Coordenadores pedagógicos na educação especial: autonomia que esbarra na sobrecarga
Estudos recentes de diferentes países mostram coordenadores de educação especial atuando para articular inclusão, recursos e colaboração. Também apontam sobrecarga, papéis pouco reconhecidos e desafios para transformar autonomia em apoio consistente.
Em estudos realizados em países como Inglaterra, Suécia, Irlanda e Nova Zelândia, coordenadores de educação especial articulam apoios, defendem direitos dos estudantes e colaboram com equipes escolares. As pesquisas também relatam sobrecarga, falta de reconhecimento e limites de recursos. Para professores brasileiros, esses achados ajudam a pensar como dividir responsabilidades e organizar a colaboração, sem presumir que modelos estrangeiros se apliquem diretamente às escolas daqui.
A pandemia alterou rotinas e exigiu novas tarefas de coordenadores de educação especial em escolas de diferentes países. Na Inglaterra, uma pesquisa sobre práticas entre março de 2020 e março de 2021 identificou mudanças na oferta de planos de apoio e apontou que a autonomia para agir estrategicamente permitiu promover alterações para estudantes com necessidades educacionais especiais (Kilbride, 2024). Na Suécia, coordenadores relataram novas tarefas durante a pandemia, enquanto dificuldades antigas sobre os limites de sua função se agravaram (Udd, 2023).
Essa combinação — mais possibilidade de agir, mas também mais demandas e responsabilidades — conversa com uma questão que aparece no cotidiano escolar: quem coordena os apoios, quem acompanha se funcionam e como o trabalho se divide entre profissionais? Estudos recentes realizados na Inglaterra, Suécia, Irlanda e Nova Zelândia ajudam a pensar essas perguntas. Eles não descrevem a realidade brasileira, mas oferecem pistas sobre autonomia, colaboração, reconhecimento profissional e condições de trabalho.
O que são coordenadores pedagógicos e educação especial em outros países e por que isso importa para o professor?
Em escolas de diferentes países, profissionais chamados coordenadores de necessidades educacionais especiais — SENCo ou SENCO — articulam ações para estudantes que precisam de apoio educacional. A função pode envolver identificação de necessidades, orientação a colegas, organização de recursos, diálogo com famílias ou serviços externos e participação em decisões escolares. O nome, as atribuições e as políticas variam entre países; não existe uma equivalência automática com um cargo brasileiro.
Para o professor, o tema aparece em situações bem concretas: combinar ajustes para que um estudante participe de uma atividade, conversar sobre estratégias que possam ser usadas pela equipe, acompanhar se um apoio está chegando à sala e decidir como avaliar o que o aluno aprendeu. A coordenação pode ajudar a ligar essas ações, mas os estudos mostram que sua capacidade de fazê-lo depende tanto da atuação profissional quanto das condições oferecidas pela escola.
Também vale separar coordenação pedagógica, tal como organizada no Brasil, das funções de SENCo descritas nas pesquisas. Em alguns estudos, o profissional tem responsabilidades específicas ligadas à educação especial e a políticas nacionais próprias. O interesse para nós está menos em copiar o cargo e mais em observar como escolas organizam colaboração, recursos, decisões e acompanhamento dos apoios.
O que a pesquisa recente mostra sobre a atuação de coordenadores na educação especial?
Autonomia e colaboração podem transformar a coordenação em ação coletiva
Uma primeira linha de estudos trata da agência profissional: a possibilidade de tomar iniciativas e influenciar o que acontece na escola. Na Nova Zelândia, um estudo de caso com cinco SENCos de escolas primárias identificou formas de exercer essa agência em defesa dos direitos dos estudantes, por meio do compromisso com a função, da competência profissional, da autoeficácia, da participação nas decisões e da colaboração com diferentes pessoas (Lin, 2024). A pesquisa também propõe compreender essa agência em relação ao tempo e ao contexto: cultura, estrutura e recursos interferem no que o profissional consegue fazer.
