Narrativas de latino-americanos na escola: vozes que desafiam uma única história
Pesquisas recentes nos EUA mostram como narrativas pessoais revelam relações entre identidade, língua e poder na educação básica. Veja o que essas experiências podem inspirar — e o que exige adaptação — na escola brasileira.
Narrativas pessoais não são apenas relatos sobre a vida: podem tornar visíveis as relações de identidade, língua e poder que atravessam a escola. Pesquisas recentes ligadas à educação básica nos Estados Unidos mostram como histórias de educadores hispânicos e de outros grupos minorizados ajudam a questionar ideias tratadas como normais sobre quem fala bem, quem pertence e quem tem autoridade para produzir conhecimento.
Isso importa para professores porque a experiência de um estudante ou educador não cabe sempre numa categoria única. Língua, origem, raça, gênero, espiritualidade e trajetória escolar podem se cruzar de modos diferentes. Os estudos reunidos aqui não são todos pesquisas sobre narrativas de estudantes latino-americanos: parte deles examina professores, formação docente ou experiências afro-brasileiras. Ainda assim, juntos ajudam a pensar como escutar histórias sem transformá-las em estereótipos e como criar atividades que acolham perspectivas diversas sem exigir que alguém represente um grupo inteiro.
O que são narrativas pessoais de latino-americanos na educação básica e por que isso importa para o professor?
Narrativas pessoais, neste contexto, são relatos situados sobre experiências vividas: histórias que pessoas contam sobre sua língua, identidade, escola, trabalho e relações com outras pessoas. Para o professor, elas podem aparecer numa conversa, numa produção multimodal, numa atividade de história oral ou numa reflexão sobre como as regras escolares afetam diferentes sujeitos. A narrativa não é uma janela neutra para uma experiência: é também uma forma de organizar sentidos e tornar certas vozes audíveis.
O assunto importa porque a escola participa da construção do que é considerado conhecimento legítimo. Um idioma pode ser tratado como recurso ou como problema; uma identidade pode ser reconhecida ou reduzida a uma expectativa; um relato pode ser recebido com curiosidade ou colocado de lado. Estudos sobre educadores hispânicos no Texas mostram que pressupostos sobre suas identidades linguísticas afetam pertencimento, oportunidades profissionais e relações com colegas, gestores e estudantes (Ekpe, 2026). Embora esse estudo trate de professores, não de alunos, ele chama atenção para práticas e expectativas escolares que também fazem parte do ambiente vivido pelos jovens.
Falar em narrativas de latino-americanos não significa supor que exista uma experiência única, nem que “hispânico”, “latino” e “afro-latino” sejam categorias intercambiáveis. Os estudos aqui examinados abrangem contextos diferentes e pessoas com trajetórias diversas. Para a sala de aula, a consequência é simples e exigente: ouvir uma história como uma perspectiva particular, não como prova definitiva sobre uma comunidade inteira.
O que a pesquisa recente mostra sobre narrativas, identidade e escola?
Os estudos selecionados se organizam em torno de três ideias: narrativas podem contestar pressupostos deficitários sobre língua e identidade; experiências pessoais e coletivas ajudam a compreender a formação de educadores e suas práticas; e o contexto racial e nacional muda o sentido que uma narrativa assume. Os resultados não compõem uma receita única, mas oferecem perguntas úteis para observar a escola.
As narrativas tornam visíveis os pressupostos sobre língua e pertencimento
Um estudo sobre professores homens hispânicos em escolas de educação básica do Texas examinou como pressupostos sobre suas identidades linguísticas interferiam no sentimento de pertencimento, nas oportunidades profissionais e nas relações com colegas, gestores e estudantes. Com dados de uma pesquisa nacional sobre professores homens hispânicos e grupos focais, os autores relatam três aspectos: falta de consciência racial e cultural entre colegas e gestores, pedagogias assimilacionistas dentro e fora da sala e o bilinguismo vivido ao mesmo tempo como ponte e como fardo (Ekpe, 2026).
Esse resultado dá concretude à ideia de que saber mais de uma língua não é automaticamente reconhecido como vantagem. O valor atribuído ao bilinguismo depende também das expectativas e relações de poder do ambiente escolar. Os autores defendem a importância de narrativas contra-hegemônicas, que contestem normas linguísticas eurocêntricas e devolvam às pessoas a possibilidade de definir a própria identidade linguística. Para o professor brasileiro, a pergunta não é importar o contexto do Texas, mas observar que juízos sobre sotaque, variedade linguística e competência também podem se infiltrar em interações cotidianas.
