Suspensões de alunos de grupos minoritários: reformas restaurativas têm efeitos diferentes
Estudos recentes investigam disparidades nas suspensões e outras medidas disciplinares. Os resultados sobre reformas restaurativas variam conforme a implementação, levantando perguntas importantes para os distritos escolares.
Reformas recentes de justiça restaurativa não produziram a mesma direção nos indicadores disciplinares em todos os contextos estudados. Em Michigan, uma pesquisa encontrou aumento nas suspensões fora da escola após uma reforma estadual; no Texas, encontrou redução. Para professores e gestores, essa diferença importa porque mudar a política escrita não garante, por si só, uma mudança equivalente nas decisões tomadas diante de um conflito.
Ao mesmo tempo, pesquisas recentes ampliam o foco: em vez de olhar apenas para quem recebe suspensão, investigam o conjunto de respostas disciplinares, as experiências de estudantes sujeitos a múltiplas formas de marginalização e as condições da escola associadas à exclusão. Os estudos apresentados são dos Estados Unidos. Eles não descrevem diretamente as escolas brasileiras, mas oferecem perguntas úteis para examinar critérios, registros e consequências das decisões disciplinares no cotidiano.
O que são suspensões escolares de estudantes de grupos minoritários nos distritos e por que isso importa para o professor?
Suspensão escolar é o afastamento temporário do estudante da rotina regular da escola, seja para fora da unidade, seja em alguns casos para um espaço interno separado. O tema das disparidades aparece quando estudantes de determinados grupos raciais ou étnicos recebem medidas excludentes com maior frequência ou de maneira diferente diante de situações comparáveis. Para o professor, essa questão começa muito antes da decisão formal: aparece na interpretação de uma conduta, no encaminhamento à direção, na escolha entre respostas possíveis e no modo como a escola acompanha o retorno do estudante.
O assunto não se limita à suspensão. Uma escola pode responder a um incidente com conversa orientada, detenção, retirada de privilégios, encaminhamento à direção, suspensão interna ou afastamento para fora da escola. O estudo de Lee enfatiza justamente a necessidade de observar um espectro mais amplo de medidas e como elas se combinam, em vez de considerar somente as suspensões externas (Lee, 2025). O resumo disponível descreve perguntas e procedimentos da pesquisa, mas não apresenta seus resultados; por isso, não é possível afirmar quais disparidades foram encontradas nesse estudo.
Essa distinção ajuda a separar duas perguntas que às vezes se misturam: se uma regra foi aplicada e se a resposta escolhida foi proporcional, consistente e educativa. O professor nem sempre define a sanção final, mas participa da cadeia de decisões por meio de observações, registros e encaminhamentos. Por isso, discutir equidade disciplinar não é atribuir a responsabilidade a uma pessoa isolada; é examinar práticas e padrões da escola e do distrito.
O que a pesquisa recente mostra sobre suspensões e grupos minoritários?
A pesquisa recente mostra que a disciplina excludente pode ser estudada em diferentes níveis: como política de distrito, como prática de uma escola, como experiência individual e como parte de condições organizacionais mais amplas. Os estudos não usam todos o mesmo método nem respondem à mesma pergunta. Em conjunto, ajudam a evitar uma explicação simplista, como atribuir disparidades exclusivamente ao comportamento do estudante ou supor que uma reforma formal resolve automaticamente o problema.
Reformas restaurativas dependem de como são implementadas
Uma comparação entre reformas de justiça restaurativa em Michigan e no Texas examinou suspensões escolares e índices de bullying usando dados de 2011 a 2018. A pesquisa analisou 343 distritos de Michigan e 486 do Texas. Os resultados apontaram aumento de 0,52 ponto percentual nas suspensões fora da escola em Michigan, com cerca de 60% dos distritos apresentando elevação. No Texas, houve redução de 0,37 ponto percentual. O estudo também encontrou redução geral significativa do bullying no Texas e uma elevação modesta em Michigan, embora cerca de 65% dos distritos de Michigan tenham apresentado diminuição dos casos relatados (Kaur, 2024).
