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Professores negros nos EUA e a COVID-19: confiança em ensinar, risco de saída

Estudos nos Estados Unidos apontam uma tensão: professores negros relataram mais confiança para apoiar estudantes, mas também maior probabilidade de considerar deixar a profissão. Veja o que isso pode ensinar ao debate brasileiro.

Professores negros nos EUA e a COVID-19: confiança em ensinar, risco de saída

É comum ouvir que, depois da pandemia, o principal desafio dos professores foi simplesmente recuperar conteúdos e reorganizar a rotina. Mas pesquisas recentes sobre docentes negros nos Estados Unidos mostram um quadro mais complexo: aparecem, ao mesmo tempo, relatos de maior confiança para atender às necessidades dos estudantes e sinais de desgaste ligado a remuneração, jornada e condições de trabalho.

Essa combinação importa. A capacidade de acolher e ensinar não elimina as barreiras que podem levar um professor a pensar em sair da profissão; e reconhecer o valor do trabalho de educadores negros não substitui condições concretas para que permaneçam nele. Os estudos a seguir ajudam a olhar para essas duas dimensões sem transformar uma experiência estadunidense em receita pronta para escolas brasileiras.

O que significa estudar professores negros estadunidenses e os impactos da pandemia de COVID-19?

Esse tema investiga como professores negros nos Estados Unidos viveram e responderam a mudanças relacionadas à pandemia, considerando também as condições institucionais em que trabalhavam. Na rotina escolar, isso pode aparecer em perguntas bem concretas: que apoio o professor tem para atender estudantes sob estresse? Quanto tempo e recursos estão disponíveis? E que barreiras tornam mais difícil permanecer na profissão?

Os estudos reunidos aqui não formam uma única pesquisa nem acompanham uma mesma rede de ensino. Alguns examinam a confiança docente para responder a necessidades socioemocionais; outros tratam de remuneração, horas de trabalho, certificação ou práticas de educadoras negras em aulas de letramento. Em conjunto, permitem observar diferentes partes do problema, mas não autorizam uma conclusão simples sobre todos os professores negros ou todas as escolas dos Estados Unidos.

Para quem leciona no Brasil, a utilidade está em identificar questões que também podem ser discutidas por aqui — apoio aos estudantes, condições de trabalho, reconhecimento profissional e formação — sem presumir que os sistemas escolares, as regras de certificação ou os contextos raciais dos dois países sejam iguais.

O que a pesquisa recente mostra sobre professores negros e a pandemia?

Confiança para apoiar estudantes não significa ausência de necessidade de suporte

Um estudo com 454 professores de 41 escolas charter em Nova Orleans examinou o quanto os docentes se sentiam capazes de atender às necessidades socioemocionais dos estudantes no retorno às aulas. O contexto descrito é o de professores voltando à escola sob estresse e encontrando estudantes que também haviam vivido estresse e trauma. Entre os participantes, 55% eram negros. Os resultados indicaram que professores negros tinham maior probabilidade de relatar um senso mais elevado de eficácia para atender às necessidades dos estudantes (Davis, 2024).

Esse resultado merece ser lido com cuidado: ele fala da percepção de eficácia relatada pelos professores naquele estudo, não de uma comparação direta da qualidade do trabalho de grupos raciais, nem de uma característica natural de docentes negros. Também não quer dizer que esses professores precisassem de menos apoio. Professores negros e brancos apontaram os mesmos três recursos principais para apoiar estudantes: suporte em saúde mental, formações e recursos para uso em sala de aula (Davis, 2024).

Para a escola, a combinação é importante: confiança profissional e necessidade de suporte podem coexistir. Uma equipe pode contar com professores que se sentem preparados para estabelecer vínculos e, ao mesmo tempo, precisar de acesso a profissionais de saúde mental, formação pertinente e materiais adequados. O achado não deve virar uma expectativa adicional de que professores negros assumam sozinhos o cuidado emocional de uma comunidade.