Outro trabalho, baseado em um estudo-piloto da pesquisa sobre professores homens hispânicos no Texas, reuniu resultados de 839 educadores. O resumo destaca o potencial de esses professores se tornarem modelos para estudantes hispânicos e de desconstruírem pressupostos estereotipados sobre ser hispânico e homem. Também relata desafios ligados ao racismo na docência e ao peso de exercer simultaneamente funções de tradutor, disciplinador e educador (Ekpe, 2025).
Os dois estudos de Ekpe se complementam, mas não dizem exatamente a mesma coisa. O trabalho de 2025 enfatiza os desafios e as possibilidades associados à atuação dos educadores; o de 2026 dá foco aos pressupostos linguísticos e a seus efeitos sobre as relações e oportunidades profissionais. Em conjunto, convidam a não presumir que um professor ou estudante bilíngue deva traduzir, mediar ou representar outras pessoas por causa de sua origem.
Participação e produção de sentidos podem mudar práticas pedagógicas
Fu, Harman e Aubain analisaram como dois educadores racializados da área de línguas desenvolveram consciência crítica multilíngue sobre a linguagem em um programa que integrou pesquisa-ação participativa juvenil à formação de professores. O estudo reflexivo relata que formas multimodais de produção de sentidos ajudaram a contestar perspectivas deficitárias sobre línguas minorizadas e a transformar práticas pedagógicas em direção a maior equidade (Fu, 2023).
Os autores também relatam que, ao implementar programas participativos com foco explícito nessa consciência linguística, os educadores passaram a perceber melhor as próprias ideologias sobre a língua e os discursos sociopolíticos que orientavam suas interações com jovens. Entre as implicações indicadas está a incorporação de multimodalidade e pedagogias participativas à formação docente, criando oportunidades para que futuros professores reconheçam relações de poder na educação multilíngue (Fu, 2023).
Esse estudo não avalia um conjunto amplo de estudantes latino-americanos nem apresenta um resultado generalizável a toda escola. Seu valor para a prática está em mostrar uma possibilidade: quando jovens participam da produção de conhecimento e podem expressar sentidos por mais de um modo, a discussão sobre língua deixa de ser apenas correção formal. Pode incluir quem decide quais formas de falar são valorizadas e quais são deslegitimadas.
Em outro contexto dos Estados Unidos, narrativas pessoais e coletivas de cinco professores que vivem nos territórios norte-americanos ou são oriundos deles foram investigadas em ações de formação continuada. Por meio de pláticas, o estudo acompanhou como raça, língua e identidade influenciavam experiências educacionais e como as experiências formativas se relacionavam à construção de identidades pessoais, culturais, linguísticas e de liderança. Os autores relatam ainda ações de engajamento cívico dos professores com seus alunos e ressaltam a importância de formações inclusivas que afirmem identidades e valorizem vozes docentes (Guerrero, 2025).
O estudo de Guerrero trata de professores nos territórios dos Estados Unidos, não de estudantes latino-americanos em geral. A conexão com a sala de aula está na atenção às histórias situadas e à relação entre formação, identidade e ação pedagógica. A pesquisa também examinou relações entre desenvolvimento docente, educação cívica e permanência na carreira, sem que isso autorize afirmar que uma atividade narrativa, por si só, retenha professores ou produza determinado efeito nos alunos.
Uma história pessoal pode questionar o silêncio, mas não representa todas as pessoas
Morgado apresenta um testimonio de resistência construído a partir de sua trajetória como educadora e pesquisadora latina. O relato aborda o silêncio sobre crenças espirituais durante a formação docente, a aproximação com o testimonio e a ampliação de uma investigação que passou a reunir diferentes abordagens. A autora acolhe a narrativa como meio de sobrevivência e produção de conhecimento transformador, em oposição a sistemas que pressionam latinas a assimilar, esconder ou silenciar partes de si (Morgado, 2025).
O texto é uma narrativa situada, não um levantamento de experiências de estudantes. Sua contribuição está em mostrar que o que parece “pessoal” pode revelar tensões institucionais: quem sente que pode falar, que partes de si considera aceitáveis e quais conhecimentos são reconhecidos no espaço acadêmico e educacional. Na escola, isso pede cuidado. Convidar estudantes a contar histórias pode abrir espaço para expressão, mas não deve transformar a exposição pessoal em obrigação nem presumir que uma pessoa queira falar em nome de sua família, cultura ou religião.