Os dois estados adotaram abordagens diferentes: Michigan determinou a justiça restaurativa como alternativa principal às suspensões, enquanto o Texas permitiu que as escolas considerassem essas práticas. A pesquisa sugere que a designação de um coordenador de comportamento no campus pode facilitar a integração da justiça restaurativa à cultura escolar no Texas. A autora ressalta que não há um referencial padronizado de implementação e que a efetividade varia conforme as estratégias adotadas. Portanto, a lição não é que a justiça restaurativa sempre reduz suspensões, mas que uma política precisa ser acompanhada de condições e avaliação de implementação.
Para professores, isso coloca a atenção na distância entre uma orientação institucional e o que se consegue fazer em uma situação real. Uma prática restaurativa não se resume a trocar o nome de uma sanção. Ela exige que a escola tenha clareza sobre como responder, quem conduz a abordagem e como acompanha o processo. Essa é uma aplicação possível da pesquisa, não uma lista de requisitos testada diretamente pelo estudo.
Olhar apenas para a suspensão deixa parte da disciplina fora do campo de visão
Lee e colegas investigam como um grande distrito escolar da Carolina do Norte usou diferentes medidas disciplinares para responder a registros de incidentes nos anos letivos de 2022–2023 e 2023–2024. O estudo classifica medidas como punitivas ou baseadas em orientação, considera seu grau de exclusão e examina quantas respostas são aplicadas a cada ocorrência e como são combinadas. Também pergunta se estudantes recebem medidas diferentes ao violar a mesma regra com gravidade semelhante, inclusive quando estão envolvidos no mesmo incidente (Lee, 2025).
O resumo descreve uma análise voltada a diferenças por raça ou etnia e outras características pessoais, mas não informa os resultados dessa análise. O valor do estudo, para esta leitura, está na amplitude da pergunta: se a escola monitora somente suspensões externas, pode deixar de perceber diferenças em outras respostas ou na combinação de várias consequências. Isso não autoriza concluir que o distrito encontrou disparidades em todas as medidas; mostra por que é importante examinar o sistema disciplinar como um conjunto.
Esse foco também conversa com o trabalho do professor. Um encaminhamento à direção, uma retirada de privilégio ou uma suspensão interna podem parecer decisões pequenas quando observadas isoladamente. Mas, se os registros não forem organizados e comparados, a escola não consegue avaliar se regras semelhantes levam a respostas semelhantes. A pesquisa coloca a consistência da decisão no centro da investigação.
Experiências e relações cotidianas também entram na análise
Love investigou como cinco meninos negros com deficiência vivenciaram a disciplina em um distrito escolar dos Estados Unidos. O estudo utilizou entrevistas, observações e documentos educacionais para compreender como esses estudantes construíam sua identidade em interações com situações disciplinares. Os autores relatam que as experiências de disciplina tanto mediaram quanto restringiram a construção de si dos meninos. No contexto estudado, eles lidaram com discursos e práticas sociais para aceitar, resistir ou negociar as identidades que a escola lhes atribuía (Love, 2026).
Esse resultado não deve ser generalizado para todos os estudantes negros, todos os estudantes com deficiência ou todas as escolas. Ainda assim, ajuda a lembrar que uma medida disciplinar não é apenas um registro administrativo: também pode influenciar como o estudante compreende seu lugar na escola e como é percebido nas interações cotidianas. A interseccionalidade é importante aqui porque o estudo considera a experiência conjunta de raça e deficiência, e não uma característica isolada.
Outro estudo investigou estudantes com deficiência em escolas públicas de Massachusetts, do 3º ao 12º ano, entre 2011 e 2018, perguntando sobre os efeitos da correspondência etnorracial entre estudante e professor. Os resultados foram predominantemente nulos, com algumas exceções pequenas: a probabilidade de receber suspensão não foi afetada pela correspondência etnorracial. O estudo também encontrou pequenas diferenças em notas de matemática para estudantes negros e de baixa renda com deficiência e pequenas melhorias de frequência em um subgrupo específico (Egalite, 2026). Isso impede transformar a representatividade docente em explicação automática para reduzir suspensões, embora a pesquisa investigue dimensões importantes da relação entre estudantes e professores.