As condições de trabalho podem ameaçar a permanência de professores negros

A Pesquisa de 2023 sobre a Situação dos Professores Americanos examinou como remuneração e jornada se relacionavam com a intenção de deixar o emprego e com o bem-estar docente. O relatório descreve que a insatisfação com a jornada, a remuneração e as condições de trabalho parece prejudicar o bem-estar e levar professores a considerar a saída da profissão. Em alguns estados, mais professores deixaram seus empregos ao final do ano letivo de 2021–2022 do que nos dois anos letivos anteriores, em taxas superiores às médias anteriores à pandemia (Steiner, 2023).

O ponto mais diretamente relacionado a este artigo é que professores negros tinham maior probabilidade de considerar deixar seus empregos do que professores brancos; muitos citaram a baixa remuneração como principal motivo. Os autores alertam que os avanços recentes na diversidade racial e étnica do corpo docente podem estar ameaçados. Como resposta, recomendam aumentar a remuneração, reduzir a jornada de trabalho e melhorar as condições de trabalho para promover a permanência (Steiner, 2023).

Isso acrescenta uma dimensão estrutural à conversa sobre resiliência. Não basta perguntar como cada professor consegue lidar com a pressão; é preciso observar a organização do trabalho que produz essa pressão. O relatório não apresenta uma explicação única para cada decisão de saída, mas torna visível que remuneração, horas e condições de trabalho são parte do debate sobre quem consegue permanecer na escola.

Educadoras negras relacionaram letramento, humanidade e narrativas complexas

Uma pesquisa qualitativa acompanhou duas educadoras negras em uma escola de ensino fundamental II de periferia urbana, com estudantes de diferentes grupos raciais. Durante o ano letivo de 2020–2021, marcado nos Estados Unidos pela COVID-19, pelo ensino híbrido e pelo movimento Vidas Negras Importam, as duas professoras ensinaram Língua Inglesa e História no 7º ano. O estudo buscou compreender como elas construíam crenças sobre o ensino de letramento em um contexto de disputas em torno do currículo e das experiências escolares (Francois, 2023).

As participantes se sentiram fortalecidas para contestar ideologias do déficit expressas por colegas — isto é, modos de interpretar estudantes a partir do que supostamente lhes falta. Essa contestação se relacionou a três crenças sobre o ensino de letramento: valorizar a humanidade dos estudantes, elevar a discussão em sala e ensinar uma narrativa complexa sobre pessoas negras. A pesquisa destaca que as crenças e as ações das professoras se influenciavam mutuamente e apresenta uma concepção de ensino de letramento social e politicamente orientada (Francois, 2023).

O estudo também relata que as professoras atuavam em meio a limitações escolares e sociais. Portanto, não se trata de dizer que uma boa prática individual resolve tensões curriculares ou institucionais. Os autores apontam como possibilidade de apoio a formação continuada que valorize expectativas culturalmente afirmativas e autorreflexão crítica. Como a pesquisa acompanhou duas educadoras em uma escola específica, seus achados ajudam a formular perguntas e possibilidades, não a descrever todas as experiências de professoras negras.

A pandemia atingiu também os caminhos de entrada na profissão

Em Nova York, a suspensão dos exames de certificação em março de 2020 e o fechamento de centros de prova e escolas afetaram candidatos à docência. O estudo sobre certificação descreve como essas interrupções alteraram a capacidade de concluir a avaliação de desempenho exigida para obter a certificação, enquanto administradores e candidatos tentavam se adaptar (Greenblatt, 2023).

O contexto era relevante para candidatos negros e de baixa renda ligados à Universidade da Cidade de Nova York: segundo o resumo, muitos deles e suas famílias enfrentavam graves desafios de saúde. O estudo situa essa situação ao lado de preocupações anteriores à pandemia de que os custos e as exigências do processo pudessem funcionar como barreiras de ingresso para pessoas já sub-representadas na profissão docente (Greenblatt, 2023).