Esse ponto ajuda a evitar uma leitura individualista da inclusão. A disposição de um coordenador, sozinha, não basta para mudar práticas; sua ação se dá dentro de uma organização escolar, com possibilidades e limites concretos. O estudo neozelandês relaciona a atuação à participação em decisões e à colaboração, sugerindo que a agência não é apenas uma característica pessoal: envolve relações e condições que permitem levar uma intenção adiante.
Na Irlanda, relatos de quatro coordenadores de escolas primárias foram analisados com foco em liderança distribuída. Os participantes apareciam ligados a cinco áreas: identificar crianças com necessidades adicionais e administrar avaliações; promover colaboração e apoiar colegas; definir e monitorar recursos; incentivar o desenvolvimento profissional da equipe; e manter articulação com órgãos externos. Os autores defendem que esse trabalho pode posicionar o coordenador como líder que pensa adiante e atua de forma proativa. Ao mesmo tempo, apontam relutância em assumir a função associada à carga de trabalho e à falta de reconhecimento administrativo e de liderança (Colum, 2023).
Os estudos não dizem que toda escola deve adotar o mesmo desenho. A contribuição comum é mostrar que a coordenação pode ganhar força quando não fica isolada: as decisões, o desenvolvimento profissional e o uso de recursos envolvem outras pessoas. O desafio é fazer essa distribuição sem transformar colaboração em uma lista de tarefas adicionais para quem já está sobrecarregado.
O papel pode ser negociado entre diferentes perspectivas sobre inclusão
Na Suécia, uma pesquisa com nove coordenadores do ensino médio investigou o chamado trabalho de fronteira: como esses profissionais influenciam distinções entre agentes e espaços da escola. Os resultados descrevem esse trabalho como contínuo e em transformação, especialmente quando os coordenadores atuam como agentes de mudança. Diferenças na compreensão do que significa inclusão podem gerar tensões entre profissionais; nesse cenário, o coordenador pode ajudar a atenuá-las (Udd, 2024).
Uma ideia discutida pelos autores é a possibilidade de tratar a inclusão como um “objeto de fronteira”: algo que mantém um sentido compartilhado, mas pode ser adaptado a perspectivas diferentes. Na prática, isso permitiria que pessoas com entendimentos distintos cooperassem sem precisar concordar em todos os aspectos sobre a definição de inclusão. É uma proposta conceitual, não uma receita pronta, mas chama atenção para o trabalho de construir acordos suficientemente claros para orientar ações.
Outro estudo sueco, também centrado no ensino médio, explora como coordenadores recorrem ao próprio corpo, aos ambientes escolares e à ética profissional para realizar suas tarefas. Os participantes usavam estratégias associadas aos espaços e às relações da escola e adotavam uma postura pragmática diante das necessidades imediatas dos estudantes. Os autores destacam a empatia e os recursos necessários para defender direitos de estudantes e professores como aspectos importantes dessa atuação (Udd, 2026).
Em conjunto, esses trabalhos descrevem uma coordenação que acontece no contato com pessoas, lugares e interpretações diversas. O profissional pode atuar como mediador, mas isso não significa que seja responsável por resolver sozinho qualquer divergência. A capacidade de articular posições depende também de reconhecimento, tempo e apoio para que as conversas se convertam em decisões e acompanhamento.
Reconhecimento e condições de trabalho limitam o alcance da função
Em escolas primárias da Inglaterra, um questionário anônimo com 20 SENCos investigou como os profissionais percebiam sua função e suas responsabilidades. A carga de trabalho e o desgaste no bem-estar apareceram com destaque, em meio a sistemas considerados complexos. O estudo também levantou questões sobre o status do cargo, a forma de oferecer a qualificação reconhecida nacionalmente associada à função e as fontes de apoio disponíveis (Solvason, 2024).