Uma pesquisa com entrevistas de história oral examinou experiências educacionais de afro-brasileiros em contextos transnacionais, no Brasil e nos Estados Unidos. O estudo analisa como essas pessoas mobilizaram compreensões raciais para negociar subjetividades múltiplas e relata que discursos educacionais, currículo, pedagogia e políticas têm papel importante nesse processo. A autora relaciona essas experiências a ideologias como mestiçagem, colorismo e democracia racial e denomina “Pedagogia da Mestiçagem” os discursos que produzem experiências de aprendizagem desracializadas (Silva, 2025).
Esse trabalho não deve ser lido como pesquisa sobre latino-americanos hispânicos: ele trata especificamente de afro-brasileiros e de racialização transnacional. Justamente por isso, amplia o tema sem apagar diferenças. A mesma pessoa pode ser percebida e posicionada de maneiras distintas em contextos nacionais diferentes; categorias raciais e narrativas sobre raça não se transferem sem mudanças de um país para outro. Para professores brasileiros, o estudo torna especialmente relevante examinar como discursos locais sobre raça influenciam o que entra no currículo e como se interpreta a experiência de estudantes.
O que os estudos sobre narrativas e identidade escolar têm em comum?
Os trabalhos convergem em um ponto: experiências pessoais e coletivas ajudam a tornar visíveis relações de poder que podem parecer naturais. Nos estudos sobre educadores hispânicos, isso aparece em pressupostos sobre língua, raça e gênero; em Fu, na contestação de visões deficitárias sobre línguas minorizadas; em Guerrero, na relação entre identidade, formação e participação cívica; em Morgado e Silva, na possibilidade de narrar tensões que o silêncio ou discursos dominantes podem ocultar.
Há diferenças importantes. Alguns estudos acompanham experiências de professores; outros analisam formação docente ou histórias de vida. Os contextos incluem o Texas, territórios dos Estados Unidos e experiências transnacionais entre Brasil e Estados Unidos. Também variam os modos de produzir conhecimento: pesquisa com dados de levantamento e grupos focais, estudo reflexivo, pláticas, testimonio e entrevistas de história oral. Portanto, não se deve somar os resultados como se fossem uma única pesquisa ou uma amostra comparável.
Uma tensão recorrente é que identidade e língua podem ser, simultaneamente, fontes de conexão e de cobrança. O bilinguismo, por exemplo, é apresentado como ponte e fardo no estudo sobre professores homens hispânicos. Narrar pode questionar o silenciamento, mas uma narrativa individual não elimina desigualdades institucionais e tampouco representa todos os integrantes de uma comunidade. Os estudos deixam em aberto como essas abordagens se traduziriam em diferentes etapas escolares, comunidades e sistemas educacionais, inclusive no Brasil.
Como aplicar essas ideias em atividades de sala de aula?
Uma aplicação possível é trabalhar narrativas como fontes de reflexão sobre identidade, língua e participação, sem tratar os estudos como modelos prontos. As sugestões a seguir são propostas de prática, não resultados comprovados pelas pesquisas. O professor pode adaptá-las à idade, ao objetivo curricular, ao vínculo com a turma e às condições de segurança e privacidade dos estudantes.
1. Ofereça mais de um modo de contar
Como aplicação, o professor pode permitir que uma reflexão seja apresentada oralmente, por áudio, desenho comentado, sequência de imagens ou texto, conforme os recursos disponíveis e os objetivos da atividade. Imagine uma turma que investiga palavras usadas em diferentes contextos da comunidade: os estudantes podem explicar oralmente uma escolha linguística ou criar uma composição visual acompanhada de uma fala. A proposta conversa com o foco em produção multimodal relatado por Fu (2023), mas a escolha dos formatos e a atividade concreta são decisões pedagógicas, não uma intervenção testada pelo estudo.
2. Não transforme ninguém em porta-voz de um grupo
Como aplicação, formule perguntas abertas e evite pedir que um estudante explique “como os latinos pensam” ou “como fala a sua comunidade”. Numa atividade hipotética sobre línguas presentes no cotidiano, cada pessoa pode escolher se quer compartilhar uma experiência própria, falar de uma situação observada ou analisar um exemplo fictício. Essa escolha ajuda a separar escuta de exposição obrigatória e responde ao cuidado levantado pelas narrativas situadas de Morgado (2025): a história de uma pessoa não representa automaticamente uma coletividade.