Os padrões disciplinares se relacionam a contextos e condições escolares
Uma pesquisa sobre escolas de ensino médio na Pensilvânia examinou disparidades raciais, socioeconômicas e espaciais na disciplina excludente. O estudo encontrou que escolas com pelo menos 50% de estudantes de grupos minoritários recorriam com maior frequência a medidas excludentes. Também encontrou associação entre maior frequência escolar, oferta de cursos avançados e melhores resultados acadêmicos, por um lado, e menor número de medidas disciplinares, por outro (Taylor, 2026).
Esses resultados descrevem associações observadas, não demonstram que uma característica isolada cause outra. A pesquisa ressalta a necessidade de enfrentar o viés implícito, desigualdades sistêmicas na aplicação da disciplina e de promover o envolvimento da comunidade. Para um distrito, a implicação é não interpretar os números de suspensão fora do contexto das oportunidades e das condições escolares. Para o professor, é um convite a observar como expectativas, apoio acadêmico e decisões de disciplina coexistem, sem presumir que o estudo tenha estabelecido uma relação causal entre eles.
Bradshaw e colegas também investigaram relações entre disparidade nas suspensões fora da escola — especialmente por infrações leves — e fatores relatados por professores em 23 escolas de ensino fundamental II, com questionários de 574 docentes. A desproporcionalidade em nível escolar não esteve associada ao uso autorrelatado de práticas culturalmente responsivas. Já maior desproporcionalidade, particularmente considerando todas as infrações, esteve associada a menor autoeficácia para o ensino multicultural e maior estresse docente. As associações com esgotamento profissional foram mais fracas e menos consistentes, e não foram mais fortes para infrações leves do que para todas as infrações (Bradshaw, 2026).
O resultado não significa que o estresse de professores cause disparidades nem que uma autoavaliação revele toda a prática em sala. Os autores apontam a importância de medir práticas culturalmente responsivas para além do autorrelato e de usar dados disciplinares mais próximos do evento, como encaminhamentos à direção e decisões de encaminhamento para suspensão. A cautela é útil: compreender um padrão exige combinar fontes de informação, em vez de atribuí-lo a uma única percepção ou variável.
Quais estudos aparecem lado a lado?
Os estudos abaixo investigam partes diferentes do problema. Alguns apresentam resultados sobre suspensões; outros formulam perguntas sobre o espectro disciplinar ou oferecem contexto para pensar equidade e experiências escolares. A tabela distingue o que cada resumo relata daquilo que ele apenas investigou.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Kaur (2024) | Reformas estaduais de justiça restaurativa, suspensões e bullying. | Aumento de suspensões em Michigan e redução no Texas; resultados de bullying também diferiram. | Michigan e Texas, Estados Unidos; dados de 2011 a 2018; distritos escolares. |
| Lee (2025) | Espectro de medidas disciplinares e diferenças por raça/etnia em ocorrências. | O resumo apresenta perguntas e método, mas não resultados. | Grande distrito da Carolina do Norte, Estados Unidos; anos letivos 2022–2023 e 2023–2024. |
| Love (2026) | Experiências disciplinares e construção identitária de meninos negros com deficiência. | As experiências disciplinares mediaram e restringiram a construção de si. | Distrito Connor, pseudônimo, Estados Unidos; estudo de caso com cinco estudantes. |
| Egalite (2026) | Correspondência etnorracial entre professores e estudantes com deficiência. | Efeitos predominantemente nulos; a probabilidade de suspensão não foi afetada pela correspondência. | Escolas públicas de Massachusetts, Estados Unidos; 3º ao 12º ano, 2011–2018. |
| Taylor (2026) | Disparidades raciais, socioeconômicas e espaciais em medidas excludentes. | Escolas com pelo menos 50% de estudantes de grupos minoritários recorriam mais à disciplina excludente; encontrou associações com indicadores escolares. | Ensino médio na Pensilvânia, Estados Unidos. |
| Bradshaw (2026) | Disparidade em suspensões e fatores docentes autorrelatados. | Maior disparidade associou-se a menor autoeficácia multicultural e maior estresse; resultados de burnout foram menos consistentes. | 23 escolas de ensino fundamental II; 574 professores; Estados Unidos. |
O que os estudos têm em comum e onde divergem?