Uma pesquisa inglesa mais ampla reuniu respostas de 134 profissionais de educação especial — entre SENCos e avaliadores de adaptações de acesso a exames — que trabalhavam em escolas secundárias. Os resultados indicaram inconsistências no momento em que estudantes eram identificados para receber adaptações e falta de processos para acompanhar o apoio oferecido. Embora os participantes, em geral, demonstrassem confiança, os SENCos se avaliaram como menos confiantes do que profissionais com qualificação de avaliador. Nas respostas abertas surgiram falta de tempo, compreensão insuficiente das adaptações e aumento da demanda sobre recursos (Sumner, 2026).
Esse estudo trata de adaptações para exames de alto impacto, não de toda a avaliação escolar. Ainda assim, aponta uma questão familiar: decidir um apoio não encerra o trabalho. É preciso identificar a necessidade em tempo oportuno, conhecer as possibilidades e verificar como o apoio é realizado. Os autores sugerem que gestores reflitam sobre as funções da equipe e garantam formação, recursos e pessoal para sustentar as adaptações.
Na Nova Zelândia, a identidade profissional de cinco SENCos de escolas primárias foi relacionada a fatores pessoais — como compromisso, conhecimento especializado e experiência — e contextuais, incluindo organização da função, apoio da liderança e políticas nacionais. Os autores defendem reconhecimento formal e financiamento direcionado, ao mesmo tempo que valorizam autonomia e flexibilidade para cada escola organizar o papel (Lin, 2023). A tensão é importante: reconhecer uma função não precisa significar impor um único arranjo a todas as escolas.
A pandemia abriu espaço para mudanças, mas também agravou questões antigas
Na Inglaterra, uma pesquisa posterior à pandemia investigou percepções de 64 coordenadores de escolas regulares de ensino fundamental e médio no sudeste de Londres e em Essex; 13 também participaram de entrevistas. Os resultados indicam que, quando tinham autonomia para atuar estrategicamente, os SENCos puderam promover mudanças para estudantes com planos de Educação, Saúde e Cuidado e para estudantes com necessidades educacionais especiais em geral. O conhecimento da equipe sobre essas necessidades e a compreensão dos apoios também foram aprimorados, assim como a capacidade de adaptar e alocar recursos (Kilbride, 2024).
Esse achado não significa que a pandemia tenha melhorado todas as condições de trabalho ou que a experiência inglesa possa ser transposta para cá. Ele destaca uma relação: autonomia estratégica esteve associada a mudanças na oferta e na organização de recursos naquele contexto. O resumo não apresenta uma comparação com período anterior que permita atribuir cada melhora exclusivamente à pandemia; por isso, o resultado é melhor entendido como relato dos participantes sobre práticas desenvolvidas nesse período.
Na Suécia, entrevistas e diários de nove coordenadores documentaram experiências durante o semestre da primavera de 2021. Os participantes assumiram tarefas novas, mas questões anteriores sobre o papel profissional também se agravaram. O estudo questiona se o senso de obrigação moral de apoiar estudantes pode contribuir, sem intenção, para a dificuldade de reivindicar um campo de atuação definido (Udd, 2023). A ideia ilumina uma tensão: compromisso com os alunos é valioso, mas pode levar o profissional a absorver responsabilidades sem que a escola esclareça limites e condições.
Como os estudos sobre coordenadores de educação especial se comparam?
Os estudos variam em país, etapa de ensino, tamanho e método. A tabela resume o que cada pesquisa citada investigou e relata, sem sugerir que seus contextos sejam intercambiáveis.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Lin, 2024 | Agência de SENCos em favor da inclusão. | Defesa de direitos, compromisso, competência, participação decisória e colaboração; agência ligada a cultura, estrutura e recursos. | Nova Zelândia; cinco SENCos de escolas primárias. |
| Colum, 2023 | Atribuições operacionais e de liderança. | Identifica cinco áreas de responsabilidade e aponta carga de trabalho e baixo reconhecimento como desafios. | Irlanda; quatro SENCos de escolas primárias. |
| Udd, 2024 | Trabalho de fronteira dos coordenadores. | Descreve processos contínuos e tensões ligadas a entendimentos diferentes de inclusão. | Suécia; nove SENCos do ensino médio. |
| Udd, 2026 | Estratégias, ambientes escolares e ética profissional. | Relata práticas pragmáticas orientadas às necessidades imediatas e destaca empatia e defesa de direitos. | Suécia; coordenadores de necessidades educacionais especiais. |
| Solvason, 2024 | Experiência percebida na função. | Destaca carga de trabalho, desgaste, status, qualificação e apoio disponível. | Inglaterra; 20 SENCos de escolas primárias. |
| Sumner, 2026 | Identificação e acompanhamento de adaptações de acesso a exames. | Aponta inconsistências, falta de acompanhamento, falta de tempo e pressão sobre recursos. | Inglaterra; 134 profissionais de escolas secundárias. |
| Lin, 2023 | Fatores que moldam identidade profissional. | Relaciona identidade a fatores pessoais e contextuais; defende reconhecimento e financiamento, preservando flexibilidade. | Nova Zelândia; cinco SENCos de escolas primárias. |
| Kilbride, 2024 | Práticas relacionadas a planos de Educação, Saúde e Cuidado durante a pandemia. | Autonomia estratégica esteve associada a mudanças, conhecimento da equipe e adaptação de recursos. | Inglaterra; 64 participantes em escolas primárias e secundárias; 13 entrevistas. |
| Udd, 2023 | Experiências durante a pandemia. | Relata novas tarefas e agravamento de questões antigas sobre o papel e seus limites. | Suécia; nove SENCos do ensino médio, primavera de 2021. |
Quais pontos se repetem e onde os estudos divergem?
Um ponto recorrente é que a inclusão depende de relações e condições de trabalho, não apenas da intenção de um profissional. Colaboração, participação nas decisões, recursos, formação e apoio da liderança aparecem ligados à atuação dos coordenadores em pesquisas feitas em contextos diferentes (Colum, 2023; Lin, 2023; Lin, 2024). Também se repete a tensão entre a importância da função e o reconhecimento que ela recebe: estudos da Irlanda, Inglaterra e Nova Zelândia relatam desafios associados a carga, status, apoio ou financiamento.
Há diferenças relevantes. Alguns trabalhos investigam identidade e agência; outros, a organização de adaptações para exames, o cotidiano durante a pandemia ou a negociação entre diferentes concepções de inclusão. Além disso, variam as etapas de ensino e os desenhos de pesquisa: há questionários com mais de uma centena de participantes e estudos qualitativos com grupos menores. Portanto, não é adequado tratar todos os resultados como se medissem o mesmo fenômeno ou tivessem o mesmo alcance.
Uma questão permanece em aberto: como equilibrar flexibilidade local e reconhecimento formal sem concentrar a responsabilidade em uma pessoa? Os estudos também deixam espaço para investigar como decisões se mantêm ao longo do tempo, como se acompanha a efetividade dos apoios em situações diversas e que condições permitem que a coordenação seja sustentável. A pesquisa sobre adaptações de exames, por exemplo, aponta falta de acompanhamento; os trabalhos sobre identidade e agência mostram a importância de contexto e estrutura, mas não fornecem uma fórmula única para organizá-los.
O que esses estudos podem significar para a sala de aula?
As pesquisas não testaram as sugestões abaixo como intervenções de sala de aula. São aplicações possíveis das ideias sobre colaboração, clareza de responsabilidades, acompanhamento e autonomia; cada escola precisa ajustá-las à sua realidade e às normas brasileiras.
1. Combine quem faz o quê antes de uma adaptação
Uma forma de usar essa ideia é registrar, em um combinado acessível à equipe, quem conversa com o estudante, quem prepara o material, quem aplica o ajuste e quem observa se ele está funcionando. Imagine uma turma de 7º ano em que um estudante precisa de mais tempo em certas avaliações. Professor e coordenação podem definir juntos como isso será organizado, sem supor que basta informar a adaptação uma única vez. A pesquisa inglesa sobre exames encontrou inconsistências na identificação e falta de processos de acompanhamento, o que torna especialmente útil pensar na continuidade do apoio (Sumner, 2026).
2. Transforme a conversa sobre inclusão em uma decisão concreta
Quando professores usam a palavra inclusão com sentidos diferentes, uma conversa abstrata pode se prolongar sem levar a mudanças. Como aplicação, a equipe pode partir de uma situação específica: o que impede este estudante de participar da atividade e que alteração está ao alcance da escola? Por exemplo, diante de uma atividade em grupo, colegas podem discutir como distribuir papéis e oferecer diferentes formas de participação. A ideia se aproxima do estudo sueco sobre tensões entre perspectivas e do papel de mediação dos coordenadores, mas o exemplo é uma sugestão, não um resultado pesquisado (Udd, 2024).
3. Distribua a colaboração sem tornar invisível a responsabilidade
Uma forma de aplicar a liderança distribuída é envolver docentes, coordenação e gestão em decisões que afetam recursos e apoio, definindo também quem acompanha cada ação. Imagine uma equipe que combina adaptações para uma sequência de atividades: o professor da turma observa a participação, a coordenação ajuda a articular estratégias e a gestão avalia condições de recurso. A divisão não deve apagar a responsabilidade institucional nem deixar o coordenador como ponto de contato para tudo. A pesquisa irlandesa relaciona a função a colaboração, recursos e desenvolvimento profissional, mas também relata sobrecarga e falta de reconhecimento (Colum, 2023).
4. Verifique se o apoio chegou à experiência do estudante
Como aplicação prática, depois de combinar uma estratégia, reserve um momento breve para verificar o que aconteceu: o estudante conseguiu participar? O apoio previsto foi viável? É necessário conversar com ele, com a equipe ou ajustar a proposta? Imagine uma atividade em que foram oferecidas instruções em etapas; o professor pode observar se isso ajudou o estudante a começar e concluir a tarefa, sem transformar uma observação isolada em diagnóstico. A recomendação de acompanhar é uma aplicação da lacuna relatada no estudo sobre adaptações de acesso, que encontrou falta de processos para seguir o apoio oferecido (Sumner, 2026).
5. Trate a autonomia como condição para agir, não como obrigação de resolver tudo
Uma forma de usar os resultados é perguntar, em reunião de equipe, quais decisões podem ser tomadas perto da sala de aula e quais precisam de apoio da gestão. Por exemplo, professores podem adaptar a organização de uma atividade, mas precisar de tempo, formação ou recursos para manter essa prática. As pesquisas da Inglaterra associaram autonomia estratégica a mudanças na oferta de apoios, enquanto estudos de outros países chamam atenção para o peso da estrutura e dos recursos (Kilbride, 2024; Lin, 2024). Autonomia sem condições pode acabar parecendo apenas mais uma responsabilidade individual.
6. Inclua formação curta ligada a desafios reais
Como aplicação, uma equipe pode escolher uma dificuldade concreta — por exemplo, como planejar uma avaliação com diferentes formas de participação — e reservar um encontro para compartilhar estratégias, dúvidas e próximos passos. Isso não precisa virar uma capacitação extensa nem presumir que todos têm as mesmas necessidades. O estudo irlandês aponta a promoção do desenvolvimento profissional como uma área de responsabilidade dos SENCos; a pesquisa sobre adaptações de exames também destaca compreensão insuficiente como desafio (Colum, 2023; Sumner, 2026). Uma formação contextualizada pode ajudar a equipe a conversar sobre o que de fato precisa saber.
7. Proteja tempo para articulação e acompanhamento
Como aplicação, a gestão pode reservar momentos identificáveis para que professores e coordenação conversem sobre apoios, em vez de depender apenas de contatos improvisados entre uma aula e outra. Imagine uma escola que organiza um breve encontro periódico para verificar se os combinados continuam adequados. A sugestão decorre de estudos que relatam falta de tempo, sobrecarga e desgaste, não de uma comparação experimental entre horários (Solvason, 2024; Sumner, 2026). O propósito é tornar o trabalho visível e sustentável, sem assumir que uma reunião específica resolverá problemas de pessoal ou recursos.
O que muda quando trazemos essas pesquisas para o contexto brasileiro?
Os estudos tratam de funções, políticas e arranjos de outros países: Inglaterra, Suécia, Irlanda e Nova Zelândia. Termos como SENCo e SENCO nomeiam papéis situados nesses sistemas; planos de Educação, Saúde e Cuidado e adaptações de acesso a exames também pertencem a contextos específicos. Eles não devem ser tratados como cargos, documentos ou regras brasileiras. A realidade de cada rede e escola no Brasil precisa ser compreendida a partir de suas próprias normas, equipes e recursos.
O que pode ser aproveitado como reflexão é a pergunta organizacional: quem identifica necessidades, quem participa das decisões, como se combinam apoios, quem acompanha sua realização e que tempo ou formação a equipe tem para fazê-lo? Essas perguntas não exigem importar a estrutura de outro país. Elas ajudam a examinar como a coordenação pedagógica, os profissionais da educação especial e os docentes podem se articular no arranjo que já existe em cada escola.
Também é importante não apresentar autonomia como solução isolada. As pesquisas associam a ação dos coordenadores a recursos, estrutura, reconhecimento, apoio da liderança e colaboração. No cenário brasileiro, qualquer sugestão precisa considerar as condições concretas da rede: número de profissionais, tempo de planejamento, formação disponível e formas locais de organizar o atendimento. Os estudos não permitem concluir qual modelo seria melhor para escolas brasileiras; oferecem questões para análise, não um desenho pronto.
Para o professor, uma adaptação prudente é começar pela equipe e pela situação de aprendizagem, sem presumir que todo estudante precise do mesmo apoio ou que uma prática estrangeira seja aplicável sem ajustes. A conversa pode ser: qual barreira apareceu nesta atividade, que apoio é possível oferecer e como vamos observar se ele ajudou? Esse modo de formular a questão é uma sugestão de aplicação inspirada nos temas dos estudos, não uma recomendação testada por eles no Brasil.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de estudos recentes indexados no ERIC, e não na leitura integral dos trabalhos. Os resumos permitem identificar objetivos, contextos, métodos gerais e resultados relatados, mas não oferecem todos os detalhes necessários para avaliar instrumentos, análises, limites metodológicos ou diferenças internas entre participantes. Por isso, as conclusões foram apresentadas no alcance indicado pelos próprios resumos, sem acrescentar medidas ou interpretações que eles não fornecem.
Além disso, os estudos têm contextos e grupos diferentes. Alguns são pesquisas qualitativas com poucos participantes, como os trabalhos com cinco SENCos na Nova Zelândia ou quatro na Irlanda; outros incluem questionários com mais profissionais. Essas pesquisas ajudam a compreender experiências e questões de organização, mas não autorizam afirmar que todos os coordenadores desses países atuem da mesma maneira. Tampouco permitem estimar diretamente como uma prática funcionaria em uma escola brasileira.
Ficam abertas perguntas sobre como diferentes arranjos de coordenação afetam a participação e a aprendizagem dos estudantes ao longo do tempo, como as escolas acompanham os apoios no cotidiano e quais condições de trabalho tornam a função sustentável. Para responder a questões específicas — por exemplo, escolher um modelo de organização ou avaliar uma política — faz sentido consultar os estudos completos, verificar seus métodos e procurar pesquisas realizadas no contexto brasileiro. A leitura integral também é importante antes de usar um resultado como fundamento para uma decisão institucional.
Como o GeraProva pode ajudar professores que trabalham com inclusão?
Uma avaliação pode ser uma oportunidade para observar o que cada estudante compreendeu, desde que as condições de realização sejam pensadas com cuidado e alinhadas aos apoios pertinentes. O GeraProva ajuda a criar provas e atividades que o professor pode revisar e adaptar à sua turma; não substitui o planejamento pedagógico, a conversa com a equipe nem a definição de adaptações necessárias. Você pode conhecer o gerador de provas do GeraProva e fazer o cadastro grátis.
Perguntas frequentes sobre coordenadores e educação especial
O que faz um coordenador de necessidades educacionais especiais?
Nos estudos analisados, o SENCo pode participar da identificação de necessidades, da organização e do acompanhamento de apoios, da colaboração com professores, do desenvolvimento profissional da equipe e da articulação com outros agentes. As atribuições variam entre países e escolas; portanto, não se deve presumir que o cargo seja idêntico à coordenação pedagógica no Brasil. Pesquisas na Irlanda e na Nova Zelândia destacam a participação em decisões e a colaboração, enquanto estudos ingleses investigam tarefas específicas, como adaptações de acesso a exames (Colum, 2023; Lin, 2024; Sumner, 2026).
Os estudos mostram que a autonomia do coordenador melhora a inclusão?
Um estudo inglês sobre práticas relacionadas a planos de Educação, Saúde e Cuidado relata que, quando coordenadores tinham autonomia para agir estrategicamente, puderam promover mudanças para estudantes com esses planos e para estudantes com necessidades educacionais especiais em geral (Kilbride, 2024). Isso é um resultado situado naquele contexto, não uma prova de que autonomia, sozinha, garanta inclusão em qualquer escola. Outros estudos apontam a importância da colaboração, das decisões compartilhadas, da estrutura e dos recursos. A leitura mais prudente é que autonomia pode abrir possibilidades quando existe apoio organizacional.
Por que a sobrecarga aparece tanto nesses estudos?
Pesquisas na Inglaterra relatam carga de trabalho, desgaste, falta de tempo e pressão sobre recursos. Na Irlanda, os participantes também relacionaram a relutância em assumir a função à carga elevada e ao pouco reconhecimento de tarefas administrativas e de coordenação (Colum, 2023; Solvason, 2024; Sumner, 2026). Na Suécia, um estudo sobre a pandemia relata que novas tarefas coexistiram com dificuldades antigas sobre os limites do papel (Udd, 2023). Esses resultados não quantificam uma condição universal, mas indicam que compromisso profissional não elimina a necessidade de tempo, equipe e reconhecimento.
Como o professor pode acompanhar se uma adaptação está funcionando?
Uma possibilidade de aplicação é combinar, antes da atividade, o apoio esperado e uma forma simples de observar seu uso: o estudante conseguiu participar, compreender as instruções ou demonstrar o que aprendeu? A pesquisa inglesa sobre adaptações de acesso a exames encontrou inconsistências no momento da identificação e falta de processos para acompanhar o apoio oferecido (Sumner, 2026). O estudo não prescreve um instrumento de acompanhamento para toda sala. Assim, o professor pode conversar com a coordenação e a equipe sobre registros adequados ao contexto, revendo o combinado quando a estratégia não estiver ajudando.
Os modelos de outros países podem ser adotados no Brasil?
Não automaticamente. Os estudos descrevem funções, políticas e condições de trabalho da Inglaterra, Suécia, Irlanda e Nova Zelândia, que não correspondem necessariamente à organização brasileira. O uso mais seguro é aproveitar perguntas que ajudam a pensar a própria escola: como se distribuem responsabilidades, que apoios existem, quem acompanha as ações e como a equipe participa das decisões? A aplicação precisa respeitar as normas e os recursos locais. Os estudos não comparam modelos brasileiros e estrangeiros nem indicam um formato único que possa ser transplantado para todas as redes.
O que ajuda a fortalecer o papel do coordenador?
Os estudos destacam fatores como participação em decisões, colaboração, apoio da liderança, recursos, formação e reconhecimento da função. Na Nova Zelândia, os autores relacionam a identidade profissional a condições pessoais e contextuais e defendem reconhecimento formal e financiamento direcionado, preservando flexibilidade para as escolas (Lin, 2023). Na Irlanda, a liderança distribuída aparece associada à colaboração e à articulação, mas a pesquisa também relata falta de reconhecimento e sobrecarga (Colum, 2023). Esses achados apontam elementos para reflexão, não uma garantia de que adotar uma única medida resolverá as dificuldades.
Referências dos estudos citados
- Colum, Miriam; Mac Ruairc, Gerry (2023). “Ninguém sabe muito bem onde nos encaixamos”: o papel do coordenador de necessidades educacionais especiais (SENCO) nas escolas primárias da Irlanda — em defesa de um modelo de liderança distribuída para apoiar a inclusão (“No One Knows Where We Fit in Really”: The Role of The Special Educational Needs Coordinator (SENCO) in Primary School Settings in Ireland -- The Case for a Distributed Model of Leadership to Support Inclusion). Irish Educational Studies. Link.
- Kilbride, Debbie; Cotier, Tanya; Malthouse, Richard (2024). Explorando a natureza estratégica do papel do(a) coordenador(a) de NEE (Senco) e a gestão dos Planos de Educação, Saúde e Cuidado desde a pandemia de COVID-19 (Exploring the Strategic Nature of the Senco's Role and the Management of Education and Health Care Plans since the COVID-19 Pandemic). British Journal of Special Education. Link.
- Lin, Hui; Grudnoff, Lexie; Hill, Mary (2023). Navegando pelos fatores pessoais e contextuais da identidade docente do coordenador de necessidades educacionais especiais (SENCo) (Navigating Personal and Contextual Factors of SENCo Teacher Identity). International Journal of Inclusive Education. Link.
- Lin, Hui; Grudnoff, Lexie; Hill, Mary (2024). Agência para a inclusão: um estudo de caso sobre coordenadores de necessidades educacionais especiais (SENCos) (Agency for Inclusion: A Case Study of Special Educational Needs Coordinators (SENCos)). International Journal of Disability, Development and Education. Link.
- Solvason, Carla; Sheehy, Amanda; Osuki, Amaechi John; Winwood, Jo (2024). “Pequenas conquistas fazem o esforço valer a pena”: recompensas e desafios da função de coordenador de necessidades educacionais especiais em uma escola de ensino fundamental na Inglaterra (“Small Successes Make It Worthwhile”: The Rewards and Challenges of the SENCo Role in a Primary School in England). Support for Learning. Link.
- Sumner, Emma; Antalek, Catherine; Esposito, Rosanne (2026). Levantamento das experiências de profissionais de educação especial na identificação e no apoio a adaptações de acesso a exames (A Survey of SEN Practitioners' Experiences of Identifying and Supporting Exam Access Arrangements). Journal of Research in Special Educational Needs. Link.
- Udd, Jonas (2023). Experiências vividas por coordenadores de necessidades educacionais especiais (SENCOs) durante a pandemia de COVID-19 em escolas de ensino médio suecas (SENCOs' Lived Experiences of Working through the COVID-19 Pandemic in Swedish Upper Secondary Schools). European Journal of Special Needs Education. Link.
- Udd, Jonas (2024). O trabalho de fronteira dos coordenadores de necessidades educacionais especiais no ensino médio sueco (Special Educational Needs Coordinators' Boundary Work in Swedish Upper-Secondary School). European Journal of Special Needs Education. Link.
- Udd, Jonas; Berndtsson, Inger C. (2026). Como os coordenadores de necessidades educacionais especiais usam o próprio corpo, os ambientes escolares e a ética para criar e manter sua capacidade de ação no ensino médio sueco (How Special Educational Needs Co-Ordinators Use Their Body, School Environments and Ethics to Create and Maintain Agency in Swedish Upper Secondary School). Journal of Research in Special Educational Needs. Link.
Se alguma dessas ideias conversa com um desafio da sua escola, escolha uma para discutir com a equipe e adapte ao contexto da turma. Boa reflexão e bom trabalho!
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