3. Examine as expectativas sobre bilinguismo
Como aplicação, peça à turma que compare diferentes situações em que uma pessoa usa mais de uma língua: quando isso é percebido como competência, quando vira uma tarefa esperada e quem decide. Em uma cena hipotética, um estudante é chamado repetidamente para traduzir para colegas ou familiares; a turma pode discutir a diferença entre oferecer ajuda voluntária e atribuir uma responsabilidade por causa da identidade. A atividade não reproduz uma conclusão sobre estudantes, mas parte da tensão entre ponte e fardo relatada por professores hispânicos no Texas (Ekpe, 2026).
4. Convide os estudantes a investigar as próprias perguntas
Como aplicação, organize uma pequena investigação participativa em que os jovens definam uma pergunta sobre linguagem, pertencimento ou representações no material estudado. Uma turma hipotética pode observar como personagens usam diferentes variedades linguísticas em uma narrativa escolhida pelo professor e discutir quais recebem reconhecimento. O educador acompanha a análise e explicita que a atividade deve examinar representações, não julgar a fala de colegas. A ideia de participação dialoga com o programa estudado por Fu (2023); não significa que a pesquisa tenha testado exatamente essa sequência de aula.
5. Faça perguntas que conectem experiência e contexto
Como aplicação, depois de uma narrativa, proponha perguntas como: que regra ou expectativa aparece aqui? Quem tem poder para defini-la? O que mudou entre os lugares ou momentos descritos? Imagine uma produção fictícia sobre uma estudante que muda a forma de falar conforme o ambiente; a conversa pode explorar contexto e interlocutores sem concluir que existe uma única maneira “correta” de se expressar. Essa passagem da experiência para as condições sociais combina com a atenção às relações entre identidade, língua e poder encontrada em diferentes estudos.
6. Combine participação com proteção da privacidade
Como aplicação, deixe claro que ninguém precisa revelar experiências íntimas, religiosas, familiares ou raciais para cumprir uma tarefa. O estudante pode analisar uma narrativa publicada, criar um personagem fictício ou escolher um episódio cotidiano que não o exponha. Numa turma hipotética, a proposta é estudar como uma instituição reage a diferentes formas de falar, e não pedir relatos de discriminação pessoal. Essa orientação é especialmente pertinente ao ler testimonio e história oral, mas constitui uma decisão ética de aplicação, não uma recomendação experimental dos estudos citados.
7. Revise a linguagem com que a escola descreve estudantes
Como aplicação, observe enunciados, feedback e rotinas escolares para identificar quando uma diferença linguística é descrita como falta, atraso ou incapacidade sem análise do contexto. A equipe de uma turma hipotética pode revisar um conjunto de comentários pedagógicos e perguntar quais evidências sustentam cada avaliação. Os estudos de Ekpe (2025, 2026) tratam de experiências de professores homens hispânicos, não de um protocolo de avaliação escolar; ainda assim, tornam pertinente discutir como pressupostos sobre identidade e língua podem orientar interações e oportunidades.
O que muda ao levar essas pesquisas para o contexto brasileiro?
O principal cuidado é não transferir diretamente categorias, políticas ou experiências dos Estados Unidos para a escola brasileira. Parte dos estudos trata do Texas e de professores hispânicos; outro aborda docentes de territórios norte-americanos. Esses contextos não descrevem automaticamente as relações de língua, raça, migração ou pertencimento de uma escola no Brasil. O que pode viajar com mais segurança são perguntas analíticas: que vozes são ouvidas? Que variedades linguísticas são valorizadas? Quem recebe a tarefa de traduzir? Como currículo e práticas escolares posicionam diferentes identidades?
O estudo de Silva (2025) tem um vínculo direto com o Brasil, pois acompanha afro-brasileiros em contextos brasileiros e estadunidenses. Ainda assim, não representa todas as experiências afro-brasileiras nem oferece uma descrição de cada escola brasileira. Sua análise ajuda a perceber que ideias como mestiçagem, colorismo e democracia racial podem influenciar discursos educacionais, mas a aplicação exige considerar comunidade, história local e as experiências concretas dos estudantes.
Também é importante não usar “latino-americano” como sinônimo de uma identidade uniforme. As experiências estudadas incluem pessoas identificadas como hispânicas nos Estados Unidos e afro-brasileiros em contextos transnacionais; são trajetórias distintas. Na prática brasileira, professores podem investigar as línguas, histórias e referências presentes na própria comunidade, em vez de presumir que a experiência de um estudante migrante, indígena, negro ou bilíngue seja semelhante à de participantes de pesquisas norte-americanas.