Em comum, os estudos mostram que a disciplina escolar não deve ser examinada apenas pelo texto de uma regra ou pela contagem de suspensões. É preciso considerar como a decisão acontece, quais respostas são usadas, que estudantes são afetados e que condições acompanham os padrões observados. Kaur evidencia diferenças entre duas reformas estaduais; Lee amplia o conjunto de respostas sob análise; e Love traz para o primeiro plano o significado que as experiências disciplinares podem assumir para estudantes específicos.
As pesquisas divergem no foco e no tipo de conclusão que permitem. Kaur compara políticas estaduais e apresenta resultados distintos para Michigan e Texas. Taylor analisa associações entre características escolares e medidas disciplinares. Bradshaw relaciona dados de disparidade a fatores docentes autorrelatados. Egalite avalia uma hipótese sobre correspondência racial entre professores e estudantes com deficiência e encontra efeitos predominantemente nulos, inclusive para suspensões. Love, por sua vez, investiga experiências de cinco estudantes em profundidade contextual, não a frequência de uma prática em uma população ampla.
Uma pergunta ainda aberta é como os diferentes níveis se conectam: uma regra distrital, o critério de um encaminhamento, a resposta da direção e a experiência do estudante. Também permanece a necessidade de entender como uma alternativa restaurativa é implementada de fato e como seus efeitos são medidos. Os resumos não permitem concluir que uma única abordagem seja eficaz em qualquer escola, nem que as mesmas explicações valham para todos os grupos.
O que isso significa para a sala de aula?
Os estudos não oferecem um roteiro de intervenção testado para escolas brasileiras. As ideias abaixo são aplicações possíveis para ajudar professores e equipes a transformar as perguntas da pesquisa em práticas de reflexão, registro e acompanhamento, sem apresentá-las como resultados comprovados pelos estudos.
1. Separe a descrição do comportamento da interpretação
Como aplicação, ao registrar uma ocorrência, descreva primeiro o que foi observado e o contexto imediato, evitando transformar uma impressão em rótulo sobre o estudante. Por exemplo, em uma situação hipotética de conversa durante uma explicação, o registro pode distinguir a interrupção observável da interpretação de que o aluno “não respeita ninguém”. Essa separação facilita que a direção avalie o ocorrido com critérios mais claros e reduz a dependência de adjetivos vagos. A sugestão se relaciona à importância, nos estudos, de analisar como regras e decisões são aplicadas; não é uma técnica cuja eficácia tenha sido testada por eles.
2. Pergunte se situações comparáveis recebem respostas comparáveis
Como aplicação de equipe, revisem periodicamente uma pequena seleção de encaminhamentos: qual regra foi considerada, qual era a gravidade registrada e qual resposta foi escolhida? Imagine dois estudantes envolvidos em situações semelhantes, mas com desfechos diferentes. A conversa não precisa começar acusando alguém; pode começar identificando que informação faltou e quais critérios foram usados. A pergunta dialoga com o desenho investigativo de Lee, que examina diferenças em ocorrências comparáveis, mas não atribui aos autores um resultado que o resumo não apresenta.
3. Observe o conjunto de respostas, não só as suspensões externas
Como aplicação, uma escola pode mapear quais medidas usa, com que frequência e em que combinações: conversa com orientação, detenção, retirada de privilégio, suspensão interna ou afastamento externo, conforme as categorias existentes na rede. Imagine que o total de suspensões externas caia, mas aumentem outras respostas punitivas. Sem acompanhar o conjunto, a equipe poderia interpretar a mudança de forma incompleta. Esse cuidado vem da pergunta ampla formulada por Lee; não significa que o estudo tenha comprovado uma substituição de sanções em seu distrito.