O resumo descreve o problema e seu contexto, mas não apresenta um resultado que permita quantificar quantos candidatos foram impedidos de concluir a certificação ou afirmar o efeito final sobre a composição do corpo docente. Ainda assim, a pesquisa amplia a conversa: a pandemia não afetou apenas quem já estava em sala, mas também etapas de formação e entrada na carreira.

As desigualdades educacionais também pedem uma lente sobre as estruturas

Uma obra sobre Estruturalismo Crítico da Raça apresenta esse referencial como uma forma de analisar, explicar e mitigar desigualdades sociais e educacionais. O livro aborda questões estruturais e sistêmicas nas escolas e considera políticas escolares, práticas pedagógicas, elaboração curricular e gestão (Greg Wiggan, 2025).

Essa contribuição é conceitual, não um estudo de resultados específicos sobre os efeitos da COVID-19 entre professores negros. Ela ajuda a organizar a leitura dos demais trabalhos: experiências individuais acontecem dentro de regras, condições de trabalho, práticas curriculares e decisões institucionais. A lente estrutural permite perguntar não só como um professor respondeu à crise, mas também quais condições ampliaram ou limitaram suas possibilidades de ensinar.

Usar esse referencial não significa atribuir automaticamente cada dificuldade à mesma causa. Significa examinar como políticas e práticas se combinam, quem recebe apoio e quais barreiras se repetem. Para o professor, essa distinção evita transformar problemas de organização escolar em falhas pessoais de colegas ou estudantes.

O que os estudos mostram lado a lado?

Os trabalhos abaixo abordam dimensões diferentes do tema: percepções de eficácia, condições de trabalho, práticas de letramento, acesso à profissão e uma lente conceitual sobre desigualdades. A tabela resume o que cada um investigou e o que o resumo relata, sem tratar resultados qualitativos, recomendações e análises conceituais como se fossem evidências do mesmo tipo.

EstudoO que investigouO que relataContexto
Davis, 2024Autoeficácia para atender necessidades socioemocionais após o retorno às aulas.Professores negros tinham maior probabilidade de relatar eficácia mais elevada. Docentes negros e brancos apontaram saúde mental, formação e recursos para sala como apoios principais.41 escolas charter em Nova Orleans, Louisiana, Estados Unidos; 454 professores, 55% negros.
Steiner, 2023Relação entre remuneração, jornada, bem-estar e intenção de saída.Insatisfação com remuneração, jornada e condições parece prejudicar o bem-estar. Professores negros tinham maior probabilidade de considerar sair; muitos citaram baixa remuneração.Professores de escolas públicas da educação básica nos Estados Unidos; Pesquisa de 2023 sobre a situação docente.
Francois, 2023Crenças de duas educadoras negras sobre ensino de letramento durante um período extraordinário.As professoras contestaram ideologias do déficit e valorizaram humanidade dos estudantes, discussão em sala e narrativas complexas sobre pessoas negras.Uma escola de ensino fundamental II de periferia urbana nos Estados Unidos; ano letivo de 2020–2021; duas professoras do 7º ano.
Greenblatt, 2023Efeito das interrupções da pandemia sobre a certificação de candidatos à docência.O fechamento de centros de prova e escolas alterou a capacidade de concluir a avaliação de desempenho; o resumo situa desafios para candidatos negros e de baixa renda.Nova York, Estados Unidos; candidatos ligados à Universidade da Cidade de Nova York.
Greg Wiggan, 2025Referencial para analisar desigualdades sociais e educacionais estruturais.Explora políticas escolares, práticas docentes, currículo e gestão como questões relevantes para diversidade, equidade e inclusão.Obra conceitual sobre educação; o resumo não delimita um país ou etapa escolar.

O que os estudos têm em comum e onde diferem?

Um ponto em comum é que a experiência docente não aparece isolada do contexto. A confiança relatada por professores negros em Nova Orleans coexistiu com necessidades de apoio para estudantes; as crenças pedagógicas das educadoras negras foram construídas em um período de disputas e restrições; e o relatório sobre trabalho docente relacionou bem-estar a remuneração, jornada e condições institucionais (Davis, 2024; Francois, 2023; Steiner, 2023).