Por fim, o espaço para narrativas deve ser construído com atenção à voluntariedade. Uma atividade pode valorizar histórias sem exigir que estudantes exponham vivências pessoais ou funcionem como representantes de identidades. Essa distinção é importante em qualquer país; no Brasil, ela precisa ser pensada a partir do contexto da turma, das relações entre estudantes e das formas locais de racialização e reconhecimento linguístico.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes disponibilizados como fonte, e não na leitura integral dos trabalhos. Por isso, apresenta apenas os objetivos, abordagens e resultados descritos nesses resumos. A seleção também reúne pesquisas de naturezas e contextos diferentes, e nem todas tratam diretamente de estudantes latino-americanos: algumas focalizam professores, formação docente ou afro-brasileiros em experiências transnacionais.
Ficam em aberto perguntas importantes: como estudantes de diferentes idades recebem propostas narrativas? Que condições tornam uma atividade segura e voluntária em cada comunidade? Como se desenvolvem, ao longo do tempo, práticas de participação e reconhecimento linguístico? Os resumos não permitem estabelecer que uma estratégia específica cause determinada mudança em aprendizagem, pertencimento ou desempenho. Para responder a essas perguntas, seria necessário consultar os estudos completos e, em muitos casos, pesquisas diretamente realizadas no contexto brasileiro.
Ler o trabalho integral faz sentido quando o professor pretende usar uma metodologia, adaptar uma formação, discutir detalhes de coleta e análise ou avaliar a transferibilidade de um resultado para sua rede. Também é necessário buscar as referências completas antes de reproduzir instrumentos ou atribuir uma conclusão mais específica aos autores.
Como o GeraProva ajuda a trabalhar narrativas pessoais?
O GeraProva pode ajudar a preparar questões e atividades de avaliação relacionadas a leitura, interpretação e análise de narrativas, desde que o professor revise o material, ajuste a linguagem à turma e preserve a privacidade dos estudantes. A plataforma não substitui a escolha cuidadosa dos textos nem garante, por si só, uma abordagem culturalmente adequada. Você pode conhecer o gerador de provas do GeraProva e fazer o cadastro grátis para explorar a ferramenta.
Perguntas frequentes sobre narrativas pessoais e diversidade na escola
O que uma narrativa pessoal pode revelar sobre a escola?
Uma narrativa pode mostrar como uma pessoa vive expectativas sobre língua, identidade, pertencimento e participação. Os estudos sobre professores homens hispânicos no Texas relatam que pressupostos sobre identidade linguística se relacionam a pertencimento, oportunidades profissionais e relações escolares (Ekpe, 2026). Isso não significa que todo relato revele sozinho como funciona uma instituição ou represente um grupo inteiro. Para o professor, a narrativa é um ponto de partida para perguntas sobre contexto e poder, a ser lida com atenção a quem fala, a que situação se refere e quais outras perspectivas podem estar ausentes.
Os estudos comprovam que narrativas melhoram a aprendizagem dos alunos?
Os resumos examinados não permitem concluir que narrativas pessoais, por si só, melhorem o desempenho ou a aprendizagem dos estudantes. Alguns estudos investigam experiências de professores, formação docente, participação juvenil e produção de sentidos; seus resultados dizem respeito a esses recortes. Fu (2023), por exemplo, relata que formas multimodais apoiaram educadores na contestação de perspectivas deficitárias sobre línguas minorizadas e na transformação de práticas pedagógicas. Isso não equivale a uma medida de efeito sobre notas ou aprendizagem de todos os alunos. Para avaliar uma proposta em sua turma, o professor pode definir objetivos e observar evidências próprias.
Como falar de bilinguismo sem reforçar estereótipos?
Uma forma de começar é evitar presumir que alguém bilíngue deva traduzir, explicar uma cultura ou falar por outras pessoas. O estudo com professores homens hispânicos no Texas descreve o bilinguismo como ponte e também como fardo, além de apontar pressupostos estereotipados sobre identidade linguística (Ekpe, 2026). Em sala, uma aplicação possível é discutir quem escolhe quando uma língua é usada e se a mediação é voluntária ou atribuída. O professor também pode valorizar repertórios linguísticos sem classificar automaticamente uma variedade como deficiência. Essas são escolhas de prática inspiradas pelas questões do estudo, não um protocolo testado nele.
Preciso pedir que os estudantes contem experiências pessoais?