4. Se a escola adotar práticas restaurativas, acompanhe a implementação
Como aplicação, professores e gestores podem tornar explícito quem participa da abordagem, como se organiza a escuta e como se acompanha o acordo ou a reparação. Imagine um conflito hipotético entre colegas: a escola pode verificar se a prática prevista foi realmente realizada e se os envolvidos tiveram oportunidade de participar, em vez de registrar apenas que “foi feita justiça restaurativa”. Kaur encontrou resultados diferentes entre Michigan e Texas e destacou a variação de implementação. A proposta de acompanhar etapas é uma sugestão de aplicação, não um protocolo indicado no resumo.
5. Considere o efeito da resposta sobre o vínculo escolar
Como aplicação, após uma medida disciplinar, o professor pode planejar uma conversa de retorno que ajude o estudante a retomar a aprendizagem e a compreender os próximos passos. Em uma cena hipotética, um aluno volta após ser afastado e encontra uma rotina previsível para recuperar atividades, conversar sobre o ocorrido e reconstruir a participação. Love relata que experiências disciplinares mediaram e restringiram a construção identitária dos participantes. Isso justifica levar a experiência do estudante a sério, mas não permite presumir que todos viverão uma suspensão da mesma forma.
6. Use mais de uma fonte para entender os padrões
Como aplicação, a equipe pode colocar lado a lado registros de encaminhamento, respostas disciplinares e percepções de docentes, sem tratar nenhum desses dados como retrato completo. Imagine que um questionário sugira uma percepção positiva de práticas inclusivas, enquanto os registros revelem diferenças de encaminhamento que precisam ser compreendidas. Bradshaw e colegas ressaltam limites de depender apenas de autorrelato e apontam a utilidade de dados mais próximos do evento. O exemplo ilustra uma possibilidade de análise escolar; não afirma que exista necessariamente uma contradição em qualquer unidade.
7. Converse sobre as condições que cercam a disciplina
Como aplicação, numa reunião pedagógica, a equipe pode observar junto aos registros disciplinares indicadores de frequência e de oportunidades acadêmicas, sem concluir automaticamente que um fator causou outro. Taylor encontrou associações entre maior frequência, cursos avançados e melhores resultados acadêmicos, de um lado, e menor número de medidas disciplinares, de outro. Uma escola poderia perguntar se estudantes com diferentes necessidades encontram apoio para permanecer e participar da aprendizagem. Essa pergunta orienta reflexão; os resultados da pesquisa, por si só, não prescrevem uma intervenção.
O que muda quando pensamos no contexto brasileiro?
Os estudos citados foram realizados nos Estados Unidos: em estados como Michigan, Texas, Carolina do Norte e Pensilvânia, ou em escolas públicas de Massachusetts. Os termos usados, as regras disciplinares e as estruturas de distrito não devem ser transferidos automaticamente para o Brasil. O próprio estudo de Kaur compara políticas estaduais norte-americanas, e a pesquisa de Lee examina registros administrativos de um distrito específico. Nenhum deles avalia diretamente políticas brasileiras.
O que pode ser aproveitado é a forma de fazer perguntas. Uma rede brasileira pode examinar quais medidas disciplinares utiliza, se os critérios são compreendidos pelos profissionais, se situações semelhantes geram respostas consistentes e quais estudantes são mais afastados da rotina de aprendizagem. Para isso, a escola precisa trabalhar com categorias e registros adequados ao seu contexto, respeitando normas, responsabilidades e procedimentos locais. Esta é uma adaptação sugerida, não uma conclusão empírica dos estudos.
Também é importante não equiparar automaticamente categorias de grupos raciais e étnicos entre países. O modo como a raça é registrada, as histórias sociais e as políticas educacionais não são idênticos. As pesquisas norte-americanas podem ajudar a identificar riscos de invisibilidade em dados disciplinares, mas não informam qual é a dimensão desses padrões no Brasil. Para responder a isso, seria necessário consultar pesquisas e dados brasileiros específicos.