Há também uma diferença importante entre os tipos de evidência. Davis examina percepções de professores de várias escolas; Francois acompanha duas educadoras em um estudo qualitativo; Steiner analisa respostas de uma pesquisa sobre situação docente; e Greenblatt descreve interrupções na certificação. A obra de Greg Wiggan oferece um referencial conceitual. Esses trabalhos não medem a mesma coisa e não devem ser somados como se fossem uma única pesquisa.

Os resultados tampouco contam uma história de falta de capacidade dos professores negros. Um estudo encontrou maior probabilidade de relatarem eficácia socioemocional; outro identificou práticas de educadoras que contestavam visões deficitárias dos estudantes. Ao mesmo tempo, o relatório sobre trabalho aponta maior probabilidade de considerar a saída, com a baixa remuneração citada por muitos como principal motivo. A tensão não se resolve dizendo que docentes são resilientes: é preciso perguntar se as instituições oferecem condições para que essa competência possa ser exercida sem custo excessivo.

O que permanece em aberto inclui como essas experiências variam entre regiões, redes, etapas e funções docentes; quais condições concretas explicam diferenças na intenção de permanência; e como as interrupções na certificação afetaram, a longo prazo, o ingresso de novos professores. Os resumos não permitem responder a essas questões em detalhe nem afirmar que os achados se aplicam a todo o sistema estadunidense.

Como levar essas ideias para a sala de aula?

Os estudos não testaram as sugestões abaixo em escolas brasileiras. São aplicações possíveis para professores e equipes que queiram transformar as perguntas levantadas pela pesquisa em ações cotidianas, sem apresentá-las como resultados comprovados.

1. Separar acolhimento de responsabilidade individual

Uma forma de usar o achado é combinar escuta e encaminhamentos com uma divisão clara de responsabilidades. Se uma turma demonstra ansiedade ou dificuldade de convivência, o professor pode registrar padrões, conversar com a equipe pedagógica e identificar que apoio institucional existe, em vez de assumir que precisa resolver tudo sozinho. O estudo de Nova Orleans destaca a necessidade de suporte em saúde mental, formação e recursos de sala. Em uma escola brasileira, uma aplicação possível é mapear os canais internos de apoio e deixar claro como acioná-los. Isso não substitui atendimento especializado quando necessário, nem transforma o professor em profissional de saúde mental.

2. Perguntar aos estudantes o que está dificultando a aprendizagem

O estudo de Davis trata de necessidades socioemocionais, e o de Francois chama atenção para visões deficitárias dos estudantes. Uma forma de aplicar essas ideias é trocar julgamentos genéricos — “não se interessa” ou “não consegue” — por perguntas investigáveis: a instrução ficou clara? O estudante teve oportunidade de praticar? Há algo na atividade que dificulta sua participação? Imagine uma turma em que poucos começam uma tarefa de leitura. O professor pode oferecer diferentes formas de entrada, ouvir os estudantes e revisar a proposta antes de concluir que o problema está em falta de capacidade ou esforço.

3. Tratar narrativas sobre pessoas negras com complexidade

Francois relata que as educadoras acompanhadas valorizavam narrativas complexas sobre pessoas negras e a humanidade dos estudantes. Como aplicação — e não como resultado testado no estudo — um professor pode revisar os materiais que utiliza e observar se pessoas negras aparecem apenas em contextos de sofrimento, escravização ou datas comemorativas. Em uma atividade de leitura, por exemplo, pode propor que a turma compare vozes, experiências e contribuições diversas, evitando apresentar qualquer grupo como homogêneo. A escolha concreta depende do currículo local, da faixa etária e dos materiais disponíveis; a ideia é ampliar perspectivas sem simplificar histórias.