Não. As pesquisas sobre testimonio e história oral mostram que narrativas podem tornar experiências e tensões visíveis, mas isso não obriga o professor a solicitar relatos íntimos dos alunos. Uma atividade pode trabalhar com narrativas publicadas, situações fictícias, personagens ou observações de materiais culturais. Se houver convite à partilha pessoal, uma aplicação cuidadosa é oferecer alternativas equivalentes e explicar como o material será usado. A narrativa de Morgado (2025) é uma trajetória situada de uma educadora e pesquisadora; não deve ser tratada como modelo que todos os estudantes latinos precisam seguir ou revelar.
O que esses estudos dos Estados Unidos têm a ver com a escola brasileira?
Eles oferecem perguntas para observar língua, identidade e relações de poder, mas não descrevem diretamente a realidade das escolas brasileiras. Os trabalhos de Ekpe (2025, 2026) se concentram em professores homens hispânicos no Texas; Guerrero (2025) trata de educadores ligados aos territórios dos Estados Unidos. Já Silva (2025) examina experiências de afro-brasileiros no Brasil e nos Estados Unidos, com foco em racialização transnacional. O professor pode usar essas leituras para refletir sobre seu contexto, mas deve evitar importar categorias e conclusões sem considerar as histórias, línguas e relações raciais locais.
Uma pessoa pode falar por toda uma comunidade?
Não. Uma narrativa é uma perspectiva situada, formada por uma trajetória específica. Os estudos reunidos incluem pessoas com experiências distintas e utilizam abordagens variadas; eles não autorizam transformar um participante em representante de todos os latino-americanos, hispânicos, afro-brasileiros ou bilíngues. Na sala de aula, o professor pode explicitar essa diferença e convidar a turma a comparar perspectivas sem exigir que estudantes expliquem uma identidade coletiva. O estudo de Silva (2025), ao examinar subjetividades e experiências racializadas em contextos transnacionais, reforça a importância de considerar contexto e multiplicidade, em vez de supor que uma categoria identitária tenha o mesmo significado em todo lugar.
Referências dos estudos citados
- Ekpe, L.; Weinberg, N.; Daly, G.; Przymus, S.; Hernandez, F.; Huddleston, G.; Kyzar, K. (2026). “Somos colocados em caixinhas”: respostas de professores homens hispânicos a pressupostos estereotipados sobre suas identidades linguísticas (“We Are Pigeonholed”: Hispanic Male Teachers' Responses to Stereotypical Assumptions of Their Linguistic Identities). Teachers College Record. Link.
- Ekpe, L.; Weinberg, N.; Daly, G.; Przymus, S.; Hernandez, F.; Huddleston, G.; Kyzar, K. (2025). Percorrendo o cenário educacional: experiências de professores hispânicos em escolas de educação básica do Texas (Navigating the Educational Landscape: Experiences of Hispanic Male Teachers in Texas K-12 Schools). Journal of Education. Link.
- Fu, S.; Harman, R.; Aubain, Y. (2023). Consciência crítica multilíngue sobre a linguagem: reflexões sobre um programa de pesquisa-ação participativa juvenil na formação de professores (Critical Multilingual Language Awareness: Reflections on a YPAR Program in Teacher Education). Journal of Language, Identity, and Education. Link.
- Guerrero, K.; Jimenez-Silva, M.; Frances-Vazquez, S.; Tanielu, M.; Tanayan, V.; Fuiava, E.; Hauptli, T. (2025). Perspectivas de professores estadunidenses que vivem nos territórios dos Estados Unidos e daqueles oriundos desses territórios (Perspectives of American Teachers in and from the U.S. Territories). Current Issues in Education. Link.
- Morgado, A. A. F. (2025). Desestabilizando o poder a partir das fissuras (Disrupting Power from Las Rajaduras). Current Issues in Education. Link.
- Silva, C. S. F. (2025). “É como se houvesse um véu sobre as questões raciais”: experiências educacionais de afro-brasileiros ao negociar a racialização transnacional e a pedagogia da mestiçagem nas Américas (“It's Like There Is a Veil Placed over Racial Issues”: Afrobrazilians' Educational Experiences Negotiating Transnational Racialization and the Pedagogy of Mestizaje of the Americas). Race, Ethnicity and Education. Link.
Que tal escolher uma narrativa, uma pergunta sobre língua ou uma experiência de leitura para abrir uma conversa cuidadosa com sua turma? Comece pelo contexto dos seus estudantes e deixe espaço para que cada voz escolha como participar.
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