apontam um perfil único de aluno altruísta. Uma intervenção escolar na Argentina promoveu atitudes altruístas e compassivas, enquanto outros estudos encontraram relações diferentes com desempenho e comportamento desonesto.
Uma pesquisa encontra crianças que se consideram mais generosas do que os colegas; outra mostra que a idade, a reputação e as relações entre grupos podem mudar a forma como o altruísmo aparece. Ao mesmo tempo, estudos sobre honestidade e desempenho escolar não encontram um perfil simples de aluno altruísta. Esses resultados parecem apontar em direções diferentes — e é justamente por isso que vale separar o que cada pesquisa investigou e o que seus achados permitem dizer.
Para quem ensina, a pergunta prática não é apenas se uma criança é generosa, mas em que situação ela compartilha, ajuda ou defende alguém, e o que a turma e o ambiente tornam mais fácil ou mais difícil. A seguir, reunimos estudos internacionais recentes sobre crianças e adolescentes, diferenciando evidências de sugestões de aplicação. Eles não oferecem uma receita universal, mas ajudam a olhar para o comportamento de maneira menos baseada em rótulos.
O que é altruísmo em alunos do fundamental em outros países e por que importa para o professor?
Altruísmo, em linguagem de sala de aula, é agir em benefício de outra pessoa, mesmo quando isso não traz uma vantagem imediata para quem age. Pode aparecer ao dividir um recurso, oferecer ajuda, incluir alguém numa atividade ou escolher apoiar um colega. Os estudos aqui reunidos não usam todos a mesma situação ou medida: alguns examinam compartilhamento e generosidade, outros investigam atos altruístas em tarefas, relações entre grupos ou respostas diante de bullying.
Esse tema importa porque comportamentos de ajuda fazem parte da convivência cotidiana, mas não são uma característica fixa que o professor possa identificar de uma vez por todas. Uma criança pode compartilhar em uma situação e hesitar em outra; pode responder de modo diferente quando há observadores, quando o destinatário parece precisar mais ou quando estão em jogo relações entre grupos. Isso não autoriza diagnosticar intenções individuais a partir de um gesto isolado.
É útil também distinguir altruísmo de conceitos próximos. Compaixão e empatia aparecem em alguns estudos como aspectos relacionados, mas não são automaticamente a mesma coisa que um ato de ajuda. Cooperatividade, por sua vez, diz respeito a trabalhar junto; no estudo francês sobre desempenho, ela não se relacionou significativamente com os resultados acadêmicos, enquanto o altruísmo apresentou uma associação diferente (Dagorn, 2026). Para o professor, essa distinção evita interpretar toda colaboração como generosidade ou todo gesto generoso como prova de uma personalidade estável.
O que a pesquisa recente mostra sobre altruísmo infantil?
O destinatário e a situação podem mudar as expectativas de generosidade
Uma pesquisa em uma escola de nível socioeconômico médio no sul de Israel investigou como crianças de 6 a 12 anos avaliam a própria conduta pró-social em comparação com a de colegas médios. A situação variava conforme o destinatário era descrito como necessitado ou não necessitado. As crianças mais velhas tenderam a se considerar mais generosas do que os pares; as mais novas esperavam que os pares fossem mais generosos do que elas.
O resultado importante não é apenas a diferença entre faixas etárias. Quando o destinatário era apresentado como necessitado, tanto a avaliação das crianças sobre si mesmas quanto suas expectativas sobre os outros indicavam maior compartilhamento, e os efeitos de se julgar acima ou abaixo da média foram atenuados. Isso sugere que as crianças não se baseiam somente numa imagem geral de si: pistas concretas sobre quem precisa de ajuda também entram na avaliação (Levy-Friedman, 2025).
Essa pesquisa observou percepções e expectativas em situações descritas aos participantes. Portanto, não deve ser transformada numa regra de que crianças mais velhas sempre ajudam mais, nem numa previsão do que um aluno fará em qualquer situação real. Ela oferece uma pista mais delimitada: o modo como uma necessidade é apresentada pode importar para a forma como crianças pensam sobre generosidade.
Reputação e relações entre grupos aparecem como parte do cenário
Em três estudos com crianças de 6 a 11 anos, pesquisadores examinaram a relação entre ameaça à reputação e comportamento altruísta, além de considerar inibição social e relações entre grupos. No primeiro estudo, com 204 crianças, idade e ameaça à reputação influenciaram o altruísmo; os autores destacaram os 8 anos como ponto de inflexão. No segundo, com 130 crianças de 9 anos, as que apresentavam baixa inibição social praticaram mais atos altruístas, independentemente da ameaça à reputação (Li, 2024).
O terceiro estudo, com 151 participantes, abordou a dinâmica entre grupos e a condição de ter sido deixado para trás. Crianças que não haviam sido deixadas para trás preferiram o altruísmo em relação ao grupo externo. Entre as que haviam sido deixadas para trás, surgiu preferência pelo grupo interno quando havia ameaça à reputação; sem essa ameaça, não houve diferença. De modo geral, as crianças deixadas para trás foram mais altruístas, segundo o resumo do estudo (Li, 2024).
Esses achados não formam uma escala simples de quem é mais ou menos altruísta. Eles apontam para diferenças entre situações e grupos, e para uma combinação de fatores. O resumo destaca os 8 anos como idade importante para estratégias de gestão da reputação, mas não oferece uma regra pronta para aplicar a cada criança. A pesquisa foi conduzida com crianças em tarefas específicas; interpretar um episódio cotidiano exige considerar o contexto da própria turma.
Intervenções escolares podem favorecer atitudes compassivas, mas os resultados têm alcance definido
Um estudo controlado em uma escola de Buenos Aires, na Argentina, examinou uma intervenção voltada a empatia afetiva, compaixão e altruísmo em crianças de 9 anos. Participaram 48 crianças: metade fez a intervenção e as demais ficaram num grupo de lista de espera, com atividades de tutoria acadêmica conduzidas pela mesma equipe de pesquisa. Os autores relataram que a intervenção promoveu atitudes altruístas e compassivas, com resultados no teste de altruísmo universal, na integração social e na resposta afetiva (Kappelmayer, 2023).
Os tamanhos de efeito no grupo que participou da intervenção variaram de médios a grandes; no grupo de lista de espera, os efeitos não foram significativos. Os autores também relacionam autoconsciência e consciência em relação aos outros a compaixão e empatia afetiva. O achado é encorajador, mas se refere a um programa estudado com um grupo e faixa etária específicos. Não permite concluir que qualquer atividade breve, em qualquer escola, produzirá o mesmo resultado.
Outro estudo, com adolescentes de 13 a 16 anos, investigou exercícios breves de visualização voltados à empatia ou à compaixão diante de vídeos de bullying. A condição de compaixão relatou menos sofrimento empático e raiva empática do que as condições de empatia e controle. Porém, não houve outros efeitos diferenciais entre as três condições, incluindo nas respostas comportamentais pretendidas como testemunhas. Os autores apontam a necessidade de pesquisas futuras sobre intervenções mais abrangentes para aumentar a compaixão e a defesa pró-social da vítima (Steinvik, 2026).
Esse contraste é útil: promover atitudes compassivas e alterar respostas específicas diante de bullying não são a mesma coisa. O estudo argentino relata resultados positivos em indicadores de altruísmo, integração e resposta afetiva; o estudo com adolescentes encontrou uma diferença limitada às respostas de sofrimento e raiva empáticos, sem outros efeitos diferenciais. Não se deve resumir ambos como prova de que uma atividade de empatia necessariamente fará testemunhas defenderem uma vítima.
Não há um perfil estável que permita prever quem agirá com altruísmo
Uma revisão abrangente e duas pesquisas consecutivas em escolas de ensino fundamental da Hungria examinaram características de contexto e comportamento desonesto no início da adolescência. Entre as oito características consideradas estava o altruísmo, ao lado de condição social, habilidade cognitiva, notas, comportamento disruptivo, paciência, idade e gênero. A análise não identificou padrões consistentes entre essas características e o comportamento desonesto; a revisão também encontrou associações inconsistentes em estudos anteriores (Keller, 2025).
O estudo não é uma medida direta de toda forma de altruísmo escolar. Seu foco é a relação entre características dos estudantes — incluindo altruísmo — e comportamento desonesto. Ainda assim, ajuda a questionar a ideia de que uma característica isolada permita antecipar como alguém agirá. Os autores concluem que o comportamento desonesto pode ser mais espontâneo e provavelmente mais moldado por fatores situacionais do que se pensava.
Também em escolas de ensino fundamental II na Bretanha, França, um experimento exploratório investigou a relação entre altruísmo, cooperatividade e desempenho escolar. Não foi encontrada relação significativa entre cooperatividade e desempenho. O altruísmo apareceu negativamente relacionado ao desempenho acadêmico, mas essa associação foi determinada pelo gênero e foi significativa somente para os meninos (Dagorn, 2026). É um resultado específico, que não significa que ajudar prejudique a aprendizagem. A pesquisa investigou uma associação, e seu resumo não sustenta transformar esse achado numa explicação causal ou numa previsão sobre um aluno.
Valores de respeito e cuidado também são ensinados em contextos familiares
Uma pesquisa qualitativa na comunidade de Putrajawa, Selaawi Garut, na Indonésia, investigou a educação religiosa islâmica multicultural nas famílias de crianças em idade escolar do ensino fundamental. Os pais buscavam formar crianças religiosas que respeitassem a diversidade e fossem tolerantes. Entre os conteúdos relatados estavam práticas religiosas, nobreza de caráter, diversidade cultural e valores universais, como justiça e respeito (Mukhsin, 2024).
Os métodos descritos incluíam dar bons exemplos, promover boas relações sociais, incentivar autonomia e orientar com gentileza. Esse estudo não testou uma intervenção escolar de altruísmo nem mediu o efeito de cada método sobre atos de ajuda. Seu valor para esta conversa é mostrar que cuidado, respeito e tolerância também são tratados como parte de práticas educativas familiares, num contexto cultural e religioso específico. Não se deve transferir seus ensinamentos religiosos para a escola brasileira como se fossem uma política universal.
Quais estudos sobre altruísmo escolar podem ser comparados lado a lado?
Os estudos abaixo diferem no que chamam de altruísmo e no tipo de pergunta que fazem: alguns analisam expectativas, outros observam respostas em tarefas ou relações com outros resultados. A tabela resume somente o que cada pesquisa investigou e relatou, sem tratar os contextos nacionais como equivalentes.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Levy-Friedman, 2025 | Autoavaliação pró-social diante de destinatário necessitado ou não necessitado. | Faixas etárias diferiram nas avaliações; a descrição de necessidade atenuou os efeitos acima e abaixo da média e elevou expectativas de compartilhamento. | Escola de nível socioeconômico médio no sul de Israel; crianças de 6 a 12 anos. |
| Li, 2024 | Altruísmo em condições de ameaça à reputação, inibição social e relações entre grupos. | Relata influência da idade e da reputação, diferenças relacionadas à inibição social e preferências entre grupos que variaram conforme a condição de ter sido deixado para trás. | Crianças de 6 a 11 anos; três estudos. País não informado no resumo. |
| Kappelmayer, 2023 | Intervenção escolar voltada a empatia, compaixão e altruísmo. | Atitudes altruístas e compassivas, integração social e resposta afetiva melhoraram no grupo de intervenção; efeitos não significativos no grupo de lista de espera. | Escola de Buenos Aires, Argentina; crianças de 9 anos. |
| Steinvik, 2026 | Ativação breve de empatia ou compaixão diante de vídeos de bullying. | A condição de compaixão relatou menos sofrimento e raiva empáticos; não houve outros efeitos diferenciais entre condições. | Adolescentes de 13 a 16 anos; país não informado no resumo. |
| Keller, 2025 | Relação entre características dos estudantes, incluindo altruísmo, e comportamento desonesto. | Não encontrou padrões consistentes entre características de contexto e desonestidade; a revisão também identificou resultados divergentes. | Pesquisas em escolas de ensino fundamental da Hungria, no início da adolescência. |
| Dagorn, 2026 | Relação entre altruísmo, cooperatividade e desempenho escolar. | Sem relação significativa entre cooperatividade e desempenho; associação negativa entre altruísmo e desempenho, significativa somente para meninos. | Escolas de ensino fundamental II na Bretanha, França; estudo exploratório. |
| Mukhsin, 2024 | Educação religiosa islâmica multicultural nas famílias. | Relata objetivos de respeito e tolerância e métodos como exemplo, relações sociais, autonomia e orientação gentil. | Famílias em Putrajawa, Selaawi Garut, Indonésia; crianças em idade de ensino fundamental. |
O que os estudos têm em comum e onde divergem?
Em conjunto, as pesquisas sugerem que não é adequado tratar o altruísmo como um traço que aparece do mesmo jeito em qualquer circunstância. A necessidade do destinatário alterou as avaliações de generosidade em Israel; reputação e relações entre grupos se relacionaram a diferenças no comportamento em outro estudo; e uma intervenção argentina produziu resultados positivos em indicadores específicos de atitudes e relações sociais. A situação e a medida usada fazem diferença para entender o que foi encontrado.
As pesquisas divergem também porque perguntam coisas diferentes. Uma autoavaliação de generosidade não equivale a observar um ato real de ajuda. Um estudo de intervenção examina mudança associada a um programa; uma pesquisa sobre desempenho investiga correlações; um estudo sobre educação familiar descreve práticas e objetivos. Comparar os resultados como se fossem medidas de uma única capacidade produziria conclusões mais amplas do que as evidências permitem.
Há perguntas ainda abertas: os efeitos observados se mantêm em outras escolas e contextos? Como uma prática educativa se traduz em ações espontâneas fora da situação pesquisada? O que ocorre quando necessidade, reputação e pertencimento a grupos estão presentes ao mesmo tempo? Os resumos disponíveis não respondem a tudo isso. O ponto mais seguro é que há sinais de influência do contexto, mas não uma fórmula simples para prever quem será altruísta.
Como aplicar essas ideias sobre altruísmo na sala de aula?
Os estudos não prescrevem um conjunto de atividades para professores brasileiros. As propostas abaixo são aplicações possíveis inspiradas nas perguntas e nos resultados das pesquisas, não achados experimentais garantidos. O objetivo é criar oportunidades de observação e conversa sem transformar crianças em rótulos de “generosas” ou “egoístas”.
1. Torne visível a necessidade sem expor quem precisa
Como aplicação, apresente situações fictícias em que uma personagem precisa de ajuda e outra não, e convide a turma a discutir que respostas seriam possíveis. Por exemplo, numa história inventada, uma criança não consegue participar de uma atividade porque não entendeu a regra. Pergunte o que poderia ajudá-la, sem exigir que alunos revelem experiências pessoais. A pesquisa israelense sugere que pistas sobre a necessidade do destinatário entram nas avaliações de generosidade, mas não prova que uma conversa assim produza automaticamente mais compartilhamento (Levy-Friedman, 2025).
2. Observe o contexto antes de concluir que alguém não se importa
Como aplicação, ao perceber que um aluno não ofereceu ajuda, procure entender o que estava acontecendo: havia pressa, receio de chamar atenção, conflito entre colegas ou dúvida sobre o que fazer? Imagine uma turma em que um estudante cai durante uma brincadeira e vários colegas olham sem agir. Em vez de definir a turma como indiferente, o professor pode conversar depois sobre alternativas seguras para pedir ajuda a um adulto ou apoiar o colega. A pesquisa sobre reputação e inibição social reforça a utilidade de olhar para as condições da situação, sem diagnosticar cada criança a partir dela (Li, 2024).
3. Crie oportunidades variadas de cooperação e ajuda
Como aplicação, ofereça tarefas em que a ajuda possa surgir de maneiras diferentes: explicar uma instrução, dividir materiais ou acolher uma ideia de colega. Evite que sempre os mesmos estudantes sejam escolhidos como “os ajudantes”, pois isso pode fixar papéis. Por exemplo, numa atividade em pequenos grupos, a turma pode alternar responsabilidades e depois conversar sobre quais formas de contribuição foram úteis. Esse formato não é uma intervenção testada pelos estudos citados; é uma maneira de levar a sério que comportamento e contexto não são a mesma coisa.
4. Converse sobre reputação sem transformar a ajuda em espetáculo
Como aplicação, diferencie ajudar porque alguém precisa de apoio de ajudar para receber elogio ou parecer melhor que os outros. Uma cena hipotética pode mostrar uma personagem oferecendo material somente quando o grupo está olhando. Pergunte à turma se o resultado ajuda o colega e quais outras respostas seriam possíveis. A pesquisa de Li examina justamente condições de ameaça à reputação, mas não diz que elogiar ou agradecer seja sempre prejudicial. A proposta é abrir espaço para refletir, não criar uma regra de que gestos públicos são falsos.
5. Faça atividades de empatia com conversa sobre ações possíveis
Como aplicação, depois de ler uma história ou discutir uma situação fictícia de exclusão, peça aos alunos que distingam o que a personagem pode sentir, o que ela pode precisar e quais ações seguras um observador poderia tomar. No caso de bullying, inclua alternativas como buscar apoio de um adulto, sem colocar estudantes em risco ou exigir confronto direto. O estudo com adolescentes encontrou efeitos limitados de uma breve visualização e não demonstrou mudanças diferenciais em todas as respostas pretendidas; por isso, não trate uma atividade breve como solução suficiente (Steinvik, 2026).
6. Inclua atitudes de respeito e cuidado na rotina, não só em campanhas
Como aplicação, combine conversas curtas sobre escuta, justiça e respeito com oportunidades de praticar esses princípios nas interações comuns. Por exemplo, diante de uma discordância num trabalho coletivo, o professor pode ajudar a turma a ouvir as propostas antes de decidir. A pesquisa indonésia descreve práticas familiares de exemplo, boas relações sociais, autonomia e orientação gentil, mas não avaliou um programa escolar brasileiro. A adaptação é uma escolha pedagógica, não uma reprodução de uma receita observada naquele contexto (Mukhsin, 2024).
7. Avalie processos de convivência sem dar nota para a personalidade
Como aplicação, em vez de classificar alunos como altruístas, registre ações observáveis e oportunidades: quem ofereceu ajuda, se o colega a aceitou e que condições facilitaram a participação. A avaliação pode apoiar uma conversa sobre como a turma organiza a colaboração, não medir o valor moral de cada criança. Estudos sobre desonestidade e desempenho mostram resultados que não sustentam perfis previsíveis a partir de características isoladas (Keller, 2025; Dagorn, 2026). Uma observação pedagógica precisa continuar aberta a diferentes explicações.
O que muda ao pensar o altruísmo no contexto brasileiro?
As pesquisas foram realizadas em países e situações diferentes: Israel, Argentina, Hungria, França e Indonésia aparecem nos resumos, além de estudos cujo país não é informado. Esses contextos não são intercambiáveis com escolas brasileiras. As relações entre grupos, as práticas familiares, as condições escolares e as formas de compreender ajuda e respeito podem variar. Por isso, os achados servem como perguntas para orientar a observação, não como previsões diretas sobre crianças daqui.
Uma adaptação responsável começa pelo que o professor conhece de sua turma. O que os alunos entendem como ajuda? Como podem pedir apoio sem constrangimento? Que situações fazem alguém hesitar em intervir? Há estudantes que recebem ajuda sem que suas necessidades sejam expostas? Essas perguntas podem ser discutidas por meio de exemplos fictícios e observação cotidiana, sem pressupor que uma criança de determinada idade, gênero ou grupo vá agir de uma maneira específica.
Também é importante não importar práticas religiosas ou culturais como se fossem neutras ou universais. O estudo de Putrajawa descreve uma abordagem familiar ligada à educação religiosa islâmica e à valorização da diversidade naquele contexto. Na escola brasileira, qualquer aplicação deve respeitar a pluralidade da comunidade escolar e as escolhas pedagógicas locais. Da mesma forma, o resultado francês sobre desempenho não justifica diminuir oportunidades de ajuda ou cooperação: é uma associação exploratória, não uma orientação para separar generosidade e aprendizagem.
Quais são os limites desta leitura sobre altruísmo escolar?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponíveis no ERIC, e não na leitura integral de cada publicação. Os resumos permitem identificar perguntas, contextos gerais e resultados relatados, mas não dão acesso a todos os detalhes necessários para avaliar instrumentos, procedimentos, limitações específicas ou interpretações alternativas. Por isso, as conclusões foram mantidas no alcance descrito pelos próprios resumos.
Os estudos também variam em idade, país, tamanho de amostra e método. Há pesquisa controlada, experimentos, análise de associação, revisão de literatura e investigação qualitativa. Nem todos medem o mesmo comportamento, e alguns tratam de conceitos próximos, como compaixão ou cooperatividade. Uma intervenção com crianças de 9 anos numa escola argentina, por exemplo, não basta para prever o efeito de uma atividade em qualquer turma brasileira. Do mesmo modo, uma relação entre altruísmo e desempenho não demonstra que um cause o outro.
Ficam em aberto a persistência dos efeitos, a possibilidade de generalizar para outras escolas e a relação entre atitudes declaradas e ações espontâneas. Para planejar uma intervenção, comparar instrumentos ou usar os resultados em decisões institucionais, faz sentido consultar o estudo completo e examinar seus métodos e limites. Para uma reflexão inicial de prática, os resumos ajudam a formular hipóteses; não substituem uma revisão mais ampla nem a leitura crítica da pesquisa integral.
Como o GeraProva ajuda com este assunto?
O GeraProva pode apoiar a criação de questões e atividades para conversar sobre situações de ajuda, convivência e tomada de perspectiva, sem transformar respostas em rótulos sobre a personalidade dos alunos. Você pode experimentar o gerador de provas do GeraProva para preparar materiais e conhecer a plataforma pelo cadastro grátis. Use os resultados como ponto de partida para diálogo e observação, não como medida definitiva de altruísmo.
Perguntas frequentes sobre altruísmo entre alunos
Alunos mais velhos são sempre mais altruístas?
Não. No estudo realizado no sul de Israel, crianças mais velhas, de 6 a 12 anos, tenderam a se avaliar como mais generosas do que os pares, enquanto as mais novas esperavam que os pares fossem mais generosos. Essa pesquisa examinou autoavaliações e expectativas, não estabeleceu que alunos mais velhos sempre realizam mais atos de ajuda. Outro estudo identificou diferenças ligadas à idade e à ameaça à reputação, destacando os 8 anos como um ponto de inflexão em suas condições de pesquisa. Esses resultados não permitem prever a conduta de cada criança (Levy-Friedman, 2025; Li, 2024).
O altruísmo pode ser ensinado na escola?
Um estudo controlado numa escola de Buenos Aires relatou que uma intervenção voltada a empatia afetiva, compaixão e altruísmo promoveu atitudes altruístas e compassivas, além de resultados em integração social e resposta afetiva. O grupo de lista de espera não apresentou efeitos significativos nesses indicadores. É um sinal favorável, mas a pesquisa envolveu 48 crianças de 9 anos numa escola e não garante que qualquer atividade escolar tenha o mesmo efeito. O professor pode criar oportunidades de reflexão e ajuda, mas deve apresentar isso como aplicação pedagógica, não como resultado assegurado por essa pesquisa (Kappelmayer, 2023).
Por que a reputação pode influenciar a disposição para ajudar?
O estudo com crianças de 6 a 11 anos investigou o altruísmo em condições de ameaça à reputação e considerou também inibição social e relações entre grupos. Seus resultados variaram conforme idade, condição de inibição social e experiência de ter sido deixado para trás. Isso sugere que a presença de uma ameaça à reputação pode fazer parte do contexto em que o comportamento aparece. Não significa que toda ajuda diante de colegas seja motivada por interesse em aprovação, nem que a reputação explique sozinha uma decisão. Para a escola, é uma razão para observar as circunstâncias antes de interpretar um gesto (Li, 2024).
Altruísmo ajuda ou atrapalha o desempenho acadêmico?
Um estudo exploratório em escolas de ensino fundamental II na Bretanha, França, não encontrou relação significativa entre cooperatividade e desempenho. Encontrou uma associação negativa entre altruísmo e desempenho acadêmico, significativa somente para meninos. O resumo não demonstra que ajudar cause queda nas notas. Também não autoriza afirmar que o altruísmo seja prejudicial à aprendizagem ou usar esse resultado para limitar a colaboração. A pesquisa investigou relações entre variáveis num contexto específico. Para a prática docente, a conclusão prudente é não presumir que altruísmo e desempenho tenham uma relação simples e igual para todos os alunos (Dagorn, 2026).
Uma atividade de empatia faz testemunhas de bullying defenderem a vítima?
Não se pode afirmar isso com base no estudo disponível. A pesquisa com adolescentes de 13 a 16 anos comparou exercícios breves de visualização voltados à empatia ou à compaixão com uma condição de controle. Quem participou da condição de compaixão relatou menos sofrimento empático e raiva empática diante dos vídeos de bullying. Porém, não houve outros efeitos diferenciais entre as condições nas respostas, que incluíam permanecer passivo ou defender a vítima de forma agressiva ou pró-social. Os autores apontaram a necessidade de pesquisas futuras sobre intervenções mais abrangentes (Steinvik, 2026).
Posso usar essas pesquisas para identificar quais alunos são generosos?
Não é uma aplicação sustentada pelos estudos. As pesquisas analisam respostas em situações definidas, expectativas, associações ou resultados de intervenções; elas não oferecem uma ferramenta para classificar a personalidade de cada aluno. A revisão e as pesquisas húngaras não encontraram padrões consistentes entre características de contexto e comportamento desonesto, e o estudo francês também encontrou relações específicas, não uma regra universal. Em sala, é mais seguro observar ações e condições concretas, sem transformar um episódio em identidade. O mesmo aluno pode responder de maneiras diferentes conforme a necessidade, as relações e o contexto (Keller, 2025; Dagorn, 2026).
Referências sobre altruísmo em alunos
As referências abaixo correspondem aos estudos citados no texto.
- Dagorn, Etienne; Masclet, David; Penard, Thierry (2026). Altruísmo, Cooperatividade e Desempenho Acadêmico: Um Experimento de Laboratório no Campo em Escolas Francesas de Ensino Fundamental II (Altruism, Cooperativeness and Academic Achievement: A Lab in the Field Experiment in French Middle Schools). Education Economics. link.
- Kappelmayer, Marcela; Czar, Andrea; Tresca, Maria; D'Adamo, Paola; Lozada, Mariana (2023). Uma intervenção escolar promove a compaixão, a empatia e as relações sociais em crianças (A School Intervention Promotes Compassion, Empathy and Social Relationships in Children). School Psychology International. link.
- Keller, Tamás; Kiss, Hubert János (2025). Quem trapaceia? Características de contexto dos adolescentes e comportamento desonesto: uma revisão abrangente da literatura e contribuições de duas pesquisas consecutivas (Who Cheats? Adolescents' Background Characteristics and Dishonest Behavior: A Comprehensive Literature Review and Insights from Two Consecutive Surveys). Journal of Early Adolescence. link.
- Levy-Friedman, Bar; Kogut, Tehila (2025). Fazendo mais do que o esperado: o papel da necessidade do destinatário na percepção das crianças sobre seu comportamento pró-social em comparação com o dos pares (Doing More than Expected: The Role of The Recipient's Neediness in Children's Perception of Their Relative Prosociality). Child Development. link.
- Li, Yongqiang; Nie, Qi; Liu, Wen; Jiang, Xinyu; Wang, Weiwei; Che, Hanbo (2024). Efeitos da inibição social e das relações entre grupos sobre o comportamento altruísta de crianças em condições de ameaça à reputação (Effects of Social Inhibition and Group Relations on Altruistic Behaviour of Children under Conditions of Reputational Threat). Early Child Development and Care. link.
- Mukhsin; Muslihudin; Mutaqin, Ade Zaenul; Nasir, Muhammad (2024). A implementação da educação religiosa islâmica multicultural nas famílias de crianças em idade escolar do ensino fundamental em Putrajawa, Selaawi Garut (The Implementation of Multicultural Islamic Religious Education in the Families of Primary School-Age Children in Putrajawa, Selaawi Garut). Dinamika Ilmu. link.
- Steinvik, Henriette R.; Duffy, Amanda L.; Zimmer-Gembeck, Melanie J. (2026). A ativação da empatia e da compaixão pode afetar as respostas empáticas, a compaixão e as intenções comportamentais de adolescentes ao testemunhar situações de bullying? (Can Empathy and Compassion Activation Affect Adolescents' Empathic Responses, Compassion, and Behavioral Intentions When Witnessing Bullying?). International Journal of Bullying Prevention. link.
Se este tema conversa com desafios da sua turma, escolha uma situação concreta para observar e discutir com os alunos. Pequenas perguntas feitas com cuidado podem ajudar a enxergar melhor o que facilita a convivência.
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