4. Planejar apoio antes que a sobrecarga vire rotina

O relatório de Steiner relaciona insatisfação com jornada, remuneração e condições ao bem-estar e à intenção de saída. Uma aplicação possível para uma equipe é tornar visível o trabalho que costuma ficar escondido: preparação, correção, comunicação com famílias e adaptações. Imagine que vários professores estejam refazendo tarefas em casa para responder às mesmas dificuldades. A equipe pode discutir se há materiais compartilháveis, horários protegidos para planejamento ou formas de reduzir retrabalho. Isso não resolve por si só salário ou carga horária, mas ajuda a distinguir o que pode ser reorganizado localmente do que exige decisão de gestão ou de política pública.

5. Fazer formação ligada a situações reais, não só a orientações gerais

Os professores do estudo de Davis identificaram formações entre os recursos de que precisavam, e a pesquisa de Francois aponta a formação continuada como uma possibilidade de apoio a práticas culturalmente afirmativas e à autorreflexão crítica. Uma forma de aplicar isso é partir de situações concretas: como mediar uma discussão difícil? Como responder a uma interpretação estereotipada? Como conversar com a turma sobre uma narrativa que provoca desacordo? Em vez de esperar que cada docente encontre sozinho uma resposta, uma equipe pode analisar exemplos hipotéticos, testar formas de condução e combinar quando buscar apoio da coordenação.

6. Observar quem está sendo ouvido e quem fica sem resposta

O estudo de Francois chama atenção para a humanidade dos estudantes e para elevar a discussão em sala. Uma aplicação possível é observar a distribuição da fala, sem transformar isso em competição ou contagem mecânica. Imagine uma atividade em que sempre os mesmos estudantes respondem. O professor pode abrir um tempo de escrita individual, conversa em dupla ou resposta anônima antes do debate coletivo. Essa escolha pode ampliar as formas de participação e ajudar o docente a perceber ideias que não surgem em uma discussão aberta. Não é uma estratégia testada pelo estudo citado; é uma possibilidade coerente com o cuidado de valorizar diferentes vozes.

7. Conversar sobre permanência docente como tema de equipe

O relatório de Steiner sugere que remuneração, jornada e condições merecem atenção quando se discute a permanência. Uma aplicação para gestores e equipes é perguntar periodicamente quais aspectos do trabalho estão dificultando que as pessoas continuem e quais mudanças estão ao alcance da escola. Por exemplo, uma conversa estruturada pode separar demandas urgentes, tarefas que podem ser simplificadas e questões que precisam ser levadas à mantenedora ou ao sistema. É importante não reduzir essa escuta a uma palestra motivacional: se os problemas envolvem condições concretas, a resposta também precisa considerar medidas concretas e acompanhamento.

O que muda quando pensamos no contexto brasileiro?

Os estudos centrais sobre docentes negros citados aqui foram realizados nos Estados Unidos. A pesquisa de Davis ocorreu em escolas charter de Nova Orleans; Francois acompanhou duas educadoras em uma escola urbana de ensino fundamental II; Greenblatt examinou interrupções em um processo de certificação de Nova York; e Steiner analisou professores de escolas públicas estadunidenses. Políticas de contratação, certificação, organização escolar e condições de trabalho não devem ser transportadas automaticamente para o Brasil.

Também é preciso evitar tratar as categorias raciais e as histórias sociais dos dois países como equivalentes. Os estudos ajudam a levantar questões sobre desigualdades, representação, valorização profissional e experiências de estudantes, mas não descrevem diretamente professores negros brasileiros. Para afirmar como essas questões se manifestam aqui, seriam necessárias pesquisas feitas no contexto brasileiro, com suas próprias redes, territórios e políticas.

Ainda assim, há perguntas que podem ser úteis para uma equipe brasileira formular: quais apoios estão disponíveis quando estudantes precisam de atenção socioemocional? A formação oferecida ajuda os docentes a examinar expectativas e práticas? A carga de trabalho permite planejar e acompanhar a turma? Os materiais apresentam experiências diversas de maneira complexa? Essas perguntas são uma adaptação reflexiva, não uma conclusão dos estudos sobre o Brasil.

Uma leitura responsável também evita usar o achado de maior autoeficácia relatada por professores negros como justificativa para lhes atribuir trabalho emocional adicional, nem tomar a intenção de saída como uma característica individual. O contraste entre eficácia e condições de permanência sugere justamente que competência, compromisso e bem-estar precisam ser considerados juntos. Na escola, isso significa reconhecer conhecimentos docentes sem naturalizar a sobrecarga ou presumir que um grupo de professores deva representar, orientar ou cuidar de todos os estudantes de determinada identidade.

Quais são os limites desta leitura?

Este artigo se baseia nos resumos disponíveis de estudos recentes, e não na leitura integral dos trabalhos. Por isso, apresenta apenas métodos, resultados, contextos e recomendações que constam nesses resumos. Os estudos também diferem em objetivo e desenho: há pesquisa qualitativa com duas participantes, levantamentos com professores, investigação sobre certificação e uma obra conceitual. Eles não permitem estabelecer uma explicação única para a experiência de todos os docentes negros nos Estados Unidos.

Ficam em aberto perguntas sobre diferenças entre redes e regiões, mudanças ao longo do tempo, fatores específicos associados à permanência e efeitos posteriores das interrupções na certificação. Também seria importante conhecer, em estudos completos, mais informações sobre instrumentos, análises e limites de cada pesquisa antes de usar os resultados para decisões de política ou para comparar grupos. Faz sentido ler os artigos integrais quando a equipe pretende citar os resultados em uma formação, planejar uma intervenção ou compreender os procedimentos de pesquisa com mais precisão.

Como o GeraProva pode ajudar a trabalhar esse assunto?

Uma possibilidade é transformar a leitura sobre pandemia, condições de trabalho e equidade em perguntas de interpretação, debate ou reflexão profissional, adequadas ao objetivo da atividade. O GeraProva pode ajudar a elaborar provas e atividades a partir de um tema definido pelo professor, mas não substitui a leitura das fontes nem decide como abordar questões raciais na escola. Você pode conhecer o gerador de provas do GeraProva e fazer seu cadastro grátis.

Perguntas frequentes sobre professores negros e COVID-19

Os estudos mostram que professores negros se sentiram mais preparados durante a pandemia?

Um estudo realizado em 41 escolas charter de Nova Orleans encontrou que professores negros tinham maior probabilidade de relatar um senso mais elevado de eficácia para atender às necessidades socioemocionais dos estudantes no retorno às aulas (Davis, 2024). Isso descreve uma percepção relatada pelos participantes daquele estudo; não prova que todos os professores negros se sentiam preparados, nem que um grupo tinha melhor desempenho que outro. O mesmo trabalho relata que professores negros e brancos apontaram suporte em saúde mental, formação e recursos para sala de aula como necessidades importantes.

Professores negros nos Estados Unidos tinham mais intenção de deixar a profissão?

Na Pesquisa de 2023 sobre a Situação dos Professores Americanos, professores negros tinham maior probabilidade de considerar deixar seus empregos do que professores brancos. Muitos citaram a baixa remuneração como principal motivo (Steiner, 2023). O relatório também relaciona insatisfação com remuneração, jornada e condições de trabalho a prejuízo no bem-estar e à consideração de saída. Esse resultado não significa que todos os docentes negros pretendiam sair, nem que a remuneração explique cada decisão individual. Os autores recomendam melhorar remuneração, jornada e condições para apoiar a permanência.

O que as educadoras negras estudadas ensinaram sobre letramento?

Em um estudo qualitativo sobre duas professoras que ensinaram no 7º ano durante 2020–2021, as participantes contestaram ideologias do déficit expressas por colegas. As crenças pedagógicas que o estudo identificou valorizavam a humanidade dos estudantes, a discussão em sala e narrativas complexas sobre pessoas negras (Francois, 2023). A pesquisa não afirma que toda educadora negra ensina da mesma maneira: trata de duas participantes em uma escola específica. O trabalho também aponta a importância de formação continuada que apoie expectativas culturalmente afirmativas e autorreflexão crítica.

A COVID-19 afetou a entrada de novos professores na profissão?

Um estudo sobre certificação em Nova York relata que, quando a cidade se tornou o epicentro da crise em março de 2020, exames foram suspensos e centros de aplicação e escolas foram fechados. Isso alterou a capacidade de candidatos concluírem uma avaliação de desempenho necessária para a certificação (Greenblatt, 2023). O resumo situa desafios de saúde enfrentados por muitos candidatos negros e de baixa renda e suas famílias, além de preocupações anteriores sobre custos e exigências como barreiras de ingresso. O resumo não quantifica o efeito final sobre a certificação ou a composição do corpo docente.

Essas pesquisas podem ser aplicadas diretamente às escolas brasileiras?

Não diretamente. Os estudos sobre professores negros citados aqui foram feitos nos Estados Unidos, em contextos como Nova Orleans e Nova York, com regras e condições próprias. Eles podem ajudar professores brasileiros a formular perguntas sobre apoio socioemocional, formação, currículo, remuneração e permanência, mas não demonstram como essas questões funcionam no Brasil. Para aplicar uma ideia, vale considerar a rede, as políticas locais e as necessidades da comunidade escolar. Afirmações específicas sobre docentes negros brasileiros exigem evidências produzidas nesse contexto.

Qual é a principal tensão que esses estudos revelam?

Uma tensão é que relatos de confiança e práticas pedagógicas potentes convivem com condições capazes de desgastar e afastar professores. Em Nova Orleans, docentes negros relataram maior probabilidade de eficácia percebida no apoio socioemocional; em outro levantamento, professores negros tinham maior probabilidade de considerar deixar o emprego, com muitos citando baixa remuneração (Davis, 2024; Steiner, 2023). Esses achados vêm de estudos diferentes e não se anulam. Juntos, ajudam a pensar que reconhecer a competência docente não basta: também é preciso olhar para recursos, condições de trabalho e possibilidades de permanência.

Referências

  1. Davis, Cassandra R.; Baker, Courtney N.; Osborn, Jacqueline; Overstreet, Stacy; New Orleans Trauma-Informed Schools Learning Collaborative (2024). Compreendendo a autoeficácia docente para atender às necessidades socioemocionais dos estudantes durante a pandemia de COVID-19 (Understanding Teacher Self-Efficacy to Address Students' Social-Emotional Needs in the COVID-19 Pandemic). Urban Education. Link.
  2. Steiner, Elizabeth D.; Woo, Ashley; Doan, Sy (2023). Muito trabalho e nenhuma remuneração — Percepções dos professores sobre sua remuneração e jornada de trabalho. Resultados da Pesquisa de 2023 sobre a Situação dos Professores Americanos. Painéis de Educadores Americanos. Relatório de pesquisa. RR-A1108-9 (All Work and No Pay -- Teachers' Perceptions of Their Pay and Hours Worked. Findings from the 2023 State of the American Teacher Survey. American Educator Panels. Research Report. RR-A1108-9). RAND Corporation. Link.
  3. Francois, Chantal (2023). “Nosso ensino vai além de um conteúdo”: aprendendo com as crenças de educadoras negras sobre o ensino de letramento em tempos extraordinários (“Our Teaching Transcends a Subject Matter”: Learning from Black Women Educators' Beliefs about Literacy Instruction during Extraordinary Times). Teachers College Record. Link.
  4. Greenblatt, Deborah (2023). Certificação de professores durante múltiplas pandemias no epicentro de tudo (Teacher Certification during Multiple Pandemics in the Epicenter of It All). Excelsior: Leadership in Teaching and Learning. Link.
  5. Wiggan, Greg; Teasdell, Annette; Watson-Vandiver, Marcia J. (editores, 2025). Estruturalismo Crítico da Raça, Equidade e Inclusão na Educação (Critical Race Structuralism, Equity, and Inclusion in Education). Palgrave Macmillan. Link.

Se este tema conversa com desafios da sua escola, escolha uma pergunta do artigo para discutir com a equipe e adapte a conversa à realidade da sua comunidade. Boa leitura e bom trabalho!

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