Na prática, a discussão pode começar sem importar um programa pronto: professores e gestores podem perguntar que respostas são usadas, que oportunidades de aprendizagem cada medida interrompe e como a escola apoia o retorno à rotina. Se uma rede desejar adotar práticas restaurativas, faz sentido definir objetivos, responsabilidades e formas de acompanhamento adequadas à realidade local, lembrando que os resultados de Kaur variaram conforme o contexto de implementação.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes, não na leitura integral dos trabalhos. Os resumos oferecem informações sobre objetivos, contextos e alguns resultados, mas não permitem reconstruir todas as decisões analíticas, definições de variáveis ou limitações metodológicas de cada pesquisa. No caso de Lee, o resumo descreve perguntas e métodos, sem apresentar resultados; por isso, o texto não atribui a esse estudo achados sobre a presença ou a direção de disparidades.
Também há diferenças grandes entre os estudos: entrevistas com cinco estudantes, dados de vários distritos, questionários de professores e análises de escolas de um estado respondem a perguntas distintas. Resultados de associações não devem ser convertidos em causalidade, e achados de um contexto dos Estados Unidos não representam automaticamente as escolas brasileiras. Uma leitura dos artigos completos faria sentido para quem precisa avaliar a qualidade dos métodos, conhecer as definições detalhadas, discutir políticas de um distrito ou desenhar uma pesquisa ou intervenção local.
Ficam em aberto, entre outras questões, como práticas restaurativas são realizadas no cotidiano de diferentes escolas, como se distribuem as respostas disciplinares para além das suspensões e que medidas ajudam a acompanhar a experiência dos estudantes depois de um incidente. Os resumos permitem formular essas perguntas, mas não resolvê-las para o contexto brasileiro.
Como o GeraProva pode ajudar com este assunto?
Uma plataforma de provas não substitui a análise de políticas disciplinares nem resolve desigualdades por conta própria. Ainda assim, o professor pode usar atividades e avaliações para trabalhar leitura crítica de dados, regras de convivência e reflexão sobre diferentes respostas a conflitos, adaptando a linguagem à turma e ao objetivo pedagógico. O gerador de provas do GeraProva pode apoiar a criação de questões e atividades, e o cadastro grátis permite conhecer a plataforma.
Perguntas frequentes sobre suspensões e grupos minoritários
As pesquisas mostram que estudantes de grupos minoritários são sempre suspensos com maior frequência?
Não é possível resumir todos os estudos dessa maneira. Taylor encontrou maior frequência de medidas excludentes em escolas da Pensilvânia com pelo menos 50% de estudantes de grupos minoritários. Outros estudos analisaram experiências, relações ou perguntas mais específicas. Lee investigou diferenças entre estudantes em medidas disciplinares, mas o resumo disponível não apresenta os resultados dessa análise. É importante distinguir o que cada pesquisa encontrou e não transformar um resultado localizado em regra universal para todos os grupos, escolas ou países.
A justiça restaurativa reduz suspensões?
Os resultados do estudo que comparou reformas em Michigan e no Texas foram diferentes: Michigan apresentou aumento nas suspensões fora da escola, enquanto o Texas apresentou redução. O estudo também identificou diferenças nos indicadores de bullying e destacou a variação nas formas de implementação. Portanto, essa pesquisa não sustenta uma resposta universal de que a justiça restaurativa sempre reduz suspensões. Para uma escola brasileira, a comparação serve para levantar perguntas sobre como uma prática será implementada e avaliada, não para prever diretamente o resultado local.
Ter um professor da mesma origem racial reduz a chance de suspensão de estudantes com deficiência?
No estudo de estudantes com deficiência em escolas públicas de Massachusetts, a probabilidade de receber uma suspensão não foi afetada pela correspondência etnorracial entre estudante e professor. Os resultados gerais foram predominantemente nulos, embora tenham aparecido algumas exceções pequenas em outros indicadores, como notas de matemática para um subgrupo. Isso não significa que representatividade docente não tenha importância em outros aspectos da experiência escolar; significa apenas que esse estudo não encontrou efeito da correspondência sobre a probabilidade de suspensão.
O que um professor pode fazer sem decidir a sanção?
Como aplicação, o professor pode registrar comportamentos de forma descritiva, explicitar o contexto observado e verificar se a regra aplicada está clara, além de compartilhar informações relevantes com a equipe responsável. Também pode planejar uma retomada da aprendizagem após o afastamento. Essas são sugestões práticas inspiradas pelas perguntas dos estudos, não intervenções cuja eficácia tenha sido comprovada por eles. A decisão disciplinar costuma envolver procedimentos institucionais, então o caminho adequado é seguir as orientações da rede e colaborar para que a análise considere evidências concretas.
O estresse docente explica as disparidades nas suspensões?
Bradshaw e colegas encontraram associação entre maior desproporcionalidade disciplinar e maior estresse docente, além de menor autoeficácia para o ensino multicultural em determinadas análises. Uma associação não demonstra que o estresse cause disparidades, nem que a disparidade cause estresse. O estudo também encontrou associações mais fracas e menos consistentes com esgotamento profissional. A leitura cuidadosa é que esses fatores aparecem relacionados nos dados analisados e merecem investigação, sem atribuir responsabilidade individual aos professores ou tratar uma variável como explicação única.
Esses resultados podem ser aplicados diretamente às escolas brasileiras?
Não diretamente. Os estudos descritos foram realizados nos Estados Unidos, em estados e distritos com contextos e estruturas próprios. Eles não medem a situação brasileira nem avaliam políticas nacionais do Brasil. O que pode ser adaptado é o tipo de pergunta: quais respostas disciplinares a escola usa, como compara situações semelhantes e como acompanha os efeitos das decisões sobre participação e aprendizagem. Para tomar decisões locais, é necessário considerar normas brasileiras, dados da própria rede e pesquisas realizadas no país.
Referências
- Kaur, Harneet (2024). Afastando-se das políticas de “tolerância zero”: evidências de reformas de justiça restaurativa no Texas e em Michigan (Moving Away from “Zero-Tolerance” Policies: Evidence from Restorative Justice Reforms in Texas and Michigan). Society for Research on Educational Effectiveness. https://eric.ed.gov/?id=ED663566
- Lee, Youngsun; Liu, Jing; Penner, Emily (2025). Disciplina para além das suspensões: o espectro das medidas disciplinares e as disparidades raciais/étnicas (Discipline beyond Suspensions: The Spectrum of Disciplinary Actions and Racial/Ethnic Disparities). Society for Research on Educational Effectiveness. https://eric.ed.gov/?id=ED677646
- Love, Larry; Leko, Melinda M. (2026). Punidos: desenvolvimento da identidade de meninos negros em um mundo figurado de exclusão (Punished: Identity Development of Black Boys in a Figured World of Exclusion). Remedial and Special Education. https://eric.ed.gov/?id=EJ1511732
- Egalite, Anna J.; Gottfried, Michael A.; Barriga, M. Daniela (2026). Representatividade para estudantes com necessidades educacionais específicas: correspondência etnorracial entre estudantes com deficiência e professores (Representation for Exceptional Children: Student-Teacher Ethnoracial Matching for Students with Disabilities). Exceptional Children. https://eric.ed.gov/?id=EJ1508195
- Taylor, Jacob-Paul C.; Zuber, Malgorzata J.; Shoup, David S. (2026). Avaliando as chances de aplicação de medidas disciplinares excludentes: uma análise das disparidades raciais, socioeconômicas e espaciais na disciplina no ensino médio (Assessing the Odds of Exclusionary Discipline: An Exploration of the Racial, Socioeconomic, and Spatial Disparities in High School Discipline). Journal of Education. https://eric.ed.gov/?id=EJ1492002
- Bradshaw, Catherine P.; Pandey, Toshna; Chung, Eujene; Francis, Michelle K.; Bottiani, Jessika H. (2026). Investigando fatores docentes relacionados à disciplina desproporcional por infrações leves: uma análise das percepções dos professores (Examining Teacher Factors Related to Disproportionate Discipline for Soft Offenses: An Analysis Examining Teacher Perceptions). Grantee Submission. https://eric.ed.gov/?id=ED682482
Se esse tema aparece nas conversas da sua equipe, comece por uma pergunta concreta sobre os critérios e os registros da escola. Uma reflexão cuidadosa, construída em conjunto, já ajuda a tornar as decisões mais transparentes e a proteger o vínculo dos estudantes com a aprendizagem.
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