Violência e ambiente escolar: segurança depende de relações e condições sociais
Estudos recentes de diferentes países mostram como a violência afeta a aprendizagem, o bem-estar e a participação escolar. As pesquisas também apontam a importância das relações de apoio e das condições sociais.
Estudos recentes realizados em diferentes países mostram que a violência escolar pode prejudicar a concentração, a participação, o bem-estar e a aprendizagem de estudantes, além de atingir educadores. As pesquisas também destacam o papel das relações de apoio, das respostas consistentes da escola e das condições sociais. Para o professor brasileiro, são pistas para compreender o problema sem presumir que experiências de outros países se aplicam automaticamente ao Brasil.
É comum pensar que violência escolar é, principalmente, uma briga visível entre estudantes e que basta interromper o conflito para a rotina voltar ao normal. Pesquisas recentes feitas em diferentes países mostram um quadro mais complexo: a insegurança pode aparecer em relações, práticas disciplinares, espaços e condições sociais que afetam quem aprende e quem ensina.
Para o professor brasileiro, isso não significa importar soluções prontas de outros contextos. Significa observar com mais atenção como a segurança é construída no cotidiano: se os estudantes sabem a quem pedir ajuda, se as respostas dos adultos são consistentes e se há condições para que a escola não trate como problema individual aquilo que também envolve relações e desigualdades mais amplas.
O que é ambiente escolar violento em outros países e por que importa para o professor?
Ambiente escolar violento não é apenas o lugar onde ocorre uma agressão física. É também o conjunto de relações e condições que pode produzir medo, humilhação, exclusão, insegurança ou dificuldade de participar das atividades. Nas pesquisas reunidas aqui, aparecem bullying, assédio, punição física e psicológica, violência contra educadores, conflitos, práticas relacionadas a gangues e insegurança ligada ao entorno. Em alguns estudos, a violência é analisada junto com as condições sociais e a organização da escola.
Isso importa para o professor porque o clima escolar interfere na possibilidade de ensinar e aprender. Um estudante preocupado com a própria segurança pode ter dificuldade para se concentrar ou pode evitar pedir ajuda. Um educador que passa tempo respondendo a ocorrências tem menos espaço para se dedicar ao ensino. E uma prática cotidiana que ridiculariza ou ameaça uma criança pode comprometer a sensação de segurança mesmo sem produzir uma cena que todos reconheçam como violência.
Os trabalhos vêm de contextos distintos: África do Sul, Suécia, Zâmbia, Paquistão e países latino-americanos. Eles não descrevem uma única realidade mundial nem permitem concluir que todas as escolas desses países funcionem da mesma maneira. Em conjunto, oferecem lentes úteis para fazer perguntas sobre a rotina brasileira: que situações são naturalizadas, quem consegue buscar apoio e como a escola conecta segurança, convivência e aprendizagem?
O que a pesquisa recente mostra sobre violência e ambiente escolar?
Os estudos não apontam uma causa única nem uma solução que sirva para todas as escolas. Alguns descrevem efeitos da violência sobre participação e aprendizagem; outros investigam como a organização do apoio, as relações entre adultos e crianças ou as condições da comunidade entram nessa experiência. A seguir, os resultados são agrupados por ideias que ajudam a interpretar o cotidiano escolar.
A violência pode comprometer participação, concentração e bem-estar
Em três escolas de ensino médio na província de Limpopo, África do Sul, professores entrevistados relataram castigos físicos, bullying e assédio sexual como formas de violência presentes nas escolas. O estudo encontrou efeitos sobre a concentração e o desempenho dos estudantes, além de faltas, depressão e desorganização em sala. Também apontou que os professores dedicavam parte considerável do tempo a resolver problemas relacionados à violência, em vez de se concentrar no ensino e na aprendizagem (Lumadi, 2024).
Em uma escola de ensino médio de Mthatha, também na África do Sul, professores descreveram bullying, uso de substâncias psicoativas e atividades relacionadas a gangues como problemas difundidos. O estudo relacionou essas situações a medo, ansiedade, desengajamento e prejuízos ao bem-estar emocional, ao desempenho acadêmico e ao clima escolar. Os docentes também mencionaram fatores socioeconômicos associados à manutenção desses comportamentos (Madokhwe, 2025).
Os resultados ajudam a ampliar a ideia de impacto. A violência não afeta somente quem está diretamente envolvido em uma ocorrência: pode atravessar a concentração, a presença, o vínculo com a escola e o tempo disponível para ensinar. Em Soweto, educadores de oito escolas secundárias relataram ter vivenciado violência verbal, física, sexual e digital, além de exclusão relacional, furtos e destruição de propriedade. O estudo registrou sofrimento emocional associado a essas experiências (Polonyana, 2024).
Segurança também depende de relações e de apoio acessível
Uma pesquisa com estudantes do 1º ao 9º ano em duas escolas públicas da Suécia investigou como crianças e adolescentes avaliam o clima escolar e a busca por ajuda quando vivem insegurança, como violência, bullying ou conflitos. As entrevistas em grupos focais apontaram três dimensões importantes na estrutura de apoio: professores como fontes de apoio, disponibilidade desse apoio e respostas consistentes e responsivas (Forsberg, 2025).
O estudo chama a atenção para algo muito prático: não basta que exista um adulto disposto a ajudar; os estudantes precisam perceber que podem encontrá-lo, saber como procurar apoio e confiar que a resposta será adequada. A organização dos horários e as informações sobre fontes de ajuda também apareceram como relevantes, assim como a qualidade das relações entre estudantes e professores. A pesquisa sugere que a consistência entre os adultos faz parte da construção de um clima acolhedor e seguro (Forsberg, 2025).
Essa ideia conversa com o estudo realizado em jardins de infância da Zâmbia, que observou situações de conflito entre professores e crianças. As observações registraram práticas físicas e psicológicas, como bater nos dedos, ameaçar e ridicularizar. Embora entrevistas mostrassem concepções pedagógicas alinhadas a boas relações entre adultos e crianças, houve pouca reflexão sobre a diferença entre essas concepções e as práticas observadas. O estudo discute como o ambiente psicológico de aprendizagem pode dificultar uma educação não violenta e inclusiva (Eriksen, 2025).
A comparação não autoriza tratar o contexto sueco e o zambiano como equivalentes. Ela permite notar uma questão comum: relações de apoio e práticas cotidianas precisam ser observadas, não presumidas. A intenção de cuidar não garante que toda interação seja vivida como segura; é preciso examinar como os estudantes recebem as respostas dos adultos e como os adultos lidam com conflitos.
O entorno social e as estruturas da escola fazem parte do problema
Em Khyber Pakhtunkhwa, no Paquistão, entrevistas com 26 professores de educação infantil investigaram comportamentos disruptivos e sua relação com o ambiente. Os docentes associaram a desordem em sala a fatores que atravessam família, escola e sociedade, incluindo dificuldades socioeconômicas, superlotação, salas pouco atrativas, qualificação limitada, poucos materiais e medo da violência. O estudo relacionou essas condições à falta de motivação e a comportamentos que ameaçam a continuidade da educação (Ashraf, 2024).
Em Umlazi, um bairro popular da África do Sul, uma pesquisa qualitativa em duas escolas de ensino médio analisou como crime, insegurança e desorganização social afetam as experiências escolares. Os autores relatam que o crime pode ser naturalizado no ambiente escolar e que iniciativas comunitárias de segurança, embora voltadas a proteger, podem também desestabilizar espaços de aprendizagem. O trabalho defende que reformas educacionais não ignorem a violência estrutural e articulem escolarização, desenvolvimento comunitário, combate à pobreza e segurança pública (Ngidi, 2026).
Essas pesquisas deslocam a pergunta de “como controlar o comportamento?” para “que condições estão moldando o que acontece?”. Isso não elimina a responsabilidade de agir diante de uma situação concreta. Ajuda, porém, a evitar respostas que atribuam tudo à personalidade de uma criança ou à falta de empenho de uma família, quando a própria pesquisa aponta fatores escolares e sociais relacionados ao problema.
Violências menos visíveis e vozes pouco ouvidas também contam
O estudo sobre jovens e bullying propõe olhar para a dimensão do espaço e do tempo. O autor descreve uma contradição: a escola pode ser percebida como espaço não violento e, ao mesmo tempo, conter violências invisíveis que se prolongam e se institucionalizam em sua arquitetura e em suas relações. Essa abordagem trata o bullying como violência social e conecta experiências que, em políticas e pesquisas, podem ser analisadas separadamente (Lohmeyer, 2023).
Em uma escola rural de ensino fundamental na África do Sul, grupos focais com 15 pais investigaram experiências e participação na prevenção da violência de gênero e sexual. As narrativas apresentaram um continuum de violência que ia dos corredores às salas de aula, incluindo assédio sexual, toques sexualizados e aliciamento para fins sexuais. As participantes também relataram desafios ao lidar com respostas institucionais e cobraram responsabilização das autoridades educacionais. O estudo destaca a importância de parcerias entre famílias e escolas para transformar relações de gênero, promover justiça e fortalecer o cuidado (Bhana, 2025).
Uma síntese do Population Council apresenta perfis educacionais de oito países latino-americanos: Guatemala, Honduras, El Salvador, Peru, México, Colômbia, Equador e Bolívia. O documento situa a violência entre barreiras de gênero que podem limitar a escolarização e a aprendizagem das meninas, junto de ambientes escolares pouco propícios à aprendizagem, casamento precoce ou forçado, gravidez precoce e falta de apoio à educação delas. É uma revisão de escopo e análise voltada a identificar oportunidades de investimento, não um estudo de uma escola específica (Population Council, 2024).
Por fim, a violência contra educadores merece atenção própria. Em Soweto, o estudo com 100 profissionais de oito escolas secundárias encontrou diferentes formas de violência e diferenças relatadas segundo gênero: homens tinham maior probabilidade de sofrer ataques físicos, enquanto mulheres tinham maior probabilidade de sofrer ataques sexuais e verbais. Os autores recomendam reavaliar a abordagem institucional, oferecer formação regular e acompanhamento psicológico a educadores que tenham vivido incidentes traumáticos, além de rever políticas e criar mecanismos para lidar com reincidentes (Polonyana, 2024).
O que os estudos investigaram e relataram?
A tabela reúne os estudos citados e resume o foco, o que o resumo disponível relata e o contexto indicado. Nos trabalhos em que o país, a etapa ou o período não aparece com precisão no resumo, essa informação é descrita apenas no nível informado.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| (Ngidi, 2026) | Crime, insegurança e escolarização. | Crime naturalizado e iniciativas de segurança que também podem desestabilizar espaços de aprendizagem. | Duas escolas de ensino médio em Umlazi, África do Sul. |
| (Forsberg, 2025) | Clima escolar e busca de ajuda por estudantes. | Apoio acessível, consistente e responsivo favorece a percepção de segurança e a busca por ajuda. | Duas escolas públicas da Suécia; estudantes do 1º ao 9º ano. |
| (Madokhwe, 2025) | Percepções de professores sobre violência escolar. | Bullying, substâncias e atividades ligadas a gangues foram associados a medo, ansiedade, desengajamento e efeitos no clima escolar. | Uma escola de ensino médio em Mthatha, África do Sul. |
| (Eriksen, 2025) | Ambiente psicológico em conflitos entre professores e crianças. | Observou violência física e psicológica, apesar de concepções pedagógicas favoráveis a boas relações. | Jardins de infância selecionados na Zâmbia. |
| (Bhana, 2025) | Experiências de pais na prevenção da violência de gênero e sexual. | Narrativas relataram assédio, toques sexualizados, aliciamento e desafios nas respostas institucionais. | Escola rural de ensino fundamental na África do Sul; 15 pais em grupos focais. |
| (Ashraf, 2024) | Perspectivas docentes sobre comportamentos disruptivos. | Condições familiares, escolares e sociais foram relacionadas à desordem, desmotivação e risco à continuidade da educação. | Educação infantil em Khyber Pakhtunkhwa, Paquistão. |
| (Population Council, 2024) | Perfis educacionais e barreiras à educação de meninas. | Violência e ambientes pouco propícios à aprendizagem aparecem entre barreiras de gênero. | Perfis de oito países latino-americanos. |
| (Polonyana, 2024) | Experiências de educadores com violência contra profissionais. | Foram relatadas formas verbais, físicas, sexuais, digitais e relacionais, entre outras. | 100 educadores em oito escolas secundárias de Soweto, África do Sul. |
| (Lumadi, 2024) | Impacto da violência na participação dos estudantes. | Relatos relacionaram violência a concentração, desempenho, faltas, depressão e tempo docente dedicado a ocorrências. | Três escolas de ensino médio em Vhembe, África do Sul. |
| (Lohmeyer, 2023) | Experiências juvenis de bullying no espaço e no tempo. | Aponta a contradição entre escola vista como não violenta e violências invisíveis que se prolongam. | Contexto e etapa não especificados no resumo. |
O que os estudos têm em comum e onde divergem?
Um ponto em comum é que a violência aparece ligada às condições de aprendizagem, e não como um assunto separado da vida escolar. Os estudos sul-africanos associam as ocorrências à participação, ao desempenho, ao bem-estar ou ao tempo de ensino. As pesquisas da Suécia e da Zâmbia destacam a importância das relações e das respostas dos adultos. Os trabalhos do Paquistão e de Umlazi ampliam o foco para condições da escola, da família e da comunidade.
Também há convergência na necessidade de não reduzir o fenômeno a uma agressão física isolada. Os resumos incluem violência psicológica, assédio, bullying, exclusão relacional, experiências digitais, insegurança e práticas institucionais. O trabalho de Lohmeyer reforça que uma escola pode parecer segura em alguns espaços e manter formas de violência menos visíveis em outros. O estudo de Bhana, por sua vez, chama atenção para a continuidade da violência de gênero entre diferentes espaços escolares e para a importância de escutar as famílias.
As diferenças entre os estudos são importantes. Há pesquisas sobre crianças pequenas e outras sobre adolescentes; algumas ouvem professores, outras estudantes ou pais. Os métodos e os cenários também variam, e vários trabalhos qualitativos se concentram em um número pequeno de escolas ou em localidades específicas. Já o documento do Population Council reúne perfis de países latino-americanos e não examina uma única escola. Por isso, os resultados não podem ser tratados como uma classificação de países nem como prova de que uma intervenção funcionará igualmente em todos os lugares.
Permanece em aberto como combinar respostas imediatas a incidentes com mudanças duradouras nas relações e condições sociais. Os resumos também não permitem comparar a prevalência entre países ou identificar um modelo universal de prevenção. A pergunta produtiva para a equipe escolar não é apenas “qual programa funciona?”, mas “para quem, em que contexto, com que apoio e com quais formas de acompanhamento?”.
Como levar essas ideias para a sala de aula?
Os exemplos a seguir são sugestões de aplicação inspiradas nas questões levantadas pelos estudos, não resultados testados por eles em salas brasileiras. Podem ajudar o professor a observar o clima da turma e a articular respostas com a equipe, sem substituir protocolos de proteção ou encaminhamentos necessários.
1. Torne visível como pedir ajuda
Aplicação: explique, em linguagem simples, quais adultos podem ser procurados e como fazer isso durante diferentes momentos da rotina. Imagine uma turma de 7º ano em que um estudante teme contar que está sendo excluído. Uma conversa coletiva pode esclarecer que ele pode falar com o professor, a coordenação ou outro adulto definido pela escola, sem precisar expor sua situação diante dos colegas. Essa proposta dialoga com a pesquisa sueca sobre disponibilidade e clareza das fontes de apoio.
2. Combine respostas consistentes entre os adultos
Aplicação: proponha à equipe alinhar formas de acolher relatos, interromper uma agressão e acompanhar o que acontece depois. Em uma turma de 4º ano, por exemplo, se uma criança relata apelidos repetidos, a resposta não deveria depender apenas de qual adulto está no corredor naquele dia. O estudo sueco destaca a percepção de apoio consistente e responsivo; transformar isso em um combinado local exige considerar os procedimentos já adotados pela escola.
3. Observe padrões, não apenas episódios isolados
Aplicação: registre, conforme os procedimentos da escola, em que espaços e momentos surgem conflitos recorrentes e quem costuma ficar sem voz. Imagine que os atritos aparecem repetidamente na fila do refeitório, mas raramente durante a aula. A equipe pode examinar a organização daquele momento antes de concluir que se trata apenas de um problema individual. Essa observação é uma forma de aplicação da atenção a espaços e relações sugerida por Lohmeyer.
4. Converse sobre o impacto na aprendizagem sem rotular estudantes
Aplicação: ao notar faltas, desatenção ou afastamento de uma atividade, procure entender se há uma questão de segurança ou convivência a acompanhar. Em uma turma de 8º ano, um estudante que deixou de participar de trabalhos em grupo pode estar enfrentando diferentes dificuldades; não cabe presumir a causa. A conversa reservada e o diálogo com a equipe podem ajudar a distinguir hipóteses e a oferecer apoio, em vez de transformar um sinal em diagnóstico.
5. Reveja práticas adultas que podem humilhar ou ameaçar
Aplicação: observe como correções, brincadeiras e consequências são recebidas pelas crianças. Imagine uma turma de educação infantil em que o adulto ridiculariza uma resposta errada para obter silêncio. A equipe pode discutir alternativas respeitosas para interromper a conduta e ensinar a regra. A pesquisa na Zâmbia torna visível a diferença possível entre concepções pedagógicas e práticas observadas; a sugestão é usar essa questão como reflexão profissional, não equiparar contextos legais distintos.
6. Escute famílias como parceiras na proteção
Aplicação: crie canais seguros para que responsáveis comuniquem preocupações e recebam informação sobre como a escola dará seguimento. Em uma escola de ensino fundamental, uma família pode relatar comentários sexualizados dirigidos à filha. A resposta precisa respeitar os protocolos de proteção e evitar expor a criança. O estudo sul-africano sobre violência de gênero destaca tanto desafios institucionais quanto a participação e as reivindicações das mães; ouvir não significa transferir a elas a responsabilidade de resolver o problema.
7. Inclua a segurança dos profissionais na conversa
Aplicação: em reunião de equipe, reserve espaço para identificar como os profissionais registram e comunicam episódios de violência e que apoio institucional existe. Imagine que um professor recebe ameaças recorrentes em mensagens digitais. A escola pode seguir seus procedimentos, avaliar medidas de proteção e oferecer encaminhamento adequado. A pesquisa de Soweto relata diferentes formas de violência contra educadores e recomenda formação, acompanhamento psicológico e revisão das respostas institucionais.
8. Faça uma atividade sobre convivência sem pedir relatos pessoais
Aplicação: use situações fictícias para discutir segurança, respeito, pedido de ajuda e consequências de uma ação. Por exemplo, apresente uma cena hipotética em que alguém é excluído repetidamente de um grupo e convide a turma a pensar em respostas de colegas e adultos. Não é necessário pedir que estudantes revelem experiências próprias. Essa abordagem pode abrir espaço para nomear comportamentos e fontes de apoio, sem afirmar que uma atividade isolada previne a violência.
O que muda quando aplicamos essas pesquisas ao contexto brasileiro?
A principal cautela é reconhecer que as pesquisas foram realizadas em países e sistemas escolares diferentes do brasileiro. Umlazi, Soweto, Mthatha e Vhembe são localidades sul-africanas; a pesquisa sobre busca de ajuda ocorreu em escolas públicas suecas; a observação de conflitos foi feita em jardins de infância da Zâmbia; e o estudo sobre comportamentos disruptivos se situa no Paquistão. Condições sociais, organização escolar, serviços disponíveis e regras institucionais não são automaticamente comparáveis.
O documento do Population Council inclui oito países latino-americanos, mas não inclui o Brasil entre os países listados no resumo. Ele oferece um panorama regional de barreiras de gênero e educação, não uma descrição direta da realidade brasileira. Da mesma forma, a proibição de punições nas escolas mencionada no estudo da Zâmbia pertence ao contexto daquele país e não deve ser apresentada como regra brasileira.
O que pode ser aproveitado com cuidado são as perguntas e os mecanismos descritos: estudantes sabem a quem pedir apoio? As respostas adultas são consistentes? Há espaços da rotina em que a insegurança se concentra? As relações entre escola, família e comunidade ajudam a proteger ou criam novos obstáculos? Essas perguntas podem orientar observações locais, desde que a escola considere sua rede de proteção, os protocolos vigentes e as condições concretas de cada comunidade.
Também é importante não transformar contexto social em rótulo. Os estudos sul-africanos e paquistaneses relacionam violência e comportamento a condições socioeconômicas, mas isso não permite concluir que estudantes de famílias pobres sejam violentos. A aplicação responsável é investigar barreiras e recursos sem culpabilizar grupos. Quando há risco, violência sexual ou ameaça, uma atividade pedagógica não substitui os encaminhamentos institucionais e de proteção adequados.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponibilizados pelo ERIC, e não na leitura integral de cada publicação. Os resumos oferecem informações suficientes para identificar temas, contextos e resultados principais, mas não permitem avaliar todos os detalhes dos métodos, instrumentos, análises e limites de cada pesquisa. Vários estudos são qualitativos e localizados, por isso seus relatos não devem ser lidos como estimativas de prevalência para um país inteiro.
Ficam em aberto perguntas importantes: como os resultados variam entre escolas de diferentes regiões e etapas? Que intervenções foram avaliadas ao longo do tempo? Como estudantes, famílias e profissionais avaliam a efetividade das respostas institucionais? E como comparar experiências sem apagar diferenças de contexto? Para responder a essas questões, vale consultar os artigos completos, especialmente quando a escola pretende adaptar uma recomendação, elaborar um protocolo, planejar formação ou fundamentar uma decisão de política educacional.
Como o GeraProva pode ajudar com este assunto?
O GeraProva não substitui protocolos de proteção, escuta especializada ou acompanhamento profissional, mas pode ajudar a preparar atividades e avaliações sobre convivência, respeito, segurança e busca por ajuda, adequadas à faixa etária e ao objetivo pedagógico. Você pode conhecer o gerador de provas do GeraProva e fazer o cadastro grátis para explorar a plataforma.
Perguntas frequentes sobre violência e ambiente escolar
Violência escolar se resume a agressões físicas?
Não. Nos estudos reunidos, aparecem bullying, assédio sexual, ameaças e ridicularização, exclusão relacional, violência verbal e digital, furtos e destruição de propriedade, além de punições físicas. Alguns trabalhos também analisam insegurança e condições que dificultam a participação e a aprendizagem. Isso não significa que toda dificuldade de convivência seja violência, mas ajuda a não limitar a observação a brigas. Para o professor, uma aplicação útil é considerar o que ocorreu, onde, com que frequência e como os envolvidos percebem a segurança, seguindo os procedimentos da escola.
Como a violência pode afetar a aprendizagem?
Em escolas de ensino médio da África do Sul, professores relacionaram violência a dificuldades de concentração e desempenho, faltas, depressão e desengajamento. Também relataram que parte do tempo de trabalho era consumida pela resolução de problemas ligados à violência. Esses resultados mostram caminhos possíveis entre insegurança e aprendizagem, mas não permitem afirmar que toda queda de desempenho tenha essa causa. Se um estudante se afasta, falta ou perde a concentração, o professor pode acolher a observação, conversar sem pressionar por uma revelação e articular o acompanhamento com a equipe escolar.
O que ajuda um estudante a pedir ajuda a um professor?
Na pesquisa sueca, estudantes destacaram professores como fontes de apoio, disponibilidade do apoio e respostas consistentes e responsivas. A organização dos horários e as informações sobre onde buscar ajuda também foram relevantes. Em termos práticos, não basta dizer genericamente que a escola está disponível: estudantes precisam saber a quem procurar e perceber que serão ouvidos. Uma escola pode revisar como comunica seus canais de apoio e como os adultos dão seguimento aos relatos. Essa é uma aplicação possível do estudo, não uma garantia de que todos os estudantes passarão a pedir ajuda.
É possível aplicar diretamente ao Brasil recomendações de outros países?
Não de forma automática. Os estudos vêm de contextos sociais, escolares e institucionais diferentes, e alguns se concentram em poucas escolas. Uma recomendação sobre segurança comunitária, apoio psicossocial ou organização escolar precisa ser analisada à luz dos recursos e procedimentos brasileiros. O que pode ser transferido com mais prudência são perguntas para reflexão: quem consegue pedir ajuda, que práticas são naturalizadas e como a escola envolve famílias e profissionais? Para adotar uma intervenção específica, vale consultar o estudo completo e considerar as orientações e a rede de proteção locais.
Por que ouvir famílias e educadores sobre segurança escolar?
Os estudos mostram que diferentes grupos percebem dimensões distintas da violência. Na pesquisa sobre uma escola rural sul-africana, pais relataram violência de gênero e sexual e desafios nas respostas institucionais. Em Soweto, educadores descreveram múltiplas formas de violência contra profissionais. Ouvir essas vozes pode revelar problemas que não aparecem em registros de ocorrências ou em conversas restritas a um grupo. A escuta deve ter finalidade clara, proteger a privacidade e evitar transferir às famílias ou aos docentes a responsabilidade que cabe à instituição e aos serviços competentes.
Uma atividade em sala pode prevenir a violência?
Os resumos não testam uma atividade específica de sala de aula como solução para a violência. Eles sustentam a importância de relações de apoio, respostas consistentes, ambientes seguros e atenção às condições que atravessam a escola. Uma atividade com situações fictícias pode ajudar estudantes a reconhecer comportamentos e identificar a quem pedir ajuda, mas deve ser apresentada como sugestão pedagógica, não como intervenção comprovada. Se surgir um relato de violência ou risco, o professor deve seguir os protocolos da escola e os encaminhamentos de proteção, em vez de tentar resolver a situação apenas por meio de uma conversa coletiva.
Referências
- Ngidi, N. D. (2026). “As coisas aqui nas escolas dos bairros populares são diferentes”: crime, insegurança e escolarização em um bairro popular da África do Sul (“Things Here in Township Schools Are Different”: Crime, Insecurity, and Schooling in a South African Township). Educational Review. Link.
- Forsberg, C., Hammar Chiriac, E., & Thornberg, R. (2025). Um estudo qualitativo sobre as perspectivas de estudantes suecos acerca de climas escolares acolhedores e da busca por ajuda (A Qualitative Study of Swedish Pupils' Perspectives on Supportive School Climates and Help-Seeking). Pastoral Care in Education. Link.
- Madokhwe, P., & Boboyi, A. (2025). Percepções de Professores sobre a Prevalência da Violência Escolar: Implicações para o Serviço Social na Escola (Teachers' Perspectives on the Prevalence of School Violence: Implications for School Social Work). Journal of Inquiry Based Activities. Link.
- Eriksen, E. A. B. (2025). O ambiente psicológico de aprendizagem em situações de conflito entre professores da educação infantil e crianças em jardins de infância da Zâmbia (The Psychological Learning Environment in Conflict Situations between Kindergarten Teachers and Children in Zambian Kindergartens). Learning Environments Research. Link.
- Bhana, D. (2025). Pais e o agenciamento da violência de gênero e sexual em uma escola rural (Parents and the Gender and Sexual Violence Assemblage in a Rural School). International Journal of Inclusive Education. Link.
- Ashraf, M. A., Alam, J., & Gladushyna, O. (2024). Perspectivas dos professores sobre comportamentos disruptivos dos alunos: a interconexão entre o ambiente e a educação infantil no Paquistão (Teachers' Perspectives on Disruptive Student Behaviors: The Interconnectedness of Environment and Early Childhood Education in Pakistan). SAGE Open. Link.
- Population Council. (2024). Compreendendo os Perfis Educacionais de Oito Países da América Latina. GIRL Center Research Brief No. 15 (Understanding the Education Profiles of Eight Latin American Countries. GIRL Center Research Brief No. 15). Population Council. Link.
- Polonyana, T., & Moosa, M. (2024). Violência nas escolas secundárias: experiências de educadores em Soweto, África do Sul (Violence in Secondary Schools: Educators' Experiences in Soweto, South Africa). Perspectives in Education. Link.
- Lumadi, R. I. (2024). Impacto da violência escolar na participação dos estudantes em escolas de ensino médio da África do Sul: um estudo qualitativo (Impact of School Violence on Learner Participation in South African Secondary Schools: A Qualitative Study). Perspectives in Education. Link.
- Lohmeyer, B. (2023). A força institucionalizada da violência lenta: contradições espaço-temporais nos relatos de jovens sobre o bullying escolar (The Institutionalised Momentum of Slow Violence: Spatiotemporal Contradictions in Young People's Accounts of School Bullying). British Journal of Sociology of Education. Link.
Se este tema aparece na sua rotina, escolha uma pergunta do artigo para conversar com a equipe e observar a escola com mais atenção. Pequenas mudanças começam por uma escuta cuidadosa e por respostas consistentes